Orphan Black: é possível fazer diferente

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a trama da série canadense de ficção científica Orphan Black.

Das obras mais famosas do cinema e da televisão do gênero de ficção científica podemos citar algumas personagens femininas icônicas como: a agente Scully de Arquivo X, Leeloo do Quinto elemento, Katniss de Jogos Vorazes,  Nyota Uhura de Star Trek, Princesa Leia de Guerra nas estrelas, Tenente Ripley da série de filmes Alien, Trinity de Matrix, Sarah Connor de O Exterminador do Futuro, além de Jean Grey, Vampira, Mística e Tempestade dos X-Men.

Porém, poucas dessas personagens são protagonistas das histórias (perdendo sempre para homens brancos), elas tem poucas, na maioria das vezes nenhuma, parceira ou amiga ou mesmo antagonistas mulheres, apenas uma é negra e parte delas tem sua trama totalmente atrelada a romances com personagens masculinos. Aliás, a participação da Trinity na trilogia do Matrix foi tão apagada com o passar da trama que se fala hoje em Síndrome de Trinity.

É aí que Orphan Black começa a surpreender. Além de ter uma protagonista forte e independente, há várias personagens femininas incríveis (inteligentes, fortes, que não atendem a esteriótipos de gênero) e a trama não está associada a nenhum tipo de romance. Não significa que as personagens não se apaixonem, pelo contrário, a série também é boa por mostrar mulheres com uma vida sexual liberta.

Personagens da série canadense de ficção científica Orphan Black da BBC America.
Personagens da série canadense de ficção científica Orphan Black da BBC America.

Não bastasse isso tudo, a série tem várias sacadas sobre autonomia, diferenças de classe e privilégios, diversidade sexual e de gênero, determinismo biológico-genético, modelos de família diversos, além de (eu particularmente ter achado) a trama ser bem construída com suspense e ação. É uma das poucas séries que trata de ciência sem escorregar em temas óbvios, mostrando que os autores tem sido bem assessorados por feministas e cientistas para construir o roteiro.

Ainda há o que melhorar em questão de representatividade. A maior parte das personagens é branca e atende aos padrões de beleza mais aceitos (magras, visual europeu/ocidental, sem deficiências, etc.). O personagem trans aparece rapidamente, o gay está ainda bem preso a alguns esteriótipos e tem sua trajetória muito presa a de outros personagens. A personagem bissexual principal não verbaliza sua sexualidade e, como se relaciona com mulheres, é lida por algumas pessoas como lésbica. Mas, frente as outras obras de ficção científica atuais existe um abismo de distância.

O que dizer de uma história que tem como protagonista uma jovem orfã e mãe solteira que busca sua autonomia e proteger a si e a filha do governo e de fundamentalistas religiosos? Ficção científica feminista e das mais representativas. Passa com folga no Teste de Bechdel de representatividade feminina e com alguma dificuldade também passa pelo Teste Vito Russo de representatividade LGBT graças a personagem Cosima.

Cosima. Personagem da série Orphan Black (2013).

E não sou só eu que estou dizendo, várias críticas apontam para estas questões:

“Para cada bom exemplo de mulheres fortes direcionados à comunidade geek (as mulheres fortes de Westeros, a supremacia de bilheteria de Katniss), há um momento esmagador de exclusão. Ainda não há um filme da Mulher Maravilha ou da Viúva Negra, e os criadores por trás do popular jogo Assassins Creed ainda acham que as personagens femininas não valem o trabalho.

É por isso que a existência e, mais importante, o sucesso recorde na BBC americana da narrativa brilhante de empoderamento feminino em Orphan Black é tão vital.” Tradução de trecho do texto Why Is Orphan Black Still Fighting a War Buffy Should Have Won Over 10 Years Ago?. Por Joanna Robinson na Vanity Fair em 25/07/2014.

