Por que a auto-organização é importante para as mulheres?

Texto de Nathália Ferreira Guimaraes para as Blogueiras Feministas.

A auto-organização é um principio organizativo do feminismo popular que tem como objetivo empoderar as mulheres a fim de se tornarem protagonistas na luta e nas suas vidas (não que essas sejam separadas). Esses espaços são importantes ferramentas para que as mulheres falem, reflitam e participem ativamente da construção do feminismo. Esse texto é apenas “um ponta a pé” numa discussão que merece ser mais aprofundada.

A auto-organização que proponho é baseada na aprendizagem por meio da coletividade. A proposta é que os saberes produzidos nesse processo sejam capazes de transformar de alguma forma a vida das mulheres, contribuindo para um feminismo mais amplo e diverso que esteja totalmente comprometido em modificar a estrutura capitalista patriarcal presente na maioria das sociedades atualmente. Por isso, tenho dois princípios como geradores: o “pessoal é político” e a sororidade.

O principio do “pessoal é político”, máxima feminista que desconstrói a lógica do público x privado, uma vez que vem questionar o que acontece em casa, entre quatro paredes, nas nossas vidas cotidianas, nas nossas relações pessoais é base para a criação de espaços de auto-organização. Para as mulheres, as relações entre espaço público e privado são fundamentais, pois em ambos seus comportamentos sofrem constante vigilância e avaliações. Além disso, o trabalho doméstico é invisibilizado. Enquanto o movimento trabalhista se lançava as ruas exigindo diretos, não lançaram o olhar para a atividade doméstica, trabalho indispensável ao sistema capitalista patriarcal, construído socialmente como natural, fruto de um senso comum que acredita ser ele feito por “amor” aos filhos e ao marido.

Outro princípio importante é o da sororidade, a solidariedade entre as mulheres. As mulheres são educadas a serem competitivas umas com as outras, gerando hostilidade e insegurança entre nós. Por isso, é preciso enxergarmos e compreendermos umas as outras. Entender que não somos perfeitas e que diversas vezes seremos contraditórias, mas pensando que juntas podemos conseguir avançar na luta por um mundo melhor para todas.

Ciranda. Foto de Rodrigo Farhat no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Ciranda. Foto de Rodrigo Farhat no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Um dos objetivos da auto-organização é deixar as mulheres mais a vontade para se expressarem, já que muitas vezes não somos incentivadas ou somos até mesmo ignoradas quando nos posicionamos em público, uma vez que a divisão entre público e privado — proporcionado pelo sistema patriarcal — nos fez historicamente alijadas desses espaços. Portanto, temos a sensação de que não estamos “preparadas” para o espaço “político” (já que esse é considerado dentro da esfera pública e não do privado como veremos mais adiante). Esse espaço é construído de uma forma a exigir certas características nossas que não são neutras, são características e posturas consideradas e construídas como masculinas como: a razão e a voz “firme”, por exemplo. Infelizmente, é comum em vários espaços políticos vermos mulheres gritando para chamar atenção para sua fala, já que para outras pessoas sua fala seria de menor valor que as falas masculinas. Criam-se sempre critérios para justificar que as falas das mulheres sejam menos valorizadas e escutadas. Assim, possuir um lugar para nos expressar com mais tranquilidade é, de certa forma, uma oportunidade para criarmos estratégias visando nos posicionarmos mais e melhor nos espaços mistos.

O espaço auto-organizado precisa ser um lugar de troca de experiências, onde conseguimos enxergar e ser empáticas umas com as outras. Onde conseguimos perceber que as dificuldades que passamos em nossa sociedade não são apenas individuais, mas também coletivas. Onde conseguimos compreender que o que passamos é estrutural; decorre de toda uma condição histórica imposta pelo sistema capitalista patriarcal. Também é um lugar que permite observar as particularidades presentes nos diferentes grupos de mulheres, como por exemplo a situação da mulher negra, que sofre uma opressão de gênero diferenciada das mulheres brancas por causa do racismo, assim como as especificidades e semelhanças que envolvem lésbicas, indígenas, latinas, mulheres trans, mulheres que tem deficiências, mulheres idosas, adolescentes, crianças e tantas outras singularidades que trazem com elas um debate que deve perpassar etnia, raça, sexualidade, autonomia, políticas públicas e identidade de gênero, entre outros tópicos. Por isso, é importante estarmos todas atentas para percebermos essas diferenças e, principalmente as semelhanças, a fim de compreendermos que juntas na luta é que conseguiremos concretizar mudanças. É assim que podemos construir o companheirismo entre as mulheres.

