Quem culpar?

Texto de Nessa Guedes.

– Mulheres tem que estar constantemente provando que são especialistas ou experts em suas áreas para serem devidamente respeitadas, enquanto que homens não precisam ser profissionais extremamente qualificados e informados para serem ouvidos sobre seu trabalho.

– Isso não é verdade. E eu acho que a gente não tem que ficar discutindo isso, porque mulher e homem são diferentes.

– Por quê?

– Porque sim.

– Isso não é uma resposta. Por quê?

Porque é assim e deu.

Fácil descobrir que é o homem e quem é a mulher nesse diálogo, não?

Pois uma coisa com a qual, na minha posição de feminista e recente ativista nesta causa, eu tenho dificuldade de lidar é essa conformidade sobre as aparências. É a constante busca da justificativa das diferenças pela biologia. Ou, simplesmente, o fato de que as pessoas odeiam sair da sua zona de conforto, nem que seja para expandir sua percepção do mundo e evoluir suas idéias.

Nesse fim de semana houve um momento que tive vontades absurdas de sentar no chão e chorar. Porque nada mais tinha a fazer para conseguir que outros enxergassem as dificuldades de ser mulher hoje. Enquanto eu falava com um grupo de homens na rua, à noite, sobre feminismo, três carros passaram às minhas costas gritando “Gostosa!” e equivalentes, e ainda sim eles não entenderam porque eu disse que não gostava daquilo. Simplesmente não entenderam. Falaram que, se fosse com eles, eles apreciariam que alguém tivesse os achando atraentes. Mas aí está o ponto. Eles foram incapazes de se colocar do meu lugar. Não conseguiam imaginar-se na pele de uma mulher, não entendem todas as implicações que isso provoca no nosso crescimento, no modo como sentimos que somos vistas pelo resto do mundo.

Nessas horas eu me inflo de raiva. Só que não sei a quem direcioná-la. Aos próprios homens que estão ali falando aquelas besteiras? Às suas mães que não souberam educá-los? Às suas avós que não souberam educar suas mães? Aos seus pais e avôs por serem machistas? À televisão que nos cria aos moldes do patriarcado? À sociedade inteira por ser tão mesquinha e conformista?

Quando percebo que não tenho a quem culpar, a não ser a mim mesma e o resto do mundo, por termos de várias e pequenas formas colaborado para isso, eu só tenho vontade de sentar na calçada e chorar. Chorar de raiva e medo, porque finalmente percebo o imenso trabalho que tenho pela frente. Começo a enxergar cada pequena e homérica mudança que tenho que trabalhar para instituir no meio dos homens com que convivo, e percebo a dificuldade que terei em conseguir isso. E daí me abate a depressão, porque lembro que o esforço tem que alcançar o mundo inteiro, e se já é difícil mudar um homem ou uma mulher que eu conheço, quem dirá as massas, hum? Vontade imensa de me atirar no chão e chorar um rio inteiro, deitar nos braços da histeria.

Mas milésimos de segundo depois essa vontade passa. Eu respiro fundo e aguento o tranco, mantenho a pose e a voz não falha, continua firme explicando minhas convicções, mesmo sabendo que ninguém ali estaria me levando à sério. Poxa, se eu (que sou feminista) fraquejo na frente das primeiras decepções, como vou poder ser forte para começar a mover o mundo com as próprias mãos? Nós somos poucas, não podemos fraquejar. Temos, e devemos, que nos tornar muitas e muitos. Não se deixar abater.

Um dia pensei que tudo o que eu falava ia em vão, que meus questionamentos, minhas alfinetadas, traziam desconforto às pessoas só naquele momento, e depois elas nem pensavam mais naquilo quando iam dormir. Simplesmente deixavam a reflexão passar, assim como se passam os minutos, e o que havia falado nem fazia cócegas. Até que um dia um amigo meu sentou na minha frente, com um chopp na mão e um sorriso no rosto, e me disse, mais ou menos assim: “Depois de conviver contigo eu percebi algumas coisas. Hoje em dia, quando estou no carro com meus amigos e eles gritam para alguma mulher na rua, eu sempre falo para eles que nenhuma mulher gosta disso, e peço para eles não fazerem mais”.

