Jessica Jones: abuso, resistência e mulheres que não precisam de homens para salvá-las

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a trama da série Jessica Jones, disponível no Netflix.

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Duas pessoas começam a namorar. Algum tempo depois, uma delas se afasta da família e amigos, de sua rotina diária e até das coisas que mais gosta por vontade da outra. A situação vai piorando e ela começa a duvidar de si mesma, a não ter mais referência de quem era antes dessa relação e a fazer coisas que ela nunca faria. Essa pessoa com o tempo não consegue mais ter vontade própria, tem sua autoestima minada e vive pela outra. Poucos percebem que algo está acontecendo e muitos duvidam que alguém seja capaz de submeter alguém dessa forma.

Essa é a história da anti-heroína que protagoniza a série Jessica Jones, adaptada dos quadrinhos Alias, mas é também uma situação corriqueira na vida real (de mulheres em sua grande maioria). Jessica é uma das poucas super heroínas de destaque, e que conseguiu protagonismo em uma série de televisão, chegando a um status talvez alcançado apenas pela Mulher Maravilha. Suas falas sarcásticas e atitudes de caráter duvidoso dão a personagem uma complexidade cativante. E sua determinação em salvar as vítimas de seu abusador nos lembram Lisbeth Salander.

Tratando de temas delicados relacionados a violência doméstica, violência sexual, violência psicológica, aborto e punitivismo, considerada uma série feminista e produzida por uma mulher, Melissa Rosenber, a séria ganha pontos também pela diversidade dos personagens. Temos relacionamentos lésbicos (vividos por uma personagem que era um homem no quadrinho), mulheres inteligentes, fortes e poderosas que não usam de sua sexualidade para conseguir status e homens negros em papel de destaque que trazem alguns pontos ao debate sobre racismo. Claro que existem limitações, já que a personagem principal é branca e heterossexual assim como sua melhor amiga e muitos dos personagens da série. E, ainda que esteriótipos como o de Patricinha de sua amiga ou de dependente de drogas de um de seus vizinhos sejam desconstruídos, poderiam investir um pouco mais nesse quesito.

Jessica adquire poderes em um acidente em sua infância e acaba desenvolvendo uma superforça. Mas nem isso, nem sua personalidade forte, a protegem de virar um fantoche na mão de Kilgrave, um vilão que tem o poder de controlar mentes, e que usando apenas alguns comandos consegue obrigar as pessoas a fazer o que ele quiser, mesmo que isso signifique fazer mal a si mesmo e a pessoas queridas e amadas. Essa relação deixa marcas profundas em Jessica, a atormentando mesmo quando acredita que seu agressor está morto, e ela resiste ao trauma se afastando de outras pessoas e afogando suas mágoas na bebida. Trabalhando como investigadora particular acaba descobrindo que Kilgrave fez mais uma vítima e tem de enfrentar todos seus traumas e inseguranças para salvá-la.

Mesmo sabendo que foi manipulada e submetida, Jessica é assombrada por um grande sentimento de culpa e acaba mantendo um distanciamento de qualquer relação afetiva, até de sua melhor amiga, com medo de magoar ou machucar alguém. Não é a toa que a relação que ela começa a manter é exatamente com um homem cujo poder é não se machucar.

Com o passar dos episódios conhecemos outras relações de abuso, algumas protagonizadas por Kilgrave e suas vítimas, outras de âmbito familiar que envolvem sua melhor amiga e a mãe dela e dois vizinhos que são irmãos gêmeos.

Dois pontos muito importantes da série dizem respeito a resistência a esses abusos e também as formas vis que elas podem ser interpretadas pelos agressores e por quem está de fora. As cenas mais representativas têm relação com as declarações de Jessica sobre os estupros de Kilgrave, que diminui a violência praticada por ele em um momento chamando de “interpretação” e em outro, dizendo que não poderia ser um estupro o que ele estava fazendo pois ele a enchia de presentes e tinha vários gastos com ela.

Outro momento chave é quando Jessica crê que se ficasse ao lado de Kilgrave poderia fazê-lo mudar, dando a ele a chance de ser uma pessoa boa através de boas ações. Quantas de nós já não fomos impelidas a dar uma segunda chance mesmo quando estava claro que não haveria melhora? Felizmente, Jessica não cai nessa armadilha.

