Representações da violência doméstica nas novelas

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

25 de Novembro – Dia Internacional de Luta Pelo Fim da Violência Contra a Mulher.

Dentre as pautas feministas, acredito que a violência contra a mulher seja a que mais tem ganho atenção da mídia nos últimos tempos. Há ações institucionais sendo tomadas como o Ligue 180, a Casa da Mulher Brasileira, a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio. Entre as mulheres, crescem o número de campanhas e ferramentas contra o assédio nas ruas. Foi tema da redação do ENEM. E, o Mapa da Violência 2015 destaca o aumento no número de mortes de mulheres negras.

O assunto está ganhando mais espaço e felizmente a maioria das pessoas não tem aceitado relativizações. A violência contra a mulher está ligada ao gênero e tem suas características próprias, que diferem totalmente de outras formas de violência. As mulheres são mortas geralmente por pessoas da família ou conhecidos, por quem deveria protegê-las e apoiá-las. As mulheres morrem em casa, muitas vezes em frente aos filhos.

Como consequência desse debate, vemos cada vez mais as novelas abordando a violência doméstica em suas tramas. Geralmente há um núcleo específico para apresentar o casal em que a mulher apanha e o homem é um bruto sem razão. Há diversos estereótipos nesses personagens, mas o que continua problemático é que dificilmente as mulheres são representadas como pessoas capazes de buscar ajuda e sair dessa situação, na maioria dos casos há um homem salvador que entra na relação para mudar sua vida.

Sempre me pergunto: essas representações melhoram ou não os discursos sociais referentes a violência contra a mulher? Sabemos que o número de denúncias aumenta quando há foco no assunto, mais mulheres se sentem seguras para denunciar ou se veem naquela situação. Porém, ainda culpabilizamos as mulheres pela violência que sofrem, o foco das campanhas está sempre na denúncia e não em uma proposta preventiva dessa violência. Dificilmente encontramos ações que falem diretamente aos homens.

Sabemos que as instituições brasileiras não estão preparadas para atender as mulheres violentadas. Aconselhamos mulheres a não irem sozinhas em delegacias de polícia, temos que lutar no Congresso contra projetos de lei que exigem exame de corpo delito em caso de estupro antes mesmo do atendimento médico, leis não garantem mudanças de comportamento social e nem mesmo diminuem o machismo no judiciário. Porém, acredito ser importante que as novelas mostrem as mulheres denunciando casos de violência na delegacia, detalhando como funciona o processo, como é possível pedir medidas protetivas, o que é possível fazer em casos em que não se tem família por perto ou alguém a quem recorrer.

Atualmente, na novela ‘A Regra do Jogo’ (2015) da Rede Globo, Juca e Domingas são o núcleo de violência doméstica. Geralmente esses personagens existem exclusivamente para tratar do tema e tem até pouca interação com o núcleo principal. Para ficar apenas em alguns exemplos de como virou lugar comum ter o núcleo da violência doméstica, no caso das recentes novelas globais do horário das 9, tivemos: Jairo de Em Família (2014), Marilda em Amor à Vida (2014), Celeste em Fina Estampa (2011), Catarina em A Favorita (2008), Raquel em Mulheres Apaixonadas (2003).

Personagens Juca e Domingas em cena da novela 'A Regra do Jogo' (2015) da Rede Globo.
Personagens Juca e Domingas em cena da novela ‘A Regra do Jogo’ (2015) da Rede Globo.

O homem agressor geralmente é retratado como um bruto, sem educação e que vive às custas da mulher. A mulher vítima é representada com baixa autoestima, na maioria das vezes relativizando o que o marido faz e com muito medo de tomar qualquer atitude. Há personagens que tentam ajudá-las, como vizinhos ou amigas, mas na maioria dos casos é preciso um novo amor para que essa mulher coloque definitivamente um ponto final na relação.