“… as críticas feministas não tem como objetivo tornar cada história já contada em uma divisão meio-a-meio de personagens masculinos e femininos, ou simplesmente começar a deixar os homens de fora. Destina-se a corrigir a discrepância global do número de apresentações desproporcionalmente masculinas que são compradas e vendidas, feitas e elogiadas como intrinsecamente mais valiosas. Ela chama a atenção por mostrar onde personagens femininas poderiam melhorar a história, ou por mostrar onde mulheres são dispensadas como menos vitais.

Além disso, há muitos outros pontos que a série aborda de uma maneira bem legal, incluindo lidar com questões de naturalização de comportamentos x comportamentos construídos socialmente, autonomia das mulheres, procriação, abordar a sexualidade queer de maneira natural sem fazer disso um grande tabu, nunca pedir desculpas pela inteligência de suas personagens apresentando-as como sendo de alguma forma excepcionais, a despeito de sua feminilidade, e nunca pede desculpas por dar às mulheres um monte de diversão fodona na tela”. Tradução de trecho do texto Everyone Should Be Losing Their Minds Over Orphan Black. Por Tracy Moore no Jezebel em 05/02/2014.

“É comum que a ficção científica use analogias para tratar de temas próximos do mundo real (pensem nos X-Men mostrando pessoas que nasceram diferente sendo perseguidas e discriminadas). Orphan Black fala sobre a luta de qualquer mulher pelo direito de ser dona do próprio corpo, e faz isso sem muitas firulas porque não usa exatamente uma analogia – não são personagens héteros e brancos falando sobre a discriminação contra minorias fictícias, como acontece em X-Men, por exemplo – e sim de mulheres, de fato, buscando autonomia. Elas apenas o fazem em um contexto fictício”. Trecho do texto Somos todas Orphan Black. Por Letícia Arcoverde no site Spoilers em 13/09/2013.

“Orphan Black aborda, de forma direta ou indireta, a maioria das questões mais prementes do feminismo, como direitos reprodutivos, violência doméstica, dominação sexual, entre outros. O tema da clonagem é muito usado como metáfora para a luta do feminismo para dar à mulher o controle sobre seu próprio corpo (que é o mote de reivindicações como o acesso ao controle de natalidade e descriminalização do aborto). Muitas vezes você vê personagens dizendo algo como “é a minha biologia, portanto a decisão é minha“, o que soa bastante familiar para quem já frequentou discussões sobre o aborto. Pessoas (geralmente homens) tentando literalmente controlar o corpo das (mulheres) clones e fazer coisas com elas, frequentemente envolvendo reprodução, são uma imagem comum na série, e sempre algo retratado como perverso e profundamente perturbador. E isso parte tanto dos religiosos quanto dos cientistas responsáveis pela clonagem. Também há, por exemplo, um namorado abusivo de Sarah, e a série deixa bem claro que o comportamento abusivo dele ocorre não porque ela “deixa” ou mesmo “gosta”, mas apesar de todo o enorme esforço que ela faz para se livrar desse traste. E por aí vai – não é sem motivo que Orphan Black caiu nas graças das feministas”. Trecho do texto As muitas faces de Orphan Black. Por Fernando Sacchetto no site Nerd Geek Feelings em 25/06/2014.

A representatividade da diversidade sexual e de gênero, além da problematização de classe em Orphan Black traz a tona a discrepância destes temas em outras obras. E o quanto ainda temos que caminhar para que isso deixe de ser uma questão pelo menos na ficção. Se não pudermos nem ao menos vislumbrar um mundo mais igualitário não poderemos nunca alcançar essa transformação.

+ Sobre o assunto:

[+] A mulher na ficção científica. Por Lady Sybylla em Momentum Saga.

[+] Por uma ficção científica feminista. Por Antonio Luiz M. C. Costa na Carta Capital

[+] Ficção científica reflete relações de gênero na sociedade. Entrevista com  Lucia de La Rocque em Com Ciência.

[+] Os homens de Orphan Black. Por Letícia Arcoverde em Spoilers.