Essas situações todas podem trazer vários gatilhos de traumas para pessoas que já passaram por situações parecidas, porém, a representação de como essas vítimas resistem e sobrevivem a esses traumas e agressões pode também contribuir para fortalecer e trazer a confiança de volta a pessoas que passaram por situações parecidas, e que as vezes não acreditam que podem superar o ocorrido. Essa representatividade vêm sendo negligenciada na ficção, onde comumente apenas homens fortes e confiantes tem suas histórias representadas.

As falas e atitudes de Kilgrave e de Will Simpson demonstram diferentes formas de agressão e abuso em relações afetivas e sexuais. Enquanto Kilgrave usa como desculpa os sentimentos que alimenta por suas vítimas para manipular todos a atenderem seus desejos, Will vai de policial bonzinho a stalker violento na tentativa de tentar lidar com as situações de seu jeito, por não admitir que mulheres poderiam dar conta da situação sozinhas de forma não ou menos violenta.

As violências ocorrem das formas mais sutis as mais explícitas, de obrigar uma mulher a sorrir por tempo indeterminado, a tocar um instrumento ou até o estupro. E, ainda que essas cenas não sejam mostradas, é possível ver o impacto que essas violências tiveram na vida das vítimas. Enquanto isso, os agressores se defendem: mas essa não era minha intenção, eles dizem. Vocês estão interpretando errado, insistem. Ainda que esteja bem óbvio que suas atitudes são violentas e impulsivas ambos negam que estejam fazendo algo de errado. Enquanto isso, a mãe da Trish e a irmã do vizinho de Jessica, usam como desculpa seu amor materno e fraternal, respectivamente, e seus papéis de cuidadoras como desculpa para agredir e controlar.

Diferentes vítimas buscam formas diferentes de resistir a toda essa violência física e psicológica. Trish busca aulas de autodefesa, investe em segurança. Jessica, quando tem surtos pós traumáticos, usa um subterfúgio que aprendeu na terapia nomeando ruas próximas da casa onde nasceu, busca viajar e se afastar além de beber para lidar com tudo. Outras vítimas de Kilgrave criam um grupo de apoio para falar sobre suas dificuldades em superar o impacto que a manipulação dele teve em suas vidas.

Somos apresentadas a todos os personagens e suas complexidades, em algum momento, mesmo os vilões fazem coisas boas ou os mocinhos fazem coisas ruins. A protagonista coleciona atitudes bastante condenáveis, mas isso não diminui a violência sofrida por ela, assim como o passado de Kilgrave não é o único fator determinante para suas atitudes abusivas.

Outro ponto interessante é a valorização das atitudes e qualidades de personagens que não são “super”, assinalando suas qualidades dos personagens como sendo seus superpoderes. A vontade de ferro/determinação de Trish, a empatia e dedicação ao outro de Malcon, qualidades também partilhadas pela enfermeira Claire Temple (personagem emprestada da série Demolidor). Esses personagens mostram que todos podemos resistir de alguma forma às adversidades e que amizades são bastante importantes nesse processo.

Várias situações relativas a abusos são mostradas na série: as dúvidas, a negação, a revolta, o sentimento de impotência. Mesmo assim, as vítimas resistem e persistem, seja ao buscar justiça, seja ao buscar seguir com suas vidas. Em vez de uma história comum e repetitiva de super herói em que as mulheres são salvas por eles, aqui são as mulheres que salvam si mesmas ou suas amigas de violências cometidas por esses homens e seguem suas vidas. E essa é a grande mensagem deixada por essa série. É possível sobreviver mesmo depois de passar por esses traumas e não estamos sozinhas.

+Sobre o assunto:

[+] Jessica Jones e os relacionamentos abusivos. Por Clarice França.

[+] Precisamos falar sobre Jessica Jones (e Kilgrave!). Por Andressa Dreka.

[+] Jessica Jones e as discussões que precisamos ter. Por Isadora Sinay.

[+] Jessica Jones cria retrato da misoginia cotidiana. por Gizelli Sousa.

[+] In Jessica Jones, superheroes in an abusive relationship brilliantly portray the domestic violence I knew. Por Brydie Lee Kennedy.

[+] Jessica Jones is a Primer on Gaslighting, and How to Protect Yourself Against It. Por Emily Asher-Perrin.

[+] ‘Smile!’ How a villain’s phrase in ‘Jessica Jones’ exposes modern-day sexism. Por Libby Hill.

Orphan Black: é possível fazer diferente

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a trama da série canadense de ficção científica Orphan Black.

