Não precisamos ser inimigas

Texto de Priscila Messias para as Blogueiras Feministas.

Entendo, por experiência própria, que um processo de separação é muito complicado e doloroso, e dependendo das circunstâncias acabamos carregando mágoas por um longo período de tempo, ou, em alguns casos essas mágoas ficam para sempre.

Assim como tenho direito de viver um novo relacionamento, meu ex também vai fazer o mesmo – isso se ele já não o estiver fazendo enquanto estamos juntos como um casal – e, surgirá uma mulher entre eu e meu ex companheiro, caso essa antiga união tenha gerado filhos, será essa nova pessoa que irá se relacionar diretamente com nossos filhos, pois afinal, o pai precisa estar presente na vida dos filhos e a nova namorada estará junto em alguns passeios e momentos, se não em todos.

Desde criança ouvi das mulheres que me cercavam e pela TV que era impossível manter um relacionamento amigável com a mulher atual de um ex-marido.

Quando passei por esse doloroso processo recebi logo a notícia que meu ex cônjuge estava namorando e isso pra mim inicialmente foi um choque, confesso, mas minha maior preocupação mesmo foi como meus filhos reagiriam a essa notícia. E, para minha surpresa, ela logo os conquistou por sua simpatia e carinho com eles. Mas, minha relação com ela não começou bem, e qual seria o motivo? Simples! O indivíduo que fizera parte de longos anos da minha vida e me conhecia como ninguém, fazia de tudo para que eu a odiasse. Dizia coisas que ela fazia (que sabia que me irritaria), falava coisas que ela havia comentado sobre mim mesmo sem me conhecer, e deixava claro como a família dele a amava. E pasmem! Eu acreditava em tudo.

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Gordofobia: seu corpo é o resultado de um milhão de fatores

Texto de Sueli Feliziani.

Tava conversando com a Michele Machado, aquela deusa, agorinha, e pensando… cara como parece que conseguem fazer até as gorda se odiarem, né…

Eu lembro quando eu li um texto que me tirou umas lágrimas assim do nada, que falava que gordas tamanho 46 eram um problema pra luta antigordofobia, porque invisibilizavam mulheres maiores. E, quando eu ouvi de uma pessoa que eu respeitava e curtia muito do movimento negro que eu não era gorda e que era bonita demais pra falar sobre exclusão gorda…

Eu lembrei das cadeiras quebradas em festa infantil. Meu ginecologista me mandando arrumar homem e tomar pílula porque tava gorda por causa de SOP (Síndrome do Ovário Policístico) sem saber nada do meu histórico de saúde. Do ortopedista que não viu meu encaminhamento do reumatologista e falou que meu problema eram 15 quilos e não fibromialgia. Dos mais de vinte e tantos quilos ganhos com lítio e ainda por ganhar com medicação. Sem esperança de perda. Dos antes e depois jogados na cara. Das várias vezes que me fiz vomitar. Dos diuréticos, dos laxantes. Da automutilação que ainda não venci. Da família fazendo piadas. Do namorado comentando meu corpo. Dos ex-cunhados fazendo piadas após dez anos de separação para o meu filho. Das comparações com a atual do Ex sobre meu caráter relacionado ao peso. Do meu chefe falando disso pro cliente na minha frente. De perder trabalho. E de tantas outras coisas….

E pensando que o mundo taca na nossa cara o tempo inteiro que somos doentes, loucas, más, preguiçosas, feitas, até menos inteligentes por sermos 48 ou 54.

E se pá, a gente acredita que o problema é a mina do lado. A mina de tamanho menor. Nunca os FDP da indústria meritocrática do corpo.

Eu já devo ter achado que o problema é a mina tamanho 42. E ficado puta com ela. Ou a atual ex-modelo do Ex. Ou a mina da revista.

Cara, corpo não é mérito. Corpo é o invólucro do ser. Apenas. O que você tem e é está contido nele. Não o contrário. Não dá pra esperar merecer uma vida, um destino, uma felicidade ou uma voz quando houver um corpo x que a mereça.

Seu corpo é o resultado de um milhão de fatores. Como seu modo de pensar. Sua personalidade. Seus sentimentos. Suas emoções. E suas marcas o são.

Eu não posso querer parecer uma garota de 16 anos. Não posso ser mãe de manequim 38, anymore. E tá ok. Minha história é outra. Aceitar isso não é comodismo. E quem tentar me provar o contrário é que é maluco.

Recusar o auto ódio é prova de inteligência. De sabedoria. E de auto trabalho. Não de covardia ou preguiça. Não se deixe levar pela ideia de que se você não gastar 20% do seu dinheiro e tempo para parecer com o que os outros gostariam, você não gosta de você. Se você precisa gastar mais tempo se modificando do que se conhecendo para se gostar, talvez o problema não seja você. Avalie. Conheça seu corpo e sua saúde. E só aja sobre sua aparência e peso, se for necessário. Não imposto.

E ame suas migas que tão na mesma luta. Isso aí é sororário. Beijos de luz.

Autora

Sueli Feliziani, kilos e kilos de massa cinzenta envoltos em uma pele negra macia e tatuada com cachos e sarcasmo pra dar charme… Publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 09/06/2017.

