O caso de Lori Grimes

A autora desse texto é a Sybylla. Ela já fez parte do nosso grupo, mas teve que sair por não acompanhar o ritmo frenético das discussões. Geógrafa e professora, também é uma grande fã de ficção científica e seriados. Escreve no blog Momentum Saga. Nos enviou esse texto sobre Lori Grimes, da série americana Walking Dead, por ver muito machismo e preconceito na maneira como as pessoas julgam as ações dela.

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Lori Grimes é uma polêmica entre os fãs da série dramática The Walking Dead, transmitida pelo canal norte-americano AMC e no Brasil pelo canal Fox, baseada nos quadrinhos de mesmo nome. Será necessário passar alguns spoilers sobre a série para que todos consigam entender o que acontece.

A série é baseada em um apocalipse zumbi. Os mortos caminham pela Terra e a sociedade sofre um colapso. Lori Grimes é uma pacata dona de casa e mãe de família, casada com um policial em uma cidade no interior da Georgia desde a adolescência. Poucos dias antes de o apocalipse acontecer, seu marido, Rick Grimes, personagem central da trama, é baleado gravemente em uma ação policial e é internado. Uma das cenas iniciais é justamente Rick acordando sozinho em um hospital abandonado.

Lori Grimes, vivida pela atriz Sarah Wayne Callies. The Walking Dead (2011)

Lori e o filho Carl escapam da cidade com a ajuda do melhor amigo de Rick e parceiro na polícia, Shane, com quem ela acaba tendo um caso enquanto estão acampados em uma pedreira fora da cidade. E o preconceito, os julgamentos e o linchamento em cima da personagem começam justamente aí:

“Ela nem esperou o marido esfriar e já foi dar pro melhor amigo dele.”

“Vagabunda, tem que morrer, fica jogando um amigo contra o outro.”

São só alguns entre outros comentários de baixo calão que tenho ouvido por aí. E já ouvi piadinhas dizendo que eu gosto dela por isso defendo. Não estou defendendo, apenas fazendo uma observação em cima do machismo claro e da misoginia dos fãs da série que não perderam a oportunidade de julgar a personagem. Acredito que a primeira coisa que devemos fazer é parar de pensar com a cabeça que temos neste momento da nossa civilização, pois num apocalipse a coisa seria bem diferente. Nós temos os confortos da vida moderna, não estamos correndo de zumbis pela rua, atrás de água, comida e abrigo. Em um apocalipse a estrutura e a sociedade vão cair por terra, pois não estamos preparados para lutar pela sobrevivência como nossos ancestrais faziam.

Em segundo lugar, Lori está sendo brutalmente julgada e ofendida por suas ações, sendo tachada de vagubunda entre outros adjetivos por ter transado com o melhor amigo do marido que julgavam estar morto. Mas se fosse o contrário, o marido fugindo da cidade com o filho e a melhor amiga da esposa dorme com ele, não seria o marido o julgado por não esperar a esposa “esfriar”, e sim a amiga mulher, leviana que não se aguenta ao lado de um homem. E, com certeza diriam que ele estava agindo certo, buscando proteger seu filho e que estava carente em uma situação tremendamente difícil. É sempre assim. A mulher aparece para tentar o pobre homem que não consegue controlar seus impulsos selvagens e respondendo ao chamado da natureza, realiza o coito. Enquanto isso, a mulher é uma vadia sem coração, que quer dar para todo mundo, sem noção de moral ou de julgamentos.

Se falo isso para os colegas que assistem à série, eles dizem: “Não, é nada disso!” Ou então: “Mas a Lori não presta, ela tem que morrer! Como você defende essa vaca?”. Eu inclusive evito discutir o assunto, pois sei o que vai acontecer, já que a maioria dos fãs é composta por homens e eles nunca estiveram em uma posição de sofrer com o machismo escancarado que professam. Quando o assunto são personagens da série, todo mundo aplaude as ações de Shane, o amigo. Shane se apaixona por Lori, mas quando Rick retorna e reencontra a família, ela fica ao lado do marido e Shane se sente rejeitado, vendo Rick como uma ameaça. Ele se torna cada vez mais agressivo, psicótico e obcecado, matando pessoas a torto e a direito pela série, inclusive para poder salvar a própria pele de uma horda de zumbis, ameaçando a estabilidade do grupo o tempo todo com seu comportamento imprevisível. A desculpa é que a atual situação da sociedade pede uma solução assim, onde os conceitos morais e éticos foram deixados de lado. Aí surgem os favoráveis:

“Ele tá certo, no apocalipse vai ser assim mesmo. Não podemos ter travas morais na hora de sobreviver.”

“Viva o Shane! É o único coerente nessa série!”

