Matriarcado.com?

Texto de Barbara Lopes.

As mulheres já são maioria nas universidades.
As mulheres já são maioria entre os empreendedores.
As mulheres já são maioria entre os eleitores.

Manchetes como essas se repetem no noticiário como filmes de cachorro na Sessão da Tarde. São números que muitas vezes trazem informações importantes, mas que são maltratados pelos analistas. A mais nova integrante da lista é a manchete que aponta que mulheres já são maioria na internet.

Na semana passada, o texto “Why Women Rule the Internet?” (Por que as mulheres dominam a internet?), de Aileen Lee, causou bastante repercussão. A autora juntou diversos dados para mostrar que mulheres estão em maior número e usam com mais intensidade as redes sociais e são as principais compradoras em alguns sites de comércio eletrônico. Ela conclui com um apelo para que as empresas levem em conta esse mercado em suas decisões, que pensem nas mulheres como público que merece atenção, e chama a atenção para a importância de ter mulheres na equipe, para atingir isso.

À primeira leitura, parece empolgante. Afinal, a internet é um espaço que, por ser novo e por ser aberto, oferece uma promessa de expressão para grupos – como nós, mulheres – que não têm o mesmo espaço em ambientes tradicionais. Este blog e a lista que o originou são isso: ferramentas para a construção de uma auto-expressão feminina. Que estejamos presentes é, no mínimo, um bom começo.

A análise de Aileen Lee tem dois pontos que merecem um olhar mais atento. O primeiro é onde estão as mulheres que ela menciona. Os sites de comércio eletrônico que têm maioria de consumidoras são o Zappos (de moda), Groupon (compras coletivas, com muitas ofertas ligadas a moda e beleza), Gilt Groupe (marcas de luxo), Etsy (artes e artesanato) e Diapers (artigos para bebês). Ou seja, nada de novo em relação aos shopping centers do mundo offline: lojas de nicho, ainda que movimentando grandes quantias de dinheiro. São sites que, em geral, funcionam na lógica de separação dos gêneros, de papéis marcados para homens e mulheres.

O segundo ponto é a relação feita entre consumo e poder. As mulheres são responsáveis por uma fatia muito maior dos gastos da família, mas isso não significa controle e sim mais um aspecto da atribuição feminina de cuidar da família. O poder de consumo em parte se relaciona à independência financeira, mas não compra igualdade.

O texto ainda traz pistas sobre como as mulheres usam as redes sociais. No Facebook, além de estarmos em maior número, criamos mais mensagens e temos mais amigos. O mesmo se repete em outros sites, chamados de matriarcados em um artigo de Brian Solis. As mulheres estão falando mais (nenhuma novidade para quem já ouviu inúmeras piadas sobre mulheres tagarelas), mas aparentemente ainda são pouco ouvidas. Nossa presença em eventos de informática e internet ainda é pequena e causa espanto e poucas empresas de internet pertencem a ou são dirigidas por mulheres.

A internet é um meio importante para a discussão, mobilização e visibilidade para as mulheres. O quadro atual pode não ser tão favorável como querem pintar – e é importante reconhecer isso para podermos mudá-lo – , mas também é preciso reconhecer algumas vitórias. Poder escrever este post é uma delas.

UPDATE: Na publicação online Mulheres de Expressão (recomendo!), da ONG Artigo 19, há dados sobre o uso da internet por homens e mulheres no Brasil.

No Brasil, segundo pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet (CGI.br) em 2009, 60% dos homens utilizam um computador diariamente contra 55% das mulheres. A diferença é maior quando se considera o acesso no ambiente de trabalho: 25% dos homens têm acesso a um computador e à Internet no trabalho, contra 20% das mulheres com acesso ao computador e 18% à Internet.

Além disso, há diferenças quanto ao caráter do uso da rede: enquanto 17% dos homens usuários de Internet a utilizam para atualizar blogs ou páginas eletrônicas, apenas 14% das usuárias mulheres o fazem; 15% dos usuários do sexo masculino usam a Internet para participar de listas de discussão e fóruns, contra 10% das do sexo feminino. A situação se inverte quando se trata da busca de informações relacionadas à saúde: 34% dos homens buscam esse tipo de informação, contra 43% das mulheres, o que mostra como a rede pode ser uma fonte importante para o público feminino em determinados temas.

Para onde o machismo vai nos levar?

Texto de Barbara Manoela.

Simone de Beuvoir já dizia que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. E durante muitos e muitos anos, a mulher vem lutando por seu lugar na nossa sociedade.

