Série Açougue: Peitos

Texto de Marília Coutinho.

Todos os diálogos abaixo são reais.

Diálogo 1:

Casal jovem, em torno de seus vinte anos, na cama, logo após transar, início dos anos 80:

(ele) “Já pensou em fazer uma cirurgia?”

(ela) “Como assim?”

(ele) “Reduzir um pouco, uma plástica nos seios”.

Diálogo 2:

Duas mulheres, a primeira com próteses mamárias, a segunda não, ano de 2007:

(mulher 1) “Vou marcar consulta para você semana que vem no meu médico: sem condições você continuar com essas muchibas caídas”.

(mulher 2) “Vamos esperar um pouco”.

Diálogo 3:

Três mulheres, duas com próteses mamárias, a terceira sem, ano de 2007.

(mulher 3) “Como é que se escolhe a prótese?”

(mulher 1) “Foi meu marido que escolheu”.

(mulher 3) “Sério?”

(mulher 1) “É, ele gosta bem grande. Falo para ele que nem sei qual dos dois ele está chupando”.

(mulher 3) “Como assim?”

(mulher 1) “Não sinto mais muita coisa. Mas são lindos!”

Diálogo 4:

Casal de namorados, domingo de manhã, na frente do espelho, ano de 2006.

(ele) “Por que você não coloca próteses?”

(ela) “Não quero”.

(ele) “Por que?”

(ela, depois de um silêncio constrangedor) “Vários motivos. O primeiro é que vai me incomodar para correr. O segundo é o tempo de recuperação. O terceiro é que para o meu esporte acredito que possa ser perigoso com a pressão que a camisa de supino causa sobre as mamas”.

(ele) “Mas você poderia mudar de esporte”.

(ela) “Mais fácil eu mudar de namorado. Inclusive porque o quarto motivo é que esse espelho não me mostra nada faltando em mim – se mostra para você, você precisa de outra mulher”.

Diálogo 5:

Mãe e sua filha de uns cinco anos, ano de 1994.

(filha, olhando a mãe deitada) “Mãe, seus peitos parecem pizzas”.

(mãe) “É mesmo, filha?”

Exceto pelo diálogo 1, que se passou entre uma amiga e seu namorado, todos os outros me envolveram. Eu sou a mulher sem peito de todos eles. Minha amiga era a mulher peituda do primeiro.

Nos anos 1980s, ainda persistia o padrão “Twiggy” de beleza feminina: anoréxica e “nadadora” (nada de peito, nada de costas, nada de lado). Nos anos 1990s e 2000s, o modelo formolátrico feminino foi cada vez mais sendo permeado pelo padrão “porn star”. Não há consenso quanto a esta alteração de padrão. Uma coisa parece evidente: a fronteira desenhada pelas marcas de distinção na estética sexual que separava as “mulheres de bem” das putas vem sendo borrada. A moça de classe média alta que, nos anos 1970s e 1980s reduzia as mamas cirurgicamente para melhor se enquadrar na estética elegante, hoje vai para a mesa cirúrgica em busca de mamas cada vez maiores.

Mamas grandes ou pequenas foram prescritas por padrões estéticos e ideológicos de maneiras diferentes. O resultado foi, como no caso da bunda, a instalação de síndromes de insatisfação corporal nas mulheres (praticamente todas) que desviassem deles.

Mas não quero falar sobre isso agora – vamos dar uma pausa e voltar ao tema depois de uma viagem por outro reino temático. Quero convidar minhas leitoras a me acompanhar numa reflexão sobre amor: peito e amor.

Peito e amor

Em 1989, eu tive um bebê. Uma menina de 3,450kg tirada de mim por cesariana, coisa que desconfio ter sido desnecessário. Assim que ela nasceu, um tipo de fera terrível emergiu de dentro de mim e eu tratei tudo e todos como ameaças potenciais. Nada muito tenso para mim. As feras não são tensas. Era uma atitude irracional e impermeável a negociação de decidir sozinha tudo que dissesse respeito ao bebê. Começou na maternidade, onde, mesmo sob anestesia, de noite, eu obriguei o hospital a contrariar as ordens do obstetra (que contrariou o combinado comigo) e me trazer o bebê: era meu, eu que tinha feito, eu mandava, ponto final. Ganhei a simpatia das enfermeiras e o medo (justificado) do médico.

Foto de Marília Coutinho, arquivo pessoal. Publicada com autorização.
Foto de Marília Coutinho, arquivo pessoal. Publicada com autorização.

Me foi recomendado pelo médico – sujeito sem filhos, sem útero e sem mamas – que eu não ficasse “pegando o bebê toda hora que ela resmungasse” e que a amamentasse de três em três horas. Eu respondi que a mãe era eu, a bióloga era eu e que o papel dele já tinha terminado – bye bye. Basicamente, minha filha mamou a cada 45 minutos. Claro que machucou os mamilos: é esperado. Também claro que em uma semana já estavam cicatrizados.

A primeira mamada “para valer” de um bebê é meio assustadora para a mãe. O pessoal não explica que o bebê não suga, e sim cria pressão negativa com a boca (como uma ventosa) e estimula a mama a despejar leite nela. Tudo é um pouco desajeitado nesse começo: um peito esguicha leite na boca do bebê enquanto o outro dói pacas ou então resolve espirrar leite pelo mundo.

Na maternidade

Os malditos manuais de instrução que dão para nós falam de cinco minutos em cada peito, ou até dez, quando na realidade tudo depende de fatores como o esfíncter do canal e não sei que outros. Minha filha dava conta de sua quota de leite em cinco minutos totais. Isso me obrigava a arrancá-la (fazia um barulho como “pphhhh”, como um desentupidor de pia) de um dos peitos em dois minutos, disparando nela urros de frustração, acoplá-la rapidamente no outro (isso tudo demorava menos de três segundos) e – ufa! – esperar que ela se entupisse de leite. Aí era só erguê-la para escorrer o excesso (também chamado de colocar o bebê para regurgitar).