[+] If You Are Not Watching “Orphan Black,” You Are Crazy. Por Kate Aurthur no BuzzFeed

[+] You Should Watch This: Orphan Black. Por Stinekey em Lady Geek Girl.

Ah! Branco, dá um tempo! Carta aberta ao senhor Miguel Falabella.

Nós, Blogueiras Feministas, apoiamos e assinamos a Carta aberta das Blogueiras Negras ao autor, ator e diretor Miguel Falabella sobre suas recentes declarações em relação a nova série que estreará na Rede Globo: “O Sexo e as Nêgas”. 

As Blogueiras Negras também estão com o projeto #AsNegaReal, uma websérie que visa discutir os episódios do seriado.

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Você me pergunta se vou dizer que você é racista, me responda você!

Racismo não é polêmica, muito menos rancor ou falta de humor. Mais que ninguém, que se pensa um defensor dos direitos de seus pares negros e portanto um aliado na luta contra o racismo, deveria saber disso. Deveria saber também que cogitar tal hipótese e ainda enumerar amigos negros para se defender, é viver num mundo tal de privilégio onde se pode rebater a crítica dizendo que as vozes de mulheres negras são apenas controvérsia, ou fazer um grande esforço para esconder o próprio racismo. Quem sabe os dois.

Ah! Branco, dá um tempo! Você diz que “dói” ver luta de seus colegas negros, menosprezados e invisibilizados por sua cor. No caso da mulher negra, tudo se agrava. Você certamente tem ciência das recentes e tristes notícias sobre Neuza Borges, uma das maiores atrizes que temos, mas que por seu lugar de mulher negra não encontra lugar na televisão brasileira. Vive na carne a falta da carne em seu prato porque a próxima novela não acontecerá tão cedo. Vai depender da “boa vontade” de alguém, não do seu talento.

Você me pergunta se o problema é o sexo ou “as nega”, querendo desacreditar nossas críticas fundamentadas não em pré-julgamento, mas em fatos veiculados na mídia. Notícias essas que agora dão conta que de repente a Globo, antes tão entusiasmada com seu projeto, parece que já não está tão feliz assim. Você argumenta que se trata de uma prosódia pura e simplesmente. Alega que o título da série veio de uma mulher negra. Aliás, me pergunto se essa mesma mulher recebeu os devidos créditos e bufunfa por sua colaboração já que foi descrita por você como nada mais que um estereótipo, alguém que não merece nome, muito menos sobrenome.

Não tem problema branco, vou enegrecer tudo novamente.

As negas, volto a explicar, não é uma questão de prosódia.

Tal expressão transforma o corpo da mulher negra em peça, como eram chamados os escravizados, a ser consumido por uma sociedade racista. Nos coloca no lugar de mercadoria de segunda mão que não receberá o mesmo tratamento da carne branca e delicada, aquela que não é “suas nêga”. A expressão é embuída não apenas de pensamento escravocrata, mas também de machismo, cujas consequências sentimos na pele por sermos mulheres negras. Trata-se portanto de uma dupla violência que categoriza mulheres de acordo com sua cor de pele, qualidade que determinará qual o valor e o lugar que têm.

Ainda sobre o nome da série, temo que muitas pessoas não saibam a diferença entre um adjetivo racista e um adjetivo comum. Na Bahia, nego e nega tem conotações diferentes das que tem em Recife, por exemplo. E dependendo do uso da frase, do tom com que se fala, de quem recebe e de quem envia a mensagem, você ofende ou elogia. No entanto, a construção “não sou tuas nega” não permite outro significado possível que não o racismo num contexto hediondo de 350 anos de escravização. E se alguém perpetua adjetivo racista, que nome isso deve ter? Ah! Branco, me diga você!