Essa luta vem de muito tempo: no período Mesolítico, o homem conseguiu dar grandes passos rumo ao desenvolvimento e à sobrevivência de forma mais segura. O domínio do fogo foi o maior exemplo disto. Com o fogo, o ser humano pôde espantar os animais, cozinhar a carne e outros alimentos, iluminar sua habitação além de conseguir calor nos momentos de frio intenso. Outros dois grandes avanços foram o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais. Cultivando a terra e criando animais, o homem conseguiu diminuir sua dependência com relação a natureza. Com esses avanços, foi possível a sedentarização, pois a habitação fixa tornou-se uma necessidade.

Neste período ocorreu também a divisão do trabalho por sexo dentro das comunidades. Enquanto o homem ficou responsável pela proteção e sustento das famílias, a mulher ficou encarregada de criar os filhos e cuidar da habitação.Não havia submissão, mas sim ajuda mútua entre os sexos e, em decorrência disso, as bases para o surgimento das primeiras grandes civilizações se estabeleceram.

Os anos se passaram e muitas coisas mudaram. Mulheres foram queimadas vivas na Idade Média, acusadas de bruxaria. No século XVI, negros começaram a ser trazidos para o Brasil, como escravos, e mulheres negras eram estupradas pelos seus “donos”.

Estamos em pleno século XXI. Revolução tecnológica, internet, as pessoas se conectam de todas as maneiras possíveis e compartilham conhecimento e experiências. E o que mudou no mundo? Pouca coisa. Posso estar sendo pessimista, até. Mas a violência continua matando mulheres em todo o mundo.

Houve um tempo em que homens e mulheres se respeitavam e se ajudavam, e assim, civilizações surgiram, descobertas aconteceram e dessa forma, conseguimos chegar até aqui.

E agora? Qual o caminho para conseguirmos ser respeitadas por nossas próprias escolhas, nossa TPM, nossa sexualidade, nossa capacidade de realização? Desejo, sinceramente, que o machismo nos leve a uma mudança de valores e ao rompimento de paradigmas, e que possamos construir um mundo mais justo e igualitário, para todos e todas.

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Barbara Manoela não traz a pessoa amada, mas sabe aonde a dela está.

Mulheres na Campus Party: assumir o feminismo ou não?

Texto de Nessa Guedes.

Feminista.

Essa palavra soa tão pesada que muitas vezes ensaiei pronunciá-la, mas me calei. Estava participando da Campus Party Brasil, semana passada, em São Paulo. É o São Paulo Fashion Week dos nerds e geeks. Um acampamento coberto, com 6.000 e poucos participantes, todos conectados numa internet de 10gb, promovendo palestras, eventos, cursos, oficinas, debates, mesas-redondas e promoções, na área de robótica, desenvolvimento, midias sociais, software livre, música, e games. Dá para imaginar o quanto masculino é o evento e a quantidade de modelos usadas nos stands das empresas patrocinadoras, né?

Sendo assim, haviam 27% de mulheres participando. Vesti a armadura da coragem e me preparei para os absurdos que eu sabia que rolaria — tipo concursos valorizando somente a beleza das participantes, os comentários de baixo calão no meio das bancadas, etc.

Mas não foi tão tenso quanto eu imaginei.

Salvo três coisas irritantes que rolaram:

1) promoções sexistas do Coruja de TI, envolvendo o nome do nosso grupo, GarotasCPBr, que é super sério;

2) Ben Hammersey fazendo comentários infelizes sobre as mulheres brasileiras;

3) um menino me chamando de ‘nerd peituda’ no acampamento… não fiquem revolta@s, preguei uma peça nele de castigo… amarrei todos os zíperes da barraca dele com nós cegos, com ele dentro!hehe), de resto, o evento foi bem legal. Tinha muita mulher entre os palestrantes, se formos comparar com a proporção geral. Também teve bastante espaço e atenção para a crescente evolução dos blogs de maquiagem e moda, que estão profissionalizando muitas blogueiras por aí, e abrindo oportunidades de divulgação, propaganda e fonte de renda totalmente novas.

Conheci as excelentes Lulus, do Luluzinhacamp – acho que é a maior comunidade de mulheres na internet brasileira, ganha até da nossa, Blogueiras Feministas. Nem todas as lulus são feministas, mas lá na CP tinham muitas. Elas são tão unidas quanto as B.F., contrariando o mito de que mulheres estão sempre competindo. Pelo contrário, o apoio mútuo rola solto lá, inclusive as meninas estão sempre fazendo parceria em trabalhos e trocando currículos, empregando umas às outras.

Participei de uma mesa-redonda sobre a carreira de mulheres na TI, mas até agora não obtive o link do video – quando aparecer eu publico aqui. Foi lindo e interessante. Apesar de ter acontecido em pleno sábado às 9h, tinha bastante gente assistindo e interagindo – homens incluídos. Algumas pessoas na platéia comentaram sobre o Blogueiras Feministas – mais precisamente nossa amiga Anna Frank e a irmã da Tica Moreno, a Carol – e me deram o gancho que precisava para falar em feminismo. Foi bacana.