Imagem: Outubro/2016. Editorial Primavera Diva Plus. Foto de André Carvalho/Cind Biquínis.

O feminismo é a ação política de TODAS as mulheres

Texto de Máira Nunes.

Esses tempos, um amigo querido me marcou numa publicação de uma mulher que queria saber se era feminista ou não. Eu não conhecia a pessoa e não consegui comentar na hora, mas me chamou a atenção o fato de que os comentários todos do post iam na linha: “toda mulher que faz o que quer, é dona das próprias escolhas e do próprio destino é feminista”.

A autora da publicação reforçava o tempo todo que não via diferenças, que era apenas uma batalhadora e que queria direitos iguais para todo mundo e não apenas para as mulheres. Muitos homens também falando altas bobagens e geral sem saber do que se trata.

Eu fiquei bem incomodada com o conteúdo da publicação, pensando onde que é que estamos errando, pois já é 2017 e gente que está conectada e não chegou no rolê ontem (a maioria das pessoas no debate eram da área da comunicação) não entendeu nem o básico do básico: que feminismo não é o contrário de machismo.

Daí pensei no feminismo pedagógico e em como a gente precisa ficar desenhando o tempo todo e ressaltando que dá pra ser feminista de salto e maquiagem. Essas coisas super ano de 2011, e que feminismo é sobre igualdade, e o teste da Semíramis e me deu um cansaço gigantesco.

E fiquei matutando: o que é que a gente pode fazer pra avançar? Porque, né? Já deu. Daí lembrei da definição da Vera Soares(1), que eu gosto muito, e que diz que: feminismo é a ação política das mulheres. E eu friso: DE TODAS AS MULHERES.

Talvez esteja na hora da gente sair da matriz igualdade/diferença e passar a olhar mais pra essa ação política aí. Porque a gente tá presa num “autofeminismo”: meu feminismo é assim, meu feminismo é assado, no meu feminismo pode isso, no meu não pode aquilo. E a potência da ação política se perde no individual. E a gente vai vendo essas coisas que acontecem aí nas redes, esse feminismo divônico, essa batalha de egos, esse racismo, essa transfobia, esse elitismo e tal.

Porque veja, eu sou uma mulher branca, cis, de meia idade, escolarizada, classe média, mãe, tenho emprego e independência financeira. Tô quase no topo da cadeia alimentar dos privilégios, só faltou ser homem. Então meu feminismo vai ser sobre o quê? Igualdade salarial, direito à depilação e reconhecimento intelectual? E a violência estrutural? E o heterocispatriarcado? E a exploração capitalista? E a crítica à branquitude? Entram onde? Por que nada disso me afeta eu não devo lutar pra mudar? Onde é que foi parar o “até que TODAS sejam livres”?

É por isso que acho que essa vibe “meu feminismo” não serve pra nada. Sei, já fui assim também, mas a gente pode melhorar, né? E pode começar a pensar em um feminismo que seja político, que seja estratégico e que seja para TODAS as mulheres.

Acho que a onda atual do libfem, do feminismo pedagógico, não ajudou muito, sabe? Porque pra uma galera feminismo continua sendo feminazi-anti-ômi, pra outra feminismo virou commoditie, virou hype, virou festa. Daí tudo bem ser racista, ser transfóbica, porque nesse feminismo “tudo pode”. Você pode inclusive ficar com os seus privilégios aí, bem de boa. Olha que ótimo.

E não, eu não sou a rainha da desconstrução, nem a dona da porra toda, aliás, nem seguidores tenho, tenho meia dúzia de amigues e alunes que tão aqui na peleia comigo. Mas tô na luta, né gente. Bem sem saber o que fazer, confesso. Na real, isso tá me incomodando há muito tempo, mas só consegui escrever agora porque entreguei o texto da qualificação e tô podendo pensar em outras coisas que não só na tese.

Então, pra concluir o textaço, quando a discussão sobre a opressão da imposição de estereótipos de gênero e padrões estéticos virou defesa do direito de usar salto e batom, quando o debate sobre maternidade compulsória virou direito de odiar crianças, quando direito a creche deixou de ser pauta feminista, quando a crítica ao machismo estrutural virou “homem não dá pitaco”, quando debate sobre monogamia virou “meu homem, ninguém sai”, quando crítica à sororidade virou o direito de chamar a coleguinha de puta-feia-chata-whatever, quando apontar racismo e transfobia é “rachar o movimento”, a gente tá fazendo tudo muito errado, né não?

E, o mais importante: não basta superar o autofeminismo, tem que superar o feminismo messiânico. Pra ontem! Chega de esperar salvação, gente. Como diz Jota Mombaça(2): “Isso aqui é uma barricada! Não uma bíblia”.

Referências

(1) Soares, Vera. Muitas faces do feminismo no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, p. 33-54, 2006.

(2) rumo a uma redistribuição desobediente de gênero e anticolonial da violência! Por Jota Mombaça. Publicado no Issuu em 12/12/2016.

Autora

Máira Nunes é 8 ou 80. Feminista, mãe, professora e aspirante a artesã. Aguarda ansiosamente o apocalipse queer. Publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 05/05/2017.

Imagem: Março/2017. Tuane Fernandes/Mídia NINJA.