Feminismo não é Vitimismo!

Texto de Mariana Selister Gomes para as Blogueiras Feministas.

Nos últimos dias, assisti ao filme “Negação” (Mick Jackson, 2016), o qual baseia-se na história real da disputa judicial entre a historiadora Deborah Lipstadt e o escritor David Irving, quando este a acusa de difamação, por ela denunciá-lo publicamente como um negador do holocausto. O filme me emocionou, tanto pela história que registra, quanto por perceber o quanto ainda hoje precisamos lutar contra os negacionistas – sejam eles negadores do holocausto, do racismo ou do machismo.

Na Universidade Federal de Santa Maria, recentemente, dois grupos entraram nesta luta, ao enunciar o slogan: “Feminismo não é Vitimismo”. Ambos buscaram denunciar a negação do machismo, que se oculta na alcunha de “vitimista” dada ao feminismo. Um foi protagonizado pelo Coletivo “Manas RI” e outro pelo Programa “Gritos do Silêncio” da Rádio da Universidade.

Somo, aqui, meu grito: Feminismo não é Vitimismo! E explico-o nas seguintes linhas. A categoria “vitimização” ou “vitimismo” tem emergido nas universidades para se referir a luta feminista e anti-racista. De certa forma, esta é uma versão acadêmica da “categoria” “mimimi”, difundida por grupos conservadores nas redes sociais. Por seu turno, legitimamente, os movimentos feministas (entendidos aqui no plural, abarcando mulheres negras, trans, lésbicas…) reagem, por toda a parte, a esta categoria, entrando em uma disputa simbólica para demonstrar que sua luta não é mimimi/vitimismo – como aconteceu na UFSM.

Ressalto que o conhecimento acadêmico não é totalmente neutro e insere-se nestas disputas de saber-poder – como demonstraram teóricas e metodólogas feministas (como Sandra Harding e Donna Haraway), teóricos decoloniais (como Aníbal Quijano e Edgardo Lander) e filósofos pós-estruturalistas (como Michel Foucault). Sendo assim, a objetividade é garantida pelo debate de ideias de forma transparente, no qual é preciso responder a duas questões: 1. Para que(m) serve o conhecimento produzido? 2. Quem está produzindo esse conhecimento?

Neste sentido, podemos questionar quem está produzindo um discurso acadêmico sobre “vitimização/mimimi” e por que o está produzindo – sendo garantida a liberdade científica e a liberdade de expressão em produzir este conhecimento, desde que estejamos alertas para possíveis abusos destas liberdades, os quais ocorrem quando esta é usada para propagar discursos de ódio (como no caso relatado no filme mencionado anteriormente).

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Feminismo interseccional explicado por meio de pizzas

Texto de Suzana Bobadilla e Akilah Hughes. Publicado originalmente com o título: Intersectional feminism, brought to you by pizza no site Feministing em 13/04/2015. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

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A escritora e comediante Akilah Hughes criou uma brilhante explicação do que é interseccionalidade usando pizzas como metáfora. Isso mesmo! Pizza!

Usando uma criativa relação entre hambúrgueres, pizzas e pizzas de queijo, Akilah desmembra a teoria de Kimberlé Crenshaw em um simples e digestivo vídeo (esse trocadilho foi totalmente intencional).

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=FgK3NFvGp58]

Vídeo – On Intersectionality in Feminism and Pizza.

Embora, obviamente, todas nós gostaríamos de viver em um mundo onde pudéssemos falar sobre interseccionalidade sem ter que recorrer a metáforas alimentares, o trabalho de Akilah nos oferece a chance de rir, relaxar e acreditar que talvez na próxima vez em que o feminismo tornar-se assunto nacional, a inclusividade não seja uma reflexão para se fazer depois.

Então, hoje, quando você ler sobre a candidatura de Hillary Clinton a presidência para 2016 e sobre seu feminismo, pergunte-se: será que podemos ter mais que queijo, por favor?

