Legalizar o aborto: mulheres que ajudam outras mulheres

Hoje, publicamos uma entrevista com uma das muitas mulheres por aí que fazem a diferença no dia a dia. Essa entrevista é sobre uma mulher que ajuda outras mulheres que querem abortar. No Brasil, o aborto só é permitido em caso de estupro, em que a mãe corre risco de vida ou ainda se o feto é anencéfalo. Ainda que esses três casos sejam permitidos, é muito difícil encontrar, por exemplo, um médico que faça o procedimento de aborto, assim como uma equipe no hospital que não trate a mulher com hostilidade por conta de sua decisão.

Em qualquer outro caso o aborto não é permitido, mas isso não quer dizer que o aborto não aconteça. Segunda o trabalho de pesquisa feito por Débora Diniz, a cada 5 mulheres no Brasil 1 já fez aborto. Ou seja, ainda que o aborto seja proibido no Brasil, as mulheres abortam em clínicas clandestinas. O resultado disso é que mulheres brancas e ricas, em sua maioria, pagam clínicas e médicos particulares para abortar, já as mulheres negras e pobres acabam morrendo em clínicas clandestinas. Contudo, existem algumas mulheres que conseguem ajudar aquelas que querem fazer aborto e não tem dinheiro para pagar, ou mesmo acesso.

A entrevista de hoje é sobre uma dessas mulheres que ajudam outras mulheres. E, por ser crime, não podemos identificá-la e nem temos como oferecer nenhuma informação sobre como fazer um aborto ilegal.

Mãos. Foto de Álvaro Canivell no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Mãos. Foto de Álvaro Canivell no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

1. Por que você resolveu ajudar mulheres que querem abortar?

Acho legal falar que já fui contra a legalização do aborto, e que eu mesma, muito provavelmente não teria coragem de fazer um. Em um passado, não muito distante, cerca de 4/5 anos atrás, reproduzia o discurso ferrenhamente de que “aborto é assassinato”, cheguei inclusive a orientar algumas mulheres a não fazer, por achar errado, era “católica” nessa época. Julguei as mulheres que mesmo assim fizeram. Lembrar disso me dói um pouco.

Me dói porque a falta de informação nos faz ser ignorante por anos. Era uma completa ignorante antes de ir pesquisar sobre aborto. Apenas reproduzia mitos sobre aborto: “É um assassinato”, “O feto sente dor”, “É uma criança”, “Precisamos proteger essa criança indefesa”. Essas e outras baboseiras que dizem sobre aborto. Por sorte, depois de ler, ler, pesquisar, onversar com outras mulheres e me informar MUITO, sobre todas as questões que envolvem esse tema, passei a querer ajudar mulheres. E de fato, faço isso quando posso, quando está ao meu alcance.

Ajudo, porque entendi que gravidez não deve ser vista como destino ou obrigação, deve ser vontade, afinal toda criança deveria ser desejada e não obrigada a nascer sendo rejeitada.

Ajudo porque entendi uma coisa bem básica, pessoas com útero e não estéreis ovulam todo mês e, assim como as pessoas dizem para alguém que sofreu um aborto espontâneo: “Você pode tentar de novo”; temos que dizer: “O corpo é seu, você decide se sim e quando” para as pessoas que decidem abortar.

Ajudo porque entendi que mulher deve engravidar por vontade própria e não do marido/companheiro. Esse é um motivo muito, muito importante pra mim. Só nasci, porque meu pai queria muito ter uma filha, porém, minha mãe não queria passar pela 4º gravidez para simplesmente tentar ter uma menina. Encurtando a minha história, fui rejeitada pela minha mãe praticamente a vida toda. E sofri abusos sexuais dos meus irmãos mais velhos por 5 anos.

Não culpo a minha mãe, nem pela rejeição, nem pelos abusos que sofri. Culpo meu pai e meus irmãos, porque são eles os homens que agrediram a mim e a minha mãe, foram eles que desrespeitaram nossos corpos. Se meu pai respeitasse a autonomia do corpo da minha mãe, eu provavelmente não teria nascido e ele talvez teria ensinado meus irmãos a respeitar mulheres e não ter perpetuado uma educação machista e misógina de pura violência. Se me perguntar se eu preferia não ter nascido, vou responder sem hesitar: “Preferia que minha mãe tivesse sido respeitada”.

