Maria Schneider e a solidão da mulher que denuncia

Texto de Fabiana Motroni.

A violência contra a mulher não tem data de validade, não caduca, não prescreve. Não desiste nem quando suas vítimas não vivem mais. O tempo não apaga e não faz justiça. Ao contrário, o próprio tempo a emerge em suas ondas vez e outra, cadáver ocultado que reaparece boiando no rio do tempo, na linha do tempo, a denúncia, a confissão, a chance de enxergar, de se saber, a chance de se investigar, de se fazer justiça, de interromper o ciclo, de cessar a dor: a chance sempre desperdiçada, sempre negligenciada.

Semana passada a internet e as redes sociais ficaram agitadas por causa de uma notícia de bastidores sobre umas das cenas de sexo mais famosas do cinema. Só que a notícia não era nova, era notícia de 2013. E essa notícia, por sua vez, dizia respeito a outra mais antiga ainda, mais exatamente de 2007. E sobre essas contas de tempos e de silêncios, eu queria deixar com vocês umas palavras direto das minhas vísceras sobre Maria Schneider e “O Último Tango em Paris”.

Em 2007, a atriz Maria Schneider contou a imprensa que a famosa ‘cena da manteiga’ não estava no script e não tinha sido combinada com ela: ela foi literalmente pega de surpresa, humilhada, submetida, estuprada e contou o quanto aquilo foi devastador pra vida dela e pra sua carreira que se iniciava. Ponto, ela contou e isso deveria ter sido o suficiente. Mas não, nunca é suficiente uma mulher contar o que viveu, o que sentiu, o que doeu. A verdade dita por uma mulher nunca é suficiente.

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Sofri um estupro, um aborto induzido e o julgamento de todos

Aviso: o texto relata um abuso sexual e também um aborto clandestino. Pode ser considerado muito forte para algumas pessoas. No Brasil, o aborto só é permitido por lei em casos de estupro, risco de vida para mulher ou feto anencéfalo. Não temos como oferecer nenhuma informação sobre como fazer um aborto ilegal.

Ontem, saiu na imprensa a notícia de que a polícia do Rio de Janeiro indiciou o ex-marido e uma amiga de Jandira Magdalena dos Santos Cruz. De acordo com o delegado da 35ª DP (Campo Grande), Hilton Alonso “ambos deram apoio moral” à cirurgia que resultou na morte da jovem. 

Ao ler essa notícia percebemos que a ordem é criminalizar tudo que se refere a aborto. Inclusive o acolhimento, a empatia, o apoio. Quem já deu apoio moral, afetivo, material a amiga que precisou fazer aborto? A maioria de nós. E continuaremos dando apoio afetivo as pessoas que passam por esse momento tão difícil de desespero. Por isso, publicamos hoje mais um depoimento anônimo de alguém que passou por um aborto clandestino. Porque conhecemos mulheres que abortam, sem nenhum apoio, em condições extremamente arriscadas. Somos eu, você, nossas amigas, irmãs, primas, mães, tias, colegas do trabalho ou da faculdade. Todas clandestinas. Não vamos deixar que o debate seja criminalizado. Resistiremos!

Foto de ruben alexander no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de ruben alexander no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Sou advogada, tenho 31 anos. Conheci um cara no Tinder. Ele me pareceu bacana e inclusive tínhamos alguns amigos em comum.

Marcamos de sair. Fomos para um bar, lembro que bebemos bastante. Depois não lembro de mais nada, a não ser de acordar passando muito mal, com calafrios, vômito e tontura. Fui embora do apartamento em que estava. Desconfiei que ele havia colocado algo em minha bebida, mas achei improvável, pois entramos em contato depois e ele afirmou categoricamente que não se lembrava de coisa alguma também.

Ocorre, que ao me deixar em casa ele disse que a camisinha saiu e me pediu para tomar a pílula do dia seguinte.Será que ele fez de propósito? Será possível? Eu não lembro de praticamente nada! Fui estuprada? Consenti ou não? Deveria procurá-lo para esclarecer? Preferi manter como estava e segui minha vida. Quando minha menstruação atrasou, desconfiei que poderia estar grávida, fiz um teste de sangue e um de farmácia. Beta HCG 76,5 (positivo) e o teste idem. Novo teste de sangue confirmou: 260 HCG. Aproximadamente três semanas de gravidez.

