O silêncio de nossa História

Texto de Maia Cat.

Em quase toda discussão sobre homens e mulheres ou crianças, ouço aquele velho argumento, irrefutável, na opinião da maioria das pessoas: “mas sempre funcionou assim na história da humanidade”, para justificar práticas preconceituosas e sexistas.

Uma das premissas do feminismo é dizer que as noções do que é o masculino e o feminismo são construídas, e não naturalmente dadas. Isso quer dizer que o fato de relacionarmos a mulher com o delicado, o maternal e o emocional é fruto de toda uma história e mentalidade construídas ao longo de séculos.

Mas, uma coisa pouco lembrada, é o conceito de História. Em geral, ao lerem em um livro didático, ou numa revista, que tal fato acontecia assim e assado, que as mulheres faziam isso e os homens aquilo, as pessoas assumem todas aquelas informações como inquestionáveis. Há uma certa ingenuidade ao se ler sobre História, como se aquelas linhas não fossem, na realidade, produto de uma visão sobre o passado, mas o passado em si. Imagine que já sobre o presente há uma série de debates e discussões, que dirá sobre o passado!

Há diversas linhas historiográficas e, cada uma delas, além de defender um tipo de metodologia diferente (que documentos pesquisar, como organizar os dados etc), defende uma certa visão das coisas. Ela pode estar filtrada pelo marxismo, por exemplo, ou estar pautada nas pequenas coisas, como a micro-história (por exemplo, a série ‘A História da Vida Privada’ faz parte desse gênero), ou, surpresa! Estar pautada pelo machismo. Não de forma consciente, como pode ser com o marxismo, mas, de qualquer forma, com o machismo como uma das premissas para se avaliar os documentos, já que não há a preocupação em não usar esse tipo de visão, tão intrínseca, ao se observar o passado.

Tanto é que as mulheres, durante muito tempo, mal apareciam na História. Dominada pelos homens, a ciência História era, basicamente, a história deles próprios. Nas escavações, nas leituras de documentos, nas hipóteses concebidas, procurava-se confirmar histórias já concebidas: justificar por que as coisas são do jeito que são hoje.

Assim, buscava-se, de pronto, ver que as mulheres seriam o sexo frágil, sem despir-se dos preconceitos e do olhar atual para enxergar o passado. Esse conceito, de buscar identificar no passado coisas que temos hoje, e supor que nós, antes, sentíamos os mesmos tipos de emoções, os mesmos medos, mesmas vontades, enfim, se chama anacronismo. Uma coisa anacrônica é fora do tempo, como buscar no século II uma identificação com o século XXI, por exemplo.

Foi até pensando nisso que os historiadores franceses Michelle Perrot e Georges Duby desenvolveram a série ‘História das Mulheres’, dividida em 5 volumes. Essa série, esgotada no mercado editorial brasileiro, tenta compreender a história do sexo invisível, delinear outras interpretações e hipóteses para o papel da mulher ao longo da formação de nossas sociedades. E, falando em “sexo invisível”, também há o livro com esse mesmo nome, que, tratando mais da arqueologia e pré-história, busca uma dimensão mais clara e maior do que foi o papel da mulher e, não simplesmente relegá-la ao segundo plano, enquanto os homens desbravavam o mundo e desenvolviam a tecnologia.

Falei em tudo isso para ficar mais claro que não há neutralidade ou “natureza” quando se trata de discutir e pensar nossa sociedade, tanto no presente quanto no passado. Por isso, da próxima vez que ler um livro de História, desconfie, questione, busque outras fontes. Há muito mais histórias na História do que podemos sequer imaginar. Logo, além de nossos conceitos, vontades, medos e papéis serem definidos ao longo de nossa história cultural, das influências que sofremos dos mais diversos fatores, a nossa própria visão sobre o passado também é formada, transformada e influenciada ao longo disso tudo.