Série Açougue: Pés

Texto de Marííia Coutinho.

Ela nunca teve chances: com três ou quatro anos de idade, foi simplesmente silenciada. Seus pezinhos em formação foram mergulhados em líquidos pútridos no preparo para o ato em si. Pegaram um dos pés e dobraram o dedão para trás até romper ligamentos, tendões e quebrar os ossos. Feito isso, comprimiram o calcanhar em direção ao apoio anterior do pé. Os ossos do arco foram quebrados para isso. Fizeram o mesmo com o outro pé. A mãe foi afastada para não ouvir seus urros de dor.

Foto de John C. Bullas no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Com ossos quebrados, ligamentos e tendões rompidos, os pés dela foram amarrados na posição deformada. A cada dia apertavam mais as ataduras. Quando finalmente pode encostar os pés no chão, a dor lancinante indicou o que seria sua vida para sempre: sofrimento físico e imobilidade. Uma prisão feita não com grades ou correntes, mas com a inutilização da ferramenta humana para locomoção: os pés.

Essa menina não é uma pessoa específica. O formato em script dramático foi feito para que você, leitor@, se aproximasse um pouco da realidade do que se calcula terem sido de um a quatro bilhões de mulheres submetidas ao ritual de deformação dos pés, praticado na China. Começaremos por aqui a viagem pela construção social do pé feminino.

A escolha não foi fortuita: a China é lá longe e a Idade Média também. Suficientemente longe para que nos horrorizemos com a tortura cruel a que todas essas mulheres foram submetidas. À medida que as temáticas comuns nos aproximarem dos nossos próprios pés, creio que o afastamento inicial nos permitirá entender que sempre tivemos nossos revolucionários pés amarrados.

Pés amarrados: a estética da submissão e da imobilidade

O ritual da deformação dos pés foi praticado na China durante mil anos. Iniciado no século X, a deformação de pés femininos só foi totalmente extinta por decreto governamental do governo comunista em 1949.

A produção de um pé deformado para uma mulher adulta começava na infância. A menina, entre 2 e 5 anos de idade, era submetida a penosas sessões de deformação dos pés que necessariamente produzia fraturas e outras lesões ortopédicas, além de risco de infecção. A infecção, necrose e perda de partes do pé parecem ter sido comuns. Não é difícil imaginar que a morte por septiscemia também.

Pelas descrições da literatura, a primeira sessão devia ser a mais difícil: é quando era necessário quebrar o dedão e os ossos do arco do pé. Apesar da manipulação constante atrasar sobremaneira a cicatrização óssea, eventualmente ela ocorria e os pés da mulher tornavam-se deformados para sempre.

À esquerda: comparação entre um pé comum e o deformado. À direita: raio-x do pé de uma chinesa. Foto: Wikimedia Commons.

Como e com que motivação explícita essa prática começou é apenas conjectura: está perdido na ausência de registros de séculos de tradição. O que é consenso entre os comentadores e estudiosos é que a mulher com pés deformados era um símbolo de status para sua família e marido. Afinal, apenas famílias ricas podiam se dar ao luxo de ter uma mulher em casa que não podia trabalhar, mas que requeria atenção constante para os cuidados com seus pés deformados.

A mulher com pés deformados se locomovia com muita dificuldade e mal. Pela perda da funcionalidade dos pés, ela precisava andar com os joelhos levemente flexionados, além da postura ser instável e não ereta. Não apenas o pequeno tamanho dos pés, mas a postura e andar alterados foram culturalmente construídos como belos e sexualmente atraentes.

O bottom line dessa história de mil anos de horror é que qualquer coisa pode ser construída como sexualmente atraente e bela: a cultura é o reino do arbítrio, para o bom e fascinante e, para o mal e horripilante. O fim da prática de amarrar os pés fez parte dos primeiros esforços feministas na China.

Para que servem os pés: um pouco de evolução, anatomia e cinesiologia

Todas as metáforas envolvendo pés e mãos, bem como a investida opressiva sobre estas duas partes do corpo em termos de sua funcionalidade, derivam da grande novidade evolutiva da qual nossa espécie é a pioneira: o bipedismo completo. Em função dele, temos mãos livres para um conjunto de tarefas motoras novas e de imenso impacto na realidade, como já vimos. Também em função dele, nossos pés passaram a ser a única estrutura que faz interface com o solo.

Foram milhões de anos de pressões evolutivas variadas. Vamos focar, no entanto, nas pressões seletivas e seu resultado em relação aos pés. Estas pressões foram principalmente relacionadas à eficiência do equilíbrio e da propulsão. Ainda que em outros primatas os membros inferiores tenham sempre sido os principais membros para a locomoção, esta se dava sempre com apoio parcial dos membros superiores (com os nós dos dedos, nas espécies com maior locomoção no chão) e, pés e mãos com agarre nas espécies mais arborícolas.

Parece natural que a relação entre a anatomia dos pés e nossa natureza, ou até mesmo identidade, tenha recebido a atenção da comunidade científica. Houve um boom de estudos sobre evolução dos pés (e mãos) nos anos 1920s e 1930s, interrompido por um período em que a ausência de evidência paleontológica provocou um certo marasmo. Com as novas descobertas dos fósseis de hominídeos nos anos 1960s, a pesquisa e discussão foram retomados em outro patamar.

As origens e evolução do bipedismo são um tema ainda agitado pela controvérsia e falta de consenso. O que alguns estudiosos acreditam é que rotas evolutivas distintas responderam às poderosas pressões seletivas que resultaram na anatomia e cinesiologia do pé humano moderno. O pé humano e o tornozelo compõem a estrutura mecânica que resultou de tais pressões seletivas. Ela contém exatamente 26 ossos, 33 articulações e mais de 100 músculos, tendões e ligamentos.