Das obras mais famosas do cinema e da televisão do gênero de ficção científica podemos citar algumas personagens femininas icônicas como: a agente Scully de Arquivo X, Leeloo do Quinto elemento, Katniss de Jogos Vorazes,  Nyota Uhura de Star Trek, Princesa Leia de Guerra nas estrelas, Tenente Ripley da série de filmes Alien, Trinity de Matrix, Sarah Connor de O Exterminador do Futuro, além de Jean Grey, Vampira, Mística e Tempestade dos X-Men.

Porém, poucas dessas personagens são protagonistas das histórias (perdendo sempre para homens brancos), elas tem poucas, na maioria das vezes nenhuma, parceira ou amiga ou mesmo antagonistas mulheres, apenas uma é negra e parte delas tem sua trama totalmente atrelada a romances com personagens masculinos. Aliás, a participação da Trinity na trilogia do Matrix foi tão apagada com o passar da trama que se fala hoje em Síndrome de Trinity.

É aí que Orphan Black começa a surpreender. Além de ter uma protagonista forte e independente, há várias personagens femininas incríveis (inteligentes, fortes, que não atendem a esteriótipos de gênero) e a trama não está associada a nenhum tipo de romance. Não significa que as personagens não se apaixonem, pelo contrário, a série também é boa por mostrar mulheres com uma vida sexual liberta.

Personagens da série canadense de ficção científica Orphan Black da BBC America.
Personagens da série canadense de ficção científica Orphan Black da BBC America.

Não bastasse isso tudo, a série tem várias sacadas sobre autonomia, diferenças de classe e privilégios, diversidade sexual e de gênero, determinismo biológico-genético, modelos de família diversos, além de (eu particularmente ter achado) a trama ser bem construída com suspense e ação. É uma das poucas séries que trata de ciência sem escorregar em temas óbvios, mostrando que os autores tem sido bem assessorados por feministas e cientistas para construir o roteiro.

Ainda há o que melhorar em questão de representatividade. A maior parte das personagens é branca e atende aos padrões de beleza mais aceitos (magras, visual europeu/ocidental, sem deficiências, etc.). O personagem trans aparece rapidamente, o gay está ainda bem preso a alguns esteriótipos e tem sua trajetória muito presa a de outros personagens. A personagem bissexual principal não verbaliza sua sexualidade e, como se relaciona com mulheres, é lida por algumas pessoas como lésbica. Mas, frente as outras obras de ficção científica atuais existe um abismo de distância.

O que dizer de uma história que tem como protagonista uma jovem orfã e mãe solteira que busca sua autonomia e proteger a si e a filha do governo e de fundamentalistas religiosos? Ficção científica feminista e das mais representativas. Passa com folga no Teste de Bechdel de representatividade feminina e com alguma dificuldade também passa pelo Teste Vito Russo de representatividade LGBT graças a personagem Cosima.

Cosima. Personagem da série Orphan Black (2013).

E não sou só eu que estou dizendo, várias críticas apontam para estas questões:

“Para cada bom exemplo de mulheres fortes direcionados à comunidade geek (as mulheres fortes de Westeros, a supremacia de bilheteria de Katniss), há um momento esmagador de exclusão. Ainda não há um filme da Mulher Maravilha ou da Viúva Negra, e os criadores por trás do popular jogo Assassins Creed ainda acham que as personagens femininas não valem o trabalho.

É por isso que a existência e, mais importante, o sucesso recorde na BBC americana da narrativa brilhante de empoderamento feminino em Orphan Black é tão vital.” Tradução de trecho do texto Why Is Orphan Black Still Fighting a War Buffy Should Have Won Over 10 Years Ago?. Por Joanna Robinson na Vanity Fair em 25/07/2014.

“… as críticas feministas não tem como objetivo tornar cada história já contada em uma divisão meio-a-meio de personagens masculinos e femininos, ou simplesmente começar a deixar os homens de fora. Destina-se a corrigir a discrepância global do número de apresentações desproporcionalmente masculinas que são compradas e vendidas, feitas e elogiadas como intrinsecamente mais valiosas. Ela chama a atenção por mostrar onde personagens femininas poderiam melhorar a história, ou por mostrar onde mulheres são dispensadas como menos vitais.

Além disso, há muitos outros pontos que a série aborda de uma maneira bem legal, incluindo lidar com questões de naturalização de comportamentos x comportamentos construídos socialmente, autonomia das mulheres, procriação, abordar a sexualidade queer de maneira natural sem fazer disso um grande tabu, nunca pedir desculpas pela inteligência de suas personagens apresentando-as como sendo de alguma forma excepcionais, a despeito de sua feminilidade, e nunca pede desculpas por dar às mulheres um monte de diversão fodona na tela”. Tradução de trecho do texto Everyone Should Be Losing Their Minds Over Orphan Black. Por Tracy Moore no Jezebel em 05/02/2014.

