Marchemos aqui, mas não é exatamente o meu lugar

Cheguei animado. Sabia que a Marcha ia ser boa, não tinha a menor dúvida. Acompanhei todo o processo de organização da Marcha das Vadias do Distrito Federal muito de perto: algumas de minhas melhores amigas participam ativamente da organização. Perdi companhias queridas em diversas ocasiões em nome de reuniões. Mas tudo que eu fazia era saber do que se passava; eu não podia participar da organização.

Ao que tudo indica, sou homem (sim! reivindico-me enquanto um!) e homens não podem participar da organização. Não sei ao certo qual o argumento do Coletivo, mas entendo que existam vários argumentos e alguns muito mais que válidos, como também verdadeiros. A necessidade de espaços de auto-organização, por exemplo, é um argumento que me deixa bem balançado e dividido. De fato, a categoria mulher ainda não alcançou o suficiente para estar, todo o tempo e em todas as situações, em espaços mistos. São estes espaços que, várias vezes, de uma maneira ou de outra, costumeiramente de uma maneira mais simbólica reproduzem as condições de opressões a quais diversas mulheres são submetidas.

Não, não é desculpa! Marcha das Vadias do Distrito Federal 2012. Foto de Srta. Bia no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

É, um espaço em que se possa falar, ouvir, dizer, olhar e se reconhecer é mesmo importante. Não nego isto de forma alguma. Muito pelo contrário, aliás, sinto falta de um espaço desse tipo. Um local onde os olhares se esbarram e as experiências convergem, a cumplicidade se coloca, a conversa flui porque há muito em comum. É importante que as mulheres encontrem esse espaço para gerar seu empoderamento cotidianamente. Sob esse argumento, as coisas parecem fazer bastante sentido. Sob aquele de os homens não poderem ser feministas, acho que nem tanto.

Mas aí, alguém vem apontar que eu sou transexual. Sim, é um fato, uma verdade. Nem por isso, menos homem. Ou, seria justamente por isso, um pouco menos homem? Minha trajetória nem sempre foi vivenciada a partir do lugar que é reservado aos homens. Minhas vivências e experiências não se construíram socialmente a partir de tal lugar de fala. Na verdade, foi justamente essa reivindicação que me tirou todo e qualquer possível privilégio que ainda rondasse por aqui.

Ok! Então, meu caso é diferente? Enquanto homem transexual tenho outras percepções que me permitem ser feminista e participar de espaços exclusivamente de mulheres? É, não sei, não me sinto confortável com isso. Não faz sentido que eu me esforce tanto para me afirmar enquanto homem e, então, justamente sair a me encaixar nas suas exceções.

Que Adão que nada! Quem pariu foi Eva! Marcha das Vadias do Distrito Federal 2012. Foto de Srta. Bia no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A verdade, creio eu, é que a Marcha das Vadias do Distrito Federal foi muito boa, muito bacana, interessante, construtiva, empoderadora. Mas aquele não era o meu espaço. Era um lugar em que não cabia a minha manifestação, um lugar onde eu andava como um amigo, um apoiador. Não era ali que eu devia estar para dizer ao mundo qualquer coisa sobre mim, sobre quem eu era, sobre minhas opressões cotidianas.
Mas isto não é uma crítica, isto é ok! Há espaços e espaços, lugares e lugares. Ninguém vai a um show de rock esperando encontrar um campeonato de polo aquático. Simplesmente não faz sentido.

E é isso: a Marcha das Vadias é incrível, tem todo seu mérito e não se pode dizer algo contra, mas é um espaço de fala das mulheres, apenas, e que bom que o seja. O que resta, agora, é ir a marchar minha própria Marcha, botar a boca no meu próprio trombone. Esse é das mulheres, e de modo algum eu pretendo tirar isto delas, quero apenas o meu próprio.

Marcha das Vadias: nossa estrada de tijolos amarelos

Texto de Lia Padilha.

“Em algum lugar além do arco-íris, há uma terra, da qual eu ouvi falar uma vez, numa canção de ninar: um lugar além do arco-íris, onde sonhos que você ousa sonhar, se tornam realidade.”

O Mágico de Oz é um filme, entre tantas outras coisas, sobre encontrar um lugar pra nós. Sobre nos encontrar, também. Saber do mundo, saber de si, saber fazer, do mundo, o nosso lugar. Lá, em Oz, era preciso percorrer a estrada de tijolos amarelos. Não tão distante, mas em várias cidades do Brasil, milhares de pessoas saíram às ruas, no dia 26 de maio, em busca desse mundo pra chamar de seu. Um mundo sonhado em igualdade de gênero: um lugar onde homens e mulheres se tratem com respeito, sejam amigos, sem hierarquia, abusos, distorções. Pessoas dispostas a refletir suas ações cotidianas e a construir um mundo de direitos iguais.