Observe abaixo três animações que mostram como este sistema mecânico funciona para produzir a marcha e a corrida humana (duas ações de importância fundamental desde a infância), com o equilíbrio e propulsão necessários:

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[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=MON0b3z_qCs]

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=d2txUtNp750]

 

Por que me preocupei tanto com a evolução, a complexidade da estrutura anatômica e a cinesiologia do pé neste ensaio? Para que você, leitor@, sinta fortemente a importância da primeira afirmação deste ítem: a pressão seletiva que resultou no pé humano moderno foi pela maior eficiência possível do equilíbrio e da propulsão.

Agora, o entendimento do efeito do ritual dos pés amarrados e de qualquer interferência na estrutura e função do pé ganha clareza política: elas interferem diretamente na expressão de nossa humanidade ao subtrair às vítimas seu equilíbrio e capacidade de propulsão. Elas são opressivas, sexistas e desumanizantes. Será que outras vertentes da cultura da forma não teriam efeito semelhante?

O salto alto

Se você pensou “salto alto”, pensou certo. Inúmeras comentadoras compararam o salto alto moderno com o ritual do pé amarrado chinês (aqui e aqui). Tanto um quanto o outro fazem com que o pé pareça menor, característica construída como sexualmente atraente nos dois contextos culturais. Tanto um quanto o outro deformam o pé (embora o salto alto não tão dramaticamente), pelo menos enquanto usado o calçado. Tanto um quanto o outro alteram a postura e a marcha, nos dois casos para uma postura e marchas construídas culturalmente como sexualmente atraentes.

Observem os dois vídeos abaixo com animações explicativas sobre o efeito do uso de sapatos de salto alto sobre a marcha e os potenciais riscos lesivos:

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[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=f7st5TNDHGU]

 

Saltos moderados começaram a ser usados nas cortes européias no século XVI. Os saltos muito mais altos, no entanto, apareceram somente no século XX. Os saltos exageradamente altos são frequentemente associados à indústria pornográfica. Mais uma vez, da mesma maneira como com outras opções estéticas, a despeito de todos os riscos e problemas ortopédicos, o problema político não está na existência e uso do objeto, mas na sua imposição – direta ou indireta – às mulheres.

Assim como espera-se de uma prostituta que use saltos altos, também espera-se de secretárias, recepcionistas e outras trabalhadoras do ambiente executivo em escritórios. O mesmo se dá com garçonetes. Em junho de 2013, o sindicato de garçonetes dos Estados Unidos colocou a exigência dos saltos altos em pauta na nagociação com contratantes. O sindicato alega que, além de lesivo, o uso de saltos altos pode ser uma forma de livrar-se das garçonetes mais velhas, já lesionadas demais para suportar o uso dos mesmos.

Foto de abrinsky no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de abrinsky no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A psicologia evolutiva nunca decepciona no besteirol

O que mais, se não um impulso incontrolável geneticamente codificado nos faria, como espécie, valorizar pés femininos pequenos? Campo para nossa conhecida usina de bobagem conservadora, a psicologia evolutiva, produz suas “evidências” com fundamento metodológico passando quilômetros de um olhar antropológico crítico. Nessa linha, Voracek e colaboradores “demonstraram”, através de “diferentes métodos”, que pés pequenos em mulheres são uma medida de atratividade em nossa espécie.

Não importa que as amostras tenham sido 75 homens e mulheres do Canadá e Áustria hoje: isso é irrelevante para estes pesquisadores. O fato de serem ambos países com economias de mercado bem desenvolvidas, urbanos e majoritariamente caucasianos, com herança cultural européia é igualmente irrelevante para eles.

Como os autores sérios em biologia evolutiva ou estudos sociais da ciência afirmam, não há discussão científica possível com a psicologia evolutiva: o diálogo está fora do âmbito da ciência por não considerar consensos intelectuais há muito estabelecidos, bem como parâmetros mínimos de rigor metodológico na pesquisa social. Não há o que discutir em relação a pseudo-estudos tautológicos que demonstram seu pressuposto e não uma tese verificável.

É evidente que a atratividade sexual de pés pequenos femininos é tão essencial ou biológica quanto a proporção quadril-cintura, tamanho de nariz, comprimento de cabelo, cor de pele ou a bobagem que se quiser demonstrar associada à ideologia dominante, ou seja: nada.

Ornamento: as várias formas de construir a beleza

Assim como mãos, barriga, rosto, cabelos e outras partes do corpo, os pés das mulheres (e dos homens também, embora bem menos) têm sido ornamentados em quase todas as culturas desde tempos imemoriais. Mesmo sociedades que floresceram e resistem em locais frios têm seus calçados, que naturalmente são objetos de construção estética como ornamento, além do uso prático como proteção aos pés.

À esquerda: ornamento de prata indiano. À direita: ornamento artesanal neo-pagão moderno.

Jóias e arte corporal, como tatuagens, podem representar marcas de distinção e status social em sociedades tradicionais. Algumas formas tradicionais ainda persistem. Hoje, no entanto, a ornamentação dos pés foi apropriada de diversas maneiras por mulheres de todo o mundo. Fazem parte de um repertório universal com o qual se constroem identidades e as próprias representações do belo, com múltiplos diálogos através do tempo e das culturas.