Queria eu que todos os meus amigos me ouvissem dessa maneira e tivessem coragem de passar o ensinamento à diante. Mas tenho ainda um longo caminho pela frente, e não adianta dar soco na parede e chorar, porque nunca terei a quem culpar. Nessa guerra, o inimigo é invisível, e por isso mesmo, extremamente forte. Mas a gente consegue. Não conseguimos carregar outra pessoa dentro da gente? Vencer o patriarcado e o machismo vai ser moleza; a história da humanidade está recém começando.

Então é natal… E?

Texto de Thayz Athayde.

E ai, meu povo, que tá todo mundo doido alimentando ainda mais nosso querido capitalismo. Não sei o que acontece com a cidade, só sei que todo mundo que deveria estar no hospício está aqui fora e vice-versa. Todo ano, eu deixo de gostar mais ainda do Natal, é incrível. Aliás, quais os motivos pra você gostar dele? Agora, a pergunta que não quer calar, quais os motivos para você não gostar do Natal?? Ah, isso sim, posso listar pra vocês.

1) Todo mundo fica bonzinho e eu desconfio de pessoas boazinhas demais.

2) O consumismo é seu único amigo, mas tem mulher, gays, lésbicas, negros e mais uma “ruma” de gente sendo violentada. Who cares? É natal, precisamos comprar vários presentes para nossa família, não é mesmo? Vamos cantar Kumbaya e dar as mãos.

3) A ceia em si é deprimente, né? Aquele povo inteiro na sua casa comendo, bebendo, entregando e recebendo presentes, aquela criançarada fazendo escândalo por um brinquedo. Suuuuuuper divertido.

4) São tantos os motivos, mas tem um que vem a calhar e nunca é questionado: o natal é meio machista, né?

Ah, lá vem mais um blá blá blá de uma feminista chata sobre o natal. Sou chata mesmo! Alguém ai já viu uma mamãe noel pra vender? Quem é que fica o dia inteiro na cozinha se matando de trabalhar pra agradar todo mundo? Esse ano andei loucamente atrás de uma mamãe noel, eu queria colocar uma na minha casa, ué. A única coisa que encontrei foi uma Barbie vestida de mamãe noel, super provocante, claro, é pra isso que mulher serve, né? Para satisfazer a libido masculina. E ai dá a impressão que só o homem é provedor da casa, pois é o papai noel macho-cho quem dá presente pra todo mundo, ele é o cara do dinheiro, a figura da bondade, o insubstituível e a mulher não pode ser essa figura, mulher é muito frágil, né? Tem mais é que ficar tricotando. Tem tanta mulher por aí que se torna mamãe noel, e elas são as melhores! Trabalhando, cozinhando, estudando, cuidando dos filhos, se desdobrando para conseguir dar uma vida digna para si e para os filhos, enquanto os homens têm a indecência de abandonar mulheres e filhos, como se fossem sapatos velhos. Sabe o que? Obrigada homens, vocês constroem mamãe noeis todos os dias, só que essas existem de verdade e elas nos dão presentes todos os dias: uma história cheia de luta.

Boa sorte amanhã, gente!

Machismo e feminismo estão em muito do que vejo

Texto de Deh Capella.

Levar a vida sendo mulher é assunto que não sai da minha cabeça. Os mais empedernidos podem me considerar paranoica ou  “radical”. Mas passo uma parte considerável do meu tempo olhando, reparando, elocubrando, matutando sobre isso: enquanto ando pela rua, quando ouço pessoas conversando, quando observo suas ações, quando vejo televisão, leio; enquanto vivo.  Gosto de dizer que isso é automático e só é possível porque me impus a necessidade de disciplinar o olhar, a cabeça e  também a língua, porque me incomodava reproduzir padrões de comportamento e opinião que não condiziam com a pessoa que eu  gostaria de ser. Continuo praticando.

Gosto de olhar em volta e perceber o que há de machismo e o que há de feminismo no mundo, nas atitudes e palavras, as sutilezas e detalhes e também o que é ostensivo.

