Prostituição à brasileira

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Capa do livro 'Prostituição à brasileira'. Editora Contexto.
Capa do livro ‘Prostituição à brasileira’. Editora Contexto.

A prostituição continua sendo um tema polêmico e o debate no Brasil não tem avançado nos últimos anos. Defendendo ou não propostas de regulamentação da profissão, é urgente abrir espaços para as vozes que estão envolvidas nessa área. É isso que faz o livro ‘Prostituição à brasileira’ de José Carlos Sebe B. Meihy, professor aposentado do Departamento de História da USP e coordenador do Núcleo de Estudos em História Oral (NEHO-USP).

Primeiramente, José Carlos faz uma rápida apresentação de alguns contextos que envolvem a prostituição: a história, o mercado colonial expandindo as atividades relacionadas ao sexo, a romantização. Porém, após a página 35 já temos o que interessa: cinco histórias de brasileiras e brasileiros envolvidos na prostituição, três mulheres e dois homens. Ao fim de cada depoimento, o autor faz algumas observações sobre atuais conjunturas que envolvem o tema, especialmente o tráfico de pessoas, já que os cinco personagens estão envolvidos com a prostituição em países estrangeiros. Mas também apresenta seus questionamentos:

O que faz um livro sobre brasileiros que vivem da prostituição no exterior valer a pena? Bastaria contar suas histórias em linhas escandalosas? Como ir além das avaliações estatísticas, crônicas policiais, questões de direito internacional e trabalhista ou crítica moral? Por que e para quem expor narrativas íntimas de tipos sempre situados no limite da transgressão, envolvidos em polêmicas infindáveis? Como inscrever o tópico em debates que valham por fundir aspectos da sociedade globalizada e de indivíduos singulares, em particular os vulneráveis? Com essas perguntas, busquei dar sentido a tantos casos que há cerca de 15 anos me comovem, desafiando a registros difíceis e análises incômodas. (pg. 09).

As histórias de Leide, Lindalva, Miro, Margarida e Cristóvão Jorge falam muito sobre suas origens, a vida que deixaram para trás no Brasil. Detalham o cotidiano da prostituição e abrem espaços para pequenos questionamentos, que muitas vezes não são ampliados pelas dificuldades em vislumbrar outros horizontes. Percebe-se também uma certa ingenuidade nos primeiros contatos com o universo da prostituição. Essas pessoas entram acreditando que não haverá tanta violência ou que esse pode ser um negócio como qualquer outro. Ao mesmo tempo, se reconhecem como agentes, responsáveis por suas ações.

A maternidade é tema importante na história de Margarida. O tráfico de pessoas é mais discutido no relato de Miro. Enquanto a questão das travestis é comentada na parte de Cristóvão Jorge. Leide e Lindalva contam histórias mais comuns do que conhecemos ser a realidade de prostitutas brasileiras, pontuadas por violência sexual e racismo. Essas histórias são o grande atrativo do livro e peço desculpas por não selecionar trechos e citá-las, pois senti que isso lhes retira os contextos.

O objetivo principal é mostrar as percepções das pessoas que se envolvem na indústria do sexo como negócio. E, durante todo o livro, o autor traça paralelos entre o histórico do tema prostituição — que sofreu uma grande mudança com a expansão colonialista, ganhando feições universais quando se estabeleceram as rotas comerciais do mundo moderno — com o fato de que, atualmente, a prostituição em escala internacional ainda apresenta aspectos dessa relação colonial, o que explica em parte a crescente e progressiva rede de tráfico de pessoas. Em suas conclusões, José Carlos cita essas questões que se conflitam:

Pude observar ainda, nesse processo, como o alargamento das negociações sexuais na modernidade permitiu retraçar paradoxos antes emoldurados em telas históricas cansadas. O patriarcalismo machista, a institucionalização do poder, a força das regras escritas, tudo se coloca em causa de negociação quando a atividade sexual reponta como tema internacional. E, na globalização, o quilate dado ao assunto ganha dimensões expressivas, exibindo o contraste entre a prática com seus resultados pessoais ou de grupos, e o que dela se diz. Particularmente, quando o cenário é o espaço internacional, tem-se evidente os poucos avanços na ordem dos direitos pessoais. Hoje o trânsito mudou, e não são mais apenas os pioneiros, conquistadores de um mundo desconhecido, que vêm às colônias. Diferentemente de agora, os tais seres antes colonizados também frequentam as metrópoles, transitam de uma para a outra, vão e voltam. A porosidade das fronteiras, os braços dos sistemas governamentais, por mais que se esforcem, não conseguem conter o trânsito dos deslocamentos. E isso faz parte de uma procissão que inverte a ordem colonial e impõe o trato com o “de fora”, tantas vezes notado como estranho, intruso, oportunista, invasor. (pg. 217).

