Não precisamos ser inimigas

Texto de Priscila Messias para as Blogueiras Feministas.

Entendo, por experiência própria, que um processo de separação é muito complicado e doloroso, e dependendo das circunstâncias acabamos carregando mágoas por um longo período de tempo, ou, em alguns casos essas mágoas ficam para sempre.

Assim como tenho direito de viver um novo relacionamento, meu ex também vai fazer o mesmo – isso se ele já não o estiver fazendo enquanto estamos juntos como um casal – e, surgirá uma mulher entre eu e meu ex companheiro, caso essa antiga união tenha gerado filhos, será essa nova pessoa que irá se relacionar diretamente com nossos filhos, pois afinal, o pai precisa estar presente na vida dos filhos e a nova namorada estará junto em alguns passeios e momentos, se não em todos.

Desde criança ouvi das mulheres que me cercavam e pela TV que era impossível manter um relacionamento amigável com a mulher atual de um ex-marido.

Quando passei por esse doloroso processo recebi logo a notícia que meu ex cônjuge estava namorando e isso pra mim inicialmente foi um choque, confesso, mas minha maior preocupação mesmo foi como meus filhos reagiriam a essa notícia. E, para minha surpresa, ela logo os conquistou por sua simpatia e carinho com eles. Mas, minha relação com ela não começou bem, e qual seria o motivo? Simples! O indivíduo que fizera parte de longos anos da minha vida e me conhecia como ninguém, fazia de tudo para que eu a odiasse. Dizia coisas que ela fazia (que sabia que me irritaria), falava coisas que ela havia comentado sobre mim mesmo sem me conhecer, e deixava claro como a família dele a amava. E pasmem! Eu acreditava em tudo.

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Minha experiência em sala de aula: sobre padrões de beleza e solidariedade feminina

Texto de Ellen Silva.

Recentemente, tenho me interessado mais em discussões sobre a condição da mulher. Na verdade, o interesse é antigo, desde criança achava injusto comentários do tipo: “isso não é coisa de mocinha!”. Mais tarde, escolhi estudar Ciências Sociais. Com as leituras, acesso a dados estatísticos e a convivência no curso, a questão foi se tornando urgente. Passei a me informar mais sobre o tema e a sentir a necessidade real de discuti-lo. Nesse contexto, decidi dar uma aula sobre “Padrões de Beleza” e seus efeitos nas mulheres, em uma turma de primeiro ano do Ensino Médio. Achei que seria uma boa experiência para desenvolver minha capacidade de comunicar sobre questões de gênero.

Fui empolgada, mas não foi uma boa aula. Acredito que isso tenha se dado por razões diversas: eu estava MUITO rouca, cansada devido a um final de semana intenso; os alunos não me conheciam; a disposição da sala deixava-os muito dispersos, era a ultima aula do dia. Bom, é comum aulas de graduandos inexperientes não serem das melhores. Afinal, falta intimidade com o ambiente escolar, faltam exemplos, falta estrada. Mas esse não era o problema.

O que me deixou realmente frustrada foi observar que a maior parte dos meninos prestava atenção, enquanto as alunas pareciam hostis. A cada comentário que eu fazia riam entre elas, cochichavam e, por vezes, me lançavam um olhar de desdém. Primeiro, achei que era uma ofensa pessoal, mas depois de ter sentindo aqueles olhares fuziladores, mergulhei nas minhas memórias e fui elencando as experiências de sociabilidade feminina que tive durante a vida.

Cena do filme francês 'Entre os muros da escola' (2008).
Cena do filme francês ‘Entre os muros da escola’ (2008).

