Quais são as experiências de mulheres trans quando estamos falando de “socialização”?

Texto de Beatriz Pagliarini Bagagli.

(Algumas) feministas parecem questionar a noção de que se nasce mulher até quando se lembram da existência de mulheres trans. Quando cai a ficha sobre a nossa existência, ou quando são lembradas da nossa existência numa chamada de atenção qualquer, surgem espontaneamente as noções “nascidas mulheres” ou “socializadas como mulheres” — noções essas que eram rejeitadas até então como provenientes de um discurso essencialista.

Usam tais expressões para se diferenciarem das mulheres trans, como se fosse de suma importância se distanciar das experiências e vivências de mulheres trans. É como se fosse até mesmo preciso usar mão de noções até então tidas como inadequadas para marcar uma diferença que se julga intransponível. Como se fosse extremamente importante evidenciar uma suposta diferença intransponível e essencial entre mulheres trans e mulheres (cis) — e veja bem, algumas dessas feministas se incomodam com a designação cis, justamente porque elas rejeitam qualquer qualificação que faça remeter a uma relação com a nossa existência trans. Como se fosse uma ofensa às mulheres cisgêneras serem definidas a partir de uma relação com a alteridade que a transgeneridade impõe. É como se fosse preciso rejeitar qualquer aproximação com mulheres trans, e a rejeição do termo cis fosse um exemplo disto.

Mas que tipo de diferença é essa que estão querendo apontar e construir? Dizer que a socialização feminina seria exclusiva à vivência cisgênera é também invisibilizar que a socialização de gênero não se dissocia de uma socialização de gênero em que a vivência das pessoas trans se encontra como abjeta. Não existe “socialização feminina” sem os limites do gênero inteligível, sem portanto, a diferença tida como radicalmente Outra da transgeneridade — posta sob o lugar da loucura, abjeção, falsidade. Não existe “socialização feminina” que esteja apartada de uma sociedade também transfóbica. As normas de gênero e sexualidade necessariamente implicam a cisgeneridade como compulsória para funcionarem socialmente.

É preciso falar sobre como pessoas trans nascem e são socializadas desde pequenas numa sociedade transfóbica — pra usar esse jargão de “nascer” e “socializar” e “desde pequenas”. Como se apenas mulheres cis nascessem; como se apenas mulheres cis um dia fossem crianças oprimidas; como se apenas mulheres cis fossem “desde sempre” alguma coisa inteligível. Como se mulheres trans também não enfrentassem um mundo transfóbico desde pequenas. Pessoas trans também nascem nas sociedades e “desde sempre” precisam lidar com o imaginário hegemônico que invalida nossas vidas e marginaliza nossas possibilidades de se colocar no mundo. Não existe “socialização” sem sociedade, e em nossa sociedade, transfobia funciona de forma estrutural e estruturante.

Não são apenas mulheres cis que “desde sempre” precisam lidar com opressões estruturais de gênero. Mulheres e pessoas trans também “desde sempre” tem que lidar com transfobia, porque a transfobia não se origina no fato de fulana ou beltrana transicionarem; transfobia existe previamente a qualquer tomada de consciência individual de que as pessoas trans não sejam cis; transfobia existe previamente ao fato de pessoas trans transicionarem. A transição não é o que torna concreta a opressão transfóbica; o que torna concreta a opressão transfóbica é a exclusão e legitimação e justificação discursiva da exclusão de pessoas trans da sociedade.

Sobre o assunto, leia também:

[+] Quantos livros de mulheres trans será que a Chimamanda leu?

[+] Afinando A Noção De “Socialização” E Refutando Algumas Distorções.

[+] Afinal, mulheres trans tiveram uma socialização masculina? Por Maria Clara Araújo dos Passos.

Notas

Texto publicado originalmente no seu perfil do Facebook em 13/03/2017.

Crédito da imagem: Campanha do Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC para o Dia da Visibilidade Trans.

Cadê o nosso direito de ir e vir?

Texto de Karolyne Leandra Melo para as Blogueiras Feministas.

Bom, quero compartilhar uma experiência que sem querer tive essa semana. Estava eu olhando umas fotos antigas e percebi que mudei muito o meu modo de vestir, principalmente os tipos blusas. Durante os anos realmente não sabia o porque de ter mudado, pois gostava tanto das minhas roupas. Hoje compreendi que mudei meu vestuário de modo inconsciente para minha segurança. Irei explicar.

Atualmente, visto blusas largas, quase 3 vezes maior quando comparadas as que eu usava a 4 anos atrás, pois tenho seios grandes que infelizmente chamam muita atenção. No inicio dessa semana, voltando do curso de jaleco e calça a caminho do meu ponto de ônibus, avisto um bar próximo com dois homens bebendo sua cerva. Passei por ali, comprei algumas balas nem notaram minha presença.

Dois dias depois, passei no mesmo local usando uma regata e calça, acompanhada de um amigo. Vi os mesmos caras e percebi que eles me olhavam, quando eu olhava de relance os mesmos fingiam voltar a conversar. No dia seguinte, me vesti da mesma maneira que no inicio da semana, passando em paz despercebida a caminho do meu ponto.

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Mulheres belas e fortes se foram… a marcha!

Texto de Florencia Maffeo. Publicado originalmente com o título: “Mujeres bellas y fuertes se han ido… ¡a la marcha!”, no site Marcha em 19/10/2016. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Argentina, 2016. Foto de Tadeo Bourbon/Site Marcha.
Argentina, 2016. Foto de Tadeo Bourbon/Site Marcha.

“Gritos por toda noite, o vizinho e um corpo. Na estrada de terra se vai. Mulheres bonitas e fortes se foram, meu amigo, e não voltarão”. Hoje #NósParamos e nos mobilizamos. Reflexões urgentes para um dia que será história.

“Você tem raiva por ter nascido mulher?”, me perguntou minha psicóloga, em meio a uma difícil sessão, fazendo referência a forma como o mundo tem me enxergado há 29 anos. Eu não entendi a pergunta, então, em seguida questionou: “Vamos ver, me fale sobre a história das mulheres de sua família, de suas avós. Como você as descreveria? Fortes? Sofredoras?”. Comecei a pensar. Se há algo que se destaca nas mulheres de minha família é o fato de serem trabalhadoras. Duas avós que trabalharam (uma delas ainda trabalha) desde jovens. Minhas bisavós também não ficam atrás, e a reconstrução dessa árvore genealógica me leva até uma tataravó anarquista. Mulheres que trabalham no campo, empregadas domésticas, operárias em fábricas têxteis e de tabaco, cozinheiras que mantinham butecos onde comiam operários de fábricas de tijolos, professoras e babás. Mulheres que também eram chefes de família, algumas sustentaram suas famílias sozinhas. O trabalho doméstico não era algo que pudessem evitar fazer. Cuidar das crianças após um dia de trabalho, organizar a casa, limpar, passar, cozinhar, costurar e fazer as roupas — que o salário não conseguiu comprar — para vestir filhas, filhos, netas e netos. Cozinhar para toda família, pôr a mesa e lavar os pratos enquanto os homens seguiam conversando sobre futebol e política.

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