A força desconhecida das mulheres

Texto de Maravilha Paz para as Blogueiras Feministas.

O patriarcado é um sistema social pensado, planejado e executado pelos homens em benefício dos mesmos. Nesse sistema, o papel a ser assumido pela mulher é o de total submissão, impedindo-a de obter maior liberdade no seu modo de pensar ou agir. Dessa forma, dificilmente os homens aceitarão a chegada das mulheres ao poder o que nos leva a uma necessária revolução social. Porém, de nada adianta uma revolução feminista se as mulheres não forem as protagonistas. É fundamental que elas liderem e implementem ações necessárias para a valorização feminina e para o fim do machismo na sociedade.

Para que ocorra a consumação desta revolução feminista na sociedade é preciso a adoção de medidas práticas que empoderem as mulheres. É fácil observar que a maioria das áreas de poder e decisão são áreas predominantemente masculinas e se tornam instrumentos da subjugação das mulheres aos homens. Por conta disso, é fundamental uma maior participação feminina em cargos decisórios para que obtenhamos maior representatividade social e empoderamento, gerando a tão sonhada equidade de gênero.

Entretanto, a grande problemática enfrentada pelas mulheres são os elevados índices de violência, o que nos deixa em situação bastante vulnerável. A ineficácia do Estado em garantir uma segurança pública e medidas de proteção efetivas para as mulheres só contribui para aumentar a sensação de impunidade. É preciso ao menos minimizar esse quadro tão absurdo, aumentando a autoconfiança das mulheres e freando a agressividade desmedida dos homens agressores. Por isso, acredito que a autodefesa é uma das ferramentas que podemos usar para isso. Precisamos incentivar as mulheres a descobrirem sua força física. O uso da força sempre foi um instrumento de dominação masculina, por isso, precisa ser absorvido pelas mulheres como forma de autodefesa do gênero.

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Fiscala, oficiala, pilota

Texto de Juliana Romão para as Blogueiras Feministas.

O título não é uma brincadeira tipo trava-língua ou inventa-palavras, são flexões de profissões e cargos no feminino. O ouvido estranha como uma incorreção gramatical, erro de quem não ‘sabe falar direito’, quiçá uma piada. O descrédito aos nomes das profissões das mulheres reflete e legitima práticas de desigualdade e opressão, que transferem para a linguagem corrente a naturalização da dominação de gênero nos espaços profissionais (e sociais, legais, políticos, familiares, escolares, midiáticos).

As relações são assimétricas. O homem é o trabalhador externo, remunerado, racional e ‘provedor’, o avesso do papel prendado tatuado nas mulheres, aprisionadas ao perfil de ‘dona de casa’ ou ‘doméstica” — a depender do recorte de classe e raça – um trabalho necessariamente desqualificado, interminável e, principalmente, invisível. A palavra-imagem masculinizada oculta o feminino e perpetua a hierarquia tradicional.

Na vida cotidiana, como bem compara a pesquisadora franco-brasileira Marie-France Dépêche, nossa ‘língua materna’ está mais para ‘língua paterna’. Todo o entorno extralinguístico – o poder de quem fala, o contexto, a formação ideológica – ultrapassa a camada gramatical e orienta a construção do discurso, fazendo do descaso às flexões uma negação à identidade das mulheres. “Talvez seja a maior violência quando a linguagem dos homens apaga a presença do feminino na sociedade. Eles costumam se dirigir somente uns aos outros, ‘curto-circuitando’ as mulheres da confraria masculina” (1), resume Marie-France.

O ambiente profissional é apenas um entre os espaços de opressão pela palavra, mas que merece um olhar atento por ser, para as mulheres, um campo desafiador de luta por igualdade, reconhecimento e quebra de estereótipos. Quando a situação, função ou profissão da mulher deixa de ser falada no feminino, ela é expulsa da existência, tem negada a sua identidade. O cargo no crachá é masculino, quem o ocupa é um detalhe.

Por não reconhecer palavras como oficiala, muitas pessoas acham que essa profissão exercida por uma mulher não existe. E quando a encontram, ou com uma pilota, quem sabe uma bacharela, ou uma regenta, o arquivo mental leva centésimos de segundos para ‘chamá-la’ no masculino (a oficial) e recompor a imagem dentro da ‘normalidade’. Essa mesma que não se opõe à profissão de professorA, compatível com a marca dócil, organizada e cuidadora etiquetada ao ‘sexo frágil’. O mapa de valores não decepciona o estereótipo.

O ‘padrão’ linguístico supervaloriza o masculino como gênero e como falacioso genérico (o homem é o homem e é também todo o mundo), apagando da vida real as mulheres e quem destoa do perfil. São representações aprendidas e confirmadas na escola, em casa, nos grupos sociais, livros, leis, mídias — uma negação absoluta (porque imperceptível) à presença feminina na expressão do mundo. “Se a cultura é sexista, a linguagem tem esse tom”, confirma a linguista, educadora e escritora costarriquenha Yadira Calvo.

É necessário o rompimento com esse lugar social, a partir do uso adequado das flexões de gênero e de diversas alternativas gramaticais que coletivizam e incluem. A transformação deve começar agora, na escolha das palavras — falar é um exercício de poder, é posicionamento.

A primeira presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, fez girar a roda da linguagem. Quando eleita, pediu para ser chamada de presidenta — nem precisaria, pois a desconhecida lei 2.749/1956, assinada por Juscelino Kubitschek, lá em 1956, determina que se use a forma feminina para designar cargos públicos ocupados por mulheres. Pedido negado, lei desprezada. O recado dos meios de comunicação, poderosos agentes de socialização de valores, foi claro: “a presidente”.

