A força desconhecida das mulheres

Texto de Maravilha Paz para as Blogueiras Feministas.

O patriarcado é um sistema social pensado, planejado e executado pelos homens em benefício dos mesmos. Nesse sistema, o papel a ser assumido pela mulher é o de total submissão, impedindo-a de obter maior liberdade no seu modo de pensar ou agir. Dessa forma, dificilmente os homens aceitarão a chegada das mulheres ao poder o que nos leva a uma necessária revolução social. Porém, de nada adianta uma revolução feminista se as mulheres não forem as protagonistas. É fundamental que elas liderem e implementem ações necessárias para a valorização feminina e para o fim do machismo na sociedade.

Para que ocorra a consumação desta revolução feminista na sociedade é preciso a adoção de medidas práticas que empoderem as mulheres. É fácil observar que a maioria das áreas de poder e decisão são áreas predominantemente masculinas e se tornam instrumentos da subjugação das mulheres aos homens. Por conta disso, é fundamental uma maior participação feminina em cargos decisórios para que obtenhamos maior representatividade social e empoderamento, gerando a tão sonhada equidade de gênero.

Entretanto, a grande problemática enfrentada pelas mulheres são os elevados índices de violência, o que nos deixa em situação bastante vulnerável. A ineficácia do Estado em garantir uma segurança pública e medidas de proteção efetivas para as mulheres só contribui para aumentar a sensação de impunidade. É preciso ao menos minimizar esse quadro tão absurdo, aumentando a autoconfiança das mulheres e freando a agressividade desmedida dos homens agressores. Por isso, acredito que a autodefesa é uma das ferramentas que podemos usar para isso. Precisamos incentivar as mulheres a descobrirem sua força física. O uso da força sempre foi um instrumento de dominação masculina, por isso, precisa ser absorvido pelas mulheres como forma de autodefesa do gênero.

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Em legítima defesa da honra: saia na noite

Talvez os meus dois últimos goles, ou a saidera insistente, sejam o combustível para encorajar este texto. Muitas leitoras deste blog estão focadas nos resultados do segundo turno das eleições. Aqui e agora, é mais uma dose que pulsa, tenho cá a missão de escrever sobre o que poderia se chamar terceiro turno: a madrugada.

Sou uma mulher da noite, uma mulher da rua. Já se vão mais de meia década desta vida dedicada ao bar. Inspirada pela liberdade e possibilidades deste tal terceiro turno etílico. Pouco generoso, cá entre nós. Sim, porque é “cá entre nós” o que me inspira. E vou expirar o que este “cá entre nós” me permite: tornar visível o invisível.

Foto de Jesus Molina no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Já passei muitas noites ouvindo: “quanto custa o pudim? E você?” A pergunta se dirigia a uma colega de trabalho, barista (aquela que extrai café). Negra. Impossível me esquivar desta verdade. O fato da minha colega ser negra parecia permitir que ela fosse mais mercadoria do que eu “branca”. Sempre insistiam num “quanto você custa” a mais com ela…

Pois bem, insuficiente fosse a pergunta que igualava minha parceira aos produtos à venda, ainda tinha o marido — trabalhador da noite como nós. Mas, que insistia em julgá-la e culpá-la por um adultério que só existia na cabeça do moço. Mas, o maldito adultério — aquele famoso que nos ronda e até pouco tempo servia a jurisprudência da tal legítima defesa da honra — justificava as agressões verbais e físicas. Quando pude olho-no-olho, definitivamente, avançar naquela alcova — já pública e injustamente misógina — e, enquadrar o valentão, minha amiga nunca mais pisou no trabalho.

Penso nela várias noites… E como as noites e as ruas são “perigosas” às mulheres. Quando na verdade deveriam ser nossos territórios seguros. Deveríamos poder circular seguramente à noite. E trabalharmos em paz. Recentemente, feministas do Distrito Federal foram às ruas reivindicar a possibilidade de trabalharem em paz.