Esse estereótipo com certeza corrobora discursos sociais sobre a violência doméstica, muita gente ainda acredita que a mulher permanece numa relação abusiva porque quer e não compreende as diversas barreiras sociais existentes, desde o sustento financeiro, passando pelas imposições sociais de como a mulher deve se comportar, a falta de apoio e informação sobre o que fazer, até o medo que paralisa. Porém, é preciso ir além desse retrato e apresentar opções. Mulheres sofrem violência de diferentes maneiras, dependendo de seu contexto, mas a violência doméstica está presente em todas as classes sociais e não se configura apenas na violência física.

Desde o início de ‘A Regra do Jogo’, Juca e Domingas tem uma relação abusiva com muita violência. Ele batetesta sua fidelidade e a engana para conseguir dinheiro. São várias cenas mostrando Juca humilhando e agredindo Domingas. Aí pergunto: qual o propósito? Denunciar a violência contra a mulher? Ok, mas de que forma? Adianta retratarmos mais e mais violência contra as mulheres de forma explícita e não mostrá-las buscando seus direitos? Até que ponto a mídia fetichiza esse tipo de violência? Não sou contra falar de violência doméstica na televisão, mas é preciso que esse discurso vá além, que essas mulheres sejam também retratadas como pessoas capazes de enfrentar a situação, que as instituições de apoio e denúncia tenham espaço na trama para apresentar caminhos, que a informação seja repassada.

Quando Domingas beija outro homem logo se sente culpada. Ha notícias de um personagem misterioso que entrará na novela para salvá-la. Por que achamos que uma mulher que está fragilizada precisa automaticamente de um novo amor para  se reerguer? Por que uma mulher espancada e humilhada só é feliz nas novelas se houver um homem que a queira? Parece não haver possibilidade de liberdade para as mulheres vítimas de violência nas novelas. Nos spoilers há a promessa que em breve Domingas irá expulsar Juca de casa, com um diálogo que até cita a Lei Maria da Penha, mas que promete mostrar mais violência gráfica e ameaças contra sua vida:

Tudo acontece depois que Domingas é socorrida pela enfermeira que chega em sua casa aos beijos com Juca. Solidária, a “rival” chama um médico e aconselha-a a pôr um fim no casamento. Ainda se recuperando da febre, Domingas vai enfrentar Juca pela primeira vez quando ele chega em casa e diz: “Aproveita que tu tá melhor e faz um ovo pra mim”. Ela pega o prato em que ele está comendo e joga na parede. “Não vou fazer ovo nenhum, nunca mais!”, esbraveja.

O malandro pergunta se a mulher está maluca, mas ela responde, firme: “Maluca eu tava antes, mas agora acabou! Dá o fora daqui!”. “Tu tá louca mesmo! Quer apanhar?”, ameaça o cafajeste. E Domingas desta vez não se intimida: “Bate pra tu ver! Eu vou pra delegacia agora, te enquadro na Maria da Penha e te ponho na cadeia, desgraçado!”. Juca diz que vai matá-la, e a morena não se abala. “Mata! Mata que é melhor! Tu vai preso por mais tempo, vai passar o resto da vida numa cela cheia de macho, sem ver mulher nunca mais na vida! Eu vou rir na minha cova!. Vai embora, eu tô mandando!”, responde.

Com certeza há catarse ao enfrentar o agressor. Gostamos de ver uma mulher ser altiva e corajosa nesses momentos. Porém, sabemos que muitas vezes enfrentar de igual para igual não é algo que todas conseguem ou podem fazer. Portanto, acredito ser muito importante buscarmos mostrar opções, apresentar o que pode ser feito para denunciar a violência e tentar garantir alguma segurança para as mulheres ameaçadas. Porque, atualmente são elas quem tem suas vidas destruídas, são elas quem tem que abandonar o trabalho, são elas que tem que viver escondidas em abrigo. Por que nossa sociedade ainda acoberta agressores de mulheres e aceita que eles andem tranquilamente pelas ruas sem receber nenhum olhar de reprovação?

