Textos + Lidos de 2014

Em 2014 publicamos menos textos. Estivemos mais desorganizadas e desmobilizadas, porque a vida privada muitas vezes não deixa espaço para a militância. Também foi um ano em que vimos o feminismo crescer mais e mais como assunto na internet. E, se alguns acreditam que há guerras tóxicas feministas, isso também é um sinal de que jovens mulheres estão querendo ter voz, conquistar espaço na rede, concordemos com suas propostas ou não.

Saímos de 2014 perguntando: o que nossa proposta de feminismo tem a oferecer a esse movimento feminista que cresce nas redes? Afinal, lá se vão 4 anos de Blogueiras Feministas.

Entre os textos mais lidos de nosso blog nesse ano há uma grande diversidade de assuntos que permeiam a vida das mulheres. Há manifestos pela liberdade, direito ao aborto, questionamentos sobre maternidade e discussões que causaram polêmicas nos meios virtuais, como a capa da revista Placar e o comportamento das mulheres durante a Copa do Mundo.

Entramos 2015 com o sentimento de resistência. Não acreditamos que o machismo acabará de repente, mas sentimos a necessidade de seguir resistindo. De sermos o contraponto a tanta caretice, babaquice e misoginia.

Os 10 textos mais lidos de 2014:

1. Solidariedade às xerecas satânicas.

2. Se minha mãe tivesse me abortado.

3. A capa da Placar com Bruno faz parte da normalidade do feminicídio no Brasil.

4. À espera da geração de mulheres que não se importam com o que os homens querem.

5. Posei nua, e daí?

6. O que uma mãe no pós-parto realmente precisa.

7. Copa do Mundo e objetificação dos jogadores.

8. Jennifer Lawrence faz com que você sinta-se envergonhada por seu corpo mais do que você imagina.

9. Algumas vezes é preciso se divorciar de seus pais.

10. Quem são as mulheres reais das propagandas de beleza?

Revolta da Lâmpada. São Paulo, 2014. Foto: Midia Ninja.
Revolta da Lâmpada. São Paulo, 2014. Foto: Midia Ninja.

Filmes Feministas de 2012

Texto de Srta. Bia.

Vou muito ao cinema. Todo ano tendo fazer uma lista de meus filmes preferidos, mas esse ano decidi pensar quais seriam os bons filmes feministas que vi em 2012.

Com certeza você viu algum filme que não vi, especialmente filmes que não sejam produções americanas, sinta-se convidado a deixar sua contribuição nos comentários. Sei também que há o Teste de Bechdel, que muita gente usa para avaliar a participação de mulheres em filmes. Porém, minhas regras para montar essa lista foram:

  • Ter uma personagem feminina no papel principal;
  • O filme deve ter estreado nos cinemas brasileiros em 2012.

Especialmente a primeira regra me trará alguns problemas, como você pode ver nos comentários sobre os filmes.

Da esquerda para direita: Lisbeth Salander (Os homens que não amavam as mulheres), Laure (Tomboy) e Albert Nobbs. Fotos: Divulgação.
Da esquerda para direita: Lisbeth Salander (Os homens que não amavam as mulheres), Laure (Tomboy) e Albert Nobbs. Fotos: Divulgação.

1. Os homens que não amavam as mulheres

Mikael Blomkvist é um jornalista com problemas financeiros que recebe uma proposta para investigar o desaparecimento da neta de um rico industrial sueco. Para isso, ele precisará da ajuda de Lisbeth Salander, uma hacker solitária que tem um passado brutalizado.

Não assisti a versão sueca desse sucesso literário e cinematográfico. A Dani Busanello lembrou-me que os três filmes suecos da série Millenium já estão disponíveis em vídeo. Também não li os livros que deram origem ao filme. Por isso, fui bem crua ao cinema, sem saber basicamente nada da história.