Nestas linhas, redigidas coletivamente com as sistas feministas, vou pensar alto e ao menos desabafar sobre o trabalho de mulheres na noite, até a madrugada… ou o terceiro turno. No meu ramo de trabalho é uma verdade que contratar mulher é “confusão”. Assim que decidi abrir o bar, sempre ouvia de empreendedores que são referência no setor: “só não contrata mulher, porque mulher é confusão”.

Basta observarmos os bares e botequins que frenqüentamos para notar a ausência de mulheres como garçonetes, por exemplo. E muitas vezes, acontece o oposto, alguns bares fazem questão de contratar mulheres, para servirem ao propósito de seduzir sensualmente a clientela.

Então, bora falar de “confusão” aqui no bar? Recentemente, decidimos criar uma domingueira da minas. Sim, uma data semanal exclusiva para expressão feminina. Mulheres cantando, tocando, dançando, expondo… Afinal de contas, acreditamos nas moças e, nas moças botamos nossa força e fé. Instigamos mesmo o pratoganismo feminino na criação, na linguagem e nas artes. Logo na estréia deste projeto, um cara fez questão de invadir e agredir com pontapés, mulheres que estavam dispostas a apenas ficar entre mulheres. O rapaz insinuava que era absurdo “deixar rolar uma briga das aranhas”. Haja confusão…

Queremos esta vivência do ir e vir livre… presente. Confusão? Somos produtoras e força motriz de uma das maiores economias deste país: a da boemia. Somos a maioria enquanto consumidoras. Somos também empreendedoras e distribuidoras dos bens culturais noturnos. E, nesta posição o “tratamento” é similar. Recentemente, fui ré num processo que pretendia me excluir da gestão de minha empresa: o bar. Os argumentos que justificavam o pedido judicial se pautavam, justamente, nos meus valores feministas.

Os advogados do autor da ação reviraram meu blog pessoal e este blog coletivo para comprovar o quanto sou incapaz como empreendedora. Trata-se de uma ação cautelar solicitando que eu fosse impedida de pisar no bar e me comunicar com colaboradoras/es. As alegações? O fato de ter rompido contrato com a cerveja devassa em nome da “causa feminista”, permitir que movimentos sociais – em especial LGBT’s e Negr@ — se encontrem no bar, ser ligada a religiões de matriz africana…

Fui processada por meus valores e práticas cidadãs ! Resolvi fazer um acordo para continuar a trabalhar em paz. Estou pagando financeiramente para me livrar deste sujeito. Coincidentemente, na data posterior ao acordo, cartazes com meu rosto transfigurado e com dizeres de “perseguida” foram colados na rua do bar. Alguns dias depois, também “coincidentemente”, jogaram bombas aqui na porta. E a melhor resposta a estes ataques é a persistência em sermos mulheres livres e de luta.

As práticas feministas são cotidianas e contínuas… Inclusive, contra a violência em âmbito trabalhista. E, mais ainda, contra a ganância e as “espertezas” machistas. Durante este episódio, o autor preferiu se comunicar exclusivamente com meu pai, afinal, ainda temos resquícios de que o mundo dos negócios é gerido por machos. E as regras do jogo foram criadas por eles. A minha resposta “pacífica” a este episódio é resultado da certeza que tenho na luta feminista e na sociedade que ajudo a construir.

Fico matutando como somos nós, as culpadas de confusão? Seríamos nós “a confusão”, justamente por nos propormos a ocupar e vivermos livremente a noite nas cidades? E justamente, nos bares ? Ousadas em gerir e produzir nossos destinos e deleites? Tantas vezes sondadas em nossas escolhas… Somos consumidoras neste modelo econômico. Clientes dos bares da vida, induzidas e predestinadas a dar um gole numa cerva qualquer que nos retrata ora fantoches, ora devassas.

Se na maioria das cidades o transporte público impossibilita nosso ir e vir noturno, que ao menos o machismo não nos impeça de reinvindicar a boemia e os bares (sim!) como nossos terreiros de prazeres e realizações. Para além da nossa honra, por nossas vidas.