Dzi Croquettes

Texto de Thayz Athayde.

Nos anos 70, em plena ditadura militar, nasceu o grupo Dzi Croquettes. Depois de um encontro no bar em que comiam croquete e falavam sobre o grupo americano The Croquettes, Wagner Ribeiro finalmente iniciou o grupo que idealizava há tanto tempo. Com a chegada de Lennie Dale no Brasil, dançarino americano que sambava ao estilo da Broadway como ninguém, logo entrou no grupo e passou a ajudar nos ensaios.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=4VSghVnwE0k]

Dzi Croquettes – Show na TV Alemã.

Entraram em cartaz primeiro em São Paulo, depois no Rio. Fizeram grande sucesso no Brasil, ganharam seguidores que largavam o emprego, a família, que se restruturavam e desestruturavam. O grupo sacudia o dispositivo da sexualidade que Foucault descreve no livro A História da Sexualidade I (.pdf).

Purpurinas no bigode e no peito cabeludo, corpos musculosos e sunga fio dental. Os Dzi Croquettes mexiam com todos os significados do que é ser homem e ser mulher, mexiam com a sexualidade e com a heterossexualidade, não havia mais identidade sexual. Ali, todas e todos se atraiam por aquelas pessoas que estavam no palco, fazendo cenas memoráveis, usando seu corpo de forma política.

Homens ou mulheres? Mais. Ou nenhum. A resposta do grupo para essa pergunta era: “Não somos homens, nem mulheres, nós somos gente”. E quem iria dizer que não? Eram gente. Gente fazendo política. Gente que mexia com as estruturas sexuais e de gênero. Gente que não se agarrava as identidades, gente que se relacionava com outras pessoas. Gente como a gente.

Grupo Dzi Croquettes chocou e encantou público e artistas da década de 70, e após ser censurado pela ditadura militar caiu nas graças da vanguarda parisiense. Foto: Acervo CPDoc JB.
Grupo Dzi Croquettes chocou e encantou público e artistas da década de 70, e após ser censurado pela ditadura militar caiu nas graças da vanguarda parisiense. Foto: Acervo CPDoc JB.

As pessoas que faziam parte do grupo Dzi Croquettes não estavam ligadas a nenhuma política institucional. Eram uma família, com mãe, tias, filhas, primas. Eram livres, faziam seus próprios personagens e assim passavam a mensagem da liberdade purpurinada. Mesmo sem estar ligado a nenhuma instituição política, o grupo usava o próprio corpo como forma de resistência. Dava uma nova cor política para o Brasil.

O grupo Dzi Croquettes contava com inúmeras fãs mulheres que também os seguiam, dessas fãs formou-se o grupo Dzi Croquettas, que não ficou muito famoso. Desse grupo surgiu As Frenéticas que se inspiraram em Dzi Croquettes. Wagner Ribeiro compôs algumas músicas para as Frenéticas.

Imagem de capa do documentário Dzi Croquettes.
Imagem de capa do documentário Dzi Croquettes.

Mesmo sem entender o que significava todo aquele ato político, o AI-5 (Ato Institucional – número 5) proibiu o espetáculo. O grupo Dzi Croquettes foi para Europa e fez muito sucesso, obrigada. Mas, a saudade do Brasil falou mais alto e acabaram aceitando a proposta de um fazendeiro para fazer um show na Bahia. Sem dinheiro e envolvidos com drogas pesadas, o grupo acabou se separando.

Vieram novas formações do grupo Dzi Croquettes, mas o espírito revolucionário e explosivo da primeira formação não voltaria mais. Não porque as novas formações não fossem boas, mas porque o momento e as relações não eram mais a mesmas. O que importa é que a primeira formação deu um curto-circuito em inúmeras pessoas que saíram por aí inspirando outras e outras e mais outras.

Pessoas ensinando que o mais importante de tudo é ser gente. Gente que vai além dos binarismos de gênero, da heteronormatividade e da cor da pele. As pessoas que faziam Dzi Croquettes tinham essa magia de subir no palco e pausar o preconceito. Eu, particularmente, toda vez que vejo uma pessoa preconceituosa uso meu novo verbo: vou croquettear você. Porque nós precisamos mesmo é de menos coxinhas e mais croquettes, não é mesmo?