Aqui começa o problema com a primeira regra que determinei para essa lista. Para muitas pessoas, Lisbeth Salander não é a personagem principal do filme. Porém, o filme não pode existir sem ela. Especialmente por sua história, que está conectada com o mistério do enredo. É uma heroína impulsiva, extremamente inteligente, que aprendeu a sobreviver e a se defender num mundo de homens.

[+] Os homens que não amavam as mulheres. Texto de Renata Lima sobre os livros e o filme sueco.

[+] Os homens que não amavam as mulheres. Texto de Deh Capella sobre a versão americana do filme e sobre a misoginia na filmografia de David Fincher.

[+] Receita: como amansar mulheres em dois mil anos (fácil e rápido, agrada toda a família). Texto de Yaso que faz uma comparação entre as versões dos filmes sueco e americano.

[+] Defesa pessoal: conheça sua força. Texto de Jeanne Callegari que cita a personagem literária Lisbeth Salander como exemplo de alguém que conhece sua força e sabe se defender.

2. Tomboy

Laure tem dez anos e acaba de se mudar para uma nova casa com seus pais e sua irmã caçula, Jeanne. Ao explorar a nova vizinhança e tentar fazer amigos, Laure decide se apresentar como um menino, usando o nome de Michael. Com cabelos curtos e roupas simples as outras crianças não notam a diferença. Porém, a farsa exige cada dia novos desafios, pois Laure não quer que ninguém a descubra.

É um filme francês belo e sensível que nos mostra como Laure enfrenta essas dificuldades diárias. Como tomar banho no lago? Como fazer xixi no intervalo do jogo? O que fazer quando uma de suas amigas começa a gostar de você? A família de Laure a ama e é muito carinhosa, mas como será quando seus pais descobrirem que ela mentiu para os novos amigos? E por que Laure quer ser um menino? O filme não nos traz todas essas respostas, muitas vezes nem faz essas perguntas, mas é delicado e sincero ao tratar do tema.

3. Albert Nobbs

Na Irlanda do século XIX, Albert Nobbs é o mordomo e garçom de um hotel. Sempre perfeito, pontual, prestativo e silencioso. Praticamente invisível em muitos momentos. Porém, Albert Nobbs esconde há muitos anos um segredo: é uma mulher. Vive como um homem, se veste como tal e apaixona-se por uma bela jovem. Sua vida muda quando conhece o pintor, Hubert Page, que mostrará que seus sonhos podem tornar-se realidade.

Numa sociedade extremamente machista, como uma mulher pode trabalhar e ganhar respeito, especialmente quando se é pobre e não tem família? Sendo um homem. Esse é o cotidiano de Albert Nobbs. Também é um ótimo filme para se pensar sobre transexualidade e transgeneridade. E aqui também, minha primeira regra para fazer essa lista talvez não funcione, porque minha sensação é que Albert é um homem. A caracterização das atrizes Gleen Close e Janet McTeer é impecável, o filme vale especialmente pela atuação das duas.

4. Jogos Vorazes

No futuro, a população está dividida em distritos e é controlada por um regime totalitário que promove anualmente os Jogos Vorazes. Uma competição em que 12 jovens devem lutar até a morte. O único que sobreviver será o grande vencedor.  Para salvar sua irmã caçula, Katniss Everdeen se oferece como voluntária para representar seu distrito na competição. A partir daí ela desafiará o poder da Capital.

Não li os livros da série, fui ao cinema sem saber o que esperar. Katniss me parece ser a grande heroína de filmes de ação do ano. Ela surge num impulso, porém não conhece seu potencial, que pode ser a grande ameaça a Capital, a cidade que personifica o regime totalitário que tem como base castas sociais divididas em distritos. Os distritos ricos treinam seus filhos desde pequenos para vencerem os Jogos Vorazes. Os distritos pobres sofrem anualmente quando um dos seus é sorteado. Katniss precisou ser esperta para sobreviver na pobreza do Distrito 12 e não tem medo de quem a vê como lixo.

[+] Jogos Vorazes é feminista o suficiente? Texto de Jeanne Callegari sobre críticas feitas ao filme.

