Representações da violência doméstica nas novelas

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

25 de Novembro – Dia Internacional de Luta Pelo Fim da Violência Contra a Mulher.

Dentre as pautas feministas, acredito que a violência contra a mulher seja a que mais tem ganho atenção da mídia nos últimos tempos. Há ações institucionais sendo tomadas como o Ligue 180, a Casa da Mulher Brasileira, a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio. Entre as mulheres, crescem o número de campanhas e ferramentas contra o assédio nas ruas. Foi tema da redação do ENEM. E, o Mapa da Violência 2015 destaca o aumento no número de mortes de mulheres negras.

O assunto está ganhando mais espaço e felizmente a maioria das pessoas não tem aceitado relativizações. A violência contra a mulher está ligada ao gênero e tem suas características próprias, que diferem totalmente de outras formas de violência. As mulheres são mortas geralmente por pessoas da família ou conhecidos, por quem deveria protegê-las e apoiá-las. As mulheres morrem em casa, muitas vezes em frente aos filhos.

Como consequência desse debate, vemos cada vez mais as novelas abordando a violência doméstica em suas tramas. Geralmente há um núcleo específico para apresentar o casal em que a mulher apanha e o homem é um bruto sem razão. Há diversos estereótipos nesses personagens, mas o que continua problemático é que dificilmente as mulheres são representadas como pessoas capazes de buscar ajuda e sair dessa situação, na maioria dos casos há um homem salvador que entra na relação para mudar sua vida.

Sempre me pergunto: essas representações melhoram ou não os discursos sociais referentes a violência contra a mulher? Sabemos que o número de denúncias aumenta quando há foco no assunto, mais mulheres se sentem seguras para denunciar ou se veem naquela situação. Porém, ainda culpabilizamos as mulheres pela violência que sofrem, o foco das campanhas está sempre na denúncia e não em uma proposta preventiva dessa violência. Dificilmente encontramos ações que falem diretamente aos homens.

Sabemos que as instituições brasileiras não estão preparadas para atender as mulheres violentadas. Aconselhamos mulheres a não irem sozinhas em delegacias de polícia, temos que lutar no Congresso contra projetos de lei que exigem exame de corpo delito em caso de estupro antes mesmo do atendimento médico, leis não garantem mudanças de comportamento social e nem mesmo diminuem o machismo no judiciário. Porém, acredito ser importante que as novelas mostrem as mulheres denunciando casos de violência na delegacia, detalhando como funciona o processo, como é possível pedir medidas protetivas, o que é possível fazer em casos em que não se tem família por perto ou alguém a quem recorrer.

Atualmente, na novela ‘A Regra do Jogo’ (2015) da Rede Globo, Juca e Domingas são o núcleo de violência doméstica. Geralmente esses personagens existem exclusivamente para tratar do tema e tem até pouca interação com o núcleo principal. Para ficar apenas em alguns exemplos de como virou lugar comum ter o núcleo da violência doméstica, no caso das recentes novelas globais do horário das 9, tivemos: Jairo de Em Família (2014), Marilda em Amor à Vida (2014), Celeste em Fina Estampa (2011), Catarina em A Favorita (2008), Raquel em Mulheres Apaixonadas (2003).

Personagens Juca e Domingas em cena da novela 'A Regra do Jogo' (2015) da Rede Globo.
Personagens Juca e Domingas em cena da novela ‘A Regra do Jogo’ (2015) da Rede Globo.

O homem agressor geralmente é retratado como um bruto, sem educação e que vive às custas da mulher. A mulher vítima é representada com baixa autoestima, na maioria das vezes relativizando o que o marido faz e com muito medo de tomar qualquer atitude. Há personagens que tentam ajudá-las, como vizinhos ou amigas, mas na maioria dos casos é preciso um novo amor para que essa mulher coloque definitivamente um ponto final na relação.