Cinco meses

Foto de Marília Coutinho, arquivo pessoal. Publicada com autorização.
Foto de Marília Coutinho, arquivo pessoal. Publicada com autorização.

A curva de aprendizado de mãe com essas coisas é muito rápida. Em pouco tempo, a parte desajeitada é minimizada e desaparece. Não existe mais dor nenhuma (uma semana no máximo). Tudo seguindo nos conformes, amamentar vai se tornando uma das coisas mais legais que existe. São os momentos “a-há” mais significativos, quando a gente se dá conta de que aquela coisinha é absolutamente humana e está se comunicando com a gente, fazendo contato olho-com-olho. Também são os momentos mais animais e íntimos que uma mulher jamais terá com seu filho depois da gravidez. O período de amamentação é uma espécie de fase de adaptação da mãe à sua nova condição externa. Acreditem: racionalizada ou não, é esquisita. O bebê estar fora da gente gera um certo desconforto e angústia, que são atenuados durante a amamentação.

Os peitos ganham um significado que nunca tiveram para quem não tinha tido filhos antes. Um bebê é uma fábrica de tecido novo: come muito, faz muito coco, aprende muito. Enquanto ele mama, você tem a atenção dele só para você. Sim, mães podem ser egoístas, possessivas, uma porção de coisas erradas. Mãe é uma mulher que teve filho – só isso. Toda a tralha neurótica vem junto. Em geral fica pior. Sem Melanie Klein agora: estamos falando do peito para a mãe. Para a mãe o peito é pura conexão. A cada três horas ou por aí, seu filho e você voltam a ser um sistema só através do peito. Peito produz leite e até nosso apetite e gosto alimentar mudam em função disso. Somos fabricantes do melhor alimento da galáxia e nossos peitos só podem ser lindos. Eu achava os meus sensacionais.

Filho é a experiência mais intensa de amor incondicional que a gente tem. O leite produzido pelo peito cimenta o momento de intimidade com o sujeito desse amor. É inevitável que seja uma parte privilegiada da nossa anatomia durante a amamentação. Das inúmeras coisas ambivalentes e paradoxais que eu fiz, uma delas era orgulhosamente amamentar em qualquer lugar em que eu estivesse. Era uma espécie de declaração da superioridade da minha relação com o bebê sobre todas as demais relações sociais: estamos no parque? Na USP? No banco? Não importava: eu tirava os peitos para fora e amamentava.

Esse período idílico tem um prazo. Seu filho cresce, desenvolve dentes, se transforma no ser onívoro que define nossa espécie e o leite materno vai sendo menos e menos importante. Um dia a criança desmama. Algumas mulheres passam por isso bem, outras não. Eu lembro que passei uns dias muito triste e confusa. Me senti um pouco excluída de algo que era central. É a primeira grande exclusão que vivemos – se nossa relação for minimamente saudável com nossos filhos, seremos gradualmente excluídos de mais e mais domínios de suas vidas.

O problema é que essa exclusão muda nosso corpo mais uma vez: os peitos murcham. Aqueles peitos enormes, lactíferos, voltam a ser os seios que tínhamos antes ou até menores.

E o que eram esses peitos pequenos ou grandes antes da amamentação e depois dela? Que significado eles tinham e voltam a ter para nós?

Pensando bem, também tinham significados de amor e prazer – apenas formas diferentes de amor e prazer. Pensemos na forma e função desta nossa estranha glândula externa: a maior parte do volume visível do seio é tecido gorduroso. Durante a gravidez e amamentação, as glândulas mamárias propriamente ditas aumentarão, dando maior volume ao seio. Com o passar dos anos, a quantidade de gordura se reduz e o tecido ligamentar que dá sustentação ao seio se torna menos elástico: os peitos ficam mais moles, “caídos”.

anatomia_seio

Anatomia do seio

Os mamilos contém corpúsculos de tecido nervoso (tipos de mecanoreceptores) que os tornam zonas erógenas particularmente sensíveis. Além disso, o seio inteiro é coberto por uma rede nervosa capaz de responder a estimulação, independente do tamanho. Assim, segundo dados anatômicos, seios menores são mais sensíveis pela maior concentração deste tecido nervoso pela área total. Primeira evidência sobre a não-correspondência entre o papel do peito para a mulher e sua forma prescrita pela indústria da beleza do patriarcado.

A estimulação dos mamilos produz uma intensa produção de ocitocina (apelidada de “a molécula moral” ou “do amor” por estar associada a comportamentos empáticos) e de prolactina. Naturalmente, produz excitação sexual.

A esta altura do século XXI me parece redundante insistir que existe alguma relação entre empatia, amor e sexo. Lembrar que a estimulação do mamilo tanto pela amamentação quanto por contatos sexuais leva à produção de ocitocina é no mínimo interessante.

Assim, aqueles peitos que produzem leite para bebês produzem respostas de amor e aceitação sexual para parceiros, independente de suas formas e tamanhos.

Destas quatro coisas diferentes que o peito representa para nós – amor na troca com o filho, prazer nessa troca, amor no afeto com parceir@s e prazer sexual – , só uma tem significado para a indústria da beleza: a última.

Não é necessário citar referência nenhuma para afirmar com bastante convicção que o que interessa ao parceiro sexual num peito é o resultado excitatório de sua manipulação.

Agora sim podemos voltar aos diálogos que abriram este artigo.