O recente caso do secretário de governo do Rio de Janeiro, Pedro Paulo Carvalho é um exemplo disso. Há denuncias graves registradas em boletins de ocorrência. Há violência física e até mesmo ameaças contra a filha do casal. Porém, o prefeito Eduardo Paes insiste em dar declarações do tipo“aconteceu entre quatro paredes, não se sabe as circunstâncias”. Pedro Paulo foi capaz de expor a ex-mulher numa entrevista coletiva para que ela o inocentasse e repete frases absurdas como: “Quem não exagera numa discussão?”. Enquanto um homem se sentir no direito de expor uma mulher e relativizar a violência que cometeu contra ela sem receio nenhum de que seja mal visto, sabendo que não receberá nenhuma reprovação de seus pares, ainda estaremos paralisados na velha história de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. É essa cultura machista que precisamos mudar urgentemente.

Há impunidade, mas não acredito que apenas medidas punitivas resolvam a questão da violência contra a mulher. É preciso um conjunto de ações, especialmente educacionais, não apenas para os agressores, mas também para os jovens, para que a sociedade repense e questione a maneira como a violência contra a mulher é parte do cotidiano, como está nas entranhas das relações sociais. Como o pequeno assédio tem reflexos nos casos de estupro. Como a morte das mulheres em sua grande maioria é banal e torpe. A mídia precisa ser parte desse movimento, para que se possa mudar concretamente os discursos e as maneiras como tratamos essa questão.

Como aponta Rachel Moreno, a mídia e nem mesmo a Globo são responsáveis por inventar a violência contra a mulher, mas cabe a sociedade cobrar a função e responsabilidade social da mídia, especialmente no caso do Brasil, quando falamos de uma mídia de massas, que também é uma concessão pública. Quando uma novela termina não há resgate possível, mas há consequências para a naturalização daquela situação entre a sociedade.

+ Sobre o assunto:

[+] Assédio sexual: como denunciar e se defender legalmente.

[+] Estupro coletivo na novela Em Família e o desempoderamento das vítimas.

Representações do aborto na TV

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Em outubro, a Polícia Federal fez uma mega operação no Rio de Janeiro para desarticular uma rede que há anos realizava abortos clandestinos na cidade. Em setembro, o corpo de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, 27 anos, dois filhos, foi encontrado carbonizado dentro de um carro após ir a uma clinica clandestina. No mesmo mês, Elizângela Barbosa, 32 anos, três filhos, morreu num hospital com um tubo plástico em seu útero perfurado, decorrente de um aborto inseguro.

Por conta dessa operação, os telejornais passaram vários dias falando sobre o tema, enfatizando os valores cobrados — que chegavam até R$7 mil — e o fato de que eram realizados procedimentos em mulheres que já estavam no sétimo mês de gravidez. Nenhuma discussão sobre a legalização do aborto foi vista nesses programas jornalísticos, nenhuma informação sobre como seria a situação dessas mulheres se o aborto fosse legalizado, gratuito e seguro foi dita. É importante dizer que não há aborto no sétimo mês de gravidez. Com 25 semanas de gravidez já é possível realizar um parto prematuro. Aborto e parto são procedimentos diferentes. Isso só mostra o quanto a criminalização do aborto e sua ilegalidade lucram com a morte de mulheres e o quanto a mídia contribui para a desinformação.

A operação da Polícia Federal foi batizada de: Herodes. Rei da Judéia que, segundo a bíblia, teria ordenado a execução de todos os meninos da vila de Belém para evitar perder o trono para o recém-nascido “Rei dos Judeus”. Isso só contribui para que as pessoas façam a associação de que aborto significa assassinato, gerando cada vez mais desinformação. Também mostra que evitar a morte de mulheres não é o foco da operação. Afinal, quem se importa com essas mulheres? Com certeza não é a mídia e nem a polícia.