Esse estereótipo com certeza corrobora discursos sociais sobre a violência doméstica, muita gente ainda acredita que a mulher permanece numa relação abusiva porque quer e não compreende as diversas barreiras sociais existentes, desde o sustento financeiro, passando pelas imposições sociais de como a mulher deve se comportar, a falta de apoio e informação sobre o que fazer, até o medo que paralisa. Porém, é preciso ir além desse retrato e apresentar opções. Mulheres sofrem violência de diferentes maneiras, dependendo de seu contexto, mas a violência doméstica está presente em todas as classes sociais e não se configura apenas na violência física.

Desde o início de ‘A Regra do Jogo’, Juca e Domingas tem uma relação abusiva com muita violência. Ele batetesta sua fidelidade e a engana para conseguir dinheiro. São várias cenas mostrando Juca humilhando e agredindo Domingas. Aí pergunto: qual o propósito? Denunciar a violência contra a mulher? Ok, mas de que forma? Adianta retratarmos mais e mais violência contra as mulheres de forma explícita e não mostrá-las buscando seus direitos? Até que ponto a mídia fetichiza esse tipo de violência? Não sou contra falar de violência doméstica na televisão, mas é preciso que esse discurso vá além, que essas mulheres sejam também retratadas como pessoas capazes de enfrentar a situação, que as instituições de apoio e denúncia tenham espaço na trama para apresentar caminhos, que a informação seja repassada.

Quando Domingas beija outro homem logo se sente culpada. Ha notícias de um personagem misterioso que entrará na novela para salvá-la. Por que achamos que uma mulher que está fragilizada precisa automaticamente de um novo amor para  se reerguer? Por que uma mulher espancada e humilhada só é feliz nas novelas se houver um homem que a queira? Parece não haver possibilidade de liberdade para as mulheres vítimas de violência nas novelas. Nos spoilers há a promessa que em breve Domingas irá expulsar Juca de casa, com um diálogo que até cita a Lei Maria da Penha, mas que promete mostrar mais violência gráfica e ameaças contra sua vida:

Tudo acontece depois que Domingas é socorrida pela enfermeira que chega em sua casa aos beijos com Juca. Solidária, a “rival” chama um médico e aconselha-a a pôr um fim no casamento. Ainda se recuperando da febre, Domingas vai enfrentar Juca pela primeira vez quando ele chega em casa e diz: “Aproveita que tu tá melhor e faz um ovo pra mim”. Ela pega o prato em que ele está comendo e joga na parede. “Não vou fazer ovo nenhum, nunca mais!”, esbraveja.

O malandro pergunta se a mulher está maluca, mas ela responde, firme: “Maluca eu tava antes, mas agora acabou! Dá o fora daqui!”. “Tu tá louca mesmo! Quer apanhar?”, ameaça o cafajeste. E Domingas desta vez não se intimida: “Bate pra tu ver! Eu vou pra delegacia agora, te enquadro na Maria da Penha e te ponho na cadeia, desgraçado!”. Juca diz que vai matá-la, e a morena não se abala. “Mata! Mata que é melhor! Tu vai preso por mais tempo, vai passar o resto da vida numa cela cheia de macho, sem ver mulher nunca mais na vida! Eu vou rir na minha cova!. Vai embora, eu tô mandando!”, responde.

Com certeza há catarse ao enfrentar o agressor. Gostamos de ver uma mulher ser altiva e corajosa nesses momentos. Porém, sabemos que muitas vezes enfrentar de igual para igual não é algo que todas conseguem ou podem fazer. Portanto, acredito ser muito importante buscarmos mostrar opções, apresentar o que pode ser feito para denunciar a violência e tentar garantir alguma segurança para as mulheres ameaçadas. Porque, atualmente são elas quem tem suas vidas destruídas, são elas quem tem que abandonar o trabalho, são elas que tem que viver escondidas em abrigo. Por que nossa sociedade ainda acoberta agressores de mulheres e aceita que eles andem tranquilamente pelas ruas sem receber nenhum olhar de reprovação?

