Poder, gênero e presidência

Texto de Cecilia Santos.

Escrevo este texto no dia da posse da Presidenta Dilma Roussef, 01 de janeiro de 2011. Dia de muita emoção, de me sentir ainda mais ligada às mulheres deste grupo. Desejo de abraçar todas as mulheres brasileiras.

Revendo as imagens, penso no agora ex-presidente Lula e em minha própria história. Em 2010, participei da sexta eleição para presidente da minha vida. Ou seja, todas as eleições do período pós-ditadura. E ano passado, pela primeira vez, não votei no Lula, mas na candidata do PT, Dilma Roussef.

Nesses 21 anos muitas coisas mudaram na minha vida. Só não mudou o fato de que, a cada eleição, era preciso enfrentar o preconceito e a má fé em tudo o que se referia ao PT e especialmente a Lula.

Bom, hoje terminou o seu mandato e, como vimos, nenhuma das muitas previsões estapafúrdias e catastróficas de seus críticos se concretizou. Pelo contrário. Apesar de críticas à direita e à esquerda do espectro político nacional, é consenso que Lula deu um grande passo para diminuir a desigualdade social. Por isso, é simbólico que, ao descer a rampa do Planalto, Lula tenha se abraçado e chorado com esse povo que ele entende tão bem e que o venera.

Vocês devem estar pensando: por que eu resolvi enaltecer a biografia desse homem num post de temática feminista? Porque, em primeiro lugar, sem ignorar seus erros ou omissões, tenho grande admiração por ele. E minha admiração decorre também de sua iniciativa de indicar e apoiar Dilma para presidente. Se houve motivações ocultas e cálculos políticos, eu não sei. Se Lula é machista em sua vida privada, também ignoro. Mas acho realmente relevante que o primeiro operário a se tornar presidente tenha trabalhado para eleger uma mulher para sucedê-lo.

Embora as conquistas femininas ainda tenham sido modestas em seus 8 anos de governo, comparado aos governos anteriores do período democrático, a diferença é enorme. Fiz uma pesquisa rápida na internet, levantei os números de ministras em cada governo, e o resultado, em forma de gráfico, é o seguinte:

Os dados sobre o número de ministros foram obtidos na Wikipedia e, portanto, são passíveis de erro, mas certamente se aproximam da realidade. A tabulação e o gráfico foram feitos por Cecilia Santos.

Como se vê, Lula teve o maior número de mulheres ocupando pastas ministeriais, um total de 10 mulheres ao longo de 8 anos. Durante o mesmo período, o ex-presidente FHC teve apenas 2, a mesma proporção que Sarney e menos até, proporcionalmente, que Collor e Itamar.

Infelizmente, ainda neste início de século as mulheres, mesmo organizadas, continuam a ter muita dificuldade para romper barreiras. Infelizmente tivemos que contar com a figura masculina para lançar a candidatura da Dilma. Infelizmente seu mandato será sempre julgado por aqueles que acreditam que Dilma é uma invenção de Lula, por mais competente que ela tenha sido, seja e venha a ser em suas funções públicas.

O que eu quero dizer é que não devemos esperar que os homens nos façam ‘concessões’ na vida pública ou privada. A luta feminista é das mulheres, sem dúvida. Mas pode e deve ser também dos homens, pois é inegável que, com um pouco mais de consciência da parte deles, o acesso igualitário e justo dos gênero às posições de poder é possível.

Dilma vai desfilar sozinha

Dilma desfilará sozinha: a pequena revolução do dia 1º de Janeiro de 2011.

Texto de Mari Moscou.

Leitoras queridas,

enquanto não sai meu post definitivo sobre Caminho das Índias e Hilda Furacão (ando na maior vibe reassistindo a minissérie), enquanto não começa o Big Brother 2011, enquanto não tenho mais notícias da minha ceia de ano novo ou do meu casamento, eis aqui um assunto de relativamente maior importância:

“Dilma desfilará sozinha na cerimônia de posse”, anunciava a home do UOL até esta madrugada.

Fiquei encantada com a manchete. Em uma frase ela sintetiza duas pequenas revoluções, como gosto de chamá-las, que serão exibidas escancaradamente no dia 1º de Janeiro de 2011. A primeira delas, termos eleito uma mulher. Em apenas seis eleições diretas a democracia brasileira que a direita e os golpistas querem que acreditemos ser frágil já elegeu um operário e, agora, uma mulher. Quando algum babaca vier elogiar os “países desenvolvidos” (nem sei como alguém tem a audácia de colocar na mesma cesta, homogeneizados, países como a Itália e a Finlândia, afe, mas vamos lá ao assunto) e suas “grandes democracias”, pergunte quanto tempo a França levou pra eleger uma mulher como presidente. Ahhhhh… ainda não elegeu? Há quanto tempo a França tem eleições diretas? Ah, tá, falou então. Mas vamos à próxima revolução que desta já falamos extensivamente durante as eleições.

Essa segunda “pequena revolução” que estará em destaque na cerimônia de posse tem a ver com o conceito de família. Nós somos um país BEM católico, embora haja gente que custe a admiti-lo, e vivemos todos os dias decisões relacionadas a uma série de conceitos e padrões católicos tanto na nossa vida “civil” quanto no executivo (sobretudo no estado SP, onde temo um governador da Opus Dei – oh god kill me please), no legislativo, no judiciário (eu sei, às vezes também acho que o Estado laico é uma grande mentira no Brasil). Isso aparece quando repórteres perguntam pra Dilma se ela não poderia começar a namorar durante o mandato e se isso não seria ruim para a presidência, quando definem a Marta Suplicy como “puta”, “vaca”, etc. porque ela se separou do Suplicy pra ficar com o Favre (post meu no Sexismo na Política sobre Marta, Dilma e Hillary Clinton), quando grande parte dos entrevistados de uma pesquisa dizem ser contra a adoção de crianças por casais homo, quando a Bruna Surfistinha conta em seu primeiro livro que a maioria de seus clientes era casado e pedia penetração anal, etecétera e tal. Os exemplos são muitos. Esse tipo de classificação e comportamento está mais ou menos diretamente ligado à idéia católica de que “família” deve ser um homem, uma mulher, filhos (e sexo só pra procriar hein?).

Nas cerimônias de posse, até hoje, estão sempre representados o eleito e “sua família”. A idéia convencional é um homem, eleito presidente, desfilando num carro ao lado de sua mulher, primeira-dama, que se dedicará a trabalhos sociais mas jamais à política (vide o preconceito que a Hillary sofre até hoje). Mas agora não. Na posse de Dilma, ela desfilará sozinha. Ela, uma mulher, é a presidente e a família da presidente. Não precisa de homem, de filho, de filha, de ninguém. É ela ali e pronto. Ela, sozinha, já “vale”. Não é lindo?

Infelizmente não poderei acompanhar ao vivo esse momento glorioso da luta pela igualdade de gênero, mas as amigas feministas aqui do blog, espero, contarão direitinho os detalhes e farão comentários que irão mais a fundo do que a grife da roupa da Dilma ou as jóias que ela usará (nada contra o interesse nesses detalhes, mas eu como leitora desejo mais que isso).

E confesso: cada vez gosto mais de que a Dilma seja solteira.