Além da cobertura em seus principais telejornais, semana passada, a Rede Globo teve dois momentos em que o aborto foi pauta.

“Nem que eu tenha que te colocar numa jaula, você vai ter esse filho”.

Na novela 'Império', Du (Josie Pessoa) interrompe jantar da família Medeiros e avisa que está grávida. imagem: Rede Globo/Divulgação.
Na novela ‘Império’, Du (Josie Pessoa) interrompe jantar da família Medeiros e avisa que está grávida. imagem: Rede Globo/Divulgação.

Na segunda-feira (27/10), na novela ‘Império’, Du (Josie Pessoa) descobre que está grávida de João Lucas (Daniel Rocha). Eles eram amigos, ficaram juntos uma noite e, ao contar o fato a família dele, declara que não quer ter esse filho. José Alfredo (Alexandre Nero) declara que se é neto dele, ela vai ter esse filho obrigatoriamente. Maria Marta (Lilia Cabral) o questiona, e num primeiro momento achamos que ela vai apoiar a decisão de Du por achar que é um direito dela, mas logo percebe-se que a preocupação é apenas com a herança da família, ela não quer mais um bastardo. José Pedro (Caio Blat), o irmão mais velho, afirma que João Lucas só poderá ter certeza se o filho é mesmo dele após um exame de DNA. Após sofrer todo tipo de desconfiança, pré-julgamento e injúrias, Du recebe um apoio mínimo de João Lucas, quando ele diz que confia totalmente nela, que não há necessidade de DNA.

Em outra cena, Du repete a José Alfredo e João Lucas que não deseja ter esse filho. Segue-se o seguinte diálogo:

Du: – Isso é um problema meu.

José Alfredo: – Do Lucas também. No caso, nosso.

Du: – O senhor acha que é o dono do mundo, né? Só porque um dia recebeu esse título de comendador que é puro enfeite. Mas comigo não cola. Nem o senhor, nem ninguém vai me obrigar a ter esse filho.

José Alfredo: – Que é meu neto.

Du: – Não interessa. Eu não quero esse bebê. Não quero. Foi um acidente. Eu sei o que é nascer numa família que não deseja ter um filho. Comigo foi assim. Minha mãe já tinha três filhos, eu nasci temporã, meu pai era contra. Ela só me teve porque teve medo de tirar. Fui criada como um lixo, um entulho no canto da casa. Não vou repetir esse lance. Prefiro ficar sozinha, livre, sem ninguém no meu pé. Eu não quero esse bebê. Não é a minha.

José Alfredo: – Tá certo. Não é a sua. E a tua, Lucas? Qual é? Eu quero um neto, não importa como ele foi gerado. E se o seu filho é o primeiro, deixa a moça de lado e vamos resolver nós dois. Você quer essa criança?

João Lucas: – Eu quero, Du. Na boa, sem sacanagem, eu quero esse filho.

José Alfredo: – Moça, você vai me perdoar, você pode espernear, mas nem que eu tenha que te colocar numa jaula, você vai ter esse filho.

Du não recebe nenhum tipo de apoio. É completamente ignorada em sua decisão, mais ainda em sua opinião e seu relato de como foi sua vida, além de ser ameaçada de prisão, caso leve adiante a ideia de não ter o filho. Porém, tudo é mostrado como se fosse o melhor para ela. Como se Du fosse uma jovem inconsequente que só quer chamar atenção. Tudo é pontuado por decisões imperativas de um homem, os olhos lacrimejantes de outro homem e a total falta de empatia por essa mulher, sobe o som com a música instrumental. Na sequência, Du e João Lucas conversam sobre seu relacionamento, ele é apaixonado por outra mulher, Du sabe que está completamente sozinha e diz que vai em busca de dar um jeito na sua vida.