Meus tijolos amarelos, percorri em Brasília. Saí de casa pra me juntar à Marcha das Vadias que saiu do Conic, ponto de prostitutas conhecido da capital. E assim como todas as pessoas que saíram de suas casas naquele dia, eu levava ideias e a minha história de vida.

Marcha das Vadias do Distrito Federal 2012. Foto de Alexandra Martins.

Sou mulher e nunca sofri nenhuma violência física. Meus pais educaram os filhos e filhas de maneira bastante igualitária. O que eu fui fazer na Marcha das Vadias? Uma marcha que se opõe a qualquer violência contra a mulher? É que desde nova — e apesar da educação especial que tive — eu já percebia as desigualdades entre homens e mulheres. Depois de um tempo passei a entender que as opressões e violências contra a mulher estão todas interligadas, sejam elas físicas, sexuais, psicológicas, simbólicas. E a partir daí passei a lutar contra essa cultura que ainda aceita muitas violências praticadas contra a mulher. Revolto-me, por exemplo, ao saber que uma mulher foi tocada por homem sem o seu consentimento.

Essa é a minha história. Meus motivos. Mas as histórias e os motivos que levaram mulheres e homens a marchar foram os mais diversos.

Uma amiga que encontrei na Marcha disse que pela primeira vez pôde usar um short mais curto, blusa decotada, sem receber em troca um olhar invasivo, constrangedor ou preconceituoso.

Marcha das Vadias do Distrito Federal 2012. Foto de Livia Mota Fonseca.

“Minha mãe me ensina a ser livre”, dizia um cartaz que uma menininha carregava nos ombros ora da mãe, ora do pai. “Educo minha filha para que ela cresça em mundo de igualdade”, me disse a mãe. Um amigo comentou que estava na marcha porque sua irmã fora agredida. E lá, ouvi um senhor de cabelo branco dizer ser feminista desde seus tempos de juventude quando já lutava pela emancipação feminina, na vida pública e privada.

Conversando com uma mulher que devia ter uns 50 anos, ela me explicou os motivos que a levaram à marcha. Contou que passou 20 anos fazendo trabalho doméstico e o marido trabalhava fora e que isso, para ela, sempre foi normal. Mas que depois quis trabalhar fora e arranjou um emprego. O marido a apoiou e ela esperava que o marido fosse dividir com ela as tarefas de casa, o que não foi bem o que aconteceu, dobrando sua carga de trabalho.

Vi mulheres negras carregando cartazes como: “Em terra de chapinha quem tem black é rainha”, mostrando que existem questões específicas e que a luta contra o machismo não faz sentido se não lutarmos também contra o racismo.

Marcha-se contra a intimidação sobre o corpo feminino, contra a educação sexista, contra a sobrecarga de trabalho, contra a ditadura da beleza e os padrões de comportamento. Marcha-se pelo respeito e pela liberdade.

Já éramos mais de 4 mil histórias marchando, quando a chuva choveu. Alguns pensaram em balde de água fria, mas eu acho que a chuva chegou para refrescar e alegrar ainda mais. Alguém mais “friorentx” soltou a música: “São Pedro seu machista, Brasília é feminista”. O grito ecoou e caiu na boca do povo. Um pouco a frente surgiu um arco-íris no céu e alguém gritou: “O movimento é libertário, São Pedro saiu do armário”.

Marcha das Vadias do Distrito Federal 2012. Foto de Ana Laura Cartaxo.

Logo a metáfora mais linda se impôs: era o arco-íris da diversidade sexual, pelo direito de ser homossexual, heterossexual, bissexual, transexual, travesti, ou qualquer outra orientação sexual, sem sofrer discriminação. Porque a Marcha das Vadias é, também, um movimento contra qualquer tipo de opressão.

Minha estrada de tijolos amarelos já não é percorrida sozinha. Como Dorothy e seus amigos fora do padrão – espantalho, homem de lata e o leão – também nós nos unimos em uma caminhada em busca do sonho. Do nosso lugar no mundo. Do nosso mundo. Marias, Josés, Antônios, Claras, Anas, muitos, tantos… caminhamos juntos na marcha, cada um com suas razões, cada um com suas histórias, mas todos em busca de uma sociedade que haja respeito, solidariedade, justiça, igualdade.