Hummm, deixa ver se eu entendi… Lori Grimes está sozinha no meio de um apocalipse zumbi, incapaz de se defender sozinha, com um filho para cuidar, presumindo que o marido esteja morto e ao dormir com o melhor amigo dele merece a morte, xingamentos e toda a sorte de julgamentos, mas Shane, psicótico, obcecado, assassino e impulsivo, que colocou o grupo em perigo e quer matar o próprio amigo desde o começo, merece aplausos por suas ações?

Outra parte da série que causou uma onda de protestos foi quando Lori descobriu estar grávida e pediu pílulas abortivas quando um grupo foi saquear uma farmácia. Ela colocou várias na boca e depois as cuspiu, sem saber o que fazer. Quando contou para o marido, ele se irritou por Lori não ter contado isso antes e que queria participar daquela decisão. Ela argumenta que eles não têm aquecimento, nem abrigo, comida ou acesso a médicos e hospitais. O choro do bebê pode atrair uma atenção indesejada para eles, visto que os zumbis reagem aos sons. A gravidez colocaria a todos em risco. E os julgamentos machistas começaram mais uma vez, inclusive com a polêmica sobre o aborto e que para a sociedade continuar, crianças precisam nascer.

Todos ali na série tomaram decisões equivocadas. É um apocalipse, oras! Mortos-vivos dominaram as grandes cidades, tudo entrou em colapso, todos os serviços. Como nós, que vivemos nesse mundo “civilizado”, com os confortos da vida moderna podemos algum dia pensar em sobreviver em um ambiente desses? Infelizmente, o machismo e a misoginia sobreviverão, pois o papo de “continuar a espécie, dar continuidade à civilização” vai aparecer. Desde o início dos tempos que a mulher é considerada um objeto, uma moeda de troca, um ser condenável por expulsar o homem do paraíso, aquela que tenta os instintos do homem até fazê-lo agir.

Com a personagem Lori Grimes não é diferente. Se ela está tomando decisões erradas ou agindo de maneira questionável, não é por ser mulher. Ela é um indivíduo como todos nós, que erra, chora e que tenta se agarrar à sobrevivência. E se ela está sendo mesquinha no que faz, o que dizer das ações dos outros personagens, em especial Shane, que todo mundo adora? Shane fica tão perturbado com a recusa de Lori assim que o marido dela volta, que tenta atacá-la e estuprá-la enquanto eles estão refugiados no prédio do Centro de Controle de Doenças, em Atlanta. Em quem jogaram a culpa por isso? Na Lori, claro, que começou um caso e depois “não quis dar mais”.

Como bem disse a Talita, no texto Minha vocação é contestar:

Não acredito em vocação ou chamado de qualquer espécie. Acredito em construção social. Portanto, proponho que pensemos como foi que se chegou à percepção do corpo feminino enquanto objeto a ser vendido e/ou entregue naturalmente, ao passo que o corpo masculino foi interpretado como merecedor ao uso de tal objeto, na forma do cliente. O cliente, como diria o clichê comercial, é aquele que tem sempre razão e merece sempre ser agradado.

É bem frustrante ver o tipo de pensamento que permeia a cabeça das pessoas. Vi mulheres julgando Lori Grimes, chamando-a de vagabunda, que deve ser devorada por zumbis e tal… Mas espera um instante. Sendo julgada única e exclusivamente por ser mulher? Todos nós temos capacidade de sermos bons, maus ou indiferentes, independente de nosso sexo, credo ou cor. Então esse debate sobre as ações de Lori, porque é mulher, não passa de machismo puro e escancarado para mim.

Glee e a subversão do sonho adolescente

Na produção audiovisual norte americana os adolescentes ficam divididos entre dois pólos opostos que jamais dialogam entre si. Um deles é a do adolescente atormentado pela sua condição de crescimento, cheio de dúvidas e crises existenciais, como na cultuada série Minha Vida de Cão, protagonizado por uma adolescente e talentosa Claire Daines e o dramalhão pré-indie Dawnson’s Creek, que lançou a Katie Holmes ao estrelato. A outra ponta é a comédia pastelão, com foco sexual e muita piada de duplo sentido, eternizada pelos clássicos do cinema Porky’s e American Pie — aqui, quanto menos o adolescente pensar e refletir sobre sua condição, melhor — as experiências com sexo, drogas e com os pais são abordadas através do escárnio. O ritual de passagem é sempre revelado, público e ridicularizado.

Felizmente na vida real essas duas pontas da adolescência se unem, se misturam e se equilibram, trazendo novas nuances do que é essa fase, mas poucas experiências cinematográficas ou televisivas conseguiam olhar para o adolescente de forma menos binária. Uma dessas experiências bem sucedidas é o seriado Glee.