Em sentido horário: 1) Desenho de ornamentos para pés e dedos dos pés no início do século XX (Índia); 2) Tatuagem e ornamento matrimonial indiano; 3) Ornamento para pés do Yemen.

Vivendo a contradição

A época do policiamento por coerência, graças a todas as divindades inexistentes ou, se você quiser, existentes, está se acabando. Acredito que nossa função ao exibir as entranhas da construção social de coisas tão prosaicas como sapatos ou talheres é mostrar que a própria ideia de coerência é ingênua, boba e insustentável. Coerência com que?

O que se pode buscar é o caminho da maior libertação pessoal e social possível. Acabar com práticas que envolviam tortura e abuso de crianças, como os pés amarrados chineses é uma questão pacífica: nem merece discussão. Mas o que dizer sobre os saltos altos? É inegável o paralelo com os pés amarrados. Ainda assim, muitas mulheres com alto grau de consciência sobre as questões de opressão de gênero usam, e bastante, os saltos altos.

Marília Coutinho. Serafina, Folha de São Paulo, fevereiro de 2013. Imagem de Bob Wolfenson.

Como ficamos?

Ficamos com o poder de tomar decisões mais bem informadas. Sabendo de onde vêm as representações, cada uma de nós está mais empoderada para perambular pelo repertório estético de alta carga ideológica de gênero e fazer as melhores escolhas para si. E. para me incluir nesse imbróglio (in)coerente, aí ao lado uma das mais belas fotos já tiradas de mim, por Bob Wolfenson.

Eu sou uma atleta de alto rendimento, dependo dos meus pés e tornozelos íntegros para minha arte e minha profissão. Uso botas e tênis no dia-a-dia e para minha prática. Não sei andar com salto alto. Para chegar até o local onde foram feitas as fotos (um percurso ridículo de 15 metros), fui ajudada.

O que eu acho? Lindo de morrer! Mas, como dizem, “só para bater um retrato”.

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Autora

Marília Coutinho é atleta profissional de levantamento de peso, bióloga, bioquímica, doutora em sociologia da ciência e atua em ciências do esporte. Seu site: http://www.mariliacoutinho.com/

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Outros textos da Série Açougue

[+] Bunda [+] Peitos [+] Barriga [+] Mãos

Série Açougue: Mãos

Texto de Marilia Coutinho.

Na ‘Série Açougue’, estamos examinando cada corte do corpo feminino para entender como sua “feminilidade” foi socialmente construída segundo agendas opressivas às mulheres. Vimos como a bunda, o peito e a barriga femininas são construídas segundo estéticas desumanizadas, ditadas por interesses estranhos às mulheres e, como estas estéticas ferem até mesmo as funções fisiológicas e a diversidade anatômica.

Neste capítulo, em vez de começarmos pela (per)versão feminina do corte em questão, vamos discutir a mão humana em geral. Nesta discussão, vamos percorrer os temas do trabalho, da guerra e agressão, da transformação do mundo, do prazer e o último ítem é surpresa.

As mãos de Marília Coutinho.
As mãos de Marília Coutinho.

A mão, o trabalho e a guerra

Olhe para suas mãos. O que você está fazendo agora? Você pode ter aberto seu computador ou equipamento móvel para recreação, por motivo nenhum, porém, o mais provável, é que ele seja uma ferramenta do seu trabalho. O que quer que você faça com ele depende dos seus dedos e, portanto, da sua mão.

Se você fizer rapidamente uma lista de 10 ocupações, a função da mão do trabalhador nelas será maior ou menor, mas será sempre central. O papel da mão no trabalho é tão fundamental que os primeiros discursos científicos sobre ela, vindos tanto das ciências sociais, da economia e da anatomia, atribuíam a esta relação o papel central na evolução de nossa espécie. O homem teria se humanizado através de uma evolução combinada da anatomia da mão e do neocórtex cerebral mediada pelo trabalho (Engels 1883). O homem era o homo habilis, o homem que trabalha. Os artefatos neolíticos de pedra lascada recuperados em sítios arqueológicos foram interpretados à luz destas teorias (seriam utensílios) e a pegada humana, única entre os primatas, com o polegar em oposição aos dedos, foi descrita vis-à-vis às mesmas.

Os primeiros estudos foram conduzidos por Napier. Este pesquisador procurava explicar um registro fóssil encontrado em 1960, em Olduvai, Tanzania, datado de 1,7 milhão de anos atrás, depois classificado como sendo do gênero Homo. O fóssil justificou a identificação da espécie homo habilis (“homem hábil”) como a primeira de nosso gênero. Napier abriu caminho para o estudo da evolução da mão e pegada humanas. As duas pegadas fundamentais, detalhadas depois em estudos subseqüentes, foram as de precisão e de potência.

Pegada de precisão. Ilustração de iara Coutinho.
Pegada de potência. Ilustração de Iara Coutinho.

Em 2003 , Richard Young reviu os dados paleontológicos e observou uma discrepância fundamental: a pegada humana, bem como o neocortex do homem moderno, precedem a produção dos artefatos de pedra lascada. O trabalho propõe uma interpretação inteiramente diferente sobre a mão e a pegada humana, numa verdadeira substituição paradigmática. A pegada humana teria sido resultado de uma outra linha de pressão evolutiva. Em vez do trabalho, a guerra. Bandos de humanóides desbravando ambientes hostis teriam sofrido pressão seletiva para a sobrevivência dos mais hábeis em lutar, matar e guerrear, não em produzir utensílios.