[+] Katniss, Anastasia e os finais felizes. Texto de Liliane Gusmão que compara os finais de algumas trilogias literárias.

Katniss (Jogos Vorazes), Elizabeth Shaw (Prometheus), Merida (Valente) e Verônica (Era uma vez eu, Verônica). Fotos: Divulgação.
Katniss (Jogos Vorazes), Elizabeth Shaw (Prometheus), Merida (Valente) e Verônica (Era uma vez eu, Verônica). Fotos: Divulgação.

5. Prometheus

Elizabeth Shaw pesquisa há anos sinais e mensagens deixadas na Terra por extraterrestres. Em busca de respostas para a origem da raça humana, ela e seu parceiro convencem um milionário a patrocinar uma viagem interestelar para explorar um planeta distante. Eles partem, junto com uma equipe multidisciplinar e um robô-humano, na nave Prometheus.

Na mitologia grega, Prometeu é o titã que roubou o fogo de Zeus e o deu aos homens. É acima de tudo um defensor da humanidade. Porém, Prometheus é um filme de ficção científica que fala sobre mulheres, sobre suas esperanças, seus estereótipos, suas buscas e crenças. Há uma cena especial, que nos diz muito sobre ser mulher, quando Elizabeth tenta ligar uma máquina que realiza cirurgias. Elizabeth Shaw tem vários elementos já vistos na heroína Ellen Ripley de Alien, o oitavo passageiro.

A cena do “parto”, especialmente, é linda, com a injeção de anestesia paralisando a câmera à altura dos olhos da pessoa deitada, que então assiste ao resultado do seu desafio aos deuses. Nesse sentido, Prometheus, embora tenha toda uma vocação para a megalomania, é muito coerente com outros Alien, que não são mais do que contos de cautela sobre o horror de ser mulher em um universo de homens. Trecho da crítica de Marcelo Hessel no site Omelete.

6. Valente

Merida é uma jovem princesa irlandesa, crianda pela mãe para seguir os costumes de seu reino. Porém, ela insiste em cavalgar e praticar arco e flecha ao invés de se dedicar a tapeçaria e outras atividades femininas. Merida e a mãe, Elinor, acabam entrando em conflito contantemente. Quando uma competição é organizada para escolher seu futuro marido, Merida decide recorrer a uma bruxa.

A primeira princesa da Disney (feita pela Pixar) que não tem um interesse amoroso como trama principal. Parece que algo está realmente mudando. Merida é ruiva, com uma longa cabeleira indomável, escala montanhas e acerta alvos certeiros com suas flechas. É uma princesa que se identifica muito mais com o pai do que com a mãe, que sempre está impecável, com cabelos presos e bons modos. O conflito entre liberdade e tradição é o centro do filme, mas como também é um filme da Disney há um final feliz.

7. Era uma vez eu, Verônica

Verônica mora com o pai em Recife, acabou de se formar em medicina e está fazendo residência em psiquiatria, trabalhando num hospital público. Gosta de sair com as amigas e de dançar. Tem um relacionamento com Gustavo, que a ama e quer ficar com ela. Porém, mesmo com casa própria, um emprego e um namorado Verônica é inquieta, não está satisfeita. Será que isso é a felicidade? Como será o futuro?

O único filme brasileiro da lista. Verônica é uma personagem extremamente familiar. Uma jovem mulher de classe média independente que encontra-se num ponto da vida em que deveria estar feliz, fazendo planos para formar uma família. Porém, o que Verônica deseja? É essa a pergunta que a personagem se faz ao gravador que a acompanha no quarto, logo após mais um dia de rotina. O sexo talvez seja o fator libertador, mas ela não tem certeza. Talvez Verônica não esteja em busca de certezas. A trilha sonora de Karina Buhr completa o naturalismo do filme, que segue Verônica e nos torna suas amigas nessa busca pela liberdade e o desejo.