Sua idéia, aos olhos poucos atentos ou interessados apenas em gerar lucro, pode até parecer de grande monta. Porém, está longe de gerar visibilidade ou dignidade. Aliás, exatamente o contrário. Como quase sempre acontece com literatura e dramaturgia feita por brancos sobre negros, nos trata como simples objeto de estudo, algo que pode ser manipulado e observado justamente como você faz, nos ensina a professora Lígia Fonseca Ferreira. Nada mais é que negrismo e não negritude, como tem insistido o escritor e jornalista Oswaldo de Camargo.

Sim, estou dizendo com todas as letras que quem deve escrever para o negro e pelo negro deve ser ele mesmo, não uma pessoa branca. Chame isso de racismo reverso se quiser. Para gente o nome disso é visibilidade, esta sim capaz de nos ter algum benefício, com poderes para mudar o modo como seremos retratadas na próxima novela, na próxima minissérie. Sem isso, nada mudará, seguiremos sendo uma sociedade estruturalmente racista e machista onde a mulher negra nada mais é que um estereótipo para racista se divertir ou entreter.

Uma sociedade em que nós, mulheres negras, não somos protagonistas nem mesmo num seriado a quem damos o nome. Sim, as notícias têm mudado, mas as primeiras davam conta de uma branca como a atriz principal. Ela que, atrás de um balcão de bar, vai nos observar como animais num zoológico, ela quem fala em nosso lugar. Nossa história, sofrimento e capacidade de discursar sobre nós mesmas são meros detalhes. A narradora da trama, nesse caso narrador, é alguém isento desse mesmo sofrimento. Não é bobagem, nem caretice, nem ditadura do politicamente correto como alguns vão afirmar. É critica e zelo por nossa memória e existência.

Você argumenta que “um programa que refletisse um pouco a dura vida daquelas pessoas, além de empregar e trazer para o protagonismo mais atores negros” seria desejável. E na verdade seria mesmo. Desde que escrito, produzido e protagonizado por negros. Não por alguém que nem se deu ao trabalho de creditar a mulher negra que deu o título à série. Esse detalhe é causa e ao mesmo tempo consequência de todos os outros: a fetichização de nossa sexualidade e corpos, a ênfase nos estereótipos, a violência simbólica que a série representa.

Como pretender que nos desumanizar é visibilidade? Desde quando nos tratar como a carne mais barata do mercado como canta Elza, a Soares, é ser aliado? Ah! Branco, dá um tempo! Suas palavras apenas enfatizaram suas intenções, a cada parágrafo tivemos a certeza de que nossas críticas são fundamentais e muito bem fundamentadas, por isso incomodam tanto. Seguiremos denunciando o racismo e o machismo daqueles que se fiam no privilégio para destilar veneno e cometer tais violências contra a mulher negra.

Isso não é sobre sexo. É sobre denunciar um sistema perverso que exclui as mulheres negras de todas as esferas e nos torna menos que humanas. Sistema esse que também incide sobre o homem negro, alvo primeiro e preferencial da violência policial e da hipersexualização do seu corpo: o “homem do pau grande” é resultado da brutal animalização do corpo negro, sempre pronto pro sexo. Onde está a crítica desse sistema na televisão brasileira? De certo não está em seu seriado, muito menos em sua fala.

Repudiamos suas palavras porque fomos estupradas nas senzalas e continuamos a ser na dramaturgia feita por brancos sobre nós através de imagens estereotipadas em seriados, novelas e minisséries. Esse é um dos mecanismos que a aliança entre o racismo usa para se perpetuar: hipersexualizando a mulher negra que se torna desprezível para outros papéis sociais. Você fala da mulata quente, gostosa, fogosa. Somos muito mais que isso. Precisamos ser mostradas como as mulheres do dia-a-dia, que trabalham, dançam, fazem festa e querem sexo sim, mas que não são apenas isso.