Precisamos contrariar esse ‘corretor ortográfico’ que desfaz as palavras não reconhecidas e chama-lá de presidenta sim, como ato político, intervenção linguística, palavra-ação. A importância de nomear devidamente a presença e reconhecer o espaço embasam também a representativa lei 12.605/2012, assinada por Dilma, que exige que os diplomas tragam a flexão de gênero da profissão ou grau. Novos óculos para velhos olhos.

Quanto mais a língua representar a realidade e as pessoas que nela vivem, menos sexista será a nossa sociedade. Teremos um mundo mais igualitário, sem espanto ante palavras femininas, ou às mulheres no mundo profissional. Elas serão vistas em nome e pessoa. E, quem sabe, quando as crianças pensarem no seu futuro, digam e desenhem também físicas, práticas, alfaiatas, carteiras, soldadas, fiscalas, bacharelas e presidentas. Muitas delas.

Referência

DÉPÊCHE, Marie-France. Reações hiperbólicas da violência da linguagem patriarcal e o corpo feminino. In: STEVENS, Cristina Maria Teixeira. A construção dos corpos: perspectivas feministas. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2008, p. 207-218.

Autora

Juliana Romão é jornalista, mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), professora de Jornalismo na Uninassau (PE) e repórter da revista de educação Pátio. Pesquisa a perspectiva de gênero presente no discurso jornalístico.

Imagem: Thinkstock/Lovetoknow.

Carta para meu amigo artista

Texto de Laís Ferreira para as Blogueiras Feministas.

Meu querido amigo artista,

Hoje eu lhe escrevo com as costas doendo, mil ideias, a lista de tarefa que só aumenta e a sensação que a gente nunca fez muito. Você sabe, quem inventou que isso de “ser artista” é fácil é porque, obviamente, nunca tentou. Mas sabe, meu amigo, acho que você possa ter aproveitado um pouco mais desse lugar tão privilegiado que criaram para os artistas: alguém que cria, que pensa, que põe no mundo algo que não existia antes. Aproveitado até muito, eu diria. Porque, meu amigo, eu preciso te dizer: você é homem. Você, meu amigo, achou que, por ser artista, deveria ser compreendido. E aí, meu amigo, você fez como todo mundo privilegiado faz: não olhou, de verdade, para os outros. E se esse outro for mulher… Vixe, meu amigo, eu só consigo te imaginar forçando tudo que a ordem do seu desejo, desse mundo onírico que esses deuses-artistas-fabricados levam podem pedir: o sexo do seu jeito, as ideias do seu jeito, o trabalho, o seu, sempre maior. Sabe, meu amigo, ser artista não te faz menos suscetível a nenhuma doença: esse lugar de deus que você quis criar não é tão forte assim. Você pode contrair doenças sexualmente transmissíveis como qualquer pessoa que, pela vida, só pode criar o jeito de chegar até o fim do dia. Então, meu amigo, esse seu desejo não é especial assim não. Não, meu amigo, você não pode pressionar qualquer mulher para transar sem camisinha e isso não será perdoado pelo seu grande raio iluminador: esse ego é seu, não uma blindagem das vicissitudes do mundo. E, veja só, meu amigo: não é possível dizer que o sexo, tão perto da vida e da morte, tão próximo a pulsão da arte, deve circular em torno do seu tesão. Porque, meu amigo, veja só, outra vez: ser artista não te inibe de ser gente. E, deixa eu te contar: uma mulher também deseja. Então, meu amigo, eu preciso te dizer que tesão, sexo, não é só seu: não é para ter, nas mãos de uma mulher, uma personagem para o que você criou. Porque, veja uma novidade: mulheres também criam. Na cama, em seus sonhos, em seus desejos, nas suas angústias. Então, meu amigo, preciso te dizer: nem mesmo a sua fama pode passar por cima disso. Porque ser artista não te inibe de ser gente. Não te inibe de ter consequências sobre os seus gestos, não te protege de nada. Na verdade, eu preciso te contar: ser artista é um trabalho. Um trabalho. E, por isso, eu preciso te dizer: há mulheres também nesse mercado. Mulheres que criam, que trabalham, que estudam. Muitas mulheres. E, eu preciso te dizer, meu amigo, com sensibilidades e ideias às vezes mais potentes que aqueles que o signo do privilégio masculino ajudou a chegar no mundo. Então, meu amigo, não pense que uma mulher precisa de você para alguma coisa. Ela não precisa não, meu amigo. E mais, ela não precisa trabalhar com você para adquirir experiência. Ela tem um mundo de oportunidades e desafios pela frente, para enfrentar do jeito que a vida permitir agora. E não, meu amigo, uma mulher não precisa de alguém para inseri-la em nada. Tampouco tem menos potencial. Acontece, meu amigo, que as mulheres artistas tem mais dores nas costas porque, em momentos de trabalho, precisam mostrar o que sabem duas vezes. Porque, meu amigo, você é pequenino. Acha que é grande, mas morre de medo de entender que ser artista não te inibe de ser gente, não te faz diferente e, veja só, uma mulher pode trabalhar como você. Então, meu amigo, mude: se ser artista é algo tão iluminado assim, destrua, com as mãos em gestos, as trevas do seu machismo e sexismo.

Autora

Laís Ferreira é escritora, pesquisadora, jornalista e fotógrafa. É autora de Caderno de Bolsa (Chiado Editora, 2015) e Canções do Porto e do Mar (Multifoco, 2017). É editora da Revista Moventes.

Imagem: Máscaras/Notitarde.