Vejo um pouco das duas coisas, pra começar, quando olho em volta e enxergo tantas mulheres desgastadas, sobrecarregadas,  cansadas e sobretudo culpadas em função de suas escolhas. Pra várias é como se aquilo que escolheram viver tivesse que ser  levado, arrastado como um fardo, e por trás desse peso o “mas você quis assim, você escolheu isso”; como se muitas dessas  mulheres tivessem com quem dividir o peso do que é imposto e não escolhido.

Enxergo um mundo marcado pelo machismo quando ando pelo condomínio aos finais de semana e vejo exclusivamente mães pajeando  suas crianças pequenas e ouço menções aos pais – e me espanto, porque se não ouvisse o que essas mulheres falam poderia  supor que elas viviam sozinhas com seus filhos – mas aqui vejo o machismo de uma sociedade em que muitos pais não tornam  possível uma experiência de ma(pa)ternidade diferente daquela que me contava outro dia uma senhora que se preparava para  entrar na piscina da academia: ela cuidou de seus filhos sozinha, completamente sozinha, e o pai aparecia para um bilu-bilu  no queixinho da criança de vez em quando. Alimentação, educação, higiene, valores, diversão, era tudo pra mãe. Mas aí eu  viro e mexo e continuo vendo e ouvindo casos de pais que nunca trocaram uma fralda de suas crianças, que não sabem o nome  da professora e não têm lá muita ideia do que se passa no dia-a-dia da casa. Homens da minha idade, maridos de mulheres da  minha idade. Eu continuo me espantando porque sempre acreditei que esse padrão de comportamento fosse próprio de décadas  atrás e não admissível, mas identificável em outro contexto.

Também reparo quando escuto os medonhos discursos pró-“preservação” da mulher, que deve “se dar ao respeito”. Que não deve  praticar sexo casual, deve se vestir de forma “respeitável”, sobretudo se for mãe de família, que deve se resguardar após  enviuvar ou se separar, que deve tomar cuidado com o que fala porque “palavrão em boca de mulher” é horroroso, porque  “podem pensar que é biscate”, porque “podem se aproveitar”, porque “depois acontece um estupro e ninguém sabe por quê”.  Para mim não há nada de sutil nesse tipo de afirmação e comportamento, e educar filhos e filhas com base nesse tipo de  ideia é ostensivamente machista; talvez não o seja para tanta gente porque é o “normal”. O aceito. O desejável e esperado.  Assim como desejável e esperado é também não reagir, sob perigo de ganhar o rótulo de radical, ou de mal-amada, ou de  neurótica, ouvir as ameaças que só as “mulheres bravas” sabem quais são. Espera-se de todas nós uma docilidade, uma  resignação e uma aceitação que me é familiar dos discursos do Brasil Colônia (se não me engano foi Mary Del Priore que  falou sobre “dois lados da mesma moeda: a puta e a Virgem Maria”, e isso se grudou à minha cabeça de aluna bem bobinha de  Graduação no começo dos anos 90) e das revistas femininas dos anos 50, do imaginário feminino dos seriados (lembro sempre  do Papai Sabe Tudo e de A Feiticeira, imagens bastante opostas de mulheres em núcleos familiares).

*    *    *    *

Esta é minha primeira tentativa de reflexão neste espaço sobre um dos temas mais abrangentes que conheço. Machismo e  feminismo estão em muito do que vejo, em praticamente todo lugar. Vou tentar estabelecer uma pequena tradiçãozinha aqui: publicar a postagem e incluir uma recomendação de leitura e/ou deixar uma questão no ar. Quem quiser contribuir, dar  pitacos, fazer críticas terá a caixa de comentários à sua disposição!

A perguntinha é: que peso têm as mulheres e os homens na perpetuação de valores feministas/machistas?

Minha recomendaçãozinha de leitura é um post de Marina Macambyra, bibliotecária da ECA-USP: Sapatos, orelhas e Tia Ruth. Muito do que se espera de nós,  inclusive por sermos mulheres, tem a ver com padrões estéticos e de consumo, o texto fala exatamente sobre consumismo e necessidades.