Absorventes, revistas femininas e os paradigmas da adolescência

Texto de Mariana Ferraz Paulino para as Blogueiras Feministas.

Nos primeiros anos de minha adolescência, a literatura de banca de jornal direcionada ao público feminino me acompanhou de maneira muito presente. Comprava semanalmente – torrando de maneira compulsiva todo o dinheirinho da minha mesada – as novas edições de publicações como Capricho, Atrevida, TodaTeen e quaisquer outras que pertencessem a tal universo midiático.

Fazia-o porque eu, uma adolescente conduzida pela insegurança, pela instabilidade e sobretudo pelos hormônios carnavalescos que se manifestavam em minha matéria, ansiava cada vez mais por sugestões de “looks” que fizessem com que meu corpo parecesse mais bonito aos olhos alheios, por indicações de produtos que tornassem meu cabelo e minha pele mais macios, cheirosos e livres das chamadas “imperfeições”, por dicas e truques que me ensinassem a ser “descolada diante da galera”, e o mais importante, por testes e mais testes que me trouxessem respostas para questões extremamente complexas e existenciais: se o “gato” estava “na minha”, se meu signo combinava com o dele, e principalmente, se o “nosso rolo” tinha algum futuro.

Dentre as mais variadas (pero no mucho) colunas e seções das mencionadas revistas, havia uma, na Capricho, de que eu gostava bastante, era uma seção do tipo “Cartas da Leitora”, nas quais as garotas dividiam relatos sobre situações constrangedoras que haviam vivenciado – àquela época, os chamados “micos”. Os relatos iam desde um chiclete de menta que grudava na calça jeans recém-comprada até uma alça de sutiã que se rompia de repente no meio de uma festa de 15 anos, e houve um desses relatos, um desses “micos” compartilhados por uma leitora, que me marcou de maneira profunda e me acompanhou (in)conscientemente durante anos a fio: a história compartilhada descrevia uma situação em que uma garota, na escola, deixava um absorvente cair de dentro da mochila. Por conta disso, seus colegas do sexo masculino caçoavam dela e faziam piadas com o fato de a moça ter deixado escapar um objeto tão absurdo, inesperado e proibido – um absorvente. Um simples fucking absorvente.

Imagem da poeta Rupi Kapur, que publicou uma série de fotos em seu perfil no Instagram mostrando o tabu da menstruação.
Imagem da poeta Rupi Kapur, que publicou uma série de fotos em seu perfil no Instagram mostrando o tabu da menstruação.

Tendo sido fagocitada cruelmente por essa história, transformei o absorvente num dos principais tabus da minha adolescência. Menstruar era sempre algo demasiadamente incômodo, e tudo se tornava ainda mais difícil pelas inúmeras táticas e estratégias que eu precisava desenvolver para manusear o bendito do absorvente quando era necessário trocá-lo ao longo do dia: lembro de guardá-lo no bolso da calça, dentro da minha carteira e escondido embaixo das capas dos cadernos, e corria desesperadamente com o “aparato” para o banheiro, torcendo para que ninguém jamais descobrisse que eu portava tão ilícito artigo. A cena do tal “mico” exposto pela leitora da revista Capricho se fazia tão latente em meus pensamentos a cada menstruação, que eu chegava a ter leves tonturas ao pensar que alguém pudesse me ver com um absorvente nas mãos. Sem falar nas vezes em que, por alguma razão, eu precisava pedir algum emprestado para uma colega – que tão envergonhada quanto eu, me entregava o utensílio quase como se estivesse realizando um repasse de dinheiro público desviado.

Hoje, depois de alguns anos de martírio, mas de outros tantos de um longo e difícil processo de amadurecimento e elucidação sobre a minha condição de gênero, me peguei pensando nisso enquanto caminhava por quase cem metros rumo ao banheiro da Universidade, segurando um absorvente nas mãos de modo que qualquer um que topasse comigo no caminho saberia que eu estava portando um “daqueles” descaradamente. Percebi que apenas hoje, mais de dez anos após a leitura do tal relato da revista, é que me sinto em paz em saber que os absorventes que uso não se devem obrigatoriamente se encaixar de maneira perfeita na calcinha – velha e surrada – que visto, que nada me obriga andar de bicicleta usando calças brancas e imersa numa aura de candura enquanto estou menstruada, e que não há problema algum se minhas cólicas não forem episódios agradáveis e de fácil resolução.

Hoje, para mim, menstruar não é mais motivo de terror ou vergonha, porque vejam: sou mulher cisgênera e menstruo. E mais importante do que isso, hoje tenho plena consciência de que ser mulher vai muito além de uma não fecundação do ovócito que condiciona a eliminação do endométrio, pois que há mulheres que são inteira e infinitamente mulheres e que não precisam da menstruação ou de qualquer outra convenção social/política/econômica/física/cósmica para sentirem-se e definirem-se enquanto tal.