Lembrei de acampamentos na infância, nos quais os garotos eram estimulados a competirem em grupo no futebol, e nós éramos estimuladas a brincar de casinha e hierarquizarmos umas as outras pela melhor boneca, melhor tamanco, melhor enfeite de cabelo. Lembrei-me de diversas rodas de amigas em que colocamos cada centímetro do corpo de outra mulher sob escrutínio. Lembrei-me do programa de TV “Pequenas Misses”, nos quais adultos estimulam suas filhas a pensarem: “Você é a mais linda, e por isso você merece mais”. Lembrei-me de uma chefe que evidentemente era mais carrasca com as mulheres sob sua supervisão. Lembrei-me que eu, até outro dia, fazia slut-shaming.

Percebi que, não muito diferente daquelas meninas, quando vejo uma mulher em posição de liderança ainda me pego olhando e julgando sua roupa, seu cabelo, seu sapato e, se for uma mulher adequada aos padrões de beleza de nossa sociedade, sua qualidade.

Sei que nunca saberei do que especificamente aquelas meninas estavam rindo. Mas com elas me lembrei como é comum agirmos com hostilidade diante de outras mulheres. E aí, me perguntei como poderia ser diferente se durante toda uma vida fomos ensinadas que a beleza é o nosso valor máximo, e que devemos competir umas com as outras para ser a mais bonita?

Reiterando essa reflexão, vi uma matéria que na Suécia fizeram uma “avaliação feminista” na qual para um filme ganhar a classificação “A”, ele deve ser aprovado no teste “Bechdel”, cujo o critério é: ter pelo menos duas personagens femininas com nome que conversem entre si sobre algum assunto que não seja um homem. Quando li isso pensei: “Gente, que critério tosco! Obvio que a maioria vai passar”. Me enganei.

Um número sem fim de clássicos hollywodianos não passaram. Isso ilustra bem o drama da sociabilidade feminina. É evidente que se nosso propósito no mundo é ser a mais bonita para ganhar algum homem, inconscientemente não podemos partir do zero quando nos relacionamos entre nós. Estamos competindo. É como se toda mulher esperasse que a outra fosse lhe puxar o tapete.

Enfim, voltando para a aula, essa interpretação da reação das meninas é a superfície do problema e dá a letra do que temos que aprender a fazer: atrelar o valor das meninas (de todas as pessoas na verdade) ao que elas são, ao invés do que elas parecem. Ponto final.

Mas, eu salientaria ainda uma parte mais profunda da experiência. Quando, na aula, falei das altas taxas de distúrbios alimentares e autoflagelação entre adolescentes insatisfeitas com sua auto-imagem percebi que alguns olhares das meninas foram se perdendo pela sala e alguns rostos se viraram. Pode ser que a hostilidade fosse dor disfarçada de escárnio. Dor de ouvir seus dramas expostos assim, sem mais nem menos por uma desconhecida rouca numa manhã de segunda.

Essa experiência me fez perceber que com a mesma firmeza que precisamos lutar por ações que promovam a participação de mulheres em posições de liderança e pelo combate a cultura do estupro, precisamos estimular uma certa “solidariedade” entre nós que possibilite não vermos umas as outras como competidoras pelo titulo de mais bonita. Mas, como seres humanas dignas de respeito. Essa mudança de ponto de vista é um trampolim que pode impulsionar todas as outras transformações da estrutura que precisamos.

Eu estou tentando incorporar essa transformação na minha vida. É difícil, ontem mesmo escorreguei. Mas, seguimos lutando.

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Ellen da Silva é graduanda em Ciências Sociais. Atualmente é bolsista do Laboratório de Cultura Digital, um projeto de experimentação para a formulação e desenvolvimento colaborativo de tecnologias digitais livres e de comunicação compartilhada. No âmbito acadêmico pesquisa a trajetória e valores democráticos das Elites Politicas do Brasil e Uruguai. É co-fundadora do Projeto “Elas também” iniciativa que visa ajudar a todos os que realizam trabalhos usando exemplos de pessoas inspiradoras a incorporar também exemplos de mulheres exitosas em suas falas. Vez por outra posta no blog Momento Ellen e no Coletivo Blogueiras Negras.