A auto-organização também é lugar para percebermos como o machismo é reproduzido por nós mesmas e como juntas poderemos superá-lo. Lembrando que desde pequenas somos ensinadas a reproduzir o machismo estrutural nos diversos espaços sociais. Lembrando que não há ganhos a longo prazo para a mulher que defende ideias machistas, pois na primeira “pisada de bola”, ela terá todos os dedos apontados para si e será tratada como todas as outras que já eram consideradas vadias, piranhas ou vacas por se rebelarem contra o patriarcado.

É importante ressaltar que o espaço de auto-organização não é um espaço livre de conflitos. Há discussões, há disputas internas e há discordâncias, porém isso não deve ser visto como algo negativo, mas sim parte da dinâmica de criação da política e da convivência em grupo. Como dito acima, nós mulheres possuímos nossas semelhanças e diferenças. Dentro de um grupo encontraremos pessoas com diferentes referências e trajetórias, com diversas vivências. As questões que a raça, sexualidade e as diferenças geracionais nos impõem são muitas, falamos de lugares ao mesmo tempo iguais e distintos, possuímos experiências diferenciadas e nada mais natural que isso leve a alguns conflitos. Por isso, a auto-organização precisa ser um espaço aberto e colaborativo, para debatermos nossas ideias, compreendermos nossa diferenças, nossos desafios. Iremos entrar em embates para no fim sairmos com posições e ações fortes e unitárias. Não podemos esquecer que são as contradições que nos movem e que há um sistema capitalista patriarcal vigente que não aceita ser questionado. Nós podemos ser nossa força e o lugar de mostrarmos divergências é justamente esse, onde teremos apoio umas das outras e onde podemos expressar livremente nossas ideias.

Por fim, o principal objetivo da auto-organização é nos forjar como protagonistas na luta feminista. Um espaço que precisa gerar conhecimento, autonomia, segurança e acolhimento para as mulheres se reconhecerem como agentes das mudanças. O aprendizado coletivo nos dá força para começarmos a participar ativamente de ações, reivindicar políticas, candidatar-se a cargos de liderança e não termos medo de nos expressar. Podemos, precisamos e devemos estar em todos os espaços públicos. Queremos lançar novos olhares e modificar as relações nos espaços privados. Seremos referência, não só feminina mas feminista, para modificar as relações desiguais presentes na sociedade. Pela auto-organização é que definimos nossas pautas prioritárias e nos fortalecemos, pois nossas bandeiras de luta não serão encampadas por outros que não nós mesmas.

Autora

Nathália Ferreira Guimarães é militante do Levante Popular da Juventude (BH/MG) e estudante de ciências sociais na UFMG. Foi coordenadora geral DCE UFMG 2013 e 2014, integrante e bolsista do NEPEM e CIFM UFMG (Núcleo de Pesquisas e Estudos sobre a Mulher – Centro de Interesse Feminista e de Gênero).

Legalizar o aborto: mulheres que ajudam outras mulheres

Hoje, publicamos uma entrevista com uma das muitas mulheres por aí que fazem a diferença no dia a dia. Essa entrevista é sobre uma mulher que ajuda outras mulheres que querem abortar. No Brasil, o aborto só é permitido em caso de estupro, em que a mãe corre risco de vida ou ainda se o feto é anencéfalo. Ainda que esses três casos sejam permitidos, é muito difícil encontrar, por exemplo, um médico que faça o procedimento de aborto, assim como uma equipe no hospital que não trate a mulher com hostilidade por conta de sua decisão.

Em qualquer outro caso o aborto não é permitido, mas isso não quer dizer que o aborto não aconteça. Segunda o trabalho de pesquisa feito por Débora Diniz, a cada 5 mulheres no Brasil 1 já fez aborto. Ou seja, ainda que o aborto seja proibido no Brasil, as mulheres abortam em clínicas clandestinas. O resultado disso é que mulheres brancas e ricas, em sua maioria, pagam clínicas e médicos particulares para abortar, já as mulheres negras e pobres acabam morrendo em clínicas clandestinas. Contudo, existem algumas mulheres que conseguem ajudar aquelas que querem fazer aborto e não tem dinheiro para pagar, ou mesmo acesso.