O recente caso do secretário de governo do Rio de Janeiro, Pedro Paulo Carvalho é um exemplo disso. Há denuncias graves registradas em boletins de ocorrência. Há violência física e até mesmo ameaças contra a filha do casal. Porém, o prefeito Eduardo Paes insiste em dar declarações do tipo“aconteceu entre quatro paredes, não se sabe as circunstâncias”. Pedro Paulo foi capaz de expor a ex-mulher numa entrevista coletiva para que ela o inocentasse e repete frases absurdas como: “Quem não exagera numa discussão?”. Enquanto um homem se sentir no direito de expor uma mulher e relativizar a violência que cometeu contra ela sem receio nenhum de que seja mal visto, sabendo que não receberá nenhuma reprovação de seus pares, ainda estaremos paralisados na velha história de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. É essa cultura machista que precisamos mudar urgentemente.

Há impunidade, mas não acredito que apenas medidas punitivas resolvam a questão da violência contra a mulher. É preciso um conjunto de ações, especialmente educacionais, não apenas para os agressores, mas também para os jovens, para que a sociedade repense e questione a maneira como a violência contra a mulher é parte do cotidiano, como está nas entranhas das relações sociais. Como o pequeno assédio tem reflexos nos casos de estupro. Como a morte das mulheres em sua grande maioria é banal e torpe. A mídia precisa ser parte desse movimento, para que se possa mudar concretamente os discursos e as maneiras como tratamos essa questão.

Como aponta Rachel Moreno, a mídia e nem mesmo a Globo são responsáveis por inventar a violência contra a mulher, mas cabe a sociedade cobrar a função e responsabilidade social da mídia, especialmente no caso do Brasil, quando falamos de uma mídia de massas, que também é uma concessão pública. Quando uma novela termina não há resgate possível, mas há consequências para a naturalização daquela situação entre a sociedade.

+ Sobre o assunto:

[+] Assédio sexual: como denunciar e se defender legalmente.

[+] Estupro coletivo na novela Em Família e o desempoderamento das vítimas.

Por uma não-monogamia possível

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Venho tentando escrever sobre esse assunto há algum tempo, com base em várias críticas que li e ouvi, conversas com amigas e companheiras de militância e, por conta de debates que foram surgindo criticando diversas situações problemáticas que apareceram na série de televisão Amores Livres do canal a cabo GNT. A proposta da série é apresentar pessoas em relacionamentos com dinâmicas não-monogâmicas diversas. O foco são as dinâmicas amorosas das relações, como os relacionamentos funcionam e, talvez por isso, muitas questões relacionadas à política tenham sido deixadas de lado.

Cena da série 'Amores Livres', exibida pelo canal a cabo GNT (2015).
Cena da série ‘Amores Livres’, exibida pelo canal a cabo GNT (2015).

Por não apresentar um discurso mais politizado, reforçando discursos sobre posse, mostrando dinâmicas machistas, bifóbicas e por mostrar casais muito dentro do padrão (branco, classe média, magros, etc,), a série recebeu diversas críticas no meio não-monogâmico. Porém, tenho percebido que algumas dessas críticas a série são, na verdade, críticas à comunidade não-monogâmica como um todo. Outras tem a ver com a falta de representatividade e também com a representação de diversas situações e falas que entendemos como não-saúdaveis num relacionamento desse tipo. Além, é claro, de uma cobrança feita às personagens que observo muitas vezes ocorrendo por parte de mulheres militantes que se envolvem nessas relações.

A vida seria bem mais fácil se existisse uma “receita de bolo”, se em 10 passos ou 7 dias alcançássemos os níveis máximos de inteligência emocional e maturidade política para ter um ideal de relacionamento não-monogâmico, que não fosse opressor de forma alguma. Com algum tempo de experiência alcançaríamos até uma patente que nos blindaria de críticas aos nossos posicionamentos e nos eximiria de passar por qualquer dificuldade ou violência nas relações. Por vezes fico observando que muitas mulheres parecem buscar algum tipo de guia prático de como se tornar uma feminista não-monogâmica politicamente coerente e inabalável emocionalmente.