Desesperei. Eu já havia deletado o número do cara e não havia mais como entrar em contato com ele. Comecei a me questionar novamente se fui estuprada ou não.Ele me pareceu tão gentil, polido, esclarecido. Será? Mas espera… Se eu não tinha consciência e não podia CONSENTIR então, significa que fui sim abusada, correto? Se ele afirmou que a camisinha saiu e eu não lembro nem disso, significa que ele estava consciente e eu não, procede? Estou ficando louca?

Se eu estava TOTALMENTE desprovida do meu poder de decisão, não posso chamar isso de consentimento implícito! Fiquei com essa dúvida na cabeça… Em alguns momentos acreditava ter sido estuprada. Em outras acreditava que ele também teria ficado muito bêbado… mas se ele teve condições de dirigir e me deixar em casa, ele NÃO estava tão alterado quanto eu, né? Há uma diferença entre CONSENTIR e ESTAR INCONSCIENTE, destituída da capacidade decisória. Some-se a isso o fato de eu ter acordado passando muito mal, sem lembranças nítidas do que ocorreu, apenas alguns flashes, com sintomas que vão além de uma mera ressaca e dele me dizer que houve um problema com a camisinha. Quer dizer, ele se deu conta do que estava ocorrendo, eu não. Porem, eu não queria acreditar. Não queria contar a ninguém. “Ora, saiu para beber, transou e agora vem dizer que foi estuprada? Faça-me o favor!” Sabia muito bem o que iriam me dizer caso eu relatasse, então resolvi deixar de lado essa história e tratar de resolver o problema pior.

E o problema pior, obviamente, era a minha gravidez. Totalmente indesejada, acidental, de um sexo casual, de um encontro em que acordei com um cara dizendo para eu tomar uma pílula do dia seguinte, sendo que eu só tenho somente flashes desta noite. Sei que do dia em que saí até o dia em que descobri a gravidez foram 18 dias, apenas! Além disso, estou em um momento muito complicado da minha vida, da minha carreira, jamais quis ter um filho e nessas condições, a possibilidade de levar aquilo adiante era nula.

Passei a buscar um medicamento abortivo. Encontrei uma página, parecia confiável, paguei R$1.200,00 por oito comprimidos, recebi no dia seguinte via sedex e a noite usei. Falsas. Não fizeram efeito algum. Consegui novos comprimidos em sites da internet por R$2.500,00, desta vez verdadeiros. Segui as instruções dadas.

Cólicas leves, resolvi que dava tempo de ir ao banco até que as cólicas mais fortes começassem. Dentro da agência simplesmente senti que iria desmaiar. Mas era mais do que isso. Calafrios, formigamento nas mãos, suor frio escorrendo, batimentos cardíacos tão acelerados que achei estar tendo um colapso.Minha prima estava me esperando no carro, sai da fila da agência e desmaiei no banco de trás do carro. Como fiz um curso de primeiros socorros na Cruz Vermelha há alguns anos, acreditei estar entrando em choque devido à dosagem dos remédios.

Evacuei e vomitei em toda a roupa enquanto minha prima dirigia até o hospital mais próximo. E nisso senti uma dor tão grande, tão lancinante, tão absurda que em palavras é impossível descrever. Desmaiei e voltei várias vezes até chegar ao hospital urrando de dor e tive muito medo de morrer. Rastejei até o chão do hall de entrada do hospital, onde fiquei com a blusa aberta, toda evacuada e vomitada, descalça, até minha prima me ajudar a me colocar em uma maca e aparecer o médico responsável que me disse na frente de todos em alto e bom som e às gargalhadas: “O que você tomou? Tá tapando o rosto por quê? Tá com vergonha? Fala! Fala! Hahahahha! Fez merda agora aguenta, vai ficar sentindo dor sim! Pra aprender!”

Minha prima foi até ele e disse que ia chamar a polícia, que aquilo era omissão de socorro. Ele debochou dela e disse: ” Fez merda vai ficar sentindo dor, agora aguenta, hahahaha!”. Então, ela ligou para o meu ginecologista e por sorte ele foi rapidamente até o local, onde eu continuava sozinha na maca, com todos olhando sem fazer NADA, absolutamente nada, e eu sentindo uma dor que jamais vou esquecer e não consigo encontrar palavras para descrever.