A partir daí, as pegadas de precisão e potência foram re-interpretadas como pegadas de arremesso e de golpe (“throwing” e “clubbing”). Onde entra o trabalho, então? Como função posterior de uma espécie já selecionada como hábil para matar (caçar, defender e dominar), alterar as relações com seu ambiente e ocupar novos nichos ecológicos.

A transformação do mundo, portanto, deve ser vista como resultado não apenas do trabalho humano, mas também da violência que ele é capaz de exercer. O novo requer a destruição do velho para sua emergência e, o papel da violência na cultura humana não me parece muito controvertido. Toda transformação é violenta e toda ocupação de novos espaços é destrutiva.

Quando, hoje, nos organizamos para combater a injustiça (o exercício de violência socialmente avalizada de grupos mais empoderados sobre os menos empoderados) ou a destruição do meio ambiente (a modificação irracional e injustificada das relações ecológicas em detrimento de todas as espécies, inclusive a nossa e, da degeneração de parâmetros ambientais saudáveis), o que estamos fazendo é negociar o exercício da violência e da destruição segundo os vários interesses em jogo, incluindo a continuidade da História humana no planeta.

Pronto. Já temos dois dos quatro elementos importantes para refletir sobre a mão. Temos o trabalho e a transformação do mundo. Neste momento convido os leitor@s para um coffee break com um pouco de música. A primeira será certamente desconhecida das mais jovens e talvez de boa parte das mais velhas também. Chama-se “Plegaria de um labrador” (oração de um camponês). A escutei pela primeira vez num quartinho escuro qualquer, numa fita k-7 vinda escondida na mala de alguém que tinha estado na Argentina, aquele lugar onde podia tudo. Vem do tempo da inocência (a minha, pelo menos). A segunda é “Hands that built America” do U-2.

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Embora este não seja um capítulo sobre a revolução latino-americana e nem sobre a construção da America, as duas músicas nos ajudam a refletir sobre seu tema, que é a mão da mulher. Leia os seguintes trechos das letras:

“Levantate y mirate las manos. Para crecer, estrechala a tu Hermano. Tu, que manejas, el curso de los ríos. Tu, que sebraste, el vuelo de tu alma”. (Levante-se e olhe suas mãos. Para crescer, estenda-a a seu irmão. Tu, que modificas o curso dos ríos. Tu, que semeaste, o vôo de sua alma).

“These are the hands that built America (Russian, Sioux, Dutch, Hindu) Oh, oh oh, America (Polish, Irish, German, Italian)” (Estas são as mãos que construiram a America (Russas, Sioux, holandesas, hindús). Oh, oh oh, America (Polonessas, irlandesas, alemãs, italianas).

Como é uma mão tão poderosa assim? Uma mão que muda o curso dos rios, que derruba poderosos, que constrói edifícios imensos e, enfim, faz a História e a Civilização? São mãos fortes e cascudas. É. em oposição a estas mãos que trabalham e transformam o mundo, que comandam e dominam, que a mão feminina é construída como prescrição formolátrica.

A mão feminina: os movimentos

Os movimentos femininos com as mãos são caracterizados pela flexão incompleta das articulações das falanges, ou seja: permitem a verificação de que se trata de uma mão fraca.

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Enquanto o típico gesto masculino com as mãos é o firme fechamento do punho, com flexão completa e isométrica das articulações das falanges (“punho cerrado”), o gesto feminino é o dos movimentos fluidos e contínuos, sem agarre:

“Practice pretty and feminine gestures. Pick up a vase or a flower as if youenjoyed handling it. Don’t GRAB. Learn to use your hands femininely and gracefully.” (Pratique gestos femininos bonitos. Levante um vaso ou uma flor como se os apreciasse. Não AGARRE. Aprenda a usar suas mãos de maneira feminina e graciosa). Referência: How to get beautiful hands.

A habilidade feminina é, em geral, associada a atividades que utilizam as pegadas de dedos (“pinching”). Típicas atividades de habilidade feminina são os artesanatos com fios e contas, por exemplo. Embora, hoje contemos com aparatos tecnológicos que em grande medida substituem o esforço humano, é seguro dizer que a transformação profunda da realidade requer força e agarre. A mão que não agarra não é capaz de utilizar com proficiência uma ferramenta de construção e destruição, como uma enxada, um martelo, uma lança, uma espada, uma britadeira ou mesmo carregar objetos de um lugar até outro.

Assim, as prescrições dominantes quanto aos movimentos da mão feminina restringem sua participação no universo do trabalho, especificamente do trabalho transformador e da transformação do mundo em geral. Talvez, por isso, desde que o vi pela primeira vez, simpatizei com o símbolo internacional do movimento feminista. Até então, o punho cerrado era apenas um símbolo de luta encarnado numa figura masculina. No meio do círculo com cruz, no entanto, significa o punho cerrado da mulher, um punho que pode fechar, exercer força, trabalho, criação e ação transformadora. Alternativamente, temos as figuras de mulheres com o cotovelo fletido, exibindo o bíceps e o punho cerrado, na mesma linha interpretativa.

Mãos e mulheres com cotovelos mostrando o bíceps, símbolos do feminismo internacional.

A mão feminina: a pele

As prescrições quanto à pele feminina denunciam tanto as restrições quanto à participação feminina no universo do trabalho, e da transformação do mundo, quanto a rejeição sexual à mulher idosa. A mão feminina é lisa, macia e sem manchas.