Se relacionar de forma não-mogâmica é também mudar a forma com que você vê e vive todas suas relações. É conviver com o fantasma do modelo romântico e monogâmico de relacionamentos. Além de termos de lidar com os diversos preconceitos já tão difundidos, não vamos achar numa capa de revista aquele guia básico de como deixar de sentir ciúmes e sentir apenas compersão, ou “escolha a melhor dinâmica de relacionamento não-monogâmico para vocês”, ou “como organizar sua agenda sem negligenciar as necessidades das pessoas com quem você se relaciona”, ou “como finalmente saber separar sentimentos reais de construções sociais impostas pela sociedade”, ou ainda “descubra o momento certo de revelar sua não-monogamia para amigos, familiares e colegas de trabalho”, ou quem sabe “evite constrangimentos ao dialogar sobre novas dinâmicas ou pessoas nas relações”. Ou seja, não temos referências fáceis para buscar soluções para os nossos problemas. E, a bem da verdade, muitas dessas questões nunca serão solucionadas.

A vida, as experiências, as pessoas, os sentimentos, as relações não são tão simples ou lineares. Independente da forma de organização dos relacionamentos temos sempre desafios a enfrentar. Viver a prática dessas relações não-monogâmicas, praticando também o feminismo, é viver um processo de aprendizado contínuo. Conhecimento e experiência podem nos alertar sobre certos desafios, e aí quando possível evitamos certas dificuldades. Mas, nada nos exime de passar por certas experiências, de sofrer ou até mesmo fazer sofrer em determinados contextos.

Um relacionamento não-monogâmico não vai por si só destruir todas as estruturas de poder existentes entre as pessoas, a sociedade já está moldada dessa forma, ainda que desafiemos em algum nível essa lógica. Não vai também resolver todos os problemas emocionais ou curar desilusões de relacionamentos anteriores. Pessoas não-monogâmicas não são seres iluminados a prova de erros ou imunes à armadilhas, violência emocional ou relacionamentos abusivos. Aliás, essa postura — muitas vezes sustentada dentro de determinados grupos e por certas pessoas — só faz com que aumente nossa cobrança interna para ter uma relação tão perfeita quanto essas pessoas dizem ter e que muitas vezes (ou talvez todas) está longe da realidade.

Primeiro, o mais importante é que estamos falando de relações. Isso quer dizer que além dos fatores pessoais, estamos lidando com aquilo que está na(s) outra(s) pessoa(s). E além disso, existe esse negócio muito simples e ao mesmo tempo extremamente complexo que é a comunicação. Precisamos numa relação não-monogâmica desafiar a lógica do silêncio que permeia a sociedade e se abrir para a(s) pessoa(s) com quem nos relacionamos, para falar sobre coisas que aprendemos durante toda a vida que deveríamos ignorar ou sentirmos culpa de sentir.

Não quero dizer com isso tudo que devemos parar de buscar melhores arranjos de relações, melhores formas de diálogo, desconstruir sentimentos e opressões (como o racismo, o machismo, o ciúme, a carência, dependência emocional, etc.). Ou ainda que é ok negligenciar as demandas ou os sentimentos das pessoas que vivem opressões que nós não vivemos. Pelo contrário. Mas, observo muito a cobrança para que um relacionamento não-monogâmico atinja um ideal político e essa pressão acaba caindo muito mais em cima das mulheres envolvidas. Isso nos expõe (e quanto mais opressões sofremos mais expostas ficamos) e nos traz ainda mais desgaste, além do que já existe dentro de um relacionamento fora da norma.

Não é a toa que tantas críticas tem sido feitas sobre quão privilegiadas costumam ser as pessoas praticantes da não-monogamia. Para as mais oprimidas o peso é maior, e as cobranças são maiores ao se assumir um relacionamento fora do padrão. É muito importante buscar uma forma não-opressora de se relacionar, e essa busca deve vir principalmente das pessoas mais privilegiadas (especialmente homens brancos, heterossexuais, cisgêneros, classe média, etc). São essas pessoas que devem ser cobradas. Porém, o que tenho observado é exatamente o contrário. Aliás, já vi muitas mulheres extremamente oprimidas sendo colocadas na fogueira por escolhas que seus parceiros impuseram nas relações. Precisamos mudar esse cenário.