“É comum que a ficção científica use analogias para tratar de temas próximos do mundo real (pensem nos X-Men mostrando pessoas que nasceram diferente sendo perseguidas e discriminadas). Orphan Black fala sobre a luta de qualquer mulher pelo direito de ser dona do próprio corpo, e faz isso sem muitas firulas porque não usa exatamente uma analogia – não são personagens héteros e brancos falando sobre a discriminação contra minorias fictícias, como acontece em X-Men, por exemplo – e sim de mulheres, de fato, buscando autonomia. Elas apenas o fazem em um contexto fictício”. Trecho do texto Somos todas Orphan Black. Por Letícia Arcoverde no site Spoilers em 13/09/2013.

“Orphan Black aborda, de forma direta ou indireta, a maioria das questões mais prementes do feminismo, como direitos reprodutivos, violência doméstica, dominação sexual, entre outros. O tema da clonagem é muito usado como metáfora para a luta do feminismo para dar à mulher o controle sobre seu próprio corpo (que é o mote de reivindicações como o acesso ao controle de natalidade e descriminalização do aborto). Muitas vezes você vê personagens dizendo algo como “é a minha biologia, portanto a decisão é minha“, o que soa bastante familiar para quem já frequentou discussões sobre o aborto. Pessoas (geralmente homens) tentando literalmente controlar o corpo das (mulheres) clones e fazer coisas com elas, frequentemente envolvendo reprodução, são uma imagem comum na série, e sempre algo retratado como perverso e profundamente perturbador. E isso parte tanto dos religiosos quanto dos cientistas responsáveis pela clonagem. Também há, por exemplo, um namorado abusivo de Sarah, e a série deixa bem claro que o comportamento abusivo dele ocorre não porque ela “deixa” ou mesmo “gosta”, mas apesar de todo o enorme esforço que ela faz para se livrar desse traste. E por aí vai – não é sem motivo que Orphan Black caiu nas graças das feministas”. Trecho do texto As muitas faces de Orphan Black. Por Fernando Sacchetto no site Nerd Geek Feelings em 25/06/2014.

A representatividade da diversidade sexual e de gênero, além da problematização de classe em Orphan Black traz a tona a discrepância destes temas em outras obras. E o quanto ainda temos que caminhar para que isso deixe de ser uma questão pelo menos na ficção. Se não pudermos nem ao menos vislumbrar um mundo mais igualitário não poderemos nunca alcançar essa transformação.

+ Sobre o assunto:

[+] A mulher na ficção científica. Por Lady Sybylla em Momentum Saga.

[+] Por uma ficção científica feminista. Por Antonio Luiz M. C. Costa na Carta Capital

[+] Ficção científica reflete relações de gênero na sociedade. Entrevista com  Lucia de La Rocque em Com Ciência.

[+] Os homens de Orphan Black. Por Letícia Arcoverde em Spoilers.

[+] If You Are Not Watching “Orphan Black,” You Are Crazy. Por Kate Aurthur no BuzzFeed

[+] You Should Watch This: Orphan Black. Por Stinekey em Lady Geek Girl.

Ah! Branco, dá um tempo! Carta aberta ao senhor Miguel Falabella.

Nós, Blogueiras Feministas, apoiamos e assinamos a Carta aberta das Blogueiras Negras ao autor, ator e diretor Miguel Falabella sobre suas recentes declarações em relação a nova série que estreará na Rede Globo: “O Sexo e as Nêgas”. 

As Blogueiras Negras também estão com o projeto #AsNegaReal, uma websérie que visa discutir os episódios do seriado.

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Você me pergunta se vou dizer que você é racista, me responda você!

Racismo não é polêmica, muito menos rancor ou falta de humor. Mais que ninguém, que se pensa um defensor dos direitos de seus pares negros e portanto um aliado na luta contra o racismo, deveria saber disso. Deveria saber também que cogitar tal hipótese e ainda enumerar amigos negros para se defender, é viver num mundo tal de privilégio onde se pode rebater a crítica dizendo que as vozes de mulheres negras são apenas controvérsia, ou fazer um grande esforço para esconder o próprio racismo. Quem sabe os dois.

