Maria Schneider e a solidão da mulher que denuncia

Texto de Fabiana Motroni.

A violência contra a mulher não tem data de validade, não caduca, não prescreve. Não desiste nem quando suas vítimas não vivem mais. O tempo não apaga e não faz justiça. Ao contrário, o próprio tempo a emerge em suas ondas vez e outra, cadáver ocultado que reaparece boiando no rio do tempo, na linha do tempo, a denúncia, a confissão, a chance de enxergar, de se saber, a chance de se investigar, de se fazer justiça, de interromper o ciclo, de cessar a dor: a chance sempre desperdiçada, sempre negligenciada.

Semana passada a internet e as redes sociais ficaram agitadas por causa de uma notícia de bastidores sobre umas das cenas de sexo mais famosas do cinema. Só que a notícia não era nova, era notícia de 2013. E essa notícia, por sua vez, dizia respeito a outra mais antiga ainda, mais exatamente de 2007. E sobre essas contas de tempos e de silêncios, eu queria deixar com vocês umas palavras direto das minhas vísceras sobre Maria Schneider e “O Último Tango em Paris”.

Em 2007, a atriz Maria Schneider contou a imprensa que a famosa ‘cena da manteiga’ não estava no script e não tinha sido combinada com ela: ela foi literalmente pega de surpresa, humilhada, submetida, estuprada e contou o quanto aquilo foi devastador pra vida dela e pra sua carreira que se iniciava. Ponto, ela contou e isso deveria ter sido o suficiente. Mas não, nunca é suficiente uma mulher contar o que viveu, o que sentiu, o que doeu. A verdade dita por uma mulher nunca é suficiente.

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De novo? Privilégio de orgasmo, sexo casual e prazer feminino

Texto de Lauren Ingram. Publicado originalmente com o título: “Come Again? Orgasm privilege, casual sex, and female pleasure”, no site Medium em 11/10/2016. Tradução de Iara Paiva para as Blogueiras Feministas.

Nota da autora: Este artigo trata quase exclusivamente da vivência de mulheres cis, heterossexuais e suas experiências com orgasmos. Ainda que discuta vaginas, em nenhuma circunstância genitais determinam o sexo.

Nota da tradutora: o texto original apresenta, desde o título, diversos trocadilhos com a palavra “come” em inglês, que pode ser traduzida como “vir” e “gozar”.


Quando dizemos as palavras “orgasmo” e “privilégio” na mesma frase, o que vem na mente da maioria das pessoas é o privilégio que homens têm durante as relações sexuais: a capacidade de “espalhar sua semente” a maior parte das vezes, e o foco que nossa cultura dá ao prazer masculino sobre o prazer feminino.

Mas olhem só: eu tenho privilégio de gozar.

(Hashtag Ostentação).

Em um mundo onde muitas mulheres acham que orgasmos são uma ilusão, eles são uma ocorrência comum para mim, sozinha ou acompanhada, mesmo que meu parceiro na cama não se esforce muito. Posso contar nos dedos quantas vezes uma relação sexual na minha vida adulta não resultou em orgasmo, a maioria delas porque eu estava muito bêbada na ocasião. As relações sexuais consensuais e os orgasmos decorrentes delas sempre foram experiências extremamente prazerosas pelas quais eu já ansiava e apreciava de várias maneiras desde que era adolescente.

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Quando vou ao banheiro: banheiros públicos como fronteiras identitárias

Texto de Josefina Cicconetti para as Blogueiras Feministas.

Situação 1 –  Estou num evento cultural e decido ir ao banheiro. Ao chegar à porta do banheiro feminino, encaro uma pequena fila que começa lá dentro. Conforme as pessoas avançam, vou chegando mais perto. Quando finalmente entro, ainda esperando, uma mulher me aborda dizendo “isto aqui é um banheiro feminino, de mulheres, não de homens, você tem que sair”. Minha reação: levar meus braços até meus seios e dizer “eu também sou mulher”.

Situação 2 – Uma breve parada na estrada, no posto de gasolina. Vou ao banheiro. Outra fila enorme. Ocupo meu lugar e uma senhora comenta em voz alta, de modo que todas as pessoas ali ouvissem: “olhem só a que ponto a sociedade chegou! Agora tenho que dividir o banheiro com isso, que nem sei se é homem ou mulher”.

Situação 3 – Estou no banheiro feminino de um restaurante. Termino de usá-lo e saio em direção à pia. De repente, uma mulher assoma a cabeça pela porta do recinto, olha ao redor, checa a placa da porta e, como ainda em dúvida, resolve perguntar: “isso aqui é o banheiro feminino?”. Eu respondo que sim. Ela replica: “certo… Desculpe, é que a luz estava muito tênue e não percebi que você é mulher”.

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