Falar sobre aborto não é simplesmente falar sobre um feto, é falar sobre total autonomia de nossos corpos e vidas. É fazer homens terem consciência de que eles não tem controle nenhum sobre nossos corpos e nossas vidas. É fazer homens entenderem que mulheres não existem para agradá-los. É fazer homens entenderem que estes corpos não lhes pertencem.

Ajudo porque só quem pode engravidar é que tem total poder de dizer o que quer ou não fazer com seu corpo.

Ajudo porque toda tentativa de justificar a criminalização do aborto é falha, todas essas tentativas não impedem que abortos ocorram, mas contribuem para que milhares de mulheres morram todos os anos em decorrência de procedimentos errados.

Ajudo porque uma gravidez indesejada não se torna desejada apenas porque é crime abortar. Dizer que é crime e que é “pecado”, não impede que abortos aconteçam.

O mais importante pra mim é fazer uma sociedade inteira repensar sobre gravidez e todas as responsabilidades que cuidar de uma criança e educar esse individuo envolvem. Ter um/a filho/a pra mim, não deveria ser visto como obrigação religiosa, mas sim como responsabilidade social e coletiva, de educar um individuo capaz de conviver em sociedade, respeitando a autonomia dos outros.

É por todos esses motivos que ajudo e vou continuar ajudando quando possível. É por todos esses motivos que milito ferrenhamente para orientar e informar pessoas sobre a importância da legalização do aborto.

2. Essa ajuda pode fazer com que algo aconteça com você, como por exemplo, seja presa. Como é isso pra você?

Pois é, posso ser presa por ajudar mulheres a exercerem sua autonomia e isto é um absurdo, simplesmente um absurdo. Por ser considerado crime e ter esse risco de ser presa só ajudo mulheres que chegam até mim por indicação de pessoas próximas, amigas. E isso é ruim, porque sei que muitas mulheres não conseguem qualquer ajuda ou apoio e acabam morrendo em decorrência de procedimentos errados, ou sobrevivem e tem sequelas, como ficar infértil. Além da falta de apoio psicológico. Sabe, existem meios e mais meios completamente eficazes de interromper uma gravidez até 3 meses e que principalmente quando bem executados não colocam a vida da mulher em risco, que proibir/criminalizar chega a ser estupidez.

3. Como você acha que sua ajuda pode impactar a vida dessas mulheres? 

Nas palavras delas: “Você salvou a minha vida. Obrigada!”. É triste pensar que elas me agradecem por algo que deveriam ter direito. Por algo que o estado deveria informar, orientar e garantir.

Sempre que uma mulher entra em contato comigo, pergunto o tempo da gravidez. Se ainda estiver no começo, um mês, no máximo dois, o procedimento pode ser feito com chá natural. Sabe, chá não chega a R$ 10,00 e pode ser feito em casa, com as devidas orientações e cuidados. E, na maioria dos casos, não precisa ir a um hospital fazer curetagem.

Quando a gravidez já está com mais de 2 meses, aí o procedimento precisa ser feito em clinica. Porém, custa caro, em torno de três mil reais. E quem tem três mil sobrando para fazer um aborto? Clinicas clandestinas que cobram quinhentos reais tem de monte, porém essas não garantem que se saia viva ou sem sequelas. A questão do aborto é urgente, é uma questão de saúde publica. De saúde da sociedade.

A gente cuida uma da outra

Texto de Thayz Athayde.

Segundo o Secretário–Geral da ONU Ban Ki-Moon: “Cerca de 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência no decorrer de sua vida. As mulheres de 15 a 44 anos correm mais risco de sofrer estupro e violência doméstica do que de câncer, acidentes de carro, guerra e malária, de acordo com dados do Banco Mundial”. Ele também acrescenta: “Calcula-se que, em todo o mundo, uma em cada cinco mulheres se tornará uma vítima de estupro ou tentativa de estupro no decorrer da vida”. A partir de várias estatísticas como essa a ONU aprovou medidas para combater a violência contra mulher, mais de 130 países assinam acordo sobre o fim da violência contra a mulher.  