A novela das 9 é um dos produtos que tem maior audiência na Rede Globo. É fato sua influência na cultura popular e na discussão de assuntos cotidianos. Por mais que o personagem de José Alfredo seja visto como um homem bronco e machista, não há nenhuma resposta contrária ao que ele determina. E, especialmente, o fato dele propor resolver o assunto entre homens, afirmando deixar a mulher de lado, mostra o quanto as mulheres são vistas como meras incubadoras. Também vale notar que José Alfredo refere-se ao bebê no masculino, como se um neto homem representasse sua continuidade, além de uma posse sua.

“O que leva uma mulher a fazer um aborto clandestino?”

Elizângela Souza, vítima de aborto clandestino, em imagem veiculada no programa Profissão Repórter da Rede Globo.

Na terça-feira (28/10), o Profissão Repórter teve como pauta: aborto clandestino. Na chamada do programa, chega a ser cômico ver Caco Barcellos perguntar: o que leva uma mulher a fazer um aborto clandestino? A ilegalidade, Caco? Você tem ideia do que é estar grávida sem desejar?

O programa tenta se mostrar “isento” ao abordar mulheres grávidas que moram no mesmo bairro que Jandira Magdalena; ao entrevistar pessoas que são a favor da legalização do aborto, como Renata Correa, produtora do documentário ‘Clandestinas’; e pessoas que são contrárias como as freiras que convencem mulheres a não realizar abortos. Porém, como disse a Gizelli Sousa, no texto ‘O jornalismo e o aborto’: “Não existe neutralidade quando a opinião majoritária é opressora. Ser neutro é oprimir. Para garantir a discussão sobre aborto, é preciso ouvir quem é a favor dele, porque quem é contra já tem palanque, palco, púlpito, voz”.

Maria Ângela dos Santos, mãe de Jandira, relata que também fez um aborto, mas que foi obrigada a isso pelo ex-marido. A ilegalidade do aborto marca a vida de várias mulheres.  Porque o Estado, que criminaliza a prática, abandona a própria sorte Jandira numa clínica clandestina e também abandona Maria Ângela ao não protegê-la do ex-marido. Com o aborto legalizado, Jandira poderia estar viva e Maria Ângela poderia ter apoio de profissionais de saúde para ajudá-la a denunciar o ex-marido e levar adiante a gravidez. Porque legalizar o aborto significa garantir o direito de escolha, tanto para quem quer levar a gravidez adiante como para quem não quer.

Talvez o único ponto positivo do programa foi mostrar o local absurdamente precário em que Elizângela Barbosa realizou o procedimento abortivo. Enquanto as pessoas não puderem interromper uma gravidez indesejada de maneira segura e legal, o que inclui atendimento médico e normatizações nos serviços públicos de saúde, não haverá plenitude de direitos para as mulheres.

A mídia, que no Brasil é uma concessão pública, é personagem fundamental para que o debate sobre o aborto no Brasil esteja tão raso. Com esses exemplos, ela reforça ainda mais a dicotomia do “a favor ou contra”, quando há uma questão principal: milhares de brasileiras recorrem a procedimentos ilegais para realizar um aborto mesmo sendo crime. Muitas dessas mulheres morrem, em sua maioria pobres e negras, por pura omissão do Estado, que não lhes garante o direito pleno de decidirem se querem levar uma gravidez adiante ou não. Enquanto a gravidez for compulsória e um filho tido como castigo por se fazer sexo por prazer, a liberdade das mulheres continuará cerceada pela jurisdição do Estado.

+ Sobre o assunto:

[+] Aborto na mídia – Debate no programa Observatório da Imprensa.

[+] Quem paga pelo aborto? Por Ligia Martins de Almeida no Observatório da Imprensa.

A sexualidade feminina em Game of Thrones

Texto de Jussara Oliveira.

Alerta de spoiler! Esse texto contem informações sobre as primeiras temporadas da série americana Game of Thrones.

