Feminista, eu????

Texto de Mari Moscou.

Hoje o assunto veio de uma inquietação com fatos recentes. Explico.

Muitas blogueiras feministas amigas se sentem inseguras, tímidas, e preferem se dizer “feministas estagiárias”, brincando com sua suposta inexperiência feminista. Ao mesmo tempo, muitas mulheres têm atitudes superfeministas, um ponto de vista essencialmente feminista mas não chegam nem perto de se reivindicarem feministas. Ué, caramba, que diacho!

Fiquei matutando isso.

Tem um fator aí muito discutido que é uma imagem estereotipada do que é uma feminista: um monstrengo peludo e bravo, pra dizer o mínimo. Mas, cá pra nós, só as pessoas über-ignorantes realmente se apegam a este estereótipo (oh, ofendi você? tadinho). As mulheres de quem eu falo, que têm atitudes e até discursos superfeministas sem se reivindicarem feministas em momento nenhum (às vezes até negando quando perguntadas se são feministas) não estão neste seleto grupo. Vou dar um exemplo, pra variar, da televisão.

Alex Cabot, personagem do seriado americano Law & Order: Special Victms Unit.

No seriado Law & Order – Special Victims Unit, tinha uma promotora de justiça, a Alex Cabot, que na sua atuação como promotora era superfeminista, pró-igualdade, etc (um dos policiais, o Elliot, por exemplo, apesar de trabalhar prendendo criminosos sexuais não tem nada de feminista). Em momento nenhum no seriado ela se reivindica feminista ou se envolve em algum tipo de ativismo para além do trabalho (grupos, organizações, etc). No final de sua participação na série ela vai trabalhar na ONU para processar crimes sexuais em massa como no caso do Congo. Era minha personagem favorita e a nova promotora é uma pentelhinha antifeminista mas deixem isso pra lá.

Ok. Alex Cabot não existe. Mas a Xinran existe. Xinran é uma chinesa que hoje vive na Inglaterra. No início da Política de Abertura na China, ela passou a apresentar um programa de rádio onde lia e comentava cartas de leitoras, sobretudo mulheres. Após décadas de censura e silêncio o programa dela se torna ultrapopular no país todo. Um dia ele recebeu uma carta de um menino pedindo ajuda para uma mulher de sua aldeia que estaria quase morrendo sem água, sem comida, acorrentada à casa por seu “marido”, um velho senhor que a comprara da família. Segundo o menino que pede ajuda outras mulheres já haviam passado pelo mesmo “marido” e desaparecido.

Xinran, jornalista e escritora chinesa. Foto de Michael Stuparyk/Toronto Star.

Atordoada, Xinran ficou sem saber o que fazer mas leu no ar a carta pedindo ajuda. E passou a receber centenas de cartas da China toda, de mulheres pedindo ajuda ou contando suas histórias. Quando deixou de trabalhar na rádio, Xinran partiu em uma viagem pela China recolhendo as histórias destas mulheres que tinham vivido a época da Revolução Cultural chinesa. E as conta em seu primeiro livro, ‘As Boas Mulheres da China’.

Desde então Xinran escreve e espalha pelo mundo as histórias de mulheres chinesas de várias gerações. O seu último livro, ‘As Filhas Sem Nome’, foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2010 e terminei de ler esta semana – tem um post sobre ele no meu blog. É igualmente fascinante mas me fez sofrer bem menos. As histórias são mais leves, sobre a geração mais recente de jovens adultas chinesas. Bem, fato é que além de toda essa militância individual (comparável à da personagem de Law & Order SVU), Xinran também participa de uma organização que trabalha com o afeto entre Mães e Filhas. Mas, ora, em momento nenhum ela se reivindica feminista ou é chamada de feminista pela mídia, etc. E suas atitudes são superfeministérrimas!

Então, aí me caiu um pouco a ficha: desconfio que a maioria das pessoas pense que só se é feminista quando se está envolvida em algum tipo de ativismo coletivo com cara mais “tradicional” (grupos, passeatas, panfletos, etc). Ora, é o mesmo que dizer que é preciso ser do movimento estudantil para ser estudante! Que é preciso ser do movimento negro para ser anti-racista! Que é preciso ser do movimento LGBTTT para ser anti-homofóbico! Caramba! Será que estou viajando meu povo?