Meu ginecologista chegou e me aplicou medicação para dor na veia, eu continuava evacuando, estava muito suja, toda vomitada, fétida, de barriga pra baixo encolhida numa maca onde todos me viam, apontavam, ridicularizavam. Eu gritava muito alto de dor, ele fechou a porta e disse que não podia aplicar anestesia, pois era necessário que eu fizesse força e as contrações não parassem até expulsar o embrião.Continuei sentindo aquela dor, minha mãe chegou e começou a fazer um monte de perguntas, me submeter a um verdadeiro interrogatório, uma tortura psicológica. Eu não queria falar sobre aquilo, mas contei a ela o que aconteceu e ela afirmou que a culpa foi MINHA. Disse que se fui abusada, se colocaram algo em minha bebida ou se fiquei inconsciente por beber demais, que era minha inteira responsabilidade e eu merecia passar por aquilo para aprender. Eu chorava de dor, vergonha, humilhação, revolta, medo de morrer.
Até que em um determinado momento DESEJEI morrer. Primeiro para acabar com a dor e depois — mas não menos importante — para dar fim àquela inquisição a que eu estava sendo submetida.

Quando me limparam… digo, quando tiraram o lençol sujo apenas, pois eu me limpei com a camisola do hospital que minha mãe embebeu em água e sabão e fui para o quarto. Minha irmã apareceu para me visitar. Foi nessa hora que entrou uma enfermeira perguntando em alto e bom som se o médico disse que era necessário curetar. Óbvio que minha irmã pró-vida, reacionária e homofóbica entendeu tudo e passou a me chamar de criminosa, que aquilo era tirar a vida de um inocente, que Deus iria “tratar” comigo, que eu ia “cair nas mãos de Deus”. E minha mãe concordando!!!!

Contei à minha irmã que provavelmente fui estuprada, pois foi uma relação onde eu estava inconsciente, e ela disse que sim, eu era culpada! Não me contive e disse que culpado foi o cara que me engravidou, por transar comigo inconsciente e sem usar camisinha! Que culpado era o médico por ter me ridicularizado e omitido socorro! Culpado era o Estado por não permitir o aborto legal, gratuito e seguro para todas as mulheres!E ela iniciou seu discurso pró-vida, que eu optei por nem responder pois já estava esgotada de tanto sofrimento físico e psicológico.

Nesse momento, os homens da família entraram — meu pai e irmão — minha mãe e irmã ficaram disfarçando para que eles não soubessem, mas lançando olhares condenadores para mim, como se dissessem: “Está vendo, estamos protegendo você depois de tudo que você fez, somos caridosas, compreensivas e você é um monstro abominável”.

No dia seguinte não esperei ter alta, me vesti, assinei um termo de responsabilidade para sair do hospital — onde tive o pior tratamento possível por parte dos médicos e enfermeiras, que depois de tudo, sequer água me levaram — e voltei para casa, de onde estou escrevendo agora este relato, imediatamente após chegar do hospital.

Estou bem, não estou sentindo dores físicas. Não tenho remorso, arrependimento, culpa ou nada semelhante. Meu sentimento em relação ao aborto: alívio. Sim, estou viva de novo, dona do meu corpo, dos rumos da minha vida! Estou viva! Poderia ter morrido ou sofrido sequelas horríveis, mas por sorte estou aqui, escrevendo esse relato e sentindo que recebi uma nova oportunidade.

Fazer o aborto para mim significou nascer de novo. Expulsar aquele ser que devastava meu corpo sem licença prévia, me invadia e violentava a cada segundo foi a maior sensação de alívio que senti até hoje. Jamais quis ser mãe, não optei por isso, não lembro o que me ocorreu, fui abusada. A dor que sinto agora é em relação às acusações da minha mãe: CULPADA, CULPADA CULPADA! “Ninguém veio aqui em casa te buscar e te arrastar para a rua para te fazer beber, a culpa é toda sua!”.

Ela chora e me joga na cara o tempo inteiro que a culpa é minha. Estou devastada por ela pensar dessa forma e me acusar como uma juíza, defendendo indiretamente o homem que me estuprou. Estou devastada por viver em um país que considera que um embrião é um sujeito de direitos. E, que tais direitos podem se opor aos de um ser humano de trinta e um anos de idade, completamente desenvolvido, com suas crenças, valores, vivência.

Estou devastada por minha própria mãe afirmar e me torturar dizendo que a culpa do estupro é da vítima e que a mulher que aborta deve pagar pelo crime que cometeu sentindo dores. Eu estou muito cansada e decepcionada por isso, porém aliviada, certa de que tomei a decisão correta e que se pudesse voltar atrás eu faria o procedimento de novo, mas desta vez buscaria uma clínica com condições ideais de higiene se segurança, pois poderia realmente ter morrido com os efeitos do remédio.

No fim das contas, penso o seguinte:

Eu, mulher de classe média, branca, advogada, com capacidade financeira para dispor de três mil reais numa tarde, fui ao inferno e voltei, senti a pior dor, humilhação e vergonha a que um ser humano pode ser submetido, fui ridicularizada, maltratada e corri risco de morrer.