Glee, série americana. Divulgação/Fox

Como fomos educados para saber, nas High Schools norte americanas os alunos são divididos entre losers e populares. E como fomos educados para também saber, é natural se contar a história do lado dos vencedores, mas não em Glee. Glee conta a história do lado dos outsiders: nenhum personagem se encaixa totalmente no status quo vigente e são permamentemente lembrados disso.

A trama

A história se passa em uma cidade fictícia do Estado de Ohio, num colégio público que recebe pouco finaciamento do governo. Um professor idealista (Will Shuester, interpretado pelo ator Matthew Morrison) decide retomar as atividades artísticas do colégio através da reativação de um clube de canto, extinto desde que ele era um garoto. Para as vagas se candidatam: Rachel, uma garota judia e arrogante e adotada por um casal de gays. Puck, o violento trouble-maker. Kurt, um garoto gay criado pelo pai machista. E Mercedes, que é dona de uma voz poderosa, mas se sente invisível por ser gorda e negra. Completam o grupo posteriormente: Finn, o quarterback e sua namorada, Quinn Fabray que perde seu status de musa do colégio ao se descobrir grávida.

Todos eles possuem algum senão que os separam de seus sonhos; e são sonhos simples, como entrar em uma faculdade, mudar de cidade, casar ou ter uma profissão legal: eles não possuem a sexualidade correta, a cor correta, a atitude correta, ou a grana suficiente para que esses sonhos se realizem — e é exatamente isso que o seriado mostra e questiona todo o tempo — ser quem você é poderá impedir você de realizar seus objetivos? Ser negra e gorda no mundo ideal não deveria a impedir de ser protagonista de um solo; ser gay num mundo ideal não deveria impedir de viver tranquilamente sem sofrer violência; ser mãe adolescente e doar o filho para adoção, num mundo ideal, não deveria impedir de merecer sair dessa cidade e se tornar uma adulta bacana; num mundo ideal ter síndrome de down ou estar numa cadeira de rodas não deveria impedir ninguém de viver sua sexualidade. Então por que no mundo onde vivemos, ser gay, gordo, cadeirante, negro ou grávida impedem, impossibilitam, barram, as diversas possibilidades do que eu poderia ser, viver e sentir?

É essa a pergunta que Glee tenta responder a cada episódio.

Mas felizmente, a resposta nunca é dada — essa missão jamais é bem sucedida, assim como as tentativas do professor Will Shuester de fazer com que seu coral ganhe prêmios e transforme os seus alunos em pessoas mais respeitadas dentro do universo estudantil — eles sempre serão párias para os outros. Ao invés de se masturbar com uma torta ou ter longas conversas sobre o significado dos sentimentos não ditos, o rito de passagem dos adolescentes de Glee é o de entender que ser pária para o mundo não significa ser pária de si mesmo. É assim que se cresce.

Law & Order: Special Victims Unit – Uma série que retrata a violência contra a mulher

Texto de Tâmara Freire e Maysa Luz.

Antes do início de cada episódio, Law and Order – Special Victims Unit se explica: “No sistema de justiça criminal, os crimes sexuais são considerados especialmente hediondos. Na cidade de Nova York, os policiais que investigam esses crimes são membros de uma unidade de elite chamada Unidades de Vítimas Especiais. Estas são suas histórias.” E haja história viu, já que a série está atualmente na sua 13ª temporada, sem perder o fôlego.

Por vezes, L&O: SVU se baseia em fatos reais que viraram manchetes nos jornais. E isso talvez seja o mais estarrecedor: os casos mostrados por mais sórdidos que pareçam, não são apenas fruto de um mente criativa, eles acontecem na vida real. Se não exatamente da forma mostrada, mas sim de formas semelhantes e até mais cruéis. O homem que sequestra a menina e a mantém em cativeiro como escrava sexual por anos? Check. Grupos que pregam que o sexo entre adultos e crianças deve ser permitido, desde que com o consentimento da criança (!)? Check. O patrão poderoso que assedia e engravida a empregada? Check. O treinador responsável pela ascensão de uma porção de atletas mas que, na verdade, molestava os alunos? Check. Minorias sendo assassinadas e jornais se preocupando mais com a manchete do que com as pessoas? Check e check.

E claro, todas as violências “banais” que a gente, infelizmente, está carec@ de ouvir. A mulher agredida e desacreditada, que acaba morrendo nas mãos do perseguidor. As crianças estupradas por seus pais ou padrastos. A menina molestada que se recusa a denunciar por vergonha ou medo. Os terapeutas e outros profissionais de áreas afins que se aproveitam da fragilidade dos pacientes para agredi-los sexual e emocionalmente. A mãe que vê a filha ser molestada e ignora por medo do marido e por ser ela própria também uma agredida.