A pele é o maior órgão do homem. Sendo nossa espécie uma das únicas entre os vertebrados sem uma proteção externa por pelagem ou couraça, nossa pele tem adaptações interessantes a esta nova condição “pelada”. Uma delas é a queratinização adaptativa ou calejamento. Trata-se de uma acumulação de células, chamadas queratinócitos, totalmente diferenciadas. Estas células morrem e permanecem como uma proteção impermeável e mecanicamente resistente para a área sob ação abrasiva ou de impacto crônico.

Assim, a calosidade na mão é uma marca adaptativa de seu uso contínuo para alguma tarefa física. “Estar calejado” é uma metáfora para ser experiente em algo. Ora, a mão feminina prescrita pela formolatria é a mão de alguém inteiramente inexperiente no que se refere a qualquer atividade de intervenção física no mundo: é uma mão lisa, sem marcas, macia e, portanto, sem uso.

A mão feminina é também uma mão jovem. A prescrição de que a mulher deve dar especial atenção à mão pelo fato de ser ela o verdadeiro indicador da idade revela que para a manutenção do “status” feminino é importante resistir a todo custo ao envelhecimento. A mão idosa não é uma mão feminina: é uma mão asexuada.

A mão feminina: as unhas e o sexo

As unhas são um capítulo especial na prescrição formolátrica da mão feminina. A decoração das unhas através de tintas coloridas (esmaltes), pedrinhas ou outros ornamentos tem uma longa história e entra no multi-facetado reino da ornamentação corporal. Tem algo de lúdico, algo de marca social, algo de artístico e algo que diz respeito a misteriosa atração aparentemente inata pelo belo e pelo ornamento, construídos social e contextualmente como forem. Ornamenta-se unhas por todos esses motivos.

E a unha longa? A unha longa e ornamentada é uma outra história. A partir de um certo comprimento, a unha compromete os movimentos da mão. Primeiro, impedem um fechamento firme e completo do punho. Segundo, são impecilho para a manipulação de diversas ferramentas. No entanto, as unhas longas impedem o emprego da mão da mulher em outra esfera de intervenção: o sexo. Uma unha excessivamente longa é um impecilho não somente para a masturbação como para o sexo entre mulheres.

A maior fonte de prescrição de unhas longas, curiosamente, é a indústria pornográfica mainstream. Tendo em mente que esta indústria é fortemente heteronormativa, tentem lembrar de imagens fotográficas ou filmes pornográficos com mulheres e unhas longas. Alguém realmente se convence de que a manipulação sexual feminina com unhas longas é eficiente? É claro que não! Mas, como tudo na indústria pornográfica mainstream, esse é mais um teatro para a estimulação erótica masculina. Não importa, se é ou não realista, que as duas moças estejam conseguindo confortavelmente enfiar o dedo na vagina uma da outra com unhas imensas. Importa que o espectador compre esta (e outras) mentiras e se estimule com ela.

Exemplos de unhas grandes.

O problema é que a prescrição de unhas longas não fica restrita às atrizes de filme pornô. Como tudo desta indústria, através do sistema formolátrico, ela “vaza” para a sociedade em forma de prescrição. Ainda que não consigam administrar unhas pornográficas na prática, as mulheres tentam, porque mais este ítem foi acrescentado ao menu de prescrições do ideal de beleza feminina.

Eu e minhas mãos

Tenho uma coleção com mais de 40 esmaltes, de diferentes cores. Vários tons de azul, verde, laranja, roxo e tantas outras que vou achando interessantes. Se tivesse tempo, trocaria de cor duas vezes por semana. Olho para minhas mãos e parecem colarezinhos de contas coloridas. Basta um algodão com acetona e apaga-se uma cor para substiuí-la por outra. Acho muito divertido.

Desde o primeiro capítulo da ‘Série Açougue’, sempre insisti que existe um belo. No entanto, o belo ideologicamente prescrito pela indústria da beleza não apenas impede a construção do próprio belo, num diálogo com quem quer que a pessoa escolha como interlocutor, como introduz obstáculos a manifestações corporais espontâneas, necessárias e cinesiologicamente saudáveis.

Foi assim com a bunda, com o peito, com a barriga e, não é diferente com a mão. A prescrição formolátrica para a mão feminina é um obstáculo ao seu exercício para o trabalho, para a transformação do mundo e para o sexo.

E do que mais a mão participa? Muitas coisas. A mão faz arte, processa alimentos (“cozinha”), a mesma mão que agride e mata, que limita o outro e protege a si, também manifesta amor e oferece apoio. Para finalizar, quero apresentar as minhas mãos. As minhas mãos são mãos que trabalham, que transformam o mundo e que me dão prazer. São mãos que fazem uma quarta coisa: viabilizam transcendência.

Aqui está a transcendência. Ela acontece neste espaço entre eu e a barra. A barra carregada com ferro, ferro vindo das profundezas do útero da Terra para as minhas.

[youtube=http://youtu.be/Ie0V-n9iLnw]

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Autora

Marilia Coutinho. Foto: arquivo pessoal.

Marília Coutinho é atleta profissional de levantamento de peso, bióloga, bioquímica, doutora em sociologia da ciência e atua em ciências do esporte. Seu site: http://www.mariliacoutinho.com/

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 Outros textos da Série Açougue

[+] Bunda [+] Peitos [+] Barriga [+] Pés

Série Açougue: Barriga

Texto de Marilia Coutinho.

Entramos no nosso terceiro capítulo da ‘Série Açougue’. Saímos dos dois itens que, no imaginário publicitário definem a mulher: peito e bunda. E as demais partes do corpo? Seriam menos estigmatizadas por marcas ideológicas de gênero? Penso que não. Penso que em todas as partes para onde dirigirmos nosso olhar no corpo feminino veremos as marcas das representações de gênero e, em nossa sociedade, as marcas da formolatria.