Não estamos aqui menosprezando nem dizendo que não somos camareiras, domésticas, cabeleireiras: também somos trabalhadoras domésticas, cuidadoras. Mas sobretudo, com as nossas conquistas e a nossa luta, galgamos lugares, posições: somos diretoras, bailarinas, advogadas, publicitárias, escritoras, professoras e médicas. Onde elas estão no seu seriado? Será que elas não moram em Cordovil? Será que elas não estão nas periferias? Duvido muito. NÃO aceitaremos mais ser caricaturas! Por isso a critica vai além do nome da série, o que por si só é deveras problemático.

Ah! Branco, dá um tempo! Nem queremos crer que você está se comparando e recorrendo a Spike Lee para credibilizar seu trabalho. Não, nos recusamos. E não é somente porque Spike Lee é preto, é porque não vemos nada, absolutamente nada de crítica racial em “Sexo e as Nega” como vemos em “Faça a coisa certa”. O gueto é paisagem, mas também é a vida, é a teia, é o sangue do autor que não está só observando e contando sua versão dos fatos: Spike Lee está no gueto, ele é o gueto. E não alguém que não é “as nega”, alguém que pretende que nosso único objetivo de vida é ter um parceiro sexual.

E por favor, respeite nossa memória e retire suas palavras ao nos chamar de capitães do mato. Não estamos perseguindo as atrizes negras desse seriado, muito menos as mulheres reais que são representadas pelas suas personagens. Quem conhece um pouquinho de história e dela faz um uso bem intencionado, sabe que existem outras versões além daquela em que fomos escravizados sem lutar, viemos sem resistência num navio negreiro. Não se faça de desentendido, quem criou capitães do mato não foram os próprios negros.

Acusar alguém de “se tornar capitão do mato” é algo muito mais complexo do que formular uma frase. É impossível que sejamos algozes de nós mesmos, isso é falácia. Retire sua fala e reflita sobre o que significa nosso boicote e critica que têm como alvo um modelo e um sistema historicamente racistas, em que nem o direito de falar, contar nossas próprias histórias e tecer criticas nós temos. Repito: isso não é uma caçada ao povo negro nem à mulher preta e pobre. É sobre o racismo enrustidamente manifesto, sem nem se sentir ou admitir.

Manifestamos profunda oposição a esse mundo, de quem bate e finge entender a dor daquele que apanha. Esse mundo onde racismo agrada, é piada pronta para gerar audiência e naturalizar o racismo. Estamos fartas do seu discurso, de programas que usam blackface, que transformam toda mulher negra em empregada doméstica ou mulata globeleza. Nossos corpos não são espaço para seu deleite, divertimento, lucro ou usufruto. Nós somos mulheres negras de pena e teclado, ciosas e autoras de nossos próprios enredos e objetivos de vida.

Ah! Branco, dá um tempo! Quem nos silencia é racista sim.

Orange Is The New Black: a novidade feminista?

Alerta de spoiler! Esse texto revela informações sobre as temporadas do seriado Orange Is The New Black.

Gosto muito do seriado Orange Is The New Black, que teve a estreia de sua segunda temporada no início de junho, no serviço Netflix. A trama mistura drama e comédia ao mostrar o cotidiano de uma prisão feminina norte-americana. Além da diversidade sexual, de gênero, raça e faixa etária, é possível ver também uma diversidade de corpos pouco vista em outras séries com grande participação feminina. O que traz uma boa diversidade de representações femininas para a televisão.

Decidi propor a tradução do texto abaixo porque acredito que ele resume bem o que considero serem os pontos positivos da série e também aponta o que deve ser melhorado.

De inicio, as personagens são mostradas de forma completamente caricata, mas com o avançar da série e das temporadas vamos nos aprofundando nas motivações e complexidades das personagens (apesar de ver falhas no pouco aprofundamento das motivações de Vee, uma das grandes personagens da segunda temporada). Na segunda temporada, em particular, há um foco maior nas personagens negras, idosas e com transtornos mentais. As relações de carinho, amor e sexo também são mais exploradas, além das questões relacionadas ao sistema prisional e as relações de poder dentro e fora da prisão

Cada personagem não atende completamente a um estereótipo, nem mesmo a protagonista deixa de entrar em contradição, muitas vezes exibindo conflitos não só sociais, mas também psicológicos e filosóficos durante a série. Piper é desafiada a lidar com o próprio ego, mas também vemos o desenvolvimento das vidas das outras personagens quando ela começa a se voltar mais para os problemas coletivos da prisão.