Série da Tv Americana: Law and Order – Special Victims Unit / NBC

As vítimas especiais da série não são apenas mulheres, mas não é difícil concluir que a grande maioria delas são mulheres ou meninas. Porque, bom, é assim em qualquer lugar do mundo. Isso faz de L&O: SVU a única série que nós conhecemos, pelo menos, focada na violência contra a mulher e, o melhor, que não escorrega nas estereotipagens, no machismo e na abordagem preconceituosa e agressiva que afasta tantas vítimas das delegacias e deixa tantos agressores impunes.

Em um dos episódios, alguém insinua que a vítima teria facilitado o estupro, até pedido por ele, por causa das roupas ousadas que usava. E quantas vezes não ouvimos isso no nosso dia a dia? Quantas vítimas, ao invés de serem acolhidas, são julgadas pelas pessoas e também por policiais despreparados? A resposta da detetive sempre linda Olivia Benson – interpretada por Mariska Hargitay – não poderia ter sido melhor: mesmo que a mulher andasse nua, isso não não justificaria o estupro. Porque nada o justifica.

As promotoras da série Law and Order – Special Victims Unit

Um dos episódios mais memoráveis, Witness (Testemunha), da 11ª temporada, mostra uma jovem que chega à delegacia para denunciar o estupro que sofreu na escadaria de seu prédio. O fato de ela patologicamente tentar chamar a atenção das pessoas e não saber dar detalhes da agressão sofrida, além de dificultar o trabalho da polícia, faz com que o departamento comece a desacreditar de sua história. Ainda assim, as investigações continuam e os policiais descobrem que a jovem era vigiada por um vizinho e conseguem descobrir que há uma testemunha do estupro: uma mulher negra que teria batido no estuprador, possibilitando que a vítima fugisse.

A cereja do bolo é que essa tal testemunha trata-se de uma mulher nascida no Congo, que sofreu estupros coletivos, foi obrigada a casar-se com um de seus estupradores, viu a filha de cinco anos ser estuprada e morrer em decorrência da agressão e finalmente conseguiu fugir para os Estados Unidos, para se livrar da guerra civil. Com muito custo ela aceita testemunhar no julgamento e ouve o advogado do estuprador alegar que ela era uma terrorista, afinal de contas foi casada com um, e que ela confundiu uma relação consensual com um estupro e, “estava vendo estupro em todo o lugar.”

A resposta da testemunha foi que sim, ela estava vendo estupro em todo lugar, afinal de contas, ela mesmo fora estuprada diversas vezes, assim como todas as outras mulheres de sua comunidade, incluindo aí crianças e sua própria filha e por isso mesmo ela sabia muito bem diferenciar uma relação sexual de um estupro. Quando o homem foi condenado, a testemunha olhou incrédula e revelou que jamais pensou que veria um homem ser condenado por estupro. E não é do que muitas pessoas ainda têm dúvida?

Por muitas vezes, Law and Order pode nos fazer mergulhar em grande amargura: não é possível ver tantas barbaridades, saber que elas acontecem – ora, uma em cada três mulheres do mundo já foi espancada, estuprada ou sofreu algum tipo de abuso – e não sentir uma grande tristeza ao imaginar a dor pela qual essas vítimas passam. Mas a série traz esperança ao mostrar que os crimes sexuais – que afetam em escala muito maior as mulheres – podem ser combatidos, quando há estrutura e vontade.

Elenco da 11° temporada de Law and Order – Special Victims Unit

SVU também deixa um recado importante: ainda que as vítimas não sejam todas mulheres, os agressores, salvo raras exceções, são todos homens. Longe de nós querer promover um embate que coloque homens e mulheres em lados opostos, demonizando a ala masculina, mas as estatísticas não dão outros resultados e a série, sendo baseada em situação reais, não pode retratar algo diferente. Obviamente, não é o cromossomo Y que traz o gene do estupro e da agressão, o que nos leva ao ponto de que há algo muito errado na nossa sociedade patriarcal, para permitir que tantos homens agridam, estuprem e matem tantas mulheres. Até quando o cerne da questão – o machismo – vai continuar sendo esfumaçado pelas peculiaridades de cada caso?

Os personagens principais estão todos relacionados em algum aspecto aos crimes que investigam: tem a policial que é filha de um estupro, o detetive cuja filha está exposta a muitas situações de risco devido ao vicio por drogas, o capitão e a promotora alcólatras, a outra promotora que literalmente leva os sobreviventes de violência para casa. Talvez o principal atrativo do seriado seja exatamente esse. Imaginar que, um dia, o tratamento às vítimas de violências sexuais possa ser respeitoso, como afinal, todos merecemos.

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Maysa Luz é mulher, mãe, esposa, filha, nora, cunhada, neta, tia, amiga, irmã, cozinheira, leitora, carona, scrapper, navegadora. Escreve no blog Cento e Uma.