+ Sobre o assunto:

[+] Abrindo o código dos ciúmes: sobre sentir compersão desde a monstruosidade.

[+] Às mulheres dos meus companheiros*, ou o que eu posso dizer sobre não-monogamia.

[+] “Amores Livres”: escolhas possíveis.

[+] A violência de gênero e o amor romântico.

[+] Monogamia, Liberdade e Feminismo.

[+] Uma biscate casada ou não: sobre a não monogamia.

[+] Sin tiempo para el amor: el capitalismo romántico.

[+] El poliamor ‘is the new black’*.

[+] 9 Strategies For Non-Oppressive Polyamory.

Moralismo, racismo e misoginia na novela Verdades Secretas

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

A novela Verdades Secretas terminou semana passada e poderia ficar conhecida como a “novela da família brasileira” segundo o recém aprovado Estatuto da Família. Na trama central, que envolve pessoas ricas e uma agência de modelos, Angel (Camila Queiroz) era uma jovem de 16 anos que ao entrar para a carreira acaba no ramo da prostituição, conhecida como “book rosa”. Além disso, envolve-se com Alex (Rodrigo Lombardi), um homem bem mais velho e rico. Em determinado momento da trama, Alex se casa com Carolina (Drica Moraes), mãe de Angel, para continuar seu caso com a garota.

Ao contrário da comoção negativa com os beijos lésbicos de Babilônia, não houve nenhum repúdio ou movimento conservador contra Verdades Secretas. Pelo sucesso que fez, dá vontade de decupar cada cena, mas os textos dos críticos já apontam o quanto essa foi uma novela com embalagem moderna, mas extremamente moralista. Portanto, vou comentar especificamente sobre dois episódios que aconteceram na última semana, envolvendo personagens secundárias, mas que mostram muito da misoginia presente durante toda novela. Atenção, esse texto contem spoilers!

A direita, Larissa (Grazi Massafera). A esquerda, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.
A esquerda, Larissa (Grazi Massafera). A direita, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.

Larissa: a puta que encontra Deus.

Larissa (Grazi Massafera), modelo que começou a perder trabalhos e tornou-se usuária de crack, teve seu ponto de virada ao sofrer um estupro coletivo na Cracolândia. Desesperada, conta o fato ao namorado, Roy (Flávio Tolezani) que, entorpecido, praticamente não esboça reação. Larissa toma consciência de seu desamparo e decide se juntar ao grupo religioso que oferece comida e pregação no local.

Assustada e impressionada com a atuação de Grazi, comecei a me perguntar: qual o sentido daquilo pra narrativa? Por que Larissa precisava ser estuprada várias vezes numa mesma sequência? Pra querer sair da Cracolândia? Ela já não teria motivos suficientes? Se não, vejamos. Algumas cenas antes, a moça tinha recusado e respondido com deboche ao oferecimento de ajuda do personagem Emanoel (Álamo Facó), missionário que a acode depois do estupro. Quando ele lhe oferece a possibilidade de sair de lá, ela ainda o provoca, dizendo que faz coisas que ele nem imagina, como transar com homens para conseguir mais pedra. A puta “agredindo” o homem de Deus.

Não queria entrar no mérito de que essa “cura” vem pela religião, mas não sei se consigo, porque parece que tudo se mistura. Obviamente, onde o Estado não entra, outra instituição ocupa o espaço. E a religião tem desempenhado o seu papel na atenção e acolhimento a usuários de drogas, mesmo com os problemas da terceirização da saúde. Sei também que, embora a novela se passe em São Paulo, onde a Prefeitura tem realizado um trabalho com resultados positivos no controle de danos e recuperação de usuários, seria mesmo bem difícil que isso fosse sequer mencionado.