Dai você esta lendo ou assistindo alguma história de ficção (mais interessante imaginar que seja uma história de fantasia, aventura ou ficção cientifica) e o protagonista, ou um dos personagens masculinos principais, se atrai por uma personagem (uma mulher no caso) e, em dado momento, por vontade dele e aceitação dela (em outras palavras sem nenhum tipo ou nível de coerção), eles acabam fazendo sexo e os dois sentem prazer e se divertem com isso. Depois disso, os personagens continuam tendo uma relação saudável (pelo menos até que algo relevante na trama mude isso) e o personagem principal não sente qualquer tipo de culpa ou arrependimento sobre o que ocorreu.

Fácil visualizar essa cena, né? Se parar para pensar um pouquinho não é difícil achar diversos exemplos na maioria das obras seja em filmes, desenhos, séries, livros, quadrinhos, etc. Agora, imagine que é uma mulher a protagonista dessa história. Imaginou? Ok. Agora busque referências populares e atuais desse tipo de cena. Ficou difícil? Pois é. Se for buscar mais diversidade então dificilmente vai achar a mesma cena com personagens que saiam do padrão hétero-cis-branco-sem necessidades especiais.

Por que será que é tão difícil retratar mulheres exercendo sua sexualidade livremente mesmo em histórias e mundos utópicos? Porque é tão comum mostrar cenas de violência contra mulheres? Porque nos é tão difícil desassociar da cultura de estupro mesmo na ficção? Será que percebemos o quanto isso esta presente nas histórias de fantasia?

Na última temporada de série americana Game of Thrones, inspirada no livro de mesmo nome, a adaptação de uma passagem que teoricamente representava uma cena de sexo consentido entre os personagens Cersei e Jaime Lannister se transformou numa cena de estupro. Ao ser questionado, o diretor deste capítulo da série respondeu que não via a cena como um estupro e que a relação dos dois dava vazão para esse tipo de dinâmica de jogos de poder o que transformava o sexo em consensual… Oi? E já não é a primeira vez que isso ocorre. O mesmo ocorreu na adaptação da passagem sobre o sexo consentido no dia do casamento de Daenerys Targaryen.

Será que é tão difícil assim reconhecer a diferença entre sexo consensual ou não? Nem vou entrar no mérito da violência misógina presente na série, porque isso já foi bastante criticado. Mas, fico profundamente triste de ver como a sexualidade das mulheres tem sido explorada na televisão. Ainda mais nessa série que tem trazido grandes personagens femininas.

Personagens femininas da série Game Of Thrones. Da esquerda para direita: Cersei Lannister (Lena Headey), Melisandre (Carice Van Houten) e Daenerys Targaryen (Emilia Clarke). Imagem de divulgação.
Personagens femininas da série Game Of Thrones. Da esquerda para direita: Cersei Lannister (Lena Headey), Melisandre (Carice Van Houten) e Daenerys Targaryen (Emilia Clarke).

Veja, sou muito fã da série televisiva e dos livros. Acho extremamente válido e justificável que adaptações não sigam a risca aquilo que está no original. Também estou longe de achar o livro um exemplo de representação feminina. Mas, queria ver uma personagem tão forte e que luta tanto por sua independência, como a Cersei, ter pelo menos a agência sobre sua sexualidade respeitada. O pior foi ver comentários em fóruns sobre a série apoiando a violência, já que para alguns essa personagem é vista como manipuladora e imoral.

Na adaptação para a televisão a pouca agência das mulheres está se esvaindo. Cadê os relacionamentos afetivos e sexuais de Daenerys? Só porque ela á uma das “mocinhas” preferidas, não pode fazer sexo? Na série televisiva só exibem uma passagem rápida do contato que ela (por força/incentivo de seu irmão) tem com uma de suas aias. Depois que Khal Drogo morreu, ela parece ter se relacionado com Daario Naharis apenas uma vez, sendo que no livro ela mantém um relacionamento com ele e também se relaciona com Irri, outra aia que desapareceu nas novas temporadas da série.

