A classe operária tem dois sexos

Elisabeth Souza-Lobo é uma pioneira dos estudos de gênero na esfera do trabalho no Brasil. Faleceu em 15 de março de 1991, vítima de um acidente de carro. Vinte anos após sua morte, a publicação de artigos inéditos e a reedição de outros torna-se uma homenagem, mas também uma iniciativa importante para as discussões de gênero que perpassam as relações trabalhistas. A divisão sexual do trabalho está presente até hoje. E, no caso das operárias, uma série de aspectos mostram que a hierarquia do masculino e do feminino continua ideologicamente ativa. Ao introduzir o conceito de gênero no trabalho, Elisabeth Lobo faz com que este seja um operador decisivo na construção da identidade e do acesso das mulheres à cidadania.

O livro ‘A classe operária tem dois sexos: trabalho, dominação e resistência’ é dividido em três partes. A primeira foca as práticas e discursos das operárias na década de 1970. A segunda lança um olhar sobre as perspectivas teóricas e metodológicas ao se estudar a questão de gênero no trabalho. E, a terceira trata dos movimentos sociais de mulheres. Na grande maioria das pesquisas, resultantes da produção acadêmica sobre trabalho, as mulheres eram invisíveis. Havia uma visão homogênea da classe trabalhadora, que ignorava a atividade feminina e as desigualdades de gênero. Os estudos pioneiros na área são realizados por Heleieth Safiotti (1934 – 2010) e Eva Blay (1937), mas é Elisabeth Lobo que irá realizar os primeiros enfoques comparativos entre o trabalho de mulheres e homens no artigo: Masculino e feminino na linha de montagem – divisão sexual do trabalho e controle social:

Ora, a determinação do “melhor trabalhador” significa também explicitar os critérios que diferenciam trabalhos de homens e trabalhos de mulheres na indústria. Mas a determinação do “sexo do trabalho” não se esgota no conteúdo diferente dos trabalhos realizados, mas em relações assimétricas no nível da hierarquia, da qualificação, da carreira ou do salário (Humphrey, 1984). Várias hipóteses surgem então na construção de uma problemática que dê conta não apenas da divisão do trabalho por sexo (divisão sexual do trabalho), mas das assimetrias contidas nessa divisão.

1. As hipóteses centradas na teoria do mercado de trabalho dual distinguem dois níveis de empregos: o dos empregos estáveis, com altos salários e estrutura de carreira bem definida, característicos das grandes empresas, e os empregos instáveis, sem carreira definida, característicos das pequenas empresas, onde se situam as mulheres (Humphrey, 1984).

2. As hipóteses centradas na diferenciação entre produção e reprodução partem da divisão sexual do trabalho instituído no nível da sociedade, que separa esfera produtiva-masculina e reprodutiva-feminina. A divisão das esferas, ao designar prioritariamente as mulheres à esfera reprodutiva, determina a esta papel subordinado à esfera produtiva.

3. Por úlimo situam-se hipóteses que se propõem a pensar a divisão sexual do trabalho como uma construção social e simbólica produzida simultaneamente na esfera da reprodução e da produção.

Assim, a divisão sexual do trabalho seria mais do que uma expressão da estratégia de capital de “dividir para reinar” (Milkman, 1982), ou de maximizar seus lucros. Permanece, no entanto, a questão de por que a sexualização de um setor ou de uma tarefa implica relações de trabalhos assimétricas. Qual a origem dessa assimetria? (pgs. 55-56)

Por mais que as pessoas pensem que mulheres e homens alcançaram a igualdade no mercado de trabalho, ainda convivemos com salários desiguais, dupla e tripla jornada, muitas mulheres em áreas específicas e poucas nos cargos de chefia. As mulheres tem sua grande fatia de mercado em setores tradicionalmente femininos como: educação, saúde, servidos e emprego doméstico. E, a grande maioria das mulheres, especialmente as negras e pardas, não estão no topo das carreiras. Profissões femininas valorizadas e bem remuneradas são em sua grande maioria ocupadas por mulheres brancas, não imigrantes e qualificadas como: médicas, engenheiras, arquitetas, jornalistas, professoras universitárias, advogadas, juízas, publicitárias, etc.

Elisabeth Lobo desenvolveu, durante a década de 80, pesquisas sobre as operárias brasileiras, os processos de trabalho e a divisão sexual do trabalho nos estabelecimentos industriais do ABC paulista, além da participação das mulheres nas lutas sindicais. Foi uma peça importante para a mudança da perspectiva do trabalho feminino ao participar da construção do Partido dos Trabalhadores, lutando para incorporar a pauta feminista em suas plataformas e programas.