Ah! Branco, dá um tempo! Você diz que “dói” ver luta de seus colegas negros, menosprezados e invisibilizados por sua cor. No caso da mulher negra, tudo se agrava. Você certamente tem ciência das recentes e tristes notícias sobre Neuza Borges, uma das maiores atrizes que temos, mas que por seu lugar de mulher negra não encontra lugar na televisão brasileira. Vive na carne a falta da carne em seu prato porque a próxima novela não acontecerá tão cedo. Vai depender da “boa vontade” de alguém, não do seu talento.

Você me pergunta se o problema é o sexo ou “as nega”, querendo desacreditar nossas críticas fundamentadas não em pré-julgamento, mas em fatos veiculados na mídia. Notícias essas que agora dão conta que de repente a Globo, antes tão entusiasmada com seu projeto, parece que já não está tão feliz assim. Você argumenta que se trata de uma prosódia pura e simplesmente. Alega que o título da série veio de uma mulher negra. Aliás, me pergunto se essa mesma mulher recebeu os devidos créditos e bufunfa por sua colaboração já que foi descrita por você como nada mais que um estereótipo, alguém que não merece nome, muito menos sobrenome.

Não tem problema branco, vou enegrecer tudo novamente.

As negas, volto a explicar, não é uma questão de prosódia.

Tal expressão transforma o corpo da mulher negra em peça, como eram chamados os escravizados, a ser consumido por uma sociedade racista. Nos coloca no lugar de mercadoria de segunda mão que não receberá o mesmo tratamento da carne branca e delicada, aquela que não é “suas nêga”. A expressão é embuída não apenas de pensamento escravocrata, mas também de machismo, cujas consequências sentimos na pele por sermos mulheres negras. Trata-se portanto de uma dupla violência que categoriza mulheres de acordo com sua cor de pele, qualidade que determinará qual o valor e o lugar que têm.

Ainda sobre o nome da série, temo que muitas pessoas não saibam a diferença entre um adjetivo racista e um adjetivo comum. Na Bahia, nego e nega tem conotações diferentes das que tem em Recife, por exemplo. E dependendo do uso da frase, do tom com que se fala, de quem recebe e de quem envia a mensagem, você ofende ou elogia. No entanto, a construção “não sou tuas nega” não permite outro significado possível que não o racismo num contexto hediondo de 350 anos de escravização. E se alguém perpetua adjetivo racista, que nome isso deve ter? Ah! Branco, me diga você!

Sua idéia, aos olhos poucos atentos ou interessados apenas em gerar lucro, pode até parecer de grande monta. Porém, está longe de gerar visibilidade ou dignidade. Aliás, exatamente o contrário. Como quase sempre acontece com literatura e dramaturgia feita por brancos sobre negros, nos trata como simples objeto de estudo, algo que pode ser manipulado e observado justamente como você faz, nos ensina a professora Lígia Fonseca Ferreira. Nada mais é que negrismo e não negritude, como tem insistido o escritor e jornalista Oswaldo de Camargo.

Sim, estou dizendo com todas as letras que quem deve escrever para o negro e pelo negro deve ser ele mesmo, não uma pessoa branca. Chame isso de racismo reverso se quiser. Para gente o nome disso é visibilidade, esta sim capaz de nos ter algum benefício, com poderes para mudar o modo como seremos retratadas na próxima novela, na próxima minissérie. Sem isso, nada mudará, seguiremos sendo uma sociedade estruturalmente racista e machista onde a mulher negra nada mais é que um estereótipo para racista se divertir ou entreter.

Uma sociedade em que nós, mulheres negras, não somos protagonistas nem mesmo num seriado a quem damos o nome. Sim, as notícias têm mudado, mas as primeiras davam conta de uma branca como a atriz principal. Ela que, atrás de um balcão de bar, vai nos observar como animais num zoológico, ela quem fala em nosso lugar. Nossa história, sofrimento e capacidade de discursar sobre nós mesmas são meros detalhes. A narradora da trama, nesse caso narrador, é alguém isento desse mesmo sofrimento. Não é bobagem, nem caretice, nem ditadura do politicamente correto como alguns vão afirmar. É critica e zelo por nossa memória e existência.

Você argumenta que “um programa que refletisse um pouco a dura vida daquelas pessoas, além de empregar e trazer para o protagonismo mais atores negros” seria desejável. E na verdade seria mesmo. Desde que escrito, produzido e protagonizado por negros. Não por alguém que nem se deu ao trabalho de creditar a mulher negra que deu o título à série. Esse detalhe é causa e ao mesmo tempo consequência de todos os outros: a fetichização de nossa sexualidade e corpos, a ênfase nos estereótipos, a violência simbólica que a série representa.

