Como a “Má Medicina” descarta e diagnostica incorretamente os sintomas das mulheres

Texto de Terry Gross. Publicado originalmente com o título: How ‘Bad Medicine’ Dismisses And Misdiagnoses Women’s Symptoms, no site National Public Radio em 27/03/2018. Tradução de Carina Santos para as Blogueiras Feministas.

Quando a jornalista Maya Dusenbery estava com 20 anos, ela começou a sentir dores progressivas nas articulações e acabou aprendendo que elas eram causadas pela artrite reumatóide.

A medida que ela começou a pesquisar por conta própria sua doença, Dusenbery percebeu como teve sorte em receber seu diagnóstico de forma relativamente fácil. Ela conta que outras mulheres com sintomas similares “sofreram uma longa demora no diagnóstico e sentiram… que seus sintomas não foram levados a sério”.

Dusenbery mostra que essas experiências estão incluídas em um grande padrão do viés de gênero na medicina. Seu novo livro, Doing Harm (Fazendo Mal, em tradução livre ainda sem título em português), argumenta que os sintomas das mulheres são frequentemente descartados ou diagnosticados incorretamente — em parte pelo que ela chama de “viés sistêmico e inconsciente que está enraizado … no qual os médicos, independente de seu próprio gênero, estão aprendendo nos cursos de medicina”.

“Eu definitivamente acredito que o fato da medicina ter sido histórica e continuamente dirigida por homens seja a fonte de alguns desses problemas”, ela diz. “O conhecimento da medicina que temos é desproporcionalmente inclinado a saber mais sobre os corpos dos homens e as condições que os afetam”.

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Qual a métrica de tolerância dos erros? Afetividade, estima social e reconhecimento

Texto de Nathália Fonseca para as Blogueiras Feministas.

[ps1: Nesse texto eu não tenho a intenção de estabelecer verdades, mas levantar uma reflexão a partir de experiências e observações das interações entre pessoas dentro e fora do ambiente da militância]

[ps2: essa reflexão não é levantada com base em dados sólidos de pesquisa científica – até porque ela nem se situa na minha área de concentração – mas a partir da vivência como mulher, da empiria]

Um dia, em meio às reflexões daquele período entre o “acabei de acordar” e o final da primeira xícara de café do dia, um pensamento me intrigou muito: como a sociedade reage a uma falha quando um homem a comete, e qual a reação quando quem escorrega é a mulher (aquela mulher que não é um conceito universal, mas sempre interpelada por outros marcadores sociais da diferença)?

Essa discussão ganhou uma visibilidade relevante nos últimos meses, quando as mulheres praticantes do ativismo feminista digital [pois é, eu não uso mais ciberativismo/ciberfeminismo, mas isso é pano pra um outro texto] se empenharam em discutir, entre outros casos, o fato de Kevin Spacey ter sofrido as consequências dos abusos que cometeu de uma maneira mais incisiva pelo fato de suas vítimas serem homens. Abro aqui um parêntese imaginário para fazer um adendo: ele é homossexual, e não é novidade pra ninguém que a sociedade possui abordagens diferentes quando se trata de pessoas homossexuais, essa relação de poder também influenciou o acontecimento em questão.

Então, voltando ao escopo da discussão: o que me proponho a estabelecer aqui é o levantamento de reflexões acerca de situações específicas que ocorrem no cotidiano. Essa necessidade de discutir esse âmbito de interações e sua relevância é muito bem elucidada por uma autora da Teoria Política Feminista, Jane Mansbridge, quando ela afirma que as relações cotidianas também criam condições de possibilidade para estabelecimento de luta política – uma luta que não se estabelece sob os olhos do Estado, mas através de interações do dia-a-dia das pessoas. Mansbridge se ancora na célebre frase de Carol Hanisch – o pessoal é político – para argumentar que as conversações cotidianas, entre duas ou mais pessoas, criam espaço para que se perceba o sentimento de injustiça compartilhado entre as mulheres, o que nos sensibiliza para o fato de que certas experiências não são exclusivas de uma ou outra mulher, mas problemas políticos que precisam ser combatidos através da coletividade.

Com base na discussão de Mansbridge, me vi profundamente intrigada ao observar um recorte específico das relações entre as pessoas. Esse olhar me interpelou depois do contato com a Teoria do Reconhecimento, do filósofo Áxel Honneth, na qual o autor (em linhas beeeem gerais) afirma que a ausência de reconhecimento nos três âmbitos que ele discute (amor, justiça e solidariedade) influencia diretamente a maneira como os sujeitos se vêem, podendo (a) fomentar o estabelecimento de lutas políticas por reconhecimento de maneira justificada OU (b) fazer com que as pessoas além de não se perceberem em situação de opressão, ainda se sintam satisfeitas e reconhecidas dentro dessa determinada relação de poder, é o que ele chama de reconhecimento ideológico.

Decidi me embasar nesse referencial teórico – e mais a Butler, que logo aparece – porque ele me auxilia a pensar como essas formas relativas de reagir podem ser danosas e até impedir o autocuidado e a autorrealização das mulheres.

Tendo dito o que precisava dizer de antemão, encaminho-me ao cerne da questão colocada no título: como reagimos quando um homem comete um erro? E se esse sujeito for uma mulher, qual a reação, tanto da sociedade quando do indivíduo afetado? O que tenho observado, ao longo dos meus anos de militância feminista e reflexões acerca das questões de gênero e demais marcadores de desigualdades, não é novidade pra ninguém. Mas me preocupa que isso não esteja sendo discutido, pois dependemos dessa discussão, dessa publicização, para que se alcance uma real mudança social.

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A força desconhecida das mulheres

Texto de Maravilha Paz para as Blogueiras Feministas.

O patriarcado é um sistema social pensado, planejado e executado pelos homens em benefício dos mesmos. Nesse sistema, o papel a ser assumido pela mulher é o de total submissão, impedindo-a de obter maior liberdade no seu modo de pensar ou agir. Dessa forma, dificilmente os homens aceitarão a chegada das mulheres ao poder o que nos leva a uma necessária revolução social. Porém, de nada adianta uma revolução feminista se as mulheres não forem as protagonistas. É fundamental que elas liderem e implementem ações necessárias para a valorização feminina e para o fim do machismo na sociedade.

Para que ocorra a consumação desta revolução feminista na sociedade é preciso a adoção de medidas práticas que empoderem as mulheres. É fácil observar que a maioria das áreas de poder e decisão são áreas predominantemente masculinas e se tornam instrumentos da subjugação das mulheres aos homens. Por conta disso, é fundamental uma maior participação feminina em cargos decisórios para que obtenhamos maior representatividade social e empoderamento, gerando a tão sonhada equidade de gênero.

Entretanto, a grande problemática enfrentada pelas mulheres são os elevados índices de violência, o que nos deixa em situação bastante vulnerável. A ineficácia do Estado em garantir uma segurança pública e medidas de proteção efetivas para as mulheres só contribui para aumentar a sensação de impunidade. É preciso ao menos minimizar esse quadro tão absurdo, aumentando a autoconfiança das mulheres e freando a agressividade desmedida dos homens agressores. Por isso, acredito que a autodefesa é uma das ferramentas que podemos usar para isso. Precisamos incentivar as mulheres a descobrirem sua força física. O uso da força sempre foi um instrumento de dominação masculina, por isso, precisa ser absorvido pelas mulheres como forma de autodefesa do gênero.

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