Hoje, nosso corte nesse açougue é a barriga. A primeira coisa que chama atenção em relação à barriga feminina é a prescrição quanto à sua inexistência. Se peitos e bundas deveriam ser redondos, firmes, assim ou assado, a barriga é um espaço vazio. A melhor barriga, do ponto de vista formolátrico, é a “barriga chata” ou a não-barriga.

É difícil falar de barriga feminina sem falar da prescrição de magreza e da rejeição à gorda (também chamada de gordofobia). Embora seja uma questão não menos importante e dolorosa, não é esta a proposta desta série. Então, voltemos à forma da barriga e para a inversão destas questões: barriga e peso, do ponto de vista da barriga.

A barriga chata

A barriga chata é a barriga que não tem quase gordura subcutânea, não tem gordura visceral, não tem muito músculo e cuja portadora também não tenha tendência à flatulência ou qualquer perturbação intestinal.

Exemplos da chamada “barriga-chata”.

A maior parte dos programas de “perda de peso” visam a barriga. O termo “perda de peso” já é um problema. O mínimo que se pode dizer sobre essa expressão é que reflete desinformação. O pior é manipulação, mesmo: a maior parte das pessoas que quer “perder peso” quer modificar sua forma. Outra parte quer porque o médico mandou, associando o “excesso de peso” à diversos sintomas presentes e riscos como a pressão alta, indicadores como triglicérides ou colesterol alto e o risco de síndrome metabólica e diabetes tipo 2. Deixemos esta população que está preocupada com a saúde para o último item. O foco agora é quem quer perder peso para modificar sua forma.

A modificação da forma tem uma relação apenas indireta com o peso. O que modifica a forma é a mudança na composição corporal. A composição corporal é a proporção de massa magra (composta principalmente de músculo) e gordura que tem uma pessoa.

Uma busca no Google com a expressão “lose weight” (perca peso ou perder peso) produz 56.900.000 resultados. A expressão “belly fat” gera 9.420.000. A expressão  “lose belly fat” gera  8.660.000.  Nesta primeira análise superficial da mídia vemos que a barriga responde por cerca de 17% de tudo que é apresentado para se perder peso. Se observássemos cada link relacionado ao tema, no entanto, veríamos esta proporção aumentar.

Numa busca no Google images com a expressão “lose weight”, analisei os primeiros 20 resultados (primeiros resultados têm um papel diferente na métrica de mídia digital). Dos 20, 11 eram imagens de barriga. Destas 11 imagens, 100% apresentavam mulheres e apenas uma tinha um casal.

Imagens resultantes da pesquisa no google usando os termos “perder peso”.

Esse bombardeio leva as mulheres a se engajarem em programas de redução de peso de todos os tipos, com ou sem drogas, com ou sem exercícios. Se for com exercícios, serão os famosos “aeróbicos”, apresentados erroneamente para as clientes como aqueles que melhor promovem o resultado esperado, que é a mudança na forma. Sim, ela quer se livrar da indesejada barriga. O que ela terá, no entanto, se der certo o programa, é uma perda de tudo: gordura e músculos em toda parte. O resultado obtido, então, como bem diferente do esperado, é flacidez. O problema original, que era a barriga indesejada, se multiplica em bunda e peito caídos, pernas flácidas com estrias e celulite aparentes, além de um aspecto geral de “balão murcho”.

Existem treinos muito específicos, associados a dietas, que produzem, se a genética da mulher for favorável, corpos com bundas redondas, barrigas chatas e, com o devido silicone, peitos grandes (sem silicone, nem pensar). Duas modalidades esportivas bastante polêmicas se especializam nisto: a categoria “bikini” da IFBB (International Federation of Bodybuilding) e a “toned” da NABBA (National Amateur Bodybuilding Association). Como relatam as atletas destas categorias, o trabalho para “esculpir” corpos assim não é nada simples. É uma modificação corporal não apenas difícil, custosa como cara.

Exemplos das modalidades competitivas “bikini” e “toned”.

Assim como tudo que é prescrito pela formolatria, a “barriga chata” é praticamente inexistente. É atrás dela que estão as mulheres que sofrem de insatisfação corporal. É atrás do dinheiro delas que está a indústria da beleza.

O mercado

O mercado de emagrecimento, o qual, como vimos, tem como alvo preferencial a sua barriga, é gigantesco: o U.S. Weight Loss & Diet Control Market Study estimou, em 2009, em 61 bilhões o valor da indústria de emagrecimento, que abrange diversos setores. Este valor cresce a cada ano, a despeito da crise econômica. Curiosamente macabro é o crescimento paralelo da taxa de obesidade naquele país. O mínimo que concluímos é que todas essas atividades que, supostamente buscam atacar o sobrepeso, do ponto de vista epidemiológico, são inócuas.

As drogas para perda de peso (e de barriga) são alvo de muita polêmica. Boa parte dos profissionais sensatos contra-indicam seu uso pelos efeitos colaterais que exibem. Estas drogas têm uma história dramática e deixaram um rastro de mortes e desordens atrás de si.

Um dos primeiros medicamentos a ser banido pelo FDA (US Food and Drug Administration), em 1938, é o dinitrofenol (DNP). O DNP é um composto utilizado na fabricação de tintas e preservativos de madeiras. Ingerido, ele é um potente veneno que atua no desacoplamento da fosforilação oxidativa, fazendo com que o organismo gere mais e mais calor sem a correspondente quantidade de energia. O resultado é o risco (alto) de morrer assado. Muitas pessoas morreram sendo as principais vítimas, mulheres.