Mas, tampouco consigo sublimar a cena de Larissa implorando por “salvação”, ajoelhada com os braços estendidos com uma luz por trás, como uma Madalena arrependida pronta pra receber Jesus. O estupro de Larissa foi sua chegada ao fundo do poço, segundo o próprio autor, o que parece sugerir que ela provocou a violência. Afinal, ela “procurou” por aquilo ao usar drogas, viver naquele lugar e conviver com aquelas pessoas, né? Ela “procurou” por aquilo ao concordar em ir a um lugar ermo com um desconhecido atrás da droga. A culpa pelo estupro teria sido dela, portanto. Ela foi em direção ao fundo do poço. Mas, epa! Não deveriam ser os homens que a estupraram quem teriam chegado ao fundo do poço ao cometer uma violência dessas?

E, mais, sendo essa violência o catalizador para que ela procurasse ajuda, o que podemos presumir? Que o estupro foi necessário para que ela se tornasse consciente de sua situação e, portanto, teve impacto positivo em sua vida? Seria exagero ou uma incorreção fazer uma analogia com o “estupro corretivo”, já que essa violência a teria estimulado a buscar “o lado bom da força” e uma vida dentro da norma, com Cristo, sem drogas e, possivelmente, sem prostituição? Lembrando que ela já se prostituía antes, pela agência de modelos onde trabalhava.

Larrisa sempre foi Madalena. A metáfora da violência sexual como possibilidade de remissão de pecados para uma mulher que cobrava por sexo me parece bem explícita. Assim que concorda em acompanhar o missionário, Larissa é levada direto ao culto para fazer sua conversão. Ela tinha acabado de ser estuprada, estava ferida, suja e ensanguentada, e não foi sequer fazer um exame médico e tomar um banho! Não antes do culto. E, depois, essa parte fundamental de atendimento a uma mulher violentada não apareceu. Porque não importava para narrativa. “Limpar sua alma” era a prioridade.

Lyris: a negra punida com a morte pelo book rosa.

Não satisfeito, nesse mesmo capitulo, o autor ainda nos “brindou” com mais uma cena de violência brutal contra outra personagem feminina. Depois de  participar de um grande desfile, a modelo Lyris (Jessica Cores), única personagem negra da novela, foi assassinada a facadas pelo ex-noivo, Edgard (Pedro Gabriel Tonini). na porta do local do evento, o Museu Afro Brasil — numa “coincidência” cruel e cínica que só me dei conta quando comecei a escrever esse texto.

Lá pelo meio da novela, para esconder do noivo que tinha feito book rosa com Alex, Lyris inventou que ele a teria estuprado. Edgard tenta matar Alex mas é espancado pelos seguranças do empresário. No hospital, Lyris desmente o estupro e confessa que tinha se prostituído. O noivo termina o relacionamento. Esse fato acabou servindo para precipitar uma série de acontecimentos importantes para o andamento da novela. Porém, para o autor, parece que Lyris ainda não tinha sido condenada o suficiente. Depois de tê-la “perdoado”, Edgard esperava por Lyris na porta do Museu e ao vê-la sendo abordada por um desconhecido, supôs que ela continuava se prostituindo e se aproximou com uma faca, atingindo-a várias vezes no abdômen. Horas depois, Lyris não resiste aos ferimentos e morre no hospital.

Lyris acaba sendo mais uma personagem feminina num enredo de novela que morre por razões fúteis. Que ela seja a única personagem negra, acrescenta racismo ao caldo da misoginia. O autor poderia ter usado sua morte para denunciar e derrubar o esquema de prostituição na trama, mas nada disso foi feito, a alegacão final foi que o noivo era violento e ciumento, sendo que não havia nem contexto de relação abusiva. A função narrativa dessa morte foi apenas para lembrar as mulheres que uma de nós sempre pagará pelos “erros” das outras e na, maioria das vezes, será a mulher mais oprimida socialmente. Por que Lyris teve que morrer daquela maneira se, ao contrário do esperado, seu assassinato não foi nem usado para desmascarar Fanny (Marieta Severo)? Para mostrar o que pode acontecer com mulheres comprometidas que se deitam com outros homens, especialmente por dinheiro? Para ser mais um caso de “crime passional”?

