Representatividade da mulher negra no mercado de trabalho

Texto de Luana Maria de Lima Oliveira para as Blogueiras Feministas.

É difícil ser pessoa negra numa sociedade racista,

É difícil ser mulher numa sociedade machista,

É quase impossível ser mulher negra num mundo do trabalho machista e racista.

Referência: Apesar de ser negra... o tributo pago pela mulher negra ao mercado de trabalho.

Antes de discutir o assunto, gostaria de contar um pouco da minha história que irá refletir o meu interesse sobre a tal representatividade da mulher negra no mercado de trabalho.

Eu me formei em direito no ano de 2015 numa turma de 35 pessoas, dentre as quais, 4 alunos negros. Passei toda a minha graduação sem realizar discussões sobre a questão racial ou igualdade de gênero, mesmo tendo uma grade curricular que continha matérias como direitos humanos, direitos sociais, direitos difusos e coletivos, etc. Ou seja, minha faculdade estava bem mais preocupada em incluir seus alunos no mercado de trabalho.

O impacto foi ainda pior quando comecei a estagiar em escritórios de advocacia e a representatividade era zero. Eu não conhecia advogados negros, eu era a única estagiária negra e atuei nessa época na área corporativa, ou seja, por várias vezes me perguntava se havia feito a escolha certa.

Eu não me via naqueles espaços, principalmente quando ia ao escritório com turbantes, tranças ou assumia meu black power. Era responsável por olhares ou comentários, por várias vezes me senti sozinha durante esses 5 anos de graduação.

Quando me formei, escutei que não tinha cara de advogada, mas minha “colega” branca ao lado tinha, deixei de usar meus turbantes, mudei minhas roupas para “tentar” ser mais corporativa, mas claro que isso passou longe de ser uma solução. Ai, eu me perguntei: O que é “cara” de advogada?

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As Paralimpíadas ainda não começaram mas o capacitismo já ganhou ouro

Texto de Bia Cardoso e Patricia Guedes para as Blogueiras Feministas.

As Paralimpíadas Rio 2016 começam dia 07 de setembro. Já estão pipocando ações e matérias na mídia para divulgar os Jogos. Porém, o que tem chamado mais atenção é o capacitismo e o quanto publicitários e responsáveis demonstram nem se preocupar com isso.

A revista de moda Vogue Brasil lançou uma campanha chamada “Somos Todos Paralímpicos” em que os atores Cleo Pires e Paulo Vilhena aparecem representando atletas paralímpicos. Por meio do photoshop, Cleo aparece sem um dos braços e Paulo está usando uma prótese na perna. A primeira pergunta que muita gente fez foi: por que não usar os próprios atletas paralímpicos?

Após uma chuva de críticas nas redes sociais, o escritor e jornalista Marcelo Rubens Paiva — que é deficiente físico e usa cadeira de rodas — publicou um texto explicando que a campanha era apenas para provocar e causar polêmica. Ele convidou Cleo Pires, Paulo Vilhena e Nizan Guanaes — dono da Agência África, responsável pela campanha —  para serem embaixadores paralímpicos e essa é apenas uma peça de divulgação. A segunda pergunta que muita gente fez foi: por que pessoas sem deficiência e sem qualquer ligação com a causa são chamadas para serem embaixadores paralímpicos?

Infelizmente, não há nada de novo nesse episódio. A invisibilidade é elemento constante na vida das pessoas deficientes. Como complemento, a Vogue Brasil publicou uma foto em seu blog dos atores com os atletas que serviram de inspiração para a imagem: Bruna Alexandre do tênis de mesa e Renato Leite do vôlei sentado. Além disso, a edição de setembro da revista traz um ensaio sensual, onde a protagonista é Cleo Pires: “a atriz se engajou numa campanha para atrair o público às competições e em apoio a causa nobre Vogue a convidou para ser a protagonista do ensaio “Super-humanos” da edição de setembro”.

Por que Cleo Pires é a protagonista de um ensaio para divulgar as Paralimpíadas?

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Curta-metragem 45 graus: mulheres, negritude e transexualidade

Uma mãe cis descobre que sua filha trans está muito doente e decide visitá-la, depois de muito tempo distantes. Em um leito de hospital, a encontra fragilizada, com as unhas pintadas, e rememora a cena em que a viu escondida dentro de uma geladeira, quando criança, pintando as unhas. A mãe, nesse instante, retira o esmalte das unhas da filha doente e potencializa o conflito dessa relação.

O quarto fica na Praça da Sé, em um hospital ao ar livre, fato que incomoda muito a mãe, que teme olhares e atitudes das pessoas que passam por ali. Em um misto entre ficção e realidade, desenrola-se um complexo reencontro, que coloca em praça pública reflexões sobre mulheres, negritude, transexualidade, identidade e preconceito, temas muito atuais, e que encontram na arte a possibilidade de se reinventarem e se livrarem das representações do senso comum.

45 graus é um projeto de curta-metragem da diretora Julia Alquéres. Ela tem enfrentado dificuldades para realizá-lo por falta de recursos. Por isso, o projeto está com uma campanha de financiamento coletivo no Catarse.

O mercado do audiovisual também reflete o machismo da sociedade e costuma designar papéis específicos as mulheres. Menos de 20% dos filmes lançados nos últimos 20 anos foram feitos por mulheres. Porém, um levantamento da Agência Nacional de Cinema (Ancine), mostra que 41% das obras brasileiras tiveram produção executiva exclusivamente feminina.

Na avaliação de Maria Cardozo, diretora artística e curadora do Fincar – Festival Internacional de Cinema de Realizadoras, é possível encontrar semelhança entre o papel reservado à mulher na sociedade e o reflexo disso no mercado audiovisual. “No entendimento de uma sociedade machista, a mulher vem para organizar, cuidar do grupo. É como se a relação de produção, que é uma gestora de equipe, tivesse relação com uma gestora de família, como um papel que cabe à mulher, e não como autora e protagonista. Os números revelam de fato o que eu consigo visualizar no meio em que eu trabalho. E é uma questão mundial”.

Para saber mais um pouco sobre as mulheres nesse mercado e divulgar a iniciativa desse curta-metragem, conversamos com a diretora Julia Alquéres:

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