Quando militamos pelo movimento feminista, seja em um ato, marchas, palestras, nas ruas ou virtualmente, é comum mulheres — que muitas vezes não nos conhecem — nos procurarem para relatar casos de violência. Todos os tipos de violências. Por mais que as estatísticas estejam ai a nossa reação sempre será de tristeza e de luto. A nossa vontade sempre será de ajudar e tentar resolver tudo da melhor forma possível. Muitas vezes essas mulheres nos contam que seus processos e medidas protetivas simplesmente não funcionam no dia-a-dia e elas continuam com medo. A sensação é de impunidade.

O primeiro impulso é assegurar que todas essas mulheres não sofram mais violência e se empoderem. E com isso a ideia de que a gente cuida uma da outra, de que mexeu com uma mexeu com todas, de que não podemos fingir que não estamos vendo quando uma mulher está sendo violentada — mesmo que você nunca tenha visto essa mulher na vida — faz muito mais sentido.  Porque a Lei Maria da Penha não pode ser uma lei apenas punitiva e nós fazemos isso quando dizemos para sociedade: ei, você não pode fazer isso, machismo mata.

Foto de Bruna Ferencz para Marcha das Vadias Curitiba – 2012.
Foto de Bruna Ferencz para Marcha das Vadias Curitiba – 2012.

Com esse sentimento de cuidar uma da outra que vou contar como ajudamos uma amiga.

Moro em Curitiba e ajudo na construção da Marcha das Vadias local, nessa vadiagem feminista conheci a Maria (nome fictício). Ela nos contou sua história de violência, foi agredida moralmente e fisicamente pelo ex-namorado, além de ser estuprada. Ela denunciou o ex- namorado na delegacia e entrou com processo. Também denunciou na Universidade onde estudava e isso rendeu apenas 90 dias de suspensão para o rapaz, nada mais.

Depois do rompimento de Maria com o namorado, ele começou a namorar outra mulher e a história de violência se repetiu com a nova namorada. Mesmo com o processo, nada foi feito. Maria ficou triste, arrasada, por ela e pela outra mulher que também foi agredida por seu ex-namorado. Dia 03 de abril foi a festa de formatura dele, a mesma formatura que Maria deveria estar, mas não conseguiu porque não aguentou conviver com o seu agressor. A mesma formatura que a outra mulher que ele agrediu estaria. E foi então que Maria percebeu que isso não poderia ficar dessa forma, alguma coisa deveria ser feita. Decidimos fazer um ato silencioso em frente ao local da formatura, dessa forma não iríamos atrapalhar a formatura das outras pessoas, mas ele saberia que estaríamos lá, todxs saberiam que estaríamos lá.

Nos posicionamos silenciosamente do lado de fora do teatro da Universidade, com maquiagens parecidas com as da foto abaixo. Nos cartazes estavam escritas várias frases sobre violência contra a mulher, o nome do agressor e também o “mexeu com uma, mexeu com todas”. Estávamos ali, seis mulheres, seis amigas cuidando uma da outra.

Foto de Lari Schip no facebook. Ato pelo fim da violência contra mulher. Curitiba – 2012.
Foto de Lari Schip no facebook. Ato pelo fim da violência contra mulher. Curitiba – 2012.

A mãe da outra mulher agredida veio nos cumprimentar, nos agradecendo emocionada e contou que naquele mesmo dia o agressor passou o dia encurralando sua filha. A outra mulher agredida olhou para todas nós, olhou para minha amiga e sorriu como um sinal de alívio. Várias pessoas que estavam na formatura nos apoiaram. Outrxs nos olharam confusxs ou indignadxs com o colega que havia praticado violência. Infelizmente também existiam pessoas que acham que a violência contra a mulher é brincadeira e por isso riram. Um rapaz fingiu que estava batendo na sua namorada e achou que isso seria uma bela piada.