Porém, sempre há pontos para melhorar. Apenas na segunda temporada, Larry se refere a Piper como bissexual. E, mesmo assim, o assunto é tratado de forma bastante invisibilizante. Alguns artifícios de humor utilizados na série ainda são limitados a situações caricatas e, as vezes, preconceituosas, como alguns momentos em que mostram os distúrbios de Suzanne ou as atitudes misóginas de alguns personagens masculinos, como Sam Healy ou George Mendez. Como o texto traduzido aponta, falta também explorar mais personagens asiáticas. Na segunda temporada temos a nova personagem Soso, mas creio que ainda não é representativo com relação a população asiática da América do Norte.

Um ponto de destaque é que, fora das telas, a atriz Laverne Cox tem aproveitado o seu sucesso para levantar importantes reflexões sobre os diretos das pessoas transexuais. O elenco da série tem participado de algumas paradas LGBT, a mais recente foi em Nova York. Lea DeLaria veio este ano para a parada LGBT de São Paulo. Esse comprometimento da produção e das atrizes em levantar a bandeira da diversidade tem reforçado as questões levantadas na série e trazido reflexões para outros espaços.

Imagem de divulgação do seriado Orange Is The New Black do Netflix.
Imagem de divulgação do seriado Orange Is The New Black do Netflix.

Orange is The New Black: a novidade feminista?

Texto de Lola Ripley. Tradução de Bia Cardoso. Publicado originalmente com o título: ‘The new feminist thing’ no site The F Word em 11/03/2013.

Drama sobre uma prisão de mulheres norte-americanas, Orange Is The New Black, conta a história de uma mulher presa por transportar dinheiro proveniente do tráfico de drogas. O seriado tem sido frequentemente elogiado pela variedade de representação das personagens femininas. Lola Ripley assistiu e encontrou uma mensagem forte e predominante de que todas nós estamos apenas a uma escolha de perder nossa liberdade, especialmente aquelas sem redes de segurança.

Orange is The New Black, escrito com base nas memórias da prisão de Piper Kerman, é um seriado sobre mulheres.

Você notará que, dessa vez, a palavra “mulheres” está sendo usada sem um qualificador, sem a necessidade de um asterisco ou parênteses para explicar melhor. Mulheres de diferentes sexualidades, raças, etnias, classes sócioeconômicas, identidades de gênero, formas e tamanhos, todas têm espaço, não apenas no episódio 13 da longa temporada, mas desde o primeiro episódio.

Este é um, dentre vários seriados oferecidos exclusivamente no serviço Netflix. A principal vantagem desse sistema é que as datas de lançamento (como aconteceu com House of Cards e a quarta temporada de Arrested Development) coincidem com as datas de lançamento dos Estados Unidos. Não há mais a chance de sofrer com spoilers na internet quando se começa a ver um novo seriado e não é preciso esperar seis meses para um canal do Reino Unido comprá-lo. É um progresso para os impacientes.

Parece, à primeira vista, que a criadora do seriado, Jenji Kohan, nos oferece uma versão alternativa de seu seriado de grande sucesso: Weeds, especificamente porque há uma protagonista branca e chorona envolvida com o mundo do crime. Porém, o grupo demográfico ocupado pela protagonista Piper Chapman (Taylor Schilling) é realmente a única semelhança, além do humor picante e das frases de efeito. Não se trata de uma versão do seriado Bad Girls com piadas, Orange tenta manter a coragem e a compaixão junto com os diálogos certeiros.