A implantação de prótese mamária: entre a modificação corporal e a auto-mutilação

A história da cirurgia plástica para aumento de seios tem um registro controvertido, no mínimo. A maior parte das cronologias documentam as situações litigiosas e aspectos regulatórios do procedimento. Observando estas linhas do tempo, o que vemos é que desde os anos 1960s os implantes de silicone eram disponíveis. Só ganharam popularidade, no entanto, após os anos 1980s e principalmente 1990s.

Os números, então sobem exponencialmente. Mesmo a crise econômica apenas afetou marginalmente o setor estético, em particular o de próteses mamárias. Em 2011, estima-se que só nos Estados Unidos, há 5-10 milhões de mulheres com implantes mamários e que em 2009, as cirurgias de implante mamário representavam 17% do total de cirurgias plásticas.

O que nos dizem estes números? Que aqueles diálogos lá em cima refletem construções sociais historicamente contextualizadas. O primeiro diálogo se passou entre um casal de namorados de classe média alta, mais especificamente o que chamaríamos de “aristocracia paulistana”, no início dos anos 1980s. O namorado da moça, potencial marido da senhora elegante e aristocrática, sugeriu que seria mais adequado uma estética menos vulgar e, portanto, seios menores.

Alguém poderia argumentar que esse era o interesse do rapaz considerando que a moça era uma potencial esposa, mas se fosse uma puta ou sexo casual com uma mulher de estrato sócio-econômico desprivilegiado, ele não se oporia ao peitão. Talvez até o aplaudisse. Bobagem: isso são suposições e um experimento mental sem sentido. O fato é que mulher interessante é contextualmente interessante. A mulher interessante nos anos 1970s e 1980s tinha peito pequeno e as cirurgias estéticas satisfaziam essa demanda.

Pelas cronologias acima, prostitutas sempre procuraram aumentar as mamas desde que as cirurgias para implante de próteses estiveram disponíveis.

Assim, o aumento da demanda, nos anos 1980s e 1990s, refletindo uma busca massiva de cirurgias de prótese mamária pela classe média, mostra que o que já era uma tendência entre as prostitutas se expandiu: o padrão “porn” virou quase “chic”. Brincadeiras à parte, o pudor com a vulgaridade foi aposentado e todo mundo passou a se submeter à imposição formolátrica do ideal “Barbie”: peitão.

Os diálogos 2 a 5 se passaram comigo. Meus peitos são pequenos e, depois de me tornar atleta, com a redução geral de gordura corporal, se tornaram menores ainda. Durante um tempo, eu aceitava como fatalidade que um dia teria que colocar próteses. Afinal, eu não era defensora do direito à modificação corporal? Todo mundo não tinha direito de construir e re-construir seu corpo segundo seu arbítrio? Piercings, tatoos e, por que não, próteses? As mulheres transgêneras não buscam cirurgias de prótese mamária para construir seus corpos segundo os gêneros que também constroem? Os homens transgêneros não têm agora a incrível cirurgia de faloplastia? Onde fica a fronteira entre a (auto) mutilação e a modificação-construção corporal?

A resposta ficou clara quando consegui entrar em contato com a minha emoção. Não: eu não queria peitos maiores. Eu nem acho bonito em mim os imaginários peitos maiores. Os enormes peitos cheios de leite que eu um dia tive eram lindos. Os minúsculos peitos que eu tenho agora são legais. A minha intenção de me submeter a uma cirurgia de prótese mamária era uma submissão ao desejo de todos os outros que me cercavam – mulheres e homens -, que rejeitavam os meus peitos pequenos.

Não foi (e não é) nada fácil admitir que eu não acho bonito peito grande em mim e que, portanto, não vou fazer cirurgia nenhuma. A resposta que dei no diálogo 4 veio depois de muito sofrimento. E depois dessa, tive outros namorados com igual falta de sensibilidade. Digo mais: igual falta de educação sexual.

Pois o que o diálogo 3 – da mulher cujo marido escolheu próteses gigantescas – reflete é real: ocorre um certo grau de perda de sensibilidade. Essa perda é proporcional ao tamanho da prótese, entre outros fatores. Que homens são estes para quem o tamanho obsceno da mama, imposto pela indústria pornográfica – Ups ! – digo, da beleza, é mais importante do que a resposta sexual que a parceira dá à sua estimulação? Homens educados por filme pornô, só pode.

Segundo os dados disponíveis, a perda de sensibilidade varia muito. Amortecimento não deveria passar de 5-8% dos casos. Não sabemos: simplesmente não encontrei estudos confiáveis. Não acho que interessa a ninguém que este dado seja disponibilizado.

Outro dado que deve ser lido com muita cautela é a relação entre prótese mamária e suicídio. Um estudo longitudinal feito na Suécia mostrou que as taxas de suicídio entre mulheres que se submeteram a implantes mamários são bem mais altas do que na população em geral. Nos primeiros 10 anos após o implante, o risco é “notavelmente mais alto”. De 10 a 19 anos depois do implante, o risco sobe para 4,5 vezes o da população em geral. Depois de 20 anos, o risco sobe para 6 vezes o risco na população. O que estes números mostram é apenas uma relação entre um fenômeno e outro. Não sugerem que um seja causa do outro. O mais provável é que ele indique outra relação causal subjacente, ou seja, que existe uma relação entre certas desordens psiquiátricas e a busca por implantes mamários. Isso não quer dizer, de forma alguma, que a busca pelo implante mamário sugira uma desordem psiquiátrica. Diz apenas que deve haver uma maior proporção de portadoras de alguma desordem entre as mulheres que buscam os implantes do que nas que não buscam. Ponto final.