As drogas para perda de peso são variadas. Os principais grupos continuam sendo os anorexígenos, entre os quais as anfetaminas ainda têm um lugar importante, e os inibidores seletivos de absorção de nutrientes. Boa parte dos medicamentos para perda de peso são também estimulantes e entre os efeitos colaterais estão síndromes de ansiedade.

Existe uma guerra entre a indústria farmacêutica e os fabricantes de produtos “naturais” (com menos efeitos colaterais e não classificados como drogas) para a perda de peso. São bilhões de dólares em jogo. O número de programas de atividade física para perda da “barriguinha” ou dietas com a mesma finalidade é imenso. Uma busca no Google com a expressão “diet lose belly fat” resultou em 12.500.000 resultados, entre os quais os cinco primeiros são:

  • como perder gordura na barriga: dicas para uma barriga chata;
  • dieta da barriga chata: perca gordura na barriga e achate-a;
  • plano de 7 dias para uma barriga chata;
  • doutor da dieta: as melhores formas de perder gordura na barriga (Revista “Shape”);
  • 12 truques para ajudar a perder gordura na barriga (Revista “Cosmopolitan”).

Uma busca por “exercise lose belly fat” resultou em 14.300.000 resultados. Os cinco primeiros são:

  • os 5 exercícios “top” para perder gordura na barriga;
  • treino para abdome: a maneira mais rápida para perder gordura na barriga (Revista “Shape”);
  • melhores exercícios para os “love handles” (alças do amor, eufemismo para a gordura lateral da barriga);
  • exercícios para perder gordura na barriga;
  • 3 exercícios para queimar gordura corporal.

Leitora, o melhor que se pode dizer de cada um destes links é que se trata de charlatanismo. A deposição de gordura no abdome ocorre como resultado de uma composição corporal com maior percentual de gordura, combinada a determinantes hormonais, que farão com que ela se deposite preferencialmente em determinadas regiões do corpo.

É fisiologicamente impossível que um programa nutricional promova a perda da gordura em uma região e não em outra, pois o programa nutricional manipula composição macro-nutricional da dieta e ingesta calórica, não hormônios. É fisiologicamente impossível que qualquer programa de exercícios promova a perda preferencial de gordura em uma região do corpo em detrimento de outra. Charlatanismo dá muito dinheiro, especialmente quando vem no rastro de algo tão poderoso como a formolatria.

O que é a barriga?

Também conhecida como abdome. É nele que estão localizados os órgãos vitais da pessoa. Eles ficam organizados nesta área, protegidos pela caixa torácica e a musculatura abdominal.

A musculatura abdominal é parte do chamado “core”, o complexo muscular lumbo-pélvico-abdominal-dorsal, reponsável pelo equilíbrio e eficiência na postura bípede. Pode parecer esquisito, mas nossa musculatura abdominal é mais recrutada para tarefas simples na posição ereta do que executando exercícios abdominais no chão.

Pessoas fortes não têm “barrigas chatas” por um motivo simples: a musculatura abdominal, como qualquer outro músculo esquelético, sofre hipertrofia sob estimulação da execução de força.

Uma barriga fica “gorda” através de duas formas de depósito da gordura. Estas duas formas são muito diferentes uma da outra do ponto de vista fisiológico. Uma é a gordura sub-cutânea, que se acumula debaixo da pele. Do ponto de vista da saúde, ela não representa os problemas que a gordura visceral tem.  Existe uma relação modelada matematicamente entre a gordura sub-cutânea e a quantidade total de gordura do corpo. Um dos métodos para se estimar o percentual de gordura é a medida de “dobras cutâneas”. A gordura visceral, também conhecida como abdominal ou intra-abdominal, localiza-se entre os órgãos. Embora qualquer forma de gordura seja endocrinologicamente ativa (produz hormônios como a leptina e a resistina), a gordura visceral está associada a diversas doenças inflamatórias, diabetes tipo 2 e resistência à insulina.

É importante ter estas informações não para penalizar as pessoas gordas (veja aqui e aqui), mas para que sua opção estética seja consciente. Quando tomamos o importante passo de dissociar a barriga gorda do julgamento de beleza, temos que dar às pessoas que queiram tomar a decisão de continuar gordas os instrumentos para administrar seus riscos. A vida é feita de riscos: toda ela. Toda modificação corporal inclui riscos. Colocar piercings e fazer tatuagens implicam riscos.

A barriga em outras culturas

Venus de Willendorf. Foto: Wikimedia Commons.

Se a barriga chata é tão rara, que pode ser classificada como mais uma invenção formolátrica, então, como se relacionam outras culturas com as formas das barrigas femininas?

Acho que todos conhecem a Venus de Willendorf, uma escultura datada de 22 a 24 mil anos atrás. Ninguém sabe exatamente se ela era uma mulher, uma deusa ou mesmo brinquedos. O que parece claro é que, para estas sociedades, a barriga feminina não era chata.

Figuras antigas mais orientais, como na Ásia e Índia, mostram cinturas acentuadas, mas não barrigas chatas. As mulheres nuas retratadas na Renascença e mesmo em períodos artísticos mais recentes certamente não tinham barrigas chatas.

Se observarmos as bailarinas tradicionais do oriente (as várias “danças do ventre”), veremos que muitas das artistas reverenciadas são, segundo padrões formolátricos, barrigudas:

[youtube=http://youtu.be/VohAxpboJAs]

[youtube=http://youtu.be/XxsNuC9ybww]

[youtube=http://youtu.be/PFFfoW34rv4]

 

Alguém conseguiu não se emocionar assistindo estas bailarinas?