Calçamos nossos sapatinhos vermelhos, nossas botas, nossas chinelinhas rasteirinhas, nossas sandálias, nossas havaianas, nossas esperanças e seguimos. A marcha foi um espaço de divulgação de uma mensagem de liberdade. Mas não só. Foi e é um espaço de vivência e crescimento. “Não há lugar como a nossa casa”, dizia Dorothy, a menina do conto do arco-íris. E, na marcha, “em casa” foi como me senti. Nossa luta é para que num futuro bem próximo possamos nos sentir assim em todos os lugares e ocasiões: acolhidas, livres, em casa.

“O corpo é meu, a cidade é nossa”

“Quero ir sozinha pra onde eu quiser, sem medo”

“Quero borrar meu batom, não meu rímel”

“Lugar da mulher é onde ela quiser”

“A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer”

“Entre o homem e a mulher só o coração pode bater”

“Se ser livre é coisa de vadia, então sou uma vadia”

“Vem pra luta vem contra o machismo”

“Sou livre”

*Esse post contou com a colaboração preciosa de Luciana Nepomuceno.

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Lia Padilha não a mesma de ontem e nem a mesma de amanhã. Otimista incansável.

A violência cotidiana

Este texto é o relato de Tássia Hallais* sobre uma violência diária que pode acontecer com qualquer pessoa, mas que verificamos cotidianamente ser um tipo de violência fácil de ocorrer com mulheres, porque somos desde pequenas ensinadas a não reagir, a aceitar caladas e isso é o que na maioria das vezes esperam de nós.

Na manhã do dia 07 de março sofri uma agressão no metrô do Rio de Janeiro pelo simples fato de ter agido com educação. Eu estava na estação e quando o metrô chegou me posicionei na lateral da porta para que as pessoas pudessem primeirodesembarcar. Aparentemente foi esse meu gesto que irritou um homem que estava perto de mim e ele se sentiu no direito de me dar um empurrão, o que me obrigou a entrar de maneira abrupta. Já dentro do vagão ele começou a gritar comigo e a me ofender gratuitamente. Quando fui me defender, explicando que estava esperando o desembarque e que não havia motivo para o empurrão, ele me empurrou novamente e seguiu com as ofensas.

O metrô não estava lotado, mas tinha um número razoável de passageiros. Ninguém me defendeu. Não havia nem ao menos um guarda da concessionária por perto. Só encontrei um quando já havia saído da área de embarque e não era mais possível localizar o agressor. Senti-me completamente impotente e humilhada. Acredito que o fato de ser mulher tenha sido decisivo para ter sofrido esta agressão completamente desnecessária. Sou magra e baixa e o homem que me destratou tinha por volta de um metro e noventa. Essa desvantagem natural minha em relação a ele, aliada à completa inércia dos demais passageiros não só permitiu como, acredito, incentivou seu comportamento de “homem das cavernas”.

Metrô do Rio de Janeiro em 2006. Foto de Jorge Gobbi/Morrissey no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Meu caso não é isolado, pois todos os dias várias mulheres sofrem agressões semelhantes, ou piores, do que a sofrida por mim nos meios de transporte do Rio de Janeiro e nada ou muito pouco acontece para punir os agressores. Os casos de violência e desrespeito são tantos que até temos na cidade uma lei estadual que destina vagões exclusivos para as passageiras em trens e metros nos horários de maior movimento. Esse tipo de atitude, apesar de bem intencionada, reflete o quanto ainda sofremos discriminações e agressões pelo único fato de termos nascido com o gênero considerado ainda por muitos como inferior.

Não podemos e não queremos viver prisioneiras de nossas casas, mas como nos sentir seguras se uma simples viagem de metrô/ ônibus/ trem pode acabar em agressão? Como explicar para as meninas que elas podem ser o que quiserem, até mesmo presidentas, mas que vão precisar de leis que lhes garantam ganhar o mesmo que os homens em funções iguais? Como entender que muitos ainda achem que mulher gosta mesmo é de ser maltratada? E os pequenos machismos presentes no nosso dia-a-dia, que mesmo aparentemente inofensivos contribuem para a manutenção dos estereótipos de ser homem e ser mulher?

Nós não precisamos ganhar flores ou cartões no Dia Internacional da Mulher. O que nós queremos é respeito. Não só no dia 8 de março, mas em todos os dias. Nós queremos a liberdade de ir e vir, de pensar, de sentir, de escolher e que nossas atitudes não sejam julgadas ou classificadas por conta de nosso gênero. Somos mais que isso. Não queremos os estereótipos. Queremos simplesmente ser.

*Tássia Hallais tem 23 anos, mora no Rio de Janeiro e é estudante de Comunicação Social da UFRJ.