Nesta perspectiva cautelosa, não é possível deixar de olhar estes números com certo alarme. O mínimo que eles dizem é que existem motivações, por parte de um segmento das mulheres que se submetem aos implantes, que não são benignas. Considerando a pressão social para que todas aumentem suas mamas, pressão essa que eu sofri e sofro até hoje, não acho muito difícil especular onde está o elemento escuro e maligno de tais motivações.

Peito e amor de novo

Uma das coisas que marca as memórias boas que tenho dos grandes amores foi a insistência (e, muitas vezes, paciência) que esses homens tiveram para me convencer a abrir a guarda em relação aos meus minúsculos peitos. Com um mundo lá fora dizendo que eles são errados, que eu deveria ter grandes peitos de plástico, nem toda a racionalização feminista de que me orgulho me protegia nesse momento. Eu estava ali, exposta à rejeição muitas vezes irresistível do parceiro sobre quem a ideologia dominante poderia ter sido mais forte. Estes homens especiais conseguiram me convencer de que o interesse deles nos meus peitos (minúsculos) era legítimo e muito bem fundamentado na resposta que eles buscavam. Pouco lhes importava o tamanho dos peitos: eles eram meus e a minha resposta era o que confirmava que eles eram por mim aceitos e amados.

Como eu disse a alguns deles, a vagina é aquele túnel escuro que leva ou não o passageiro para o fundo da alma de uma mulher. E os mamilos são as luzes de confirmação da viagem:

“Houston, we’re ok to go” (Houston, estamos prontos para partir)

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Marilia Coutinho. Foto: arquivo pessoal.
Marilia Coutinho. Foto: arquivo pessoal.

Autora

Marília Coutinho é atleta profissional de levantamento de peso, bióloga, bioquímica, doutora em sociologia da ciência e atua em ciências do esporte. Seu site: http://www.mariliacoutinho.com/

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Outros textos da Série Açougue

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Série Açougue: Bunda

Texto de Marília Coutinho.

Depois de anos sentindo esse desconcerto ao ouvir o lamento de mulheres sobre suas bundas, acho que cheguei a alguns pontos que me ajudam a administrá-lo. Não sei até que ponto podem efetivamente ajudar as mulheres em desacordo com suas bundas. Sem pretensão, vamos a eles.

Comecemos pelo começo: a natureza do lamento

“Não suporto mais essa minha bunda, detesto essa bunda”

“Por que? É linda!”

“Porque ela é grande demais.”

“Não é.”

“É”

“Não é”

“É e eu sei que todo mundo olha.”

“Quem é todo mundo?”

“Os homens em geral. Os homens na rua falam coisas nojentas, no ônibus, no metrô… ficam olhando…”

“Mas isso é lixo humano.”

“Mas outros homens fazem isso. Todo homem faz isso. Já é difícil falar e expor minhas idéias. Sabendo que eles olham apenas minha bunda, nem ligam para o que penso ou falo, é insuportável.”

"Nude Buttocks" desenho em carvão de Carole Jonhson.
“Nude Buttocks” desenho em carvão de Carole Jonhson.

O diálogo acima é fictício. É minha síntese de centenas de diálogos nessa linha. É a partir desse diálogo que abordamos o problema. A primeira tarefa é entendê-lo, dar um nome a ele, ainda que provisório, e separar o afeto do entendimento. Por exemplo: só agora percebo que minha resposta automática é mais que inadequada. É errada! Confrontar alguém com essa queixa é invalidar sua experiência subjetiva. Isso não pode.

Tirar nosso próprio afeto e emoção da cena facilita a coisa. Fica claro que estamos diante de uma manifestação de insatisfação com o próprio corpo. Essa insatisfação em específico tem nuances paradoxais. Ela penaliza estas mulheres pelo avesso. Explico: se no item “bunda” o ideal formolátrico prescreve quadris largos e bundas grandes, caricaturadas pela indústria pornográfica, para as mulheres reflexivas a bunda é uma maldição. Aquilo que é entendido como uma conformidade exagerada a este estereótipo é sentido por elas como uma erosão de sua identidade, e, pior, uma negação de sua integralidade. A mulher que sofre com a bunda supostamente grande se vê mutilada e fragmentada. Ela se transforma numa bunda ambulante, sem fala, sem pensamento, sem subjetividade.

Muitas mulheres insatisfeitas com bundas que consideram “grandes demais” (em relação a?…) sofreram violências sexistas variadas. Foram olhadas ou abordadas com hostilidade, foram vítimas de agressão verbal e até física ou foram assediadas em ambientes coletivos. Parece fácil situar nestes episódios traumáticos a origem de sua insatisfação corporal, um triste caso de auto-rejeição.

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Mas será que é mesmo? Será que estas mesmas mulheres, se isoladas de olhares e falas hostis, estariam plenamente satisfeitas com suas bundas? Eu acho que não. Embora alguns estudos (metodologicamente suspeitos) questionem o papel decisivo das mídias publicitárias na inculcação de valores estéticos e na gênese de comportamentos e atitudes a partir deles, acredito que a insatisfação das auto-representadas bundudas está aí. Elas construíram uma representação de desacordo a partir de uma bunda ideal da qual desviam.

Estas mulheres que arduamente lutam para construir identidades mais integradas são vítimas paradoxais: ao rejeitar a versão caricata do ideal formolátrico e buscar uma “bunda discreta” de modo a se dar um imaginado espaço para impor outras qualidades como dominantes em sua identidade pública, elas embarcam na rota da auto-mutilação e, portanto, submissão (mesmo que às avessas) àquele ideal.