A entrevista de hoje é sobre uma dessas mulheres que ajudam outras mulheres. E, por ser crime, não podemos identificá-la e nem temos como oferecer nenhuma informação sobre como fazer um aborto ilegal.

Mãos. Foto de Álvaro Canivell no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Mãos. Foto de Álvaro Canivell no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

1. Por que você resolveu ajudar mulheres que querem abortar?

Acho legal falar que já fui contra a legalização do aborto, e que eu mesma, muito provavelmente não teria coragem de fazer um. Em um passado, não muito distante, cerca de 4/5 anos atrás, reproduzia o discurso ferrenhamente de que “aborto é assassinato”, cheguei inclusive a orientar algumas mulheres a não fazer, por achar errado, era “católica” nessa época. Julguei as mulheres que mesmo assim fizeram. Lembrar disso me dói um pouco.

Me dói porque a falta de informação nos faz ser ignorante por anos. Era uma completa ignorante antes de ir pesquisar sobre aborto. Apenas reproduzia mitos sobre aborto: “É um assassinato”, “O feto sente dor”, “É uma criança”, “Precisamos proteger essa criança indefesa”. Essas e outras baboseiras que dizem sobre aborto. Por sorte, depois de ler, ler, pesquisar, onversar com outras mulheres e me informar MUITO, sobre todas as questões que envolvem esse tema, passei a querer ajudar mulheres. E de fato, faço isso quando posso, quando está ao meu alcance.

Ajudo, porque entendi que gravidez não deve ser vista como destino ou obrigação, deve ser vontade, afinal toda criança deveria ser desejada e não obrigada a nascer sendo rejeitada.

Ajudo porque entendi uma coisa bem básica, pessoas com útero e não estéreis ovulam todo mês e, assim como as pessoas dizem para alguém que sofreu um aborto espontâneo: “Você pode tentar de novo”; temos que dizer: “O corpo é seu, você decide se sim e quando” para as pessoas que decidem abortar.

Ajudo porque entendi que mulher deve engravidar por vontade própria e não do marido/companheiro. Esse é um motivo muito, muito importante pra mim. Só nasci, porque meu pai queria muito ter uma filha, porém, minha mãe não queria passar pela 4º gravidez para simplesmente tentar ter uma menina. Encurtando a minha história, fui rejeitada pela minha mãe praticamente a vida toda. E sofri abusos sexuais dos meus irmãos mais velhos por 5 anos.

Não culpo a minha mãe, nem pela rejeição, nem pelos abusos que sofri. Culpo meu pai e meus irmãos, porque são eles os homens que agrediram a mim e a minha mãe, foram eles que desrespeitaram nossos corpos. Se meu pai respeitasse a autonomia do corpo da minha mãe, eu provavelmente não teria nascido e ele talvez teria ensinado meus irmãos a respeitar mulheres e não ter perpetuado uma educação machista e misógina de pura violência. Se me perguntar se eu preferia não ter nascido, vou responder sem hesitar: “Preferia que minha mãe tivesse sido respeitada”.

Falar sobre aborto não é simplesmente falar sobre um feto, é falar sobre total autonomia de nossos corpos e vidas. É fazer homens terem consciência de que eles não tem controle nenhum sobre nossos corpos e nossas vidas. É fazer homens entenderem que mulheres não existem para agradá-los. É fazer homens entenderem que estes corpos não lhes pertencem.

Ajudo porque só quem pode engravidar é que tem total poder de dizer o que quer ou não fazer com seu corpo.

Ajudo porque toda tentativa de justificar a criminalização do aborto é falha, todas essas tentativas não impedem que abortos ocorram, mas contribuem para que milhares de mulheres morram todos os anos em decorrência de procedimentos errados.

Ajudo porque uma gravidez indesejada não se torna desejada apenas porque é crime abortar. Dizer que é crime e que é “pecado”, não impede que abortos aconteçam.

O mais importante pra mim é fazer uma sociedade inteira repensar sobre gravidez e todas as responsabilidades que cuidar de uma criança e educar esse individuo envolvem. Ter um/a filho/a pra mim, não deveria ser visto como obrigação religiosa, mas sim como responsabilidade social e coletiva, de educar um individuo capaz de conviver em sociedade, respeitando a autonomia dos outros.