O significado ritual das danças do ventre asiáticas é controvertido. Lucy Papas, formada em etnomusicologia pela Universidade da Califórnia, sugere que a dança do ventre seja o último vestígio de um ritual relacionado ao parto, reverenciando a grande divindade feminina. Alguns autores acreditam que sua apropriação e dessacralização no ocidente, como expressão vulgar, causam ressentimento nas sociedades de origem. É possível que a introdução de bailarinas com barrigas cada vez mais chatas nos shows acompanhe esta tendência.

Finalmente, ganha um chocolate quem encontrar uma barriga chata nas imagens abaixo de jovens mulheres indígenas brasileiras.

Mulheres indígenas brasileiras.

As barrigas reais

As barrigas reais são incrivelmente diversas. Temos barrigas magras, gordas, flácidas, fortes, grávidas, com cintura, sem cintura, com mais ou menos pele.

Barrigas reais. Fotos de Maria Claudia Vergal.
Barrigas reais. Fotos de Maria Claudia Vergal do site Lov-Click Fotografia.

Todas são barrigas femininas reais. A maior parte é mais para gorda.

Barriga feminina tem todo tipo de simbolismo associada a ela: é a sede da produção de bebês, pois é onde fica o útero. Se por esse motivo ou não, em inúmeras tradições filosóficas e corporais orientais, é também a sede da energia vital.

A barriga é a primeira coisa que protegemos quando ameaçadas. É a primeira coisa chutada quando, num ato de violência, alguém é derrubado no chão. É a região mais desprotegida do corpo e ao mesmo tempo onde mais se concentram órgãos vitais.

A barriga é o que nos mantém bípedes completos, junto com as demais estruturas do “core”. A barriga é muito mais do que a parte do corpo merecedora de foco para perda de peso.

Duas mulheres – uma parteira e uma educadora sexual – montaram o “Projeto Barriga”, com o intuito de retratar barrigas reais. Elas recebem e reproduzem imagens verdadeiras de barrigas femininas. Veja aqui o projeto.

Bonito, feio, gordo, magro?

A associação da barriga gorda ao “feio” não é recente e é socialmente contextual. Cada vez mais contextual, à medida que avança o enraizamento da formolatria no imaginário social.

O peso em cima das mulheres no que diz respeito à barriga é ainda maior: bunda e perna “meio gorda”, até vá lá. Mas tem que ter a famosa cintura. A exigência da cintura como item determinante da beleza feminina não é recente. Os corpetes são parte do vestuário feminino desde o século XVI. Acredita-se que foi Catarina de Médici quem baniu as cinturas grossas (?!!) da corte francesa. A partir de então, corpetes para apertar as barrigas das mulheres foram produzidos com diversos materiais, incluindo ossos de baleia e metal. Esse episódio é ilustrativo quanto ao grau de arbítrio contido nos parâmetros do belo, em qualquer período histórico.

Embora, seja ingênuo e impossível simplesmente declarar liberdade em relação ao arbítrio cultural na construção do belo, pois isso seria equivalente a descontextualizar-se socialmente, não devemos exagerar no relativismo, saindo do fio da navalha epistemológica aqui: é importante que se lute pela diversidade das possibilidades da construção do belo. Sim, o belo será sempre contextualmente construído. No entanto, podemos e devemos desconstruir a “naturalidade” ou “superioridade” de um constructo em relação a outro.

Cinturas grossas podem ser belas, assim como cinturas finas ou retas: basta que um grupo crie um consenso quanto a isso e, seja suficientemente empoderado, para suportar a rejeição de construções alternativas.

Uma última nota quanto à cintura é importante. Para uma mulher com baixa gordura corporal, ter ou não cintura depende de uma dimensão anatômica que chamamos de distância bi-ilíaca (“largura da bacia”). No período mais difícil de minha vida, em que até pequenas veias eram visíveis sob a pele da minha barriga, de tão magra e fraca que eu estava, eu não tinha cintura. Nunca tive. E tinha uma “barriguinha” protrusa. Como tudo no corpo humano, isso também vem em muitos formatos diferentes.

Entre a estética e a saúde

Mas o que dizer para uma mulher com uma grande quantidade de gordura visceral e sub-cutânea, evidentemente com riscos de saúde conhecidos, como síndrome metabólica, resistência a insulina e, em última instância, diabetes?

Falar a verdade. A verdade é a informação de que a opção dela inclui um risco. Qual de nós não fez alguma opção na vida associada a alto risco? Que jogue o primeiro brigadeiro. Primeiro, ninguém tem que emagrecer ou perder barriga porque é feio. Segundo, ninguém tem que perder barriga porque faz mal à saúde. A verdade é que ninguém tem que perder barriga. Se, e somente se, a mulher assim o desejar, existem formas saudáveis para se alcançar mais esta modificação corporal.

Antes de mais nada, no entanto, ela tem que ser protegida dos juízos de valor produzidos pela formolatria e veiculados por todo mundo, até mesmo as pessoas que a amam.

Agradecimentos a Maria Claudia Vergal do site Lov-Click Fotografia.

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Autora

Marilia Coutinho. Foto: arquivo pessoal.
Marilia Coutinho. Foto: arquivo pessoal.

Marília Coutinho é atleta profissional de levantamento de peso, bióloga, bioquímica, doutora em sociologia da ciência e atua em ciências do esporte. Seu site: http://www.mariliacoutinho.com/

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