Como pretender que nos desumanizar é visibilidade? Desde quando nos tratar como a carne mais barata do mercado como canta Elza, a Soares, é ser aliado? Ah! Branco, dá um tempo! Suas palavras apenas enfatizaram suas intenções, a cada parágrafo tivemos a certeza de que nossas críticas são fundamentais e muito bem fundamentadas, por isso incomodam tanto. Seguiremos denunciando o racismo e o machismo daqueles que se fiam no privilégio para destilar veneno e cometer tais violências contra a mulher negra.

Isso não é sobre sexo. É sobre denunciar um sistema perverso que exclui as mulheres negras de todas as esferas e nos torna menos que humanas. Sistema esse que também incide sobre o homem negro, alvo primeiro e preferencial da violência policial e da hipersexualização do seu corpo: o “homem do pau grande” é resultado da brutal animalização do corpo negro, sempre pronto pro sexo. Onde está a crítica desse sistema na televisão brasileira? De certo não está em seu seriado, muito menos em sua fala.

Repudiamos suas palavras porque fomos estupradas nas senzalas e continuamos a ser na dramaturgia feita por brancos sobre nós através de imagens estereotipadas em seriados, novelas e minisséries. Esse é um dos mecanismos que a aliança entre o racismo usa para se perpetuar: hipersexualizando a mulher negra que se torna desprezível para outros papéis sociais. Você fala da mulata quente, gostosa, fogosa. Somos muito mais que isso. Precisamos ser mostradas como as mulheres do dia-a-dia, que trabalham, dançam, fazem festa e querem sexo sim, mas que não são apenas isso.

Não estamos aqui menosprezando nem dizendo que não somos camareiras, domésticas, cabeleireiras: também somos trabalhadoras domésticas, cuidadoras. Mas sobretudo, com as nossas conquistas e a nossa luta, galgamos lugares, posições: somos diretoras, bailarinas, advogadas, publicitárias, escritoras, professoras e médicas. Onde elas estão no seu seriado? Será que elas não moram em Cordovil? Será que elas não estão nas periferias? Duvido muito. NÃO aceitaremos mais ser caricaturas! Por isso a critica vai além do nome da série, o que por si só é deveras problemático.

Ah! Branco, dá um tempo! Nem queremos crer que você está se comparando e recorrendo a Spike Lee para credibilizar seu trabalho. Não, nos recusamos. E não é somente porque Spike Lee é preto, é porque não vemos nada, absolutamente nada de crítica racial em “Sexo e as Nega” como vemos em “Faça a coisa certa”. O gueto é paisagem, mas também é a vida, é a teia, é o sangue do autor que não está só observando e contando sua versão dos fatos: Spike Lee está no gueto, ele é o gueto. E não alguém que não é “as nega”, alguém que pretende que nosso único objetivo de vida é ter um parceiro sexual.

E por favor, respeite nossa memória e retire suas palavras ao nos chamar de capitães do mato. Não estamos perseguindo as atrizes negras desse seriado, muito menos as mulheres reais que são representadas pelas suas personagens. Quem conhece um pouquinho de história e dela faz um uso bem intencionado, sabe que existem outras versões além daquela em que fomos escravizados sem lutar, viemos sem resistência num navio negreiro. Não se faça de desentendido, quem criou capitães do mato não foram os próprios negros.

Acusar alguém de “se tornar capitão do mato” é algo muito mais complexo do que formular uma frase. É impossível que sejamos algozes de nós mesmos, isso é falácia. Retire sua fala e reflita sobre o que significa nosso boicote e critica que têm como alvo um modelo e um sistema historicamente racistas, em que nem o direito de falar, contar nossas próprias histórias e tecer criticas nós temos. Repito: isso não é uma caçada ao povo negro nem à mulher preta e pobre. É sobre o racismo enrustidamente manifesto, sem nem se sentir ou admitir.

Manifestamos profunda oposição a esse mundo, de quem bate e finge entender a dor daquele que apanha. Esse mundo onde racismo agrada, é piada pronta para gerar audiência e naturalizar o racismo. Estamos fartas do seu discurso, de programas que usam blackface, que transformam toda mulher negra em empregada doméstica ou mulata globeleza. Nossos corpos não são espaço para seu deleite, divertimento, lucro ou usufruto. Nós somos mulheres negras de pena e teclado, ciosas e autoras de nossos próprios enredos e objetivos de vida.

Ah! Branco, dá um tempo! Quem nos silencia é racista sim.