Por que mutilatória, se não há cirurgia ou remoção traumática de uma parte do corpo? Mutilação é o dano ou lesão a uma parte do corpo que degrada sua aparência ou função. O ataque à própria bunda que a rejeição ocasiona é mutilatório porque objetiva extirpar tecido saudável. É emocionalmente mais mutilatório ainda, pois enquanto tal tecido não é fisicamente extirpado (com cirurgia ou dieta), ele é representado pela vítima como um “não-eu”.

O resultado é um comportamento de dietas irracionais que, se bem sucedidas, provocarão modificações gerais no corpo das supostas bundudas quase sempre produzindo perdas indesejadas. Como as dietas são irracionais, a tendência é um padrão sanfona, onde dietas se sucedem umas às outras gerando períodos mais magros e outros mais gordos, com potenciais danos substanciais ao humor das vítimas.

Dieta como um regime alimentar voltado para produzir benefícios à saúde, gerar bem estar, prover o corpo da energia e blocos construtivos adequados, modular o funcionamento orgânico e o humor é sempre um elemento importante da vida. Dietas, ou programas alimentares, criados para modificar UMA parte do corpo e assim satisfazer um ideal estético fragmentador é um desastre pedindo para acontecer.

Do outro lado da ponte estão as mulheres em busca de mais bunda. Esta população é mais heterogênea.

Temos uma classe de mulheres relativamente jovens que se entregou de corpo e alma para o inimigo: submissas à formolatria, percorrerão para sempre o caminho sem fim da busca pela desumanizada forma ideal. A tal forma ideal é publicitária e ideologicamente perfeita. Inalcançável por ser desumanizada, a forma ideal escraviza homens e mulheres numa busca condenada à insatisfação. Mais e mais dinheiro é investido em diferentes ramos da indústria da beleza. Eles oferecem os itens desejados, numa espécie de açougue macabro, onde se encontra bundas, peitos, braços, mãos, pernas obscenamente expostos para seus consumidores.

Essas mulheres em busca de mais bunda, que não necessariamente sofrem por se verem desbundadas, estão convencidas de que a aproximação do ideal formolátrico através do incremento de bunda trará mais aceitação pública, melhores pares românticos, eventualmente um compromisso romântico, mais dinheiro e coisas que nem elas sabem nomear. Dependendo da disponibilidade de recursos financeiros e educacionais, elas podem buscar soluções cirúrgicas, com próteses de silicone, ou, para as dotadas de um pouco de bom senso e cultura, podem tentar aumentar o volume da bunda com programas de treinamento voltados para a hipertrofia dos glúteos.

A solução cirúrgica pode parecer assustadora para nós, mas os números são expressivos: nos Estados Unidos, o implante de próteses de nádegas aumentou de cerca de 800 no ano de 2010 para cerca de 1100 em 2011. Ainda está longe dos mais de 300 mil implantes mamários por ano, mas é uma tendência em crescimento. No Brasil, a procura é bem maior: em 2009, foram realizados mais de 8000 implantes de nádegas, o dobro do ano anterior.

A busca de mais bunda através do exercício físico parece a manifestação suprema do comportamento saudável. Só que não. O treinamento de força ou com pesos de uma forma integrada contribui para uma auto-representação integrada de si mesma. As pessoas que agacham profundo, com cargas relativamente pesadas, estão encontrando e aperfeiçoando em si mesmas o padrão mais fundamental do movimento humano: das três “letras” básicas deste alfabeto motor, agachar é uma, sendo puxar e empurrar as outras duas. O tamanho resultante da bunda numa vida que inclua agachamento (e não passar o dia condenada a sentar-se em cadeiras) varia conforme a resposta hipertrófica que aquela pessoa está geneticamente programada a ter. Ficar satisfeita ou não com este tamanho não tem relação com a funcionalidade da bunda.

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Assim, as pessoas que buscam aumentar a bunda com exercícios em geral executam freneticamente (e de maneira pouco planejada) exercícios “para aumentar o bumbum”. Como as academias de ginástica convencionais oferecem apenas o que eu chamo de “treino de açougue”, dividindo o corpo em partes e não em movimentos, elas satisfazem sua busca pelo serviço.

A bunda continuará sendo um problema, pois, como já apontado, o ideal formolátrico é inalcançável. Este tipo de treino de açougue é alienante, pois consolida a fragmentação corporal da qual todos nós somos vítimas. A mulher, fragmentada, frustrada e derrotada, continuará insatisfeita com sua bunda.

A outra categoria de mulheres dramaticamente infelizes por falta de bunda é o daquelas que, acima de seus trinta e cinco anos, na perimenopausa, observam o que se chama de “bunda caída”. Sim, com as alterações hormonais contínuas até a menopausa ocorrem alterações na composição corporal. O que ninguém conta é que são menos os hormônios e mais uma vida anti-ergonômica, que tira todos nós de nosso padrão de amplitude completa na extensão do quadril (segurem a pergunta, explico em seguida), obrigando-nos a trabalhar, dirigir e até descansar sentadas que realmente vai gradativamente levando a uma atrofia da musculatura glútea (e da postura, da saúde articular e em ultima instância da saúde mental).

As mulheres ditas “mais velhas” são uma categoria de vítima particularmente triste da formolatria. Sua flacidez (repito, produto principalmente de anos de violência ergonômica contra nossos corpos), rugas na pele, novas manchas e coloração da mesma e bunda caída são condenadas pela formolatria: não pode. Quem tem isso recebe a sentença de invisibilidade estética e subtração da sexualidade.

Estas mulheres são submetidas a todo tipo de humilhação. Seus corpos são tão condenados que até mesmo a vestimenta “apropriada” para elas esconde os horrores apontados pelo discurso formolátrico. Passam a usar roupas largas, não podem mais vestir biquinis e muito menos andar peladas. Seus corpos são tão proibidos quanto cenas de obscenidade (e o que seriam elas?).