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A Anne Rodrigues citou duas contribuições para essa lista:

Entre o amor e a paixão

Achei o filme feminista porque a personagem principal consegue libertar-se e ir ao encontro do seu desejo e não é punida por isso. O filme começa com Margot relatando seu medo de estar entre duas escolhas e ficar paralisada diante disso. Percebe-se que ela claramente ama o marido, tem uma vida confortável e, ao invés de se acomodar nesta situação parte em busca do desejo. Diria que a vida dela é mais do que confortável, ela se diverte com o marido que a ama de forma intensa (vide as brincadeiras bobas que fazem). A dificuldade dela é assumir que ter um homem que a ama e um casamento tranquilo não é o suficiente para fazê-la feliz, como nos diz o senso comum. Na maioria das vezes em que a mulher vai a luta pelo que quer acaba sendo punida. Neste filme ela foi em busca do que queria e termina o filme feliz, mesmo depois de perceber que o novo se torna velho.

Um divã para dois

Gostei da busca da personagem Kay pela sua felicidade, traduzida especificamente na falta do toque e carinho do marido. Arnold, o marido, é uma pessoa bacana só que fechada em seu mundo, egocêntrico, o que importa são suas necessidades e conforto. No relacionamento do casal a mulher nada mais é do que um objeto a mais que faz toda a engrenagem da vida dele funcionar. Kay não se contenta com esse papel e busca, da forma que ela consegue, se sentir realizada. Vejo muitas mulheres da minha família nesta situação, sem conseguirem quebrar esse círculo e, acredito que o filme possa, ao menos, demonstrar que isso é possível.

Textos + Lidos de 2012

Esse ano publicamos 311 textos entre inéditos, blogagens coletivas, cartas de apoio e textos de convidadas. Foi um ano bem produtivo. Foram 1.145.080 visualizações das páginas do blog. Atualmente temos 82 autor@s cadastrad@s. É um blog coletivo, cuja a identidade vai mudando ou se readequando a medida que novas pessoas participam.

É visível que a maioria dos posts mais lidos tratam de assuntos do momento. Temas que apareceram bastante na mídia e que estiveram na boca do povo, especialmente na internet. Falamos muito de violência sexual nesses textos, de como o sexismo é dissimulado em nossa sociedade e de liberdade. Algo que ainda não é garantido a todas as pessoas. O direito básico de existir, de ser e agir como se é, sem julgamentos ou retaliações morais.

Muitos deixam comentários aqui, dizendo que o feminismo não tem razão para existir, que estamos sempre vendo pelo em ovo. Porém, sempre que uma vítima de estupro é culpabilizada, sempre que uma mulher tem seu caráter questionado por gostar de sexo, sempre que os preconceitos e o conservadorismo da sociedade se levantam para retirar direitos básicos de grupos minoritáros, sempre que aparece mais uma denuncia de tráfico humano, o feminismo estará lá para denunciar os valores do patriarcado, pregar a igualdade e o respeito entre as pessoas. No próximo ano seguiremos lutando. Contamos com você.

Os 10 Posts + Lidos de 2012:

1. Violência sexual no BBB e muito machismo fora dele.

2. Simone de Beauvoir: o que é ser mulher?

3. Os crimes de Denise Leitão Rocha.

4. Vale tudo: a mulher careca e o desrespeito disfarçado de diversão.

5. ADPF 54 – o julgamento do STF e a anencefalia.

6. Marcha das Vadias: Não encontrei uma só mulher correta entre elas. 

7. Prostituição e tráfico de pessoas: A Informante.

8. Você sabe o que é um estupro?

9. A mulher que aborta.

10. Pedofilia e estupro de vulnerável – delimitando conceitos.

Isabela - RJ. Foto da Campanha: "Quem Precisa do Feminismo?" no tumblr: http://quemprecisadofeminismo.tumblr.com/
Isabela – RJ. Foto da Campanha: “Quem Precisa do Feminismo?” no tumblr: http://quemprecisadofeminismo.tumblr.com/