É por todos esses motivos que ajudo e vou continuar ajudando quando possível. É por todos esses motivos que milito ferrenhamente para orientar e informar pessoas sobre a importância da legalização do aborto.

2. Essa ajuda pode fazer com que algo aconteça com você, como por exemplo, seja presa. Como é isso pra você?

Pois é, posso ser presa por ajudar mulheres a exercerem sua autonomia e isto é um absurdo, simplesmente um absurdo. Por ser considerado crime e ter esse risco de ser presa só ajudo mulheres que chegam até mim por indicação de pessoas próximas, amigas. E isso é ruim, porque sei que muitas mulheres não conseguem qualquer ajuda ou apoio e acabam morrendo em decorrência de procedimentos errados, ou sobrevivem e tem sequelas, como ficar infértil. Além da falta de apoio psicológico. Sabe, existem meios e mais meios completamente eficazes de interromper uma gravidez até 3 meses e que principalmente quando bem executados não colocam a vida da mulher em risco, que proibir/criminalizar chega a ser estupidez.

3. Como você acha que sua ajuda pode impactar a vida dessas mulheres? 

Nas palavras delas: “Você salvou a minha vida. Obrigada!”. É triste pensar que elas me agradecem por algo que deveriam ter direito. Por algo que o estado deveria informar, orientar e garantir.

Sempre que uma mulher entra em contato comigo, pergunto o tempo da gravidez. Se ainda estiver no começo, um mês, no máximo dois, o procedimento pode ser feito com chá natural. Sabe, chá não chega a R$ 10,00 e pode ser feito em casa, com as devidas orientações e cuidados. E, na maioria dos casos, não precisa ir a um hospital fazer curetagem.

Quando a gravidez já está com mais de 2 meses, aí o procedimento precisa ser feito em clinica. Porém, custa caro, em torno de três mil reais. E quem tem três mil sobrando para fazer um aborto? Clinicas clandestinas que cobram quinhentos reais tem de monte, porém essas não garantem que se saia viva ou sem sequelas. A questão do aborto é urgente, é uma questão de saúde publica. De saúde da sociedade.

A gente cuida uma da outra

Texto de Thayz Athayde.

Segundo o Secretário–Geral da ONU Ban Ki-Moon: “Cerca de 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência no decorrer de sua vida. As mulheres de 15 a 44 anos correm mais risco de sofrer estupro e violência doméstica do que de câncer, acidentes de carro, guerra e malária, de acordo com dados do Banco Mundial”. Ele também acrescenta: “Calcula-se que, em todo o mundo, uma em cada cinco mulheres se tornará uma vítima de estupro ou tentativa de estupro no decorrer da vida”. A partir de várias estatísticas como essa a ONU aprovou medidas para combater a violência contra mulher, mais de 130 países assinam acordo sobre o fim da violência contra a mulher.  

Quando militamos pelo movimento feminista, seja em um ato, marchas, palestras, nas ruas ou virtualmente, é comum mulheres — que muitas vezes não nos conhecem — nos procurarem para relatar casos de violência. Todos os tipos de violências. Por mais que as estatísticas estejam ai a nossa reação sempre será de tristeza e de luto. A nossa vontade sempre será de ajudar e tentar resolver tudo da melhor forma possível. Muitas vezes essas mulheres nos contam que seus processos e medidas protetivas simplesmente não funcionam no dia-a-dia e elas continuam com medo. A sensação é de impunidade.

O primeiro impulso é assegurar que todas essas mulheres não sofram mais violência e se empoderem. E com isso a ideia de que a gente cuida uma da outra, de que mexeu com uma mexeu com todas, de que não podemos fingir que não estamos vendo quando uma mulher está sendo violentada — mesmo que você nunca tenha visto essa mulher na vida — faz muito mais sentido.  Porque a Lei Maria da Penha não pode ser uma lei apenas punitiva e nós fazemos isso quando dizemos para sociedade: ei, você não pode fazer isso, machismo mata.

Foto de Bruna Ferencz para Marcha das Vadias Curitiba – 2012.
Foto de Bruna Ferencz para Marcha das Vadias Curitiba – 2012.

Com esse sentimento de cuidar uma da outra que vou contar como ajudamos uma amiga.