Sim, no livro Daenerys tem relações bissexuais, mas na série televisiva parecem preferir ignorar sua sexualidade e enfatizar as aventuras sexuais de Oberyn Martell e Ellaria Sand da forma mais estereotipada possível. Ao que parece, os roteiros estão viciados demais na dicotomia: mocinha frágil e sexualmente recatada versus antagonista femme fatale. E, sair desses estereótipos parece ser uma missão quase impossível.

Basta observar o comportamento sexual das principais personagens femininas vistas como heroínas ou mocinhas: Daenerys Targaryen, Ygritte, Sansa Stark, Margaery Tyrell, Brienne de Tarth; em comparação com as outras personagens: Shae, Melisandre, Cersei Lannister, Lysa Arryn. Enquanto no primeiro grupo as mulheres são virgens ou se dedicam a apenas um parceiro, no segundo as personagens usam sua sexualidade como arma para manipular personagens masculinos e são retratadas como ardilosas e/ou egoístas.

Outras personagens que no livro tem uma sexualidade mais livre como Yara Greyjoy (Asha no livro) tem sua participação compactada na série. E, Ellaria Sand teve a adaptação mais fiel ao livro, o que deu a personagem pouquíssimos diálogos. Fora o fato de que no livro existe uma diversidade e quantidade maior de prostitutas que influenciam diretamente as tramas, mas na série essas personagens se tornaram apenas item de decoração/diversão.

Triste ver o quanto sexo ainda é tabu na ficção e o quanto a sexualidade feminina é ainda determinante para o julgamento de nosso caráter. As principais personagens femininas que tem feito sucesso no cinema ou na televisão vivem dilemas afetivos e sexuais bem distantes da liberdade e diversidade dos personagens e protagonistas masculinos.

Para não falar que não temos algum exemplo diferente, pesquisando e buscando referências com amigos, as poucas personagens famosas que encontrei que saem dessa esteriótipo foram:

  • Sookie da série de televisão True Blood. Protagonista da série que trata sobre a convivência entre humanos e vampiros que se envolve durante as temporadas da série com vários personagens, mas vive sendo julgada por seus relacionamentos com eles.
  • Barbarella. Protagonista de uma série em quadrinhos de aventura espacial adaptada para o cinema nos anos 60. Apesar da hiper sexualização da personagem dada a época em que este filme foi lançado (e a pouca mudança na caracterização das heroínas) depois de criar polêmica acabou virando um ícone feminista e pode ser considerada uma referência até hoje.
À esquerda, imagem de divulgação da 3° temporada da série True Blood com Sookie (Anna Paquim) ao centro. À direita, cartaz de divulgação do filme Barbarella (1968).
À esquerda, imagem de divulgação da 3° temporada da série True Blood com Sookie (Anna Paquim) ao centro. À direita, cartaz de divulgação do filme Barbarella (1968).

Espero que na próxima temporada de Game of Thrones ao representar as mulheres do povo livre e as Dornesas (que possuem no livro papel fundamental nos próximos acontecimentos) e os próximos passos de Asha/Yara Greyjoy a série não caia nos mesmos erros.

+ Sobre o assunto:

[+] Temporada de Game of Thrones chega ao fim confundindo o público.Por Isabelle Moreira Lima na Folha de São Paulo.

[+] Uma reflexão sobre estupro e violência contra as mulheres em Game of Thrones. Por Lidiany CS em Game of Thrones BR.

[+] A cena de estupro de Game of Thrones foi desnecessária e desprezível (em inglês). Por Madeleine Davies no Jezebel.

[+] Jaime Lannister é feminista: Porque a cena de estupro em Game of Thrones importa (em inglês). Por Ariana Quiñónez no Hypable.