Luto genuinamente por um mundo onde os absorventes não sejam artigos ilícitos e por uma consciência coletiva de gênero que supere inteiramente as atrocidades publicadas nessas revistas tão hostis: porque ser mulher é uma experiência que vai muito além de tudo isso, e não é a mídia e nem são os pais, os patrões, os namorados e maridos, os orientadores de pesquisa ou o comercial machista de cerveja/detergente/absorvente que nos devem ditar o que fazer. Não mais. Nunca mais!

Autora

Mariana Ferraz Paulino gosta de árvores, é historiadora, e reza todos os dias por uma revolução.

Libertação sexual: um caminho solitário e sinuoso

Texto de Jussara Oliveira.

Fico observando e refletindo sobre posicionamentos que vejo dentro do feminismo sobre a sexualidade. Muito além dos debates mais populares e acalorados — sobre violência sexual ou prostituição — existe todo um tabu sobre a prática da liberdade sexual.

  • Quando um consentimento é consentimento de fato?
  • Quando a conduta sexual de uma pessoa afeta a imagem de um grupo?
  • Quão libertas ou castas podemos ser, afirmando com certeza que não é o patriarcado que está direcionando nossas escolhas?
  • De que forma podemos separar as nossas escolhas das escolhas dos outros?
  • Quanto podemos expor nossa sexualidade sem que isso contribua para a fetichização e objetificação?
  • É possível problematizar algumas práticas sem julgarmos moralmente as pessoas envolvidas?

Existe resposta simples para alguma dessas questões?

Foto do ensaio "AFETO" da Além – Coletivo de Arte.
Foto do ensaio “AFETO” da Além – Coletivo de Arte.

Não digo que o assunto não deva ser debatido, pelo contrário. Acho importante discutir, mesmo que não seja para chegar num consenso. A única coisa que sei, com certeza, é que não sou quem vai ser a régua para a vida de ninguém e que não posso falar pelos outros. O caminho para a descoberta da própria sexualidade é um caminho solitário e único, tanto quanto diverso.

Já tive várias oportunidades de conversar e ouvir muito sobre a experiência de outras pessoas neste tema. Toda a insegurança da descoberta, a luta contra traumas e violências, contra tabus, contra padrões de corpos e beleza, contra moralidade religiosa, a busca das sexualidades diversas, a falta de informação, as experiências fracassadas, as frustrações, a pressão social sobre a virgindade e pureza feminina, o desafio da busca do prazer feminino,  a pressão sobre a virilidade masculina…

Algumas dessas dificuldades são pessoais, outras estão relacionadas a opressões que determinados grupos sofrem. E, uma pessoa só, pode ser sozinha uma interseção de grupos, consequentemente, de opressões. Por isso, as respostas para as perguntas que faço não são fáceis.

Mas sabe, isso definitivamente não quer dizer que o sexo ou a sexualidade. por si só, sejam condenáveis. Muito pelo contrario, no meu modo de ver. Precisamos experimentar aquilo que nos tem sido negado, que é a agência sobre nossos corpos, nosso prazer e as nossas experiências. E, também, ressignificar a experiência do gozo que tem sido restrita a vontade masculina.

Sobre a hipersexualização, que algumas pessoas tanto apontam como sendo um problema, tenho cá minhas dúvidas se podemos interpretar isso como uma grande exposição da sexualidade. Na minha opinião, o que ocorre na verdade é uma hiperobjetificação, porque a sexualidade apresentada e incentivada pela mídia e por diversos espaços é uma sexualidade plástica, falocêntrica e distante da realidade. Existe pouco espaço para discutir a sexualidade de fato. Para experimentarmos nossa sexualidade de forma lúdica e sem grandes julgamentos morais (positivos ou negativos).

Entendo que, neste campo, alguns grupos estão em posições extremamente mais frágeis e sujeitos a violência do que outros. Mas, pessoalmente, não acho que seja por meio da negação da sexualidade que a gente vai se libertar. A condenação e o estigma de algumas práticas, profissões e posicionamentos só afasta as possíveis vítimas de violência — dentro desses contextos — de conseguirem problematizar sua situação e buscar ajuda por causa do temor de julgamentos e falta de apoio. Além de estigmatizar pessoas — que tenham conseguido alguma autonomia em ambientes sexualmente libertos — de forma negativa e generalizante.

Alias, é possível que nada do que, nós (minorias), fizermos seja considerado pela maioria como libertação sexual, porque a opressão, simplesmente, não nos dá essa possibilidade (e não nos dará) de sermos agentes dos nossos corpos. Viver a sexualidade (de qualquer jeito e em qualquer nível) ou não… para muitas pessoas vai ser ser sempre uma transgressão. Porque ousarmos tomar nossas próprias decisões já é uma transgressão.

Creio que, no ativismo, o melhor que podemos fazer é aceitar essa diversidade de pessoas, de histórias, de grupos e darmos todo o suporte para que cada indivíduo busque ao máximo sua autonomia de escolha. Isso pode ser pouco muitas vezes, mas não podemos nos colocar na posição de juízes e/ou juízas da libertação alheia, muito menos devemos assumir a posição de sermos nossos próprios algozes nessa busca tão sinuosa.