O uso do corpo como fator capitalista da colonização é elemento fundamental para compreendermos as relações que a sociedade tem com o sexo pago. É aceito e visto como algo natural, mas também é moralmente condenável em diversos aspectos, especialmente naqueles que afetam diretamente a representação das mulheres.

No movimento feminista brasileiro a questão da prostituição não encontra consenso único. Há grupos a favor da regulamentação, há grupos contrários, a quem proponha olhares mais interseccionais. Porém, a discussão não tem avançado e o conservadorismo do legislativo brasileiro tem barrado inúmeras ações governamentais com foco nas prostitutas. No exterior, há países em que houve regulamentação, outros em que houve criminalização do cliente e há propostas que parecem segregar ainda mais as prostitutas.

Não há soluções fáceis. É preciso seguir com o debate e buscar maneiras de garantir a segurança e liberdade das pessoas inseridas no mercado do sexo, assim como também é urgente escutá-las e ampliar suas vozes.

Sorteio – Atualizado em 14/06/2015.

Temos 2 exemplares do livro ‘Prostituição à brasileira’ para sortear entre nossos leitores. Confira a lista de quem estava concorrendo. Os dois primeiros números sorteados na mega-sena do dia 13/06/2015 foram: 03 e 10. Portanto, os vencedores foram Diwanaghi Borsatti e Guga.

+ Sobre o assuntoHistoriador dá voz a brasileiras e brasileiros que entraram na prostituição internacional.

Justa: a história de Aracy de Carvalho

Texto de Bia Cardoso.

Aracy de Carvalho é uma mulher que salvou a vida de muitas pessoas durante o Holocausto. Quantas pessoas no Brasil sabem disso? Ao me deparar com sua história, fiquei com a sensação de ser mais um caso em que a invisibilidade feminina na mídia e em outras fontes de informação nos tira a chance de conhecermos brasileiras que tem uma trajetória incrível.

O livro ‘Justa – Aracy de Carvalho e o resgate de judeus: trocando a Alemanha pelo Brasil’ de Mônica Raisa Schpun faz um belo trabalho ao resgatar a memória dessa brasileira que tem seu nome escrito no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto em Israel, por ter ajudado muitos judeus a entrarem ilegalmente no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas. Por isso, ficou conhecida como o Anjo de Hamburgo.

À esquerda, capa do livro 'Justa'. À direita, Aracy de Carvalho em Hamburgo. Foto: Acervo da Família Tess.
À esquerda, capa do livro ‘Justa’. À direita, Aracy de Carvalho em Hamburgo. Foto: Divulgação do documentário ‘Esse viver ninguém me tira’, de Caco Ciocler.

No livro, Aracy não está sozinha. Estruturalmente, ‘Justa’ intercala as histórias de Aracy de Carvalho e a de Margarethe Levy, alemã judia que tendo a família perseguida pelo regime nazista encontrou Aracy. É um livro que tem como grande tema as migrações, mas que narra essencialmente o encontro crucial e a posterior amizade entre duas mulheres muito diferentes. A estrutura do livro acaba seguindo esses deslocamentos migratórios, mostrando como os motivos que levam mulheres a migrar podem ser distintos, mas também estão ligados ao desejo de se encontrar num mundo que limita muito as ações das mulheres.

“Emigrar exige a priori mais coragem do que voltar para o país natal, a cidade natal e, no seu caso, para perto daquelas que lhe davam enorme apoio. No Brasil, tinha casa própria e uma certa renda de aluguéis. Mas preferiu ficar, ainda que lutando pelo seu contrato, fazendo contas talvez mais apertadas do que teria feito no Brasil, vivendo conflitos no ambiente de trabalho e, a partir de um dado momento, ouvindo rumores de guerra e sentindo a tensão crescer no país. Apesar dos pesares, viver na Alemanha, para ela, ainda era melhor do que regressar.

Muitos historiadores defendem a equação liberatória das migrações femininas. Em diversos períodos e situações, atravessando fronteiras nacionais, culturais, socioeconômicas e religiosas, encontramos migrantes fugindo da vigilância dos homens da família, pais, irmãos, noivos prometidos, e mesmo maridos, mas também da vizinhança, do vilarejo, das normas e tradições religiosas, da domesticidade, de inúmeras formas de dependência, trocadas pela independência da vida anônima em terras estrangeiras e, sobretudo, em centros urbanos maiores para migrantes vindas do campo, de vilarejos rurais ou de pequenas cidades. Estudos e depoimentos mostram mulheres que não desejavam retornar ao país de origem, vivendo de fato experiências libertadoras, inclusive quanto a transformações no âmbito das relações conjugais e amorosas.” (pg. 57).