Nos últimos vinte anos, as análises sobre a divisão sexual do trabalho se desenvolveram partindo de novas configurações, no contexto atual da globalização. A partir dos anos 90 temos a precarização e a vulnerabilidade dos empregos criados. O número de empregos formais é instável e isso afeta diretamente as mulheres, pois ainda acredita-se que o homem é o provedor e a mulher tem o valor de seu trabalho menosprezado, pois deveria ficar em casa cuidando dos filhos, sua mão-de-obra tem valor secundário. O novo padrão de acumulação do capitalismo e a reestruturação da produção desencadeada em escala mundial implicaram num processo de transformação profunda do mundo do trabalho.

Milhares de mulheres passam seus dias e noites tentando conciliar trabalho assalariado, atividades domésticas e o cuidando com crianças e idosos. A principal consequência disso é que políticas de flexibilização e precarização do trabalho alteram as atividades do trabalho, fazendo com que mais mulheres procurem empregos parciais, contratos por tempo determinado ou trabalhos em domicílios, marcados pela informalidade dos laços empregatícios, sem revalorização do trabalho feminino, aprofundando ainda mais as desigualdades entre os sexos. Enquanto as responsabilidades familiares e domésticas forem apenas das mulheres esse cenário não mudará.

Referência: A classe operária tem dois sexos – trabalho, dominação e resistência de Elisabeth Souza-Lobo. Editora Fundação Perseu Abramo, 2011.

Frente e Verso: visões da lesbianidade

À primeira vista ‘Frente e verso: visões da lesbianidade’ é um pocket book com uma seleção de diversos artigos sobre o universo lésbico. Porém, esse livro também é resultado de uma bela ação para disseminar a literatura lésbica no Brasil.

São 64 artigos curtos, escritos por três mulheres lésbicas que tem histórias na luta pela visibilidade lésbica. Lúcia Facco é doutora em literatura comparada, crítica literária e escritora. Laura Bacellar é escritora e editora. Hanna Korich é advogada e graduada e comunicação social, além de ser colunista do site Dykerama. Os artigos tratam de diversas questões cotidianas como literatura, cinema, música, artistas, personagens lésbicas, sexo, relacionamentos, homofobia, casamento e muito mais. Um livro que desvenda algumas questões do cotidiano lésbico brasileiro de uma maneira leve e bem humorada.

A editora Brejeira Malagueta é a única editora da América Latina que publica apenas livros de autoras lésbicas. Não basta ser um livro sobre lesbianidade ou com personagens lésbicas, a autora precisa ser lésbica. Em um dos textos de Laura Bacellar, ela comenta que é simples identificar um texto realmente escrito por uma lésbica:

Uma das características que sinto estar presente nos originais assinados por mulheres, mesmo aqueles menos elaborados, é a preocupação com as relações. Acho que nós mulheres não conseguimos imaginar uma pessoa como uma unidade completa e sempre entendemos que ela vem acompanhada de parentes, amigos, relações passadas, colegas. Autoras, portanto, costumam incluir na descrição de suas personagens informações sobre como elas se dão (bem ou mal) com os pais, os irmãos, os colegas de trabalho, as ex. Em histórias lésbicas é super comum as amigas terem uma participação importante e interferirem na relação entre as protagonistas de maneira positiva ou negativa. Trecho do artigo ‘Marcas da literatura lésbica’.

O objetivo é publicar autoras lésbicas que escrevam literatura para lésbicas e, que contem histórias alegres, picantes, com finais felizes. Porque chega de literatura em que as lésbicas são retratadas como mulheres amarguras e isoladas. A Brejeira Malagueta tem em seu catálogo diversos livros de romances entre mulheres, focados em adolescentes ou mulheres adultas. Inclusive, uma ação importante é enviar o livro com discrição. Os livros são enviados em papel opaco, num pacote bem lacrado, tendo como remetente o nome de uma pessoa física.

A importância de uma editora lésbica é imensa, pois lésbicas são na maioria das vezes ignoradas pelas grandes editoras. O maior benefício dos livros publicados pela Brejeira Malagueta é mostrar as lésbicas como realmente são: pessoas comuns, normais, legais (bom, nem todas), tão (des)equilibradas quanto as outras mulheres, porém com a interessante particularidade de gostar (e amar e sentir tesão por e correr atrás de) outras mulheres. Se há mulheres que amam, transam, casam, tem filhos ou não com outras mulheres elas querem ler histórias que falem desse universo.