Para saber mais assista o documentário Dzi Croquettes:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=rgy8fXEqw98]

Documentário Dzi Croquettes (2009).

Estamira Vadia

Texto de Jamil Cabral Sierra.

Dias atrás, em 27 de julho, aconteceu no Rio de Janeiro a Marcha das Vadias. Nesse mesmo mês, em 13 de julho, as vadias de Curitiba também foram para a rua marchar, e lá eu estava, fucsiamente, com todas elas: as mulheres, cis e trans*, as monetes pintosas, as bilus afeminadas, as passivas provocadoras, as sapatonas destemidas, as pervertidas de toda sorte, as vadias… No domingo, 14 de julho, pós marcha de Curitiba, ainda inebriado pela belezura dos corpos que serviram de plataforma política para a visibilização da opressão a que estamos, todxs nós, submentidxs, fui ver “Estamira”, peça que estava em cartaz na cidade. A vida de Estamira já é conhecida por muitxs, o documentário que retrata sua experiência fez muito sucesso e é difícil alguém mais ou menos bem informadx não conhecer sua história. Portanto, nem a contarei aqui.

A atriz Dani Barros na peça "Estamira - Beira do Mundo". Foto de Luis Alberto Gonçalves.
A atriz Dani Barros na peça “Estamira – Beira do Mundo”. Foto de Luis Alberto Gonçalves.

O que me interessa mesmo é dizer que Estamira é também uma vadia e bem poderia ter estado lá, nas ruas do Rio ou de Curitiba, com todxs nós. O que une Estamira à Marcha das Vadias? Em ambos os casos temos o corpo como lugar do escândalo, e a vida como possibilidade de revelação escandalosa da verdade. Não a revelação de uma verdade divina, transcendental, inscrita no plano do além-da-terra. Ao contrário, é a revelação da verdade dessa vida mesmo, de suas mazelas, de suas contradições e desaforos, de suas opressões.

Não à toa, a peça começa com o seguinte diálogo da personagem (magistralmente interpretada pela atriz Dani Barros, merecedora de todos os prêmios que levou para a casa): “Eu, Estamira, recebi uma missão, de dizer a verdade doa a quem doer”. Essa missão, diria eu, é também de todas as vadias que têm saído às ruas, por diversas cidades do país, para denunciar o regime patriarcalista e heterocapitalista que tem, cada vez mais, sentenciado milhares de vida ao extermínio e expurgado de nós o direito aos nossos corpos, sejam eles como forem; o direito aos nossos prazeres, sejam eles com quem forem; o direito aos nossos amores e afetos, sejam eles para quem forem.

Nesse sentido, Estamira como vadia, ou se quiserem, as vadias todas como Estamiras atualizam a pista foucaultiana que nos permite pensar formas de vida contemporâneas como um traço de posteridade do cinismo descrito pelo autor em seu curso “A Coragem da Verdade”. Seja na experiência da loucura em estado nu de Estamira, seja na experiência dos corpos nus das vadias, o próprio modo de viver a vida e expô-la em público de maneira franca e provocativa nos convida a pensar essas experiências como uma possibilidade de criação inovadora, um projeto ético-estético-político capaz de desenvolver uma outra relação consigo mesmo e com xs outrxs, instaurador de um fazer político que se materializa no próprio corpo: o corpo, ele mesmo, como a manifestação da verdade por meio do escândalo em carne viva.

Nesse rastro, existências como a da catadora de lixo do Jardim Gramacho ou das vadias da rua escancaram uma relação muito pertinente e necessária, especialmente nos dias atuais, isto é, a relação entre uma certa atitude contestatória com um determinado modo de viver a vida. Aliás, esta-é-a-mira: fazer de nossos corpos, prazeres e amores, portanto fazer da vida, o lugar de manifestação e provocação política para que, cinicamente, possamos ter a chance de criar e potencializar novos modo de viver. E, me parece, tanto Estamira quanto as vadias têm nos ensinado a trilhar esse caminho.

Jamil Cabral Sierra.
Jamil Cabral Sierra.

—–

Jamil Cabral Sierra é professor da UFPR, pesquisador na área de Gênero e Diversidade Sexual e, como não canto, não danço, não atuo, não toco nenhum instrumento, não pinto… nem bordo (só às vezes), não desenho e não esculpo, resta apenas inventar-me na/pela escrita. Uso os caracteres como arma de guerrilha.