No entanto, o seriado não escorrega em apologias prolongadas. Um traço comum é que a maioria das detentas aceita que suas escolhas as trouxeram até este ponto. A variação está na forma que algumas usam essas escolhas como um distintivo de honra, enquanto outras apenas querem manter a cabeça baixa e serem servientes durante seu tempo.

Uma mensagem forte e predominante é de que todas nós estamos a uma escolha de distância da ruína, e ninguém está mais vulnerável do que aquelas sem redes de segurança. As histórias são tão variadas quanto são complexas: há mulheres que matam para proteger crianças, há as que foram motivadas por dificuldades econômicas a realizar atos desesperados, há aquelas manipuladas pelos homens de suas vidas ou que sofrem as conseqüências do fracasso dos mecanismos de apoio tradicionais, como a unidade familiar. Infelizmente, como na vida, as consequências são notavelmente semelhantes e agrupadas.

Tal como acontece com tantos dramas que tem um grande elenco, o uso de flashbacks é usado para mostrar uma nova história de fundo em cada novo episódio. Isto funciona especialmente bem, pois as mulheres navegam dentro e fora umas das outras, no limite que a órbita da prisão permite, aguçando o apetite do espectador ao descobrir como uma promissora estrela do atletismo acaba na prisão, ou como uma dócil fã de yoga tem um passado que prefere manter escondido. Mesmo a discussão sobre o aborto apresenta algumas reviravoltas diferentes, com foco principalmente em Pennsatucky (Taryn Manning) e Daya Diaz (Dasha Polanco), esta última após um relacionamento com um dos guardas.

Nenhum seriado é perfeito, claro, embora possa ser dito que este é um seriado que pode ser recomendado para qualquer pessoa com poucas ressalvas. Entretanto, poderia citar que enquanto há representação de mulheres negras e latinas exploradas, com personagens totalmente desenvolvidas fora do círculo imediato da narradora branca, personagens asiáticas são representadas por um detenta que mal recebe uma linha.

Há muitas discussões sobre raça, até porque Orange é focada numa mulher branca que vive uma situação de “peixe fora d’água ‘. É frustrante pensar que talvez isso tenha sido necessário por causa da ideia de que o seriado não seria vendido se fosse embalado simplesmente como um drama diverso passado numa prisão feminina. Dito isto, primeiramente, Orange parece servir estereótipos de cada grupo demográfico, entretanto, há uma sutileza em derrubar essas teses com o progresso dos episódios. Muitas vezes, na tentativa de evitar o preconceito, não pode haver a eliminação da cultura e da diversidade, o que acaba fazendo com que cada grupo de mulheres se encaixe numa visão vaga que as pessoas de classe média geralmente tem. Orange faz avanços nesta frente, e você não pode perder a discussão sobre “políticas para pessoas brancas” feita por Taystee (Danielle Brooks) e Poussey (Samira Wiley) no episódio seis da primeira temporada.

A amizade entre Taystee e Poussey é formidável, com temas que passam pela sororidade inesperada e a cooperação para se livrar de enroscos ao longo da série. Alianças de conveniência, laços familiares e amizades genuínas ganham ao menos o mesmo peso que as tramas românticas, isso, por si só, já é digno de comemoração.

Houve críticas compreensíveis sobre a descrição inicial de Piper como uma ex-lésbica, uma linguagem problemática que realmente é usada para mostrar as limitações de algumas personagens. O seriado caminha para discutir a sexualidade como um espectro, algo como uma verdade incomum em um meio onde a sexualidade é tão fluída quanto suas classificações.

Sendo mulheres presas, a questão do consentimento e do sexo aparece rapidamente como um tema central e, não há nenhuma timidez em mostrar a disparidade de direitos em uma situação em que os homens são responsáveis por mulheres vulneráveis. Este jogo de poder e a injustiça existente se torna mais proeminente com o progresso da primeira temporada e, em alguns momentos, a vontade de jogar coisas sempre que um determinado personagem aparece é forte. Mais uma vez, Orange resiste ao óbvio recurso dos personagens bons vs maus, humanizando até mesmo o pior dos guardas, mas nunca nos permitindo esquecer a facilidade com que escorregamos para o papel de predador.