Moro em Curitiba e ajudo na construção da Marcha das Vadias local, nessa vadiagem feminista conheci a Maria (nome fictício). Ela nos contou sua história de violência, foi agredida moralmente e fisicamente pelo ex-namorado, além de ser estuprada. Ela denunciou o ex- namorado na delegacia e entrou com processo. Também denunciou na Universidade onde estudava e isso rendeu apenas 90 dias de suspensão para o rapaz, nada mais.

Depois do rompimento de Maria com o namorado, ele começou a namorar outra mulher e a história de violência se repetiu com a nova namorada. Mesmo com o processo, nada foi feito. Maria ficou triste, arrasada, por ela e pela outra mulher que também foi agredida por seu ex-namorado. Dia 03 de abril foi a festa de formatura dele, a mesma formatura que Maria deveria estar, mas não conseguiu porque não aguentou conviver com o seu agressor. A mesma formatura que a outra mulher que ele agrediu estaria. E foi então que Maria percebeu que isso não poderia ficar dessa forma, alguma coisa deveria ser feita. Decidimos fazer um ato silencioso em frente ao local da formatura, dessa forma não iríamos atrapalhar a formatura das outras pessoas, mas ele saberia que estaríamos lá, todxs saberiam que estaríamos lá.

Nos posicionamos silenciosamente do lado de fora do teatro da Universidade, com maquiagens parecidas com as da foto abaixo. Nos cartazes estavam escritas várias frases sobre violência contra a mulher, o nome do agressor e também o “mexeu com uma, mexeu com todas”. Estávamos ali, seis mulheres, seis amigas cuidando uma da outra.

Foto de Lari Schip no facebook. Ato pelo fim da violência contra mulher. Curitiba – 2012.
Foto de Lari Schip no facebook. Ato pelo fim da violência contra mulher. Curitiba – 2012.

A mãe da outra mulher agredida veio nos cumprimentar, nos agradecendo emocionada e contou que naquele mesmo dia o agressor passou o dia encurralando sua filha. A outra mulher agredida olhou para todas nós, olhou para minha amiga e sorriu como um sinal de alívio. Várias pessoas que estavam na formatura nos apoiaram. Outrxs nos olharam confusxs ou indignadxs com o colega que havia praticado violência. Infelizmente também existiam pessoas que acham que a violência contra a mulher é brincadeira e por isso riram. Um rapaz fingiu que estava batendo na sua namorada e achou que isso seria uma bela piada.

Porém, enquanto isso, três mulheres passavam por ali viram a situação e nos perguntaram o que havia acontecido. Contamos toda a história e elas imediatamente pediram para participar do protesto, pois disseram que não poderiam ficar caladas diante dessa violência, mesmo que elas não conhecessem as mulheres que foram agredidas. Várias pessoas foram conversar, perguntar o motivo do protesto, declarar seu apoio. Quando já estávamos indo embora um amigo nos ajudou e avisou outras mulheres sobre o protesto. Outras amigas foram chegando. E de repente não éramos mais seis, éramos muitxs, éramos todxs.

Esse post não é para dizer que somos legais e que também existem outras pessoas legais. Esse post é para falar que a sororidade existe. E essa sororidade me emocionou naquele dia, emocionou ver tantas mulheres nos apoiando, com um sorriso, com palavras, erguendo cartazes e dizendo que não importa se elas não conhecem as mulheres agredidas, o que importa é que devemos nos erguer diante de qualquer violência.

Devemos nos erguer quando uma mulher é assediada no ônibus, nas ruas, no trabalho, na escola, na faculdade, em qualquer lugar. Não devemos nos calar quando uma mulher é chamada de vadia porque exerce sua liberdade sexual. Não podemos rir daquelas piadas machistas só porque é humor e fazer piada tá tudo bem. Não podemos deixar ninguém dizer quem somos, qual nossa identidade ou como nosso corpo deve ser.

Temos que nos levantar diante dos diferentes tipos de machismos, inclusive os que vêm acompanhados pela transfobia, lesbofobia e racismo. Porque não importa qual a minha identidade (brancx, negrx, hétero, lésbica, gay, cis, trans*, etc) o que importa mesmo é que a gente cuida umx da outrx.

Agora o agressor, todas as pessoas presentes naquela dia e você que está lendo esse post sabem que se mexer com uma, mexeu com todas.