A Casa dos Homens e o Coletivo 2° Opinião – Opinião de quem faz parte

Texto de Paloma Franca Amorim.

O processo de construção da peça ‘A Casa dos Homens’ é o processo de construção do Coletivo 2ª Opinião. Creio que não dá pra falar de um sem falar do outro, quando produzimos algo coletivamente também estamos produzindo o próprio coletivo, entendo portanto que ao assistir à peça, as pessoas poderão ver um pedaço de nossas dinâmicas cotidianas de ensaios e encontros para debater a questão de identidade de gênero e todos os outros temas relacionados.

Em ‘A Casa dos Homens’ discutimos a estruturação dessa ideia social e cultural de masculinidade. Nós nos dedicamos ao estudo teórico, acadêmico por assim dizer, e à pesquisa de casos que se relacionassem com o dia-a-dia de nossa cidade, a quimera São Paulo. Além disso, houve uma intensa investigação prática – musical, literária, improvisacional – para que formalizássemos nossas reflexões.

Enquanto produzíamos a peça, fomos obrigados a lidar com a dificuldade e o prazer de nossas expectativas e frustrações internas, em nossas tentativas de organizar um coletivo à luz da perspectiva feminista. As contradições apontadas esteticamente em nossa peça foram muitas vezes contradições que vivemos em nossas atividades coletivas.

Algo do teatro que me parece muito interessante em relação ao debate de gênero é o trabalho com o corpo, a descoberta e emancipação da expressão corporal, a possibilidade de dissolução do dualismo do feio e do belo sobre a aparência dos participantes da cena (no caso do Coletivo 2ª Opinião a cena é composta não são somente por atores profissionais, mas também por pessoas que ainda estão dando os primeiros passos no teatro e que se lançaram coletivamente no desafio da interpretação teatral).

Nas artes cênicas muitas vezes o feio é belo e o belo é feio e o feio belo é tudo e é nada. O feio e o belo podem se misturar e portanto deixar de existir enquanto adjetivações sociais opressivas. Através da relação com o trabalho corporal existe a possibilidade de confronto com alguns referenciais hegemônicos e reducionistas da ideia, discriminatória ideia, de beleza e de comportamento. Claro que me refiro a um teatro político e público, praticado por grupos e pessoas que se preocupam com a problematização estética da questão de gênero através da forma e, sobretudo, do conteúdo.

Em nossa peça falamos de um imaginário social machista que se revela através do sonho das personagens. Dormir não é um descanso, são noites em claro de trabalho imaginativo e memorial de descoberta das amarras diárias, públicas e privadas, as quais determinam o machismo como base de comportamento social. Em nossa ficção, tentamos reverter os ideais normativos que povoam os pensamentos elaborados no ato de sonhar a nosso favor, para que se possa na medida do impossível destruir sonho a sonho o pesadelo real, concreto, cotidiano.

Ao longo desses quase dois anos de Coletivo 2ª Opinião eu aprendi muita coisa sobre teatro feminista, fiz escolhas que definiram para sempre minhas escolhas artísticas e políticas. Aprendi preceitos éticos feministas que norteiam minhas ações no mundo e a forma com a qual eu tento veicular meus discursos. Percebi que não estou sozinha, que posso me organizar com pessoas que também acreditam em uma perspectiva política que fortalece cada dia mais os próprios músculos na contracorrente do heteropatriarcado. Pelo teatro, buscamos outras formas de elaboração e de difusão simbólica da realidade social.

Cartaz da peça teatral 'A Casa dos Homens' do Coletivo 2° Opinião.
Cartaz da peça teatral ‘A Casa dos Homens’ do Coletivo 2° Opinião.