Vivendo esta perseguição e bombardeio por todos os lados, as mulheres mais velhas vão em busca de soluções milagrosas para suas proibidas bundas flácidas. Cirurgia não é uma alternativa. Exercício físico se torna cada vez mais complicado: como entrar no império da futilidade, as academias tradicionais, e enfrentar o olhar reprovador de seus freqüentadores? Quem é que consegue fazer força com prazer num ambiente assim?

Sem alternativa, sobra a dor da expulsão do paraíso da juventude, materializado na bunda de flacidez indesejada. Depois vem a raiva, o ressentimento e finalmente o comportamento auto-destrutivo.

Vamos falar sobre bunda

Agora vamos falar sobre bundas reais (como diferente das imaginárias super-bundas ou infra-bundas de nossas vítimas). O que tem dentro da bunda? Coisas importantérrimas! Eu não acho que seja possível classificar hierarquicamente partes do corpo ou órgãos quanto a sua importância. Seria o cérebro mais importante que o coração? E este mais que os rins? O fígado mais que todos, segundo os chineses? Bobagem. No entanto, se fosse possível apontar uma articulação que realmente nos caracteriza e é imprescindível para nossa existência motora, a articulação do quadril seria forte candidata.

A articulação do quadril em nossa espécie é única. O motivo é essa novidade evolutiva da qual somos os representantes mais completos. Não, boba, não é a inteligência: é o bipedismo. Pois é, somos bípedes completos, não temos a canja de poder dar uma apoiada amiga no chão com os braços, nada disso. É preciso se equilibrar sobre dois minúsculos pés. Alguém aí lembra de ter tentado, quando criança, colocar um bonequinho (ou bonequinha, para as de nós que receberam este brinquedo como próprio à nossa natureza feminina) em pé? Não ficava, certo? Então como é que você fica em pé?

Porque dentro de nós existe um complexo músculo-esquelético-articular-ligamentar-tendinoso-nervoso que está em permanente prontidão e recrutamento para nos manter assim. É o sistema lumbo-pélvico-abdominal, chamado por alguns de “core” (centro, coração). Eu gosto desse nome: “core”. Essa região do nosso corpo, que inclui a pelve, a região lombar e abdominal foi considerada por tradições médicas e corporais asiáticas como sendo a sede da nossa força vital. Se é ou não, fica por sua conta escolher seu sistema de conhecimento. No entanto, que é responsável por nossa postura bípede, isso é certo.

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Este sistema organiza os movimentos – de flexão, extensão e estabilização – da articulação do quadril. As cadeias cinéticas (monte de músculos que atuam junto para criar um determinado movimento) responsáveis pela flexão e extensão do quadril são os elementos mais críticos das funções motoras, além de estabilizadoras.

Os músculos que produzem movimento no quadril foram organizados em grupos: grupo glúteo, grupo adutor, grupo do iliopsoas e grupo rotator lateral. Não importa o nome deles. Importa saber que não apenas são eles as estruturas acionadas para que andemos, nos viremos, nos mantenhamos em pé, dancemos e pulemos como – e aí vem a parte divertida – consigamos levantar do chão. Quem tem criança deve ter observado uma brincando de lego no chão. Como ela fica? Agachada, certo? Levantar-se do chão a partir desta posição e voltar a ela (também conhecido como AGACHAR) é um dos primeiros e mais básicos movimentos humanos. Ele ocorre graças à articulação do quadril e da capacidade de recrutar as estruturas motoras que a fazem estender e flexionar.

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Não existe criança pequena que não saiba agachar e não existe criança pequena sem bunda. O problema começa com a primeira cadeira da vida dela.

Cadeiras são objetos inventados pelo demônio, fabricados no inferno, que servem para nos incapacitar, gerar deformações nos nossos padrões de movimento, produzir lesões e dores nas costas, restringir nossa liberdade de ir e vir e nos alienar de nossos corpos. Quem primeiro sai do nosso controle é a bunda. Ela, sede vital de nossa existência humana, é amarrada numa angulação de 90 graus, angulação essa a partir da qual o recrutamento da musculatura envolvida na extensão é dramaticamente reduzido. Em outras palavras, a musculatura que forma isso que chamamos de bunda é principalmente ativa para que saiamos do chão e a ele voltemos. Com a maldita cadeira, nossa bunda é demitida de parte de suas funções primordiais.

Então, irmãs, sentemos no chão! Agachemos! Façamos as pazes com nossas bundas! Elas nos dão movimento e liberdade e nada mais justo do que nós as libertemos do jugo da formolatria.

Foto de Matt Blum, integrante do projeto fotográfico 'The Nu Project - Beauty in Every Body".
Foto de Matt Blum, integra o projeto fotográfico ‘The Nu Project – Beauty in Every Body‘.

Celulite, esse mito besta

“Minha bunda é horrível, cheia de celulite”

Você já teve micose? Gastrite? Laringite? Otite? Conhece alguém com diabete? Artrite? Artrose? Os sufixos “ose” e “(vogal)te” são utilizados no jargão técnico das ciências médicas para designar patologias ou morbidades. Infecções e inflamações. Doenças. Desordens.

Em 1978, Nürnberger e Müller publicaram um artigo intitulado “A assim chamada celulite: uma doença inventada” (Nürnberger & Müller 1978). Tentemos evitar o labirinto epistemológico segundo o qual toda a descoberta é ou contém uma invenção. Neste caso, “invenção” se refere a ficção: uma doença que não existe.