Além de serem escritoras, Hanna Korich e Laura Bacellar também apresentam o programa As Brejeiras em seu canal no youtube. Confira!

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=AJu7XDuIe0k&w=560&h=315]

Referência: Frente e Verso – visões da lesbianidade de Lúcia Facco, Laura Bacellar e Hanna Korich. Editora Brejeira Malagueta, 2011.

O silêncio de nossa História

Texto de Maia Cat.

Em quase toda discussão sobre homens e mulheres ou crianças, ouço aquele velho argumento, irrefutável, na opinião da maioria das pessoas: “mas sempre funcionou assim na história da humanidade”, para justificar práticas preconceituosas e sexistas.

Uma das premissas do feminismo é dizer que as noções do que é o masculino e o feminismo são construídas, e não naturalmente dadas. Isso quer dizer que o fato de relacionarmos a mulher com o delicado, o maternal e o emocional é fruto de toda uma história e mentalidade construídas ao longo de séculos.

Mas, uma coisa pouco lembrada, é o conceito de História. Em geral, ao lerem em um livro didático, ou numa revista, que tal fato acontecia assim e assado, que as mulheres faziam isso e os homens aquilo, as pessoas assumem todas aquelas informações como inquestionáveis. Há uma certa ingenuidade ao se ler sobre História, como se aquelas linhas não fossem, na realidade, produto de uma visão sobre o passado, mas o passado em si. Imagine que já sobre o presente há uma série de debates e discussões, que dirá sobre o passado!

Há diversas linhas historiográficas e, cada uma delas, além de defender um tipo de metodologia diferente (que documentos pesquisar, como organizar os dados etc), defende uma certa visão das coisas. Ela pode estar filtrada pelo marxismo, por exemplo, ou estar pautada nas pequenas coisas, como a micro-história (por exemplo, a série ‘A História da Vida Privada’ faz parte desse gênero), ou, surpresa! Estar pautada pelo machismo. Não de forma consciente, como pode ser com o marxismo, mas, de qualquer forma, com o machismo como uma das premissas para se avaliar os documentos, já que não há a preocupação em não usar esse tipo de visão, tão intrínseca, ao se observar o passado.

Tanto é que as mulheres, durante muito tempo, mal apareciam na História. Dominada pelos homens, a ciência História era, basicamente, a história deles próprios. Nas escavações, nas leituras de documentos, nas hipóteses concebidas, procurava-se confirmar histórias já concebidas: justificar por que as coisas são do jeito que são hoje.

Assim, buscava-se, de pronto, ver que as mulheres seriam o sexo frágil, sem despir-se dos preconceitos e do olhar atual para enxergar o passado. Esse conceito, de buscar identificar no passado coisas que temos hoje, e supor que nós, antes, sentíamos os mesmos tipos de emoções, os mesmos medos, mesmas vontades, enfim, se chama anacronismo. Uma coisa anacrônica é fora do tempo, como buscar no século II uma identificação com o século XXI, por exemplo.

Foi até pensando nisso que os historiadores franceses Michelle Perrot e Georges Duby desenvolveram a série ‘História das Mulheres’, dividida em 5 volumes. Essa série, esgotada no mercado editorial brasileiro, tenta compreender a história do sexo invisível, delinear outras interpretações e hipóteses para o papel da mulher ao longo da formação de nossas sociedades. E, falando em “sexo invisível”, também há o livro com esse mesmo nome, que, tratando mais da arqueologia e pré-história, busca uma dimensão mais clara e maior do que foi o papel da mulher e, não simplesmente relegá-la ao segundo plano, enquanto os homens desbravavam o mundo e desenvolviam a tecnologia.

Falei em tudo isso para ficar mais claro que não há neutralidade ou “natureza” quando se trata de discutir e pensar nossa sociedade, tanto no presente quanto no passado. Por isso, da próxima vez que ler um livro de História, desconfie, questione, busque outras fontes. Há muito mais histórias na História do que podemos sequer imaginar. Logo, além de nossos conceitos, vontades, medos e papéis serem definidos ao longo de nossa história cultural, das influências que sofremos dos mais diversos fatores, a nossa própria visão sobre o passado também é formada, transformada e influenciada ao longo disso tudo.