Durante cinquenta anos acompanhamos as trajetórias dessas personagens, com destaque para a retratação de práticas sociais do período e os diferentes obstáculos, desafios e conflitos que se apresentam pelo caminho. Esse retrato coletivo acaba mostrando uma densa realidade histórica de duas mulheres que não permaneceram imóveis diante de seus destinos.

Aracy de Carvalho acabou ficando mais conhecida por ter sido a segunda esposa do escritor João Guimarães Rosa. ‘Grande Sertão Veredas’ é dedicado a ela.

Em 2014, foi lançado o documentário “Esse viver ninguém me tira”, dirigido por Caco Ciocler e Alessandra Paiva. O documentário sai em busca dos poucos documentos existentes daquela época para registrar a história, reconstruindo o passando através de depoimentos de pessoas que conheceram Aracy, como seu filho Eduardo Tess, amigos como Plínio Arruda, e admiradores como Eliane Brum, além de famílias que foram salvas por Aracy.

Sorteio

Temos 2 exemplares do livro ‘Justa’ para sortear entre nossos leitores. Os ganhadores serão conhecidos a partir dos números sorteados na mega-sena do dia 18/04/2015. Confira a lista de concorrentes. Os primeiros números sorteados foram 01 e 12. as vencedoras foram Deise Mesquita e Thaisa Aiello.

+ Sobre o assunto:

[+] Uma heroina quase esquecida.

[+] Documentário conta a corajosa trajetória de Aracy, ‘anjo de Hamburgo’ e musa de Guimarães Rosa.

Olympe de Gouges: feminista, revolucionária, heroína

Por Francine Emilia.

A história da revolucionária feminista francesa, Olympe de Gouges, contada em quadrinhos é uma grata surpresa.

Capa de "Olympe de Gouges" graphic novel de Catel e Bocquet publicada no Brasil pela Editora Record.
Capa de “Olympe de Gouges” graphic novel de Catel e Bocquet publicada no Brasil pela Editora Record.

França, 1748. Uma menina nasce, filha de uma mulher possivelmente infiel e possivelmente de um homem de alta posição. A paternidade é assumida pelo açougueiro, marido da mulher talvez adultera, tranquilamente. Uma história bem fácil de se enxergar em qualquer época, e não seria diferente na França as beiras de sua revolução.

No entanto, a história de Olympe de Gouges, exposta em quadrinhos por José-Louis Bocquet e Catel Muller (que também são autores da graphic novel “Kiki de Montparnasse”) se diferencia da maioria. E a história diferente narrada de uma maneira diferente fica ainda mais interessante.. Ao apostar em quadrinhos para contar a biografia de Maria Gouze, os autores tomam o risco de não terem sua obra – com pouco menos de 500 páginas – levada a sério. A surpresa é que o tomo conquista quem o lê: a divisão em capítulos é bem feita e o formato de HQ consegue dar as nuances e contextos necessários a história.

Uma revolucionária dentro da própria revolução francesa, de Gouges faz questão de utilizar-se de seus protetores e amigos para elevar a voz em favor da mulher: escreveu peças abolicionistas, cartas debatendo idéias dos revolucionários e chegou a fazer uma versão da “Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão”. Neste último, lança o olhar sobre a mulher, que esteve lado a lado na revolução porém não estava no mesmo nível de igualdade quanto ao poder.

Os traços e as nuances permitidas no formato de quadrinhos conseguem colocar algumas questões de maneira mais natural: desde sua determinação em não se casar depois da viuvez, suas divergências com a revolução até sua influência na carreira do filho. Uma mulher que transitava na sociedade que conseguia usar dos mecanismos da mesma para expor seus pensamentos sobre a revolução.

No entanto, a história que se diferencia da maioria termina de uma maneira semelhante a tantas outras: os revolucionários, no poder, determinaram que Olympe de Gouges era contra-revolucionária. E isso bastou para lhe condenar a guilhotina. A sensibilidade deste desfecho no quadrinho é tocante.

A aposta em uma biografia feminista em um quadrinho de quase 500 páginas foi um risco tomado, mas valeu cada minuto para trazer essa história. Ainda mais em tempos de protestos que estranhamente colocam o feminismo em segundo plano, julgando haver um possível bem maior.

Referência

Olympe de Gouges. Texto e ilustração: José-Louis Bocquet e Catel Muller. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro, Editora Record, 2014.

Autora

Francine Emilia (1989, SP / MG) é paulista de nascimento e mineira de criação. Feminismo recém descoberto, virou nerd por insistência alheia e encontrou na música e na literatura a maneira de mostrar como encara o mundo.

Resultado do sorteio do livro “Olympe de Gouges”.

A lista de concorrentes foi organizada de acordo com a ordem em que os comentários foram feitos. A lista está disponível aqui. As ganhadoras foram Juliana e Camila Pimentel.