Porém, enquanto isso, três mulheres passavam por ali viram a situação e nos perguntaram o que havia acontecido. Contamos toda a história e elas imediatamente pediram para participar do protesto, pois disseram que não poderiam ficar caladas diante dessa violência, mesmo que elas não conhecessem as mulheres que foram agredidas. Várias pessoas foram conversar, perguntar o motivo do protesto, declarar seu apoio. Quando já estávamos indo embora um amigo nos ajudou e avisou outras mulheres sobre o protesto. Outras amigas foram chegando. E de repente não éramos mais seis, éramos muitxs, éramos todxs.

Esse post não é para dizer que somos legais e que também existem outras pessoas legais. Esse post é para falar que a sororidade existe. E essa sororidade me emocionou naquele dia, emocionou ver tantas mulheres nos apoiando, com um sorriso, com palavras, erguendo cartazes e dizendo que não importa se elas não conhecem as mulheres agredidas, o que importa é que devemos nos erguer diante de qualquer violência.

Devemos nos erguer quando uma mulher é assediada no ônibus, nas ruas, no trabalho, na escola, na faculdade, em qualquer lugar. Não devemos nos calar quando uma mulher é chamada de vadia porque exerce sua liberdade sexual. Não podemos rir daquelas piadas machistas só porque é humor e fazer piada tá tudo bem. Não podemos deixar ninguém dizer quem somos, qual nossa identidade ou como nosso corpo deve ser.

Temos que nos levantar diante dos diferentes tipos de machismos, inclusive os que vêm acompanhados pela transfobia, lesbofobia e racismo. Porque não importa qual a minha identidade (brancx, negrx, hétero, lésbica, gay, cis, trans*, etc) o que importa mesmo é que a gente cuida umx da outrx.

Agora o agressor, todas as pessoas presentes naquela dia e você que está lendo esse post sabem que se mexer com uma, mexeu com todas.

Feminismo de todas as bandeiras

Texto de Thayz Athayde.semana_8_marco

Há anos atrás eu adorava o dia das mulheres. Apesar de já estar dentro de movimentos sociais naquela época, eu ainda não tinha saído do armário feminista. Adorava sair no dia 08 de março e ganhar todos os brindes, rosas e bombons possíveis. Era uma festa pra mim, apesar de entender que era um dia de luta. Um dia, eu entendi que mulheres são mortas e violentadas todos os dias por serem mulheres, que eu não posso ir naquela loja e achar legal um desconto no dia das mulheres porque eu vou ser julgada por essa roupa que vou usar: santa ou puta? Percebi que não tenho autonomia nenhuma sobre meu corpo, tenho um corpo criminalizado, julgado.

Ato na Marcha das Vadias de Curitiba, 2012. Foto de Julio Garrido.
Ato na Marcha das Vadias de Curitiba, 2012. Foto de Julio Garrido.

Depois de tudo isso, percebi que apesar de todas as lutas que eu tenho que fazer para ser mulher, ainda assim sou privilegiada porque sou cis, branca, hétero e de classe média. Porque não existe escala de opressão: opressão é opressão e ponto final. E aí eu percebi o quanto o feminismo é importante não só pra mim, mas pra todas as mulheres. Descobri a sororidade, a irmandade feminista. Aquela que me faz entrar em uma luta mesmo que não me encaixe em uma identidade política: a luta também é minha. Porque a mulher negra ainda tem seu corpo associado diretamente a sexo, tem menos chance de entrar em uma vaga de emprego, é mais criticada para se encaixar dentro de um padrão estético normativo e branco, são violentadas e obrigadas a negar a sua negritude. A mulher trans* é violentada diariamente por sua identidade de gênero, não tem acesso ao seu próprio corpo, ao seu nome, a sociedade. A mulher lésbica não pode andar tranquilamente na rua com sua namorada porque ou será agredida ou servirá de mero prazer para olhares masculinos, porque muitos homens por aí ainda acham que lésbicas são mulheres que devem satisfazer seus desejos.

E aí eu me descobri mulher no feminismo, me descobri no meio de tantas lutas e tantas identidades. E hoje eu não comemoro o dia da mulher, eu luto. Mas, eu comemoro sempre que uma mulher me conta que venceu o machismo, racismo, lesbofobia, transfobia.

Hoje sou vadia. Sou todas as mulheres. Sou todas as lutas. Sou feminista.