Transcrição do vídeo:

“Akilah Hughes: Olá Youtube, aqui é @AkilahObviously! Hoje quero falar sobre um assunto que tem sido negligenciado no Youtube e na cultura pop, especificamente quando falamos sobre o discurso de Patricia Arquette no Oscar ou sobre os textos de Nellie Andreeva no Deadline, que pensa que a diversidade está ultrapassando os limites em Hollywood e que não existem mais personagens para pessoas brancas.

Hoje vamos falar sobre interseccionalidade e feminismo. Não há melhor maneira de falar sobre este grande assunto do que falar sobre pizza! É um pouco gorduroso.

Digamos que você nasceu como uma Pizza de Queijo, mas o mundo é feito para Hambúrgueres. Você pode ir a qualquer lugar e conseguir um hambúrguer, são o principal item de fast food em praticamente qualquer lugar do mundo. Então, você está tentando dizer: “Ei! Pizzas são tão boas como Hambúrgueres. Pizzas causam a mesma satisfação que Hambúrgueres. Pizzas merecem os mesmos direitos que os Hambúrgueres”. E isso é muito bom e correto.

Porém, depois há pizzas como eu, Pizzas Especiais, que possuem coberturas e características diferentes das Pizzas de Queijo e que têm seus próprios problemas para enfrentar, porque elas são pizzas e ainda têm diferentes coberturas. Perguntamos: “e quanto a nós?”.

Pizzas de queijo são, de longe, as pizzas favoritas da sociedade. Se você for a qualquer lugar haverá uma Pizza de Queijo. Em qualquer representação da sociedade, seja na arte, mídia, educação, finanças, história, as Pizzas de Queijo são as únicas Pizzas mencionadas. Você sabe, Pizzas de Queijo são tão famosas que há lanches que celebram esse sabor como Cheetos, Pringles e até mesmo bolachas salgadas! Pizzas de Queijo sempre tem grande visibilidade.

Entretanto, este não é o caso das Pizzas Especiais, entende? Nossas características são muitas vezes vistas pelo olho destreinado como um peso extra ou parte de um problema maior, e assim somos deixadas de lado, esmigalhadas, porque a crosta não nos dá suporte. É muito mais difícil ser uma Pizza Especial num mundo de Hambúrgueres.

Então, quando as Pizzas Especiais descobriram que as Pizzas de Queijo queriam unir forças e lutar pelos direitos de todas as Pizzas, elas foram empolgadas! Até que elas descobriram que todas as discussões sobre as Pizzas seriam exclusivamente sobre as Pizzas de Queijo. Na verdade, as Pizzas de Queijo diziam: “Nós lutaremos para conseguir seus direitos, mas apenas depois de atingirmos os nossos”. E agora há toneladas de vídeos e artigos que falam sobre como as Pizza de Queijo estão cansadas de ouvirem os Hambúrgueres dizerem que elas deveriam raspar sua crosta, e como as Pizzas de Queijo estão sendo insultadas pelos ingredientes que escolheram colocar em sua massa. Pizzas especiais adorariam ter o privilégio de se preocupar com coisas tão servis.

Historicamente, quando Pizzas Especiais sobem na hierarquia da cultura pop e usam essa plataforma para promover os direitos das Pizzas, as Pizzas de Queijo irão deslegitimá-las para logo em seguida, virar e dizer: “Olhe para esta Pizza de Queijo, ela tem a idéia certa”, [foto de Emma Watson fazendo seu discurso na ONU], mesmo quando ela diz exatamente a mesma coisa que a Pizza Especial estava dizendo o tempo todo [imagem da apresentação feminista de Beyoncé no MTV Music Awards].