Pois é, celulite é uma não-doença com nome de doença, que atrai bilhões de dólares para seu “tratamento”. O termo nem existia até 1920 e começou de fato a ser usado no final dos anos 1960. A partir daí, a celulite ganhou a mídia, a atenção da medicina estética e o imaginário aterrorizado de bilhões de mulheres adultas.

Celulite é uma condição normal de quase toda mulher pós-púbere. Ocorre em todas as etnias, em mulheres magras e gordas, altas e magras e de qualquer idade adulta. Trata-se de uma herniação da gordura subcutânea pelo tecido conectivo fibroso, formando ondulações visíveis. Suas “causas” são tão relevantes como as “causas” do crescimento do cabelo. Em geral, consideramos racional buscar as causas para o não-crescimento do cabelo, isso sim inesperado em condições saudáveis. Ou para a não-transparência da unha, ou para a não-ocorrência de cílios nos olhos. A busca de “causas” para a celulite não é impulsionada por questões do reino das ciências da saúde. É exibida assim para o público num recurso retórico persuasivo para o que de fato é pesquisa industrial do ramo da cosmética e medicina estética. “R&D” (research and development, pesquisa e desenvolvimento) de um segmento que já lucra muito, mas lucra mais ainda se der uma aura de legitimidade clínica à sua pesquisa e produtos: “a cura da celulite” (Barclay 2008).

Claro que ajuda muito se as supostas vítimas da não-doença forem levadas ao desespero e, mais ainda, se forem levadas a considerar sua condição uma doença merecedora de cura. O coquetel está feito: a mulher não apenas é feia por ter celulite, mas é também doente.

A construção da celulite como feiúra tem uma certa relação com a bonequinha que eu propus que a leitora tentasse colocar de pé. Ela não tem celulite (e também não fica em pé). Superfícies plásticas são assim. Pele de mulher não: tem celulite. Praticamente toda mulher. Só isso já deveria ser evidência suficiente de que algo de podre no reino da formolatria está por baixo dessa feiúra (Kite 2013, Merkin 2007).

Assim, sua bunda com celulite não tem nada de feia. Ela é uma bunda saudável como praticamente todas as demais bundas de todas as mulheres e de um certo número de homens também. Feia é a mentira criada pelo marketing formolátrico que abusa de mulheres indefesas contra este bombardeio ideológico munido de bundas fotografadas e photoshopadas para que você acredite que o saudável é o plástico.

Policiamento e satifação corporal

O aspecto mais escuro e assustador da alienação corporal e da ação mutilatória da indústria da beleza é o auto policiamento. O ataque publicitário da formolatria transforma cada um de nós em nosso próprio algoz e monitor. Uma vez interiorizada a forma ideal, até mesmo a exposição permanente à mídia formolátrica é menos necessária: o próprio indivíduo exercerá a coerção esperada (Aubrey 2006).

No nosso caso das bundas, a objetificação corporal operada pela mídia cria uma “eu-bunda” em cada uma de nós. Essa “eu-bunda” cuidará de monitorar diligentemente o tamanho e transformações (ou falta delas) de nossas bundas. Levada a extremos obsessivos, o resto de nós vira coadjuvante da eu-bunda.

Brincadeira? E a Mulher Melancia? Mulher Morango, abóbora ou sei lá mais que fruta? São piadas muito sérias, pois da caricatura pornográfica emerge um dedo acusador para cada uma e todas nós: sua bunda não presta, logo, você não é mulher. A mulher é sua bunda.

Como meu pensamento é probabilístico, não vou apostar que 100% das minhas leitoras não adere ao paradigma da mulher-fruta. Mas é quase isso. No entanto eu diria que bem mais que 80% seria capaz de admitir insatisfação com sua própria bunda não-vegetal. A verdade é que é quase impossível não interiorizar nem que seja um pouquinho só essa fruta podre que o patriarcado nos enfia goela abaixo.

De novo a questão da má ciência: a famosa pseudo-científica psicologia evolutiva e as bundas

Como não podia deixar de ser, temos que falar novamente da mal fadada psicologia evolutiva, essa excrescência intelectual pseudo-científica que tão bem serve qualquer ideologia conservadora. Em algum momento da sua vida, você já topou com ela. Sabe aquela idéia de que é “natural” ou “biológico” que o homem aprecie bundas e peitos grandes? Vem seguido de algum argumento sobre a evolução do neocórtex humano para identificar estas estruturas uma vez que a correlação entre a sua ocorrência e maior saúde reprodutiva feminina garantiria seleção natural.

Esse lixo vai longe e há textos publicados “provando” que bebês recém-nascidos já nascem capazes de identificar rostos “belos”, os quais, obviamente, são rostos caucasianos, nariz afilado, simetria caucasiana, etc. Não é muito fácil encontrar boa literatura científica de crítica à psicologia evolutiva, já que os pesquisadores das áreas mais sérias (e por sérias digo envolvidas em controvérsias de fato e não de mentirinha) não perdem mais seu tempo com ela.

“É tão ridículo que não escrevemos mais a respeito”, me disse uma das maiores autoras da história e filosofia das ciências da vida, professora de uma universidade americana.

Mas deviam. A questão é que, ridícula ou não, a psicologia evolutiva exerce ainda hoje uma grande influência sobre segmentos ou não suficientemente educados para compreender a não cientificidade de seus enunciados, ou suficientemente conservadores para passar por cima disso. Tal influência e o fato de que o discurso da psicologia evolutiva é utilizado como instrumento de coerção e argumento persuasivo no marketing de produtos de beleza deve ser suficiente para que mereça um esforço desconstrutivo por parte da comunidade científica.