A prisão é um campo minado de questões para desenvolver um bom drama e a atuação de Uzo Aduba no papel de Suzanne Warren é um destaque dentro de um elenco estelar. Com a apresentação da sua personagem “Crazy Eyes”, a discussão dos cuidados “psíquicos” dentro da prisão vai fazer com que você se recuse a usar esse apelido cruel novamente. As relações entre doenças mentais e crimes é propícia a uma maior exploração ao final dos 13 episódios, particularmente enquanto aguardamos o passado de Suzanne.

Outra performance de destaque vem de Laverne Cox, a primeira mulher trans, negra, a ter um papel de destaque em um grande programa de televisão. Como Sophia Burset, ela caminha pelo campo minado da linguagem ofensiva e de ameaças muito reais, proporcionando uma parte vital da infraestrutura carcerária com suas habilidades num salão de beleza e a amizade com as outras mulheres. As realidades da transição de gênero são tratadas com graça, juntamente com o desgosto da rejeição e da realidade financeira de ter um tratamento médico adequado negado na prisão. Sair do estereótipo da mídia, que só apresenta personagens trangêneros como profissionais do sexo, é notável.

Natasha Lyonne (como Nicky Nichols) e Kate Mulgrew (como ‘Red’) promovem momentos memoráveis, respectivamente ​como a viciada com um coração em que se pode confiar e a mulher russa que rege a cozinha da prisão com mão de ferro. Se você estiver com dúvidas se vale a pena ver o seriado, vale a pena investir e assistí-lo até o quinto episódio, onde é possível ver a alquimia de elementos se estabelecendo. Idade e atratividade convencional não são barreiras para o peso ou conteúdo do enredo de ninguém.

Finalmente, como uma mulher queer, é um alívio ver um seriado elogiado pela crítica e tão comentado pelas pessoas onde o romance principal é entre duas mulheres. Piper descobre que seu tempo na prisão será complicado pela presença de sua ex, Alex (Laura Prepon), a mulher que a envolveu em seu esquema operacional de tráfico de drogas, para começo de conversa. Embora o dedicado noivo de Piper, Larry (Jason Biggs), esteja esperando por ela no mundo exterior, fora da prisão, fica claro que Alex e Piper têm negócios inacabados. Se triângulos amorosos são recursos usados em demasia quando se trata de romance na televisão, pelo menos este sacode a ordem convencional das coisas. Enquanto os clichês da lesbiandade na prisão aparecem de vez em quando, há uma destreza no manejo desses clichês, o que faz com que personagens como Tricia (Madeline Brewer) e Big Boo (Lea DeLaria) sejam tão reais e complexas como qualquer outra personagem. Ninguém está reduzida a um simples rótulo aqui.

Você pode notar que os personagens masculinos são pouco mencionados ao longo desta crítica. Enquanto eles são relevantes para a trama, na maioria das vezes devido a malícia ou incompetência, o seriado não é decididamente sobre esses homens. As ações e caracterizações do seriado não são modificadas. Porque para mudar nós temos que focar nas mulheres e em suas histórias e, com isso, deixar os cavalheiros ficarem com os papeis de coadjuvantes e, algumas vezes, com o desconfortável alívio cômico. Se a televisão é amplamente reconhecida como um terreno mais fértil para as atrizes do que o cinema, esperamos que isso seja a continuação dessa tendência.

Treze horas de um programa de televisão agradável e diferente esperam por você. Porém, ao contrário das detentas da prisão de Litchfield, você pode encontrar-se desejando que a sentença fosse apenas um pouco mais longa.

+ Sobre o assunto:

[+] Por que Orange is the New Black é a melhor série do Netflix sobre poder. Por Leticia Arcoverde.

[+] Princesas da Disney viram prisioneiras de Orange Is The New Black.