Eu, @nessoila, e a Cissa Gatto, @cissagatto representando as Garotas CPBr.

Abaixo, reproduzo partes de um post que escrevi na CampusParty, para vocês saberem um pouco do que rola entre as mulheres no mundo geek.

[..]

Então, quando eu entrei no grupo GarotasCPBr, temi que o objetivo do grupo fosse fazer um albúm de fotos especiais no Flickr para os campuseiros, ou que fosse um modo de agregar meninas que queriam conversar sobre quem iria levar chapinha e quem iria levar secador de cabelos para a CampusParty. Felizmente, o objetivo do grupo estava muito longe de ser qualquer um destes – ainda bem. E todas as integrantes e autoras do blog são excelentes profissionais e acadêmicas seríssimas. Além de cultivarem a desmitistificação do mito eterno de que mulheres não podem ser amigas.

Bullshit.

Nós somos super unidas.

E foi através do GarotasCPBr que eu acessei o link do blog Garotas Geeks, que também estariam participando da CampusParty. Ao abrir a página, me deparei com um blog cujo cabeçalho aparecia o desenho de uma

menina toda fresca, com um notebook aberto na frente. As cores do tema, apesar de serem azul e roxo, me pareciam muito girly para pertencer um blog de meninas tr00 hardcore dos games e etc. Na hora pensei “Putz, mais um site dessas meninas que se dizem geeks, mas só querem se aparecer e pagar de smart-but-hot“. Fechei a janela sem pestanejar, e passei a torcer o nariz para citações a elas em qualquer lugar da internet.

Então, hoje, tentando cobrir algumas atividades da CampusParty para postar no blog do GCPBr e na EquipeTenso, passei por um telão onde estava o tal cabeçalho do blog das “garotas geeks”, e embaixo do telão estavam as próprias, rindo e falando em microfones para uma platéia modesta. Como elas tem banner publicado no blog das CPBr, eu não poderia ignorá-las, e fui até lá, na maior má-vontade, tirar algumas fotos delas para fazer um postzinho sobre a passagem delas no evento.

Acabou que eu fiquei assistindo-as até o fim. E em pé. A platéia aumentou exponencialmente em poucos minutos. E as meninas começaram um grande show.Tirei o chapéu.

O Garotas Geeks é um blog de primeira. Tem só quatro meses de idade, mas conta com mais de 1500 acesso diários, chegando a picos de 9000 visualizações em um só dia – segundo uma das meninas da equipe, a Minhoca. Rola um humor de primeira, e releases de qualidade sobre games recém-lançados e até os mais antigos, como os feitos para Super Nintendo. Mas nem só de bits se fala por lá. Existem artigos sobre RPG de mesa, cinema, trollagem, comportamento, etc. Quando perguntada sobre o preconceito que rola sobre meninas falando de jogos e os xingamentos que elas recebem nos comentários, a Babs não perde a oportunidade de lascar os marmanjos “Na hora de jogar vocês usam o pênis para usar o controle? Pois é, eu não uso meu útero. Então é headshot na igualdade.” Depois dessa declaração, a platéia veio a abaixo, e eu quase choro – not – de emoção.

Tá, vou dizer que fiquei emocionada de verdade. Porque né. Não é todos os dias que a gente encontra alguém que consegue ter essa lucidez toda para sintetizar esse tipo de problemática. Entre o grupo animado, também tinha a menina-que-gosta-da-apple-e-nintendo, a Gaby, mais a menina que empatizou meu coração por causa do rpg de mesa, Livia, e uma jornalista de Guarulhos, Deborah, muito simpática – e super entendida do assunto, já que recém publicou um livro sobre a “cultura nerd” e o fenômeno geek nos últimos anos, se eu não me engano, foi seu TCC.

As Garotas Geeks me ensinaram hoje que existem outras mulheres na faixa dos vinte anos que tem muito conteúdo a oferecer, que gostam de trabalhar fazendo o que gostam,e não tem medo de serem tachadas de caçadoras de marido. Porque elas não são.

Existe uma veia feminista pulsante ali, embora talvez nem todas elas devam admitir a palavra “feminismo” como uma constante relacionada à elas, tão descontraídas e leves. O peso do feminismo não parece combinar com elas. Mas quem disse que feminismo tem peso? Lutar pela igualdade de gêneros, do jeito eficiente e convicto que elas fazem, é exatamente o que te faz uma ativista pelos direitos das mulheres. Essas meninas me encheram de orgulho.

Link legais de dar uma olhada, que mostram bem o cenário:

Gurias Nerds

GarotasCPBr

Garotas Geeks