As características únicas das Pizzas Especiais geralmente são celebradas quando ocorrem artificialmente em Pizzas de Queijo. Na verdade, quando essas características ocorrem naturalmente nas Pizzas de Queijo, elas tendem a se sentir envergonhadas. “Olhe como suas linguiças são grandes, por que sua pimenta é tão encaracolada?” [imagem de uma Pizza de Queijo com linguiça chamada de Kendall Jenner].

E as Pizzas Especiais estão, infelizmente, um pouco desanimadas. Elas ficam expostas em temperatura ambiente esperando por nós para lutar pelos seus direitos, enquanto elas vêm lutando pelos direitos das Pizzas de Queijo de forma enérgica por muito tempo. Então, como vamos resolver este problema? Você sabe, eu acho que chamamos isso de Intersecionalidade!

Quando falamos de direitos das Pizzas, precisamos falar de todas as Pizzas, não apenas das Pizzas de Queijo que são consideradas socialmente aceitáveis, dignas de confiança e merecedoras de terem um lugar na cultura popular. Precisamos falar de Pizzas que são sexualmente atraídas por outras Pizzas, Pizzas que não são sexualmente atraídas por nada, Pizzas que se identificam como Hambúrgueres e Pizzas que têm diferentes coberturas. Porque tão bom quanto elevar as Pizzas de Queijo socialmente, é um mundo que poderia ter muito mais sabor.

Obrigada por assistir e eu espero voltar em breve com outro vídeo.”

Autoras

Suzanna Bobadilla é escritora, ativista e estrategista digital. Twitter: @suzbobadilla.

Akilah Hughes é escritora e comediante. Site: It’s Akilah Obviously! Youtube: Smoothiefreak. Twitter: @AkilahObviously.

Teoria pra quê?

Se tem um assunto específico sobre o qual escrevi muito pouco neste vida, este é o feminismo. Uma aparente contradição com uma pessoa que escreveu desde muito cedo e teve contato com o feminismo desde muito cedo. Talvez pela sua aparente obviedade e clareza pra mim. Talvez pela sua óbvia incerteza e indefinição. Talvez pela dificuldade em definir, torná-lo finito. Nem sei. Lembro de uma frase que um professor de literatura escreveu na lousa: “Aquilo que as palavras definem, ou tornam finito, faz-se infinito pelo próprio poder das palavras”, e quem disse isso foi o Northrop Frye, um canadense que estudou literatura e linguagem.

Ok, a frase é linda. Mas o que ela quer dizer? Por que ela está aqui, neste post, neste blog?

Afghan girl. Foto de Advocacy Project no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Bem, essa frase curtinha fala de um monte de coisas bem importantes e bem caras ao feminismo e aos feminismos. A mais elementar é que as palavras definem limites, dão forma, diferenciam as coisas. “Mesa” é uma coisa particular, em termos do objeto mesa, e ao denominarmos uma mesa automaticamente separamos as coisas em “mesa” e “não-mesa”. Mas as palavras têm um alcance que vai além do objeto material, do físico. “Mesa” é um conceito, se fomos mais além. “Virar a mesa”, “pôr a mesa”, são exemplos da palavra usada como conceito e não como denominação do objeto material. As palavras (acho que não no caso da mesa) também estão, por isso, em disputa. Seu significado relacional muda, é dinâmico.

E o feminismo?

Bom, o feminismo nasce disputando e contestando a palavra e o conceito “mulher” em ‘nossa’ sociedade (ou sociedades do tipo da nossa, eu diria). Contestando sua naturalização, reivindicando sua mudança. Mas o feminismo veio além, e coopera hoje com a disputa e a constestação de várias outras palavras, categorias e conceitos. Mulher, homem, gays, lésbicas, trans, mãe, pai, família, trabalho, estupro, violência, igualdade, direito… Tudo isso e muito mais está em jogo na luta feminista atualmente.