UM POUCO SOBRE A HISTÓRIA DA PEÇA ATÉ AGORA

Em dezembro de 2012, no espaço do Condomínio Cultural Mundo Novo na Vila-Anglo, zona Oeste de São Paulo, uma primeira experiência cênica intitulada Bom Dia, Ruína foi realizada e contava com apenas três atores em cena. À medida que as apresentações desse exercício teatral foram acontecendo, mais pessoas se juntaram ao Coletivo 2ª Opinião e fez-se necessária a ampliação do olhar sobre a temática originalmente escolhida como elemento disparador da encenação. Se em um primeiro momento o grupo elegeu uma personagem feminina para ocupar o protagonismo da ação cênica, em ‘A Casa dos Homens’ essa individualização se dispersa e a discussão das relações sociais de gênero se dão a partir de figuras coletivas, isto é, personagens cujos aspectos da subjetividade descortinam condicionamentos ligados às práticas sociais e culturais. O Coletivo 2ª Opinião entende que encenar e debater as questões relativas à opressão histórico-social de gênero significa lançar um olhar crítico sobre o Estado patriarcal diretamente ligado à opressiva maquinaria do capital e suas resultantes culturais, na esfera pública e na esfera privada.

SOBRE A TEMPORADA NA SEDE LUZ DO FAROESTE E A OCUPAÇÃO CULTURAL AMARELINHO DA LUZ

O Coletivo 2ª Opinião junto a outros nove coletivos de teatro e cinema faz parte da Ocupação Cultural Amarelinho da Luz, no bairro de Santa Ifigênia na região da Luz. Fomentar a produção cultural de forma crítica nesta região de São Paulo é organizar espaços de atuação sobre as condições sociais e políticas que regem as atividades artísticas nas áreas marginalizadas da cidade de São Paulo, a favor do próprio contexto periférico e da população que o constitui. Em parceria com a Cia. Pessoal do Faroeste, estes nove coletivos portanto estão trabalhando para elaborar discursos artísticos que dialoguem com a região da Luz, pejorativamente nomeada Cracolândia, para que desse modo seja possível problematizar as políticas públicas que ordenam as decisões sobre a mesma e suas resultantes sociais, geopolíticas e culturais.

‘A Casa dos Homens’ faz parte de um circuito maior de atividade cultural, também de dimensão transversal e coletiva. Para saber mais sobre a Ocupação Cultural Amarelinho da Luz vá até o blog Amarelinho da Luz – Ocupação Cultural.

A temporada na sede Luz do Faroeste ocorrerá de 7 a 29 de setembro de 2013, aos sábados e domingos. Aos domingos haverá debates posteriores à apresentação da peça com convidadas e convidados, dentre os quais: Terezinha Vicente, Rodrigo Cruz, Leona Jhovs, Natalia Ribeiro e Laerte Coutinho, pessoas envolvidas na luta contra a opressão de gênero, cada qual em sua esfera de atuação política e artística.

Mais informações sobre os debates e as atividades do 2ªOpinião serão divulgadas em nossa página do Facebook.

INFORMAÇÕES

Peça ‘A Casa dos Homens’.

Sinopse: na hora de dormir, mulher e homem reconstroem em seus sonhos os momentos mais importantes de suas trajetórias individuais e sociais. A atmosfera onírica é o meio através do qual se torna possível resgatar lembranças da juventude marcada por valores machistas frutos de uma sociedade patriarcal. Desde o momento de despertar até as batalhas contra os exílios sociais reservados àqueles que sofrem discriminações de gênero, as personagens vivem o aprendizado do próprio corpo e da própria História. A partir da tomada de consciência sobre essas estruturas sociais nasce o desejo: despetalar, sonho a sonho, o pesadelo.

7 de setembro a 29 de setembro

Sábados às 22hs e domingos às 19hs

Sede Luz do Faroeste – Rua do Triunfo, 305 – Santa Ifigênia – Centro.

Pague quanto puder!

FICHA TÉCNICA

Elenco: Anders Rinaldi, Bia Bouissou, Felipe Pitta, Ighor Walace, Juliana Bruce e Julia Spindel.

Músicos: Maria Menezes e Pedro Fraga.

Iluminação: Isa Giuntini.

Assistente de Iluminação: Paula da Rosa.

Dramaturgia: Paloma Franca Amorim e o coletivo.

Encenação: Raquel Morales.

Cenografia: Isa Giuntini e Raquel Morales.

Projeto Gráfico: Paloma Franca Amorim.

Assessoria de Imprensa: Julia Spindel e Paula da Rosa.

Colaboradores: Luka Franca, Débora Leonel, Erêndira Oliveira e Coletivo de Galochas.

—–

Paloma Franca Amorim é dramaturga do Coletivo 2ª Opinião, professora, ilustradora e cronista nas horas vagas. Não sabe comer de boca fechada e adora falar um palavrão.