Vamos a alguns de seus enunciados: a bunda, segundo vários psicólogos evolutivos revisados em Slade (2001) seria não apenas o sítio primário de atratividade e apresentação sexual feminina em humanos (e outros primatas) como poderosa a ponto de exercer pressão seletiva para uma “redundância sexual”: a atratividade por seios. Se você já parou de rir, podemos continuar.

Outro enunciado importante é a famosa razão quadril/cintura. A Organização Mundial de Saúde correlacionou esta razão, com limitada abrangência étnica, à prevalência epidemiológica de determinadas condições patológicas. Como a psicologia evolutiva não poderia deixar de lado um prato cheio como este – afinal, temos muita lingerie para vender e financiar nossos pseudo-centros de pesquisa – , veio com a pérola seguinte: é possível mensurar a atratividade estética e sexual feminina através desta razão, sendo ela um elemento comprobatório da validade de si mesma. Se isso não é tautologia, então eu não sei o que é. O autor é o infame Devendra Singh, da Universidade do Texas (veja aqui uma coletânea de seu besteirol.

A psicologia evolutiva parte do pressuposto de que a mente humana é composta de módulos cognitivos especializados a determinadas tarefas. Estes módulos teriam sido selecionados para garantir maior eficiência na reação a estímulos ambientais e, portanto, proporcionar mais ajuste (genetic fitness) à espécie. O problema é precisamente o de que é um pressuposto que comprova a si mesmo permanentemente (também chamado de tautologia). Não existe um fundamento empírico do ponto de vista neurológico ou palentológico para nenhum destes “pressupostos”; a maioria não é testável (coisa óbvia para qualquer biólogo, pois biologia evolutiva não é uma brincadeira), verificável ou falseável; ignora olimpicamente o imenso corpo de conhecimento da antropologia cultural e da sociologia, estas, sim, ciências consolidadas e reconhecidas. Ou seja: é a arte do “como queríamos demonstrar” (leia mais em Gannon 2002).

Mais que isso, é a arte do “como a indústria da beleza queria demonstrar”, com requintes de ridículo ao “provar” que caucasianas são biologicamente mais atraentes do que negras. O tiro de misericórdia é a homofobia implícita: beleza e atratividade sexual, para a psicologia evolutiva, é somente heterossexual. Se isso não é viés ideológico, de novo, eu não sei o que é.

Leitora, são estes pseudo-cientistas que escrevem suas bobagens a soldo de indústrias de lingerie, de cosméticos e fármacos e produzem as verdades pseudo-científicas que lhe torturam na relação com sua bunda. O tamanho de sua bunda, a largura de seu quadril ou a relação de tudo isso dentro do corpo integrado não têm relação nenhuma com sua atratividade sexual para homens ou mulheres. Muito menos tem legitimidade na construção da sua beleza.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

O problema da nossa relação com a formolatria no que diz respeito a nossas bundas é o beco sem saída que ela pode gerar. Submeter-se a ela nos condena à busca sem fim de uma forma ideal. Transgredi-la implica os riscos de grave punição e reprovação social (Koggel 2006).

Não existe nenhuma solução fácil ou rápida. Infelizmente, de fato só temos dois instrumentos na mão: uma desconstrução terapêutica das bases ideológicas desta sofrida relação, bem como uma reflexão construtiva sobre conceitos cinesiológicos, para empoderar as mulheres em sua re-apropriação de suas bundas; uma desconstrução de denúncia sobre esta manifestação da formolatria, de maneira a paulatinamente erodir a legitimidade do discurso dominante sobre nossa tão fascinante, fundamental, e bela bunda.

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Marilia Coutinho. Foto: arquivo pessoal.
Marilia Coutinho. Foto: arquivo pessoal.

Autora

Marília Coutinho é atleta profissional de levantamento de peso, bióloga, bioquímica, doutora em sociologia da ciência e atua em ciências do esporte. Seu site: http://www.mariliacoutinho.com/

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Referências bibliográficas

AUBREY, Jennifer Stevens. Effects of Sexually Objectifying Media on Self-Objectification and Body Surveillance in Undergraduates: Results of a 2-Year Panel Study – http://www.yorku.ca/rajagopa/documents/Aubrey-06-sexObjectif.pdf

BARCLAY, Laurie. A scientific solution to unsightly cellulite – http://www.encognitive.com/files/A%20Scientific%20Solution%20to%20UNSIGHTLY%20CELLULITE.pdf

GANNON, Linda. A critique of evolutionary psychology – http://www.ou.edu/cls/online/LSTD5700behavior/pdfs/unit4_gannon.pdf

KITE, Lindsay. Cellulite, Rimples, And Dimples – A Beautiful Reality Check – January 26, 2013 | by – Everyday Feminism – http://everydayfeminism.com/2013/01/cellulite-rimples-and-dimples/

KOGGEL, Christine. Moral Issues in Global Perspective, second edition: Volume 2: Human Diversity and Equality. Editora Broadview Press, 2006.

KRAVITZ, Len Ph.D. and Nicole J. Achenbach Cellulite: A Review of its Anatom y, Physiology and Treatment – http://www.drlenkravitz.com/Articles/cellulite2.html

MERKIN, Daphne – The Politics of Appearance – The New York Times – Published: August 26, 2007 – http://www.nytimes.com/2007/08/26/style/tmagazine/22politics.html?pagewanted=all&_r=0

NÜRNBERGER, F Müller G. So-called cellulite: an invented disease. J Dermatol Surg Oncol. 1978 Mar;4(3):221-9.

SLADE, Joseph W. Pornography and Sexual Representation: A Reference Guide, Volume 2. Volume 193, Edição 6859 de American Popular Culture Series. Editora Greenwood Publishing Group, 2001.

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