Além de tudo isso, a própria “unidade” (como diria o antropólogo David Schneider para colocar numa palavra só categoria, classificação, objeto material/nome e conceito) “feminismo” está em constante dinamismo e disputa. Não quero dizer com isso que o feminismo é “rachado” e cheio de “brigas internas”, mas que não é homogêneo nem unívoco nem universal e igual em todo lugar ou grupo. Há o que chamo de feminismo, essas atitudes cadenciadas mais ou menos articuladas de diferentes grupos e mulheres numa luta política comum, e há o que chamo aqui de feminismos, as atitudes feministas individuais de mulheres mundo afora, quer se declarem feministas, quer não. Diferem, estas duas coisas, na medida em que têm diferentes impactos e alcances na esfera pública da sociedade. Feminismos individuais podem ou não estar articulados com um feminismo político, público.

Estas duas coisas que aqui chamo de “feminismo” e “feminismos” me parecem existir de forma interdependente, ligados por uma outra coisa frequentemente xingada e escurraçada ou, ao contrário, enaltecida como a única salvação da humanidade: teoria. Que teoria? Ora, diversas teorias. Mas essa coisa mais geral, chamarei-a aqui de “teoria”, no singular, parte da reflexão destas práticas individuais (no caso do feminismo, os feminismos e não-feminismos e anti-feminismos e machismos e sexismos individuais) para elaborar esquemas explicativos do seu funcionamento. Ao mesmo tempo, o conhecimento de teoria nos permite entender estas práticas individuais. Esta é uma via de mão dupla, entre feminismos e teoria. Bem, mas e o “feminismo”, essa coisa política, pública, coletiva? Outra via de mão dupla entre essa coisa (“unidade”) e a “teoria”: ao mesmo tempo em que a teoria embasa a atuação e a percepção do feminismo, ela é objeto do olhar crítico  construído por este feminismo.

Mas que teoria é essa, afinal?

Por mais que geralmente ao falarmos e teoria e feminismo a primeira coisa que venha à cabeça de muita gente seja teoria feminista, percebo que esta é apenas uma teoria. Talvez nem a mais importante, nem a mais essencial pros feminismos e pro feminismo, embora seja talvez uma das mais políticas. Minto, creio que seja bobagem hierarquizá-las assim. O que quero dizer é que há muitas teorias que são essencias pro feminismo e pros feminismos. Teoria política, teorias de gênero, teoria queer, teorias do direito, teorias linguísticas, teorias sociais, e por aí vamos…

Daí vale dizer sucintamente que a coisa “teoria” também é um campo e espaço de embates, debates e disputas para o feminismo (esse no singular). Um campo importantíssimo, que media as práticas individuais e sustenta práticas políticas. Esse modelo das vias de mão dupla tem “teoria” no centro, ligando-se a tudo mais. Mesmo que as teorias acadêmicas, oficiais e formais não sejam reconhecidas por seus agentes, elas têm uma responsabilidade muito grande na formação de visões e percepções de mundo, através dessa mediação.

O que quero dizer com isso?

Que enquanto feministas, é nosso dever disputar as teorias, conhecê-las, aproximarmo-nos delas. Não que cada feminista tenha o dever de ser uma expert em todas as teorias do mundo, nem que só as acadêmicas são feministas, não é nada disso. Mas, atuando coletivamente neste feminismo que é político, só poderemos ganhar quando abraçarmos o processo todo: feminismos === teoria === feminismo. É na mediação da prática individual e da prática coletiva e pública que fortalecemos visões de mundo, percepções, formas de definir e classificar as coisas. Esta é a nossa luta.

Com esta preocupação, algumas de nós Blogueiras Feministas iniciamos uma espécie de grupo de estudos interno, o “Leituras Feministas” (acesse www.leiturasfeministas.blogspot.com e acompanhe os resultados desta experiência), para apoiarmos esse processo umas das outras para além do que os debates correntes da nossa lista de e-mails (que já é incrível) permite. Por hora, este projeto está restrito às feministas da lista de discussão BF. Venham meninas!

Afinal, se a luta é simbólica, que nos armemos também com ideias.