Não me parece um detalhe banal que a modelo “punida” com a morte por causa do book rosa tenha sido justamente a única personagem negra da história — outros atores negros aparecem apenas como figurantes nas cenas da Cracolândia. E nem que tenha sido ela a escolhida para concretizar um dos folclores mais usados quando se quer desqualificar uma acusação de violência sexual: ela realmente inventou um estupro numa transa consentida. Em outra novela do autor, Amor à Vida (2013), Inaiá (Raquel Vilar) vivia uma enfermeira apresentada como promíscua que descobriu ter o vírus HIV. A personagem era a única negra que aparecia desde o começo da trama. O autor a “puniu” por sua diversidade de parceiros. O que me faz pensar o quão as histórias de Walcyr Carrasco são misóginas e racistas.

Em apenas um capítulo, tivemos duas personagens femininas “punidas” de forma bárbara por suas transgressões, com atos que caracterizam muito a violência contra as mulheres: violência sexual e violência doméstica. E, com as quais costumamos ser bastante culpabilizadas: estupro (ela provocou) e assassinato (ela mereceu). Porém, também tivemos violências mais leves, embora simbolicamente agressivas.

Mulheres presas a estereótipos machistas, racistas e moralistas

Houve o episódio do aborto de Pia (Guilhermina Guinle), com muita culpa, julgamento moral e a prisão do médico que tinha feito o procedimento. Pra completar, a personagem foi apontada por todos como o símbolo da mãe relapsa, que não percebeu que o filho estava se drogando. Ela mesma assume esse papel, culminando com um discurso “a la madre Teresa” no final. E o “personal”, que desde o começo pretendia engravidá-la pra dar o golpe do baú, posando de bom moço.

Fanny foi dopada pelo amante para perder seu grande momento de conquista na carreira, o desfile final. Ao ser abandonada por Anthony (Reinaldo Gianechinni) se ajoelha e implora para ele ficar. Depois, precisa de outro boy pra levantar a autoestima. Nesse momento, vira para o telespectador e diz: – Serve. Uma cena que foi celebrada nas redes sociais, mas que é frustrante quando pensamos em sua altivez. Sua agência atingiu o topo entre as concorrentes depois do desfile, mas realização mesmo só com um homem do lado.

Finalmente, olhemos para os finais das duas mulheres principais da novela: Carolina e Angel. Ao descobrir o caso da filha com o marido, Carolina se mata, pagando com a vida a pena pela própria ingenuidade. Aliás, sua morte foi também a punição de Angel, já que depositou sobre a moça a culpa por tudo o que tinha acontecido. Além disso, Angel precisou perder a mãe de maneira tão trágica para enxergar o ciclo de abuso que vivia e se libertar de Alex, matando-o. Para coroar, ela se casa com Guilherme (Gabriel Leone) no final, pois sua busca por felicidade precisa começar com um marido, mesmo que ela tenha apenas 17 anos de idade.

E, aí, me pergunto: de que adianta a estética moderna, se o antigo continua no enredo? Aliás, é mesmo tão inovadora assim uma novela pretensamente criativa na linguagem, mas que mantém a mesma lógica machista, racista e moralista das tramas mais tradicionais?

Eu, noveleira que sou, gosto de boas tramas, boa técnica, bom elenco. Posso lidar com lugares-comuns, desde que inseridos num enredo interessante, e consigo entender as limitações de certas obras. Mas, me sinto bastante desapontada quando vejo uma trama que se pretende mais contemporânea repetir os mesmo clichês, ainda que numa roupagem bonita e bem cortada de grife. Mais uma vez, o que vimos foi muito proselitismo. Em grande medida e, principalmente em seu final, Verdades Secretas parece ter sido um grande panfleto conservador, com discurso anti-drogas, anti-prostituicao e anti-aborto baseados no senso comum, religioso, com aspectos racista, machista e moralista. Um panfleto com nudes, é verdade. Mas, um panfleto, no final das contas.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

+ Sobre o assunto:

[+] Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira. Por Iara Avila no Biscate Social Club.

[+] A verdade secreta é que a família brasileira não liga para abuso. Por Stephanie Ribeiro na Imprensa Feminista.