Imaginem a mulher negra, a mulher pobre, a mulher negra E pobre, não instruída e abandonada.

Imaginem a quantidade de mulheres que passa por isso todos os dias, a quantidade de mulheres que morre, que é estuprada, violentada psicologicamente a todo momento! Não podemos mais fingir que este problema não existe, que a cultura do estupro não existe, não podemos mais admitir que a culpa é da vítima, que um embrião ou feto merece proteção legal em detrimento da mulher que o carrega! Não sei como ainda, mas pretendo contribuir para que isso acabe um dia.

E as pessoas que me julgarem: pode acontecer com você. Você teria um filho do seu estuprador? Você teria um filho sem condições de criá-lo? Você teria um filho se simplesmente NÃO QUISESSE tê-lo?

Nós jamais saberemos como vamos reagir a uma situação até vivenciá-la. Eu não sei o dia de amanhã. Alguém sabe?

+ Sobre o assunto:

[+] Contradições do aborto como crime contra a vida. Por Carla Rodrigues.

Ela, a viajante solitária

Ela e o mar, o barco, o barqueiro. Desconhecidos todos uns dos outros. Era ressaca brava, nem o colete salva-vidas deveriam colocar evitando o risco de ficarem presos entre o barco e o mar caso tombassem. Chegara pela trilha, com chuva, a barraca enlameada. Não havia energia elétrica, os mosquitos não perdoavam. E picavam, picavam, picavam. Ela não queria estar ali. Os amigos de viagem; a meia-dúzia de gente na praia deserta lhe pareciam uma multidão no Guarujá. Ela não queria estar ali. Tomou o barco, pagou o barqueiro antecipado e disse “vou embora” sem destino certo, sem saber se mesmo os ônibus ainda estariam passando àquela hora. Ela só foi.

Florianópolis, arquivo pessoal de Mari Moscou

Entre ela, o barqueiro, o barco e o mar, havia a brisa. A brisa embraçava os cabelos, salgava a pele, terminava qualquer visão estética perfeccionista de capa de revista. A brisa era o oposto do padrão: liberdade.

Quando viajava sozinha ela era livre. Não tinha medo, dona de si. Almoçava se queria, quando queria; escolhia trilha, ônibus, barco, trem, o que fosse, era ela que escolhia e só. Comia bem, comia mal, ficava sem comer. Acordava cedo e tarde, tirava sonecas vespertinas. Conhecia quem queria – o vendedor de brincos e bijuterias, o músico de rua, as ciganas, faxineiras, prostitutas. Buscava a paisagem ideal: hoje não quero ir ao Louvre. Não quero, aliás, ir ao Louvre só para ir ao Louvre. O Louvre estará aí se eu decidir voltar um dia. Caguei pro Louvre. Era quase isso.

São Paulo, arquivo pessoal de Mari Moscou

De onde você vem, menina? Menina não que ela era mulher. Vinha de uma família de mulheres, livres todas, que viajam sozinhas. Reparava que “sozinha” tinha um sentido ruim quando lhe diziam incomodados: “ah, mas você vai sozinha?”, tadinha dela, sem companhia, a pobre!!! Mal sabiam tais desinformados que a solidão é uma liberdade sem fim; a locomoção é outra e quando agrupadas temos “viagem”. Viajava sozinha porque amava, viajava sozinha porque queria, mas acima de tudo viajava sozinha porque podia.

Esquecem-se quase sempre de que a liberdade é um direito. Direito garantido, nem sempre respeitado, mas sempre conquistado ao suor de muita luta. Feministas muçulmanas em todo o mundo lutam pelo direito de viajar sozinhas, sem seus maridos, pais ou homens responsáveis (que podem, pasmem, ser até seus filhos). Pelo direito à locomoção. À solidão. Liberdade.

Ela tomava o barco porque podia;

pegava o ônibus em seguida porque podia;

chegava numa cidade estranha porque podia;

Seul, arquivo pessoal de Mari Moscou

conversava nos bares, fazia amizades, aprendia. porque podia;

explorava paisagens e museus, roteiros, tempos, destinos, porque podia.

Como é que podia? Por que podia?

Podia porque, em solidão, não estava só. Ela ali no barco, ela só no ponto de ônibus não era ela só. Ela carregava outras. Séculos de mulheres atrás dela, estas que não puderam sempre desfrutar tal privilégio. Ela não era só ela. Ela era eu, era vocês, nós todas. Era a primeira, as seguintes e nunca a última feminista.