A Semana: 01/11 – 08/11

  • Marcha das Mulheres Negras Brasileiras

Dia 07 de novembro aconteceu o lançamento da Marcha das Mulheres Negras Brasileiras, que será realizada em 2015, em Brasília.

Nós, mulheres negras brasileiras pertencentes a diversas organizações do movimento social de mulheres negras e do movimento social negro, participantes da III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CONAPIR, realizada no período de 05 a 07 de novembro de 2013, em Brasília – DF, com o tema “Democracia e Desenvolvimento sem Racismo: Por um Brasil Afirmativo”, declaramos nosso reconhecimento e nosso compromisso com o processo de construção da Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo e Pelo Bem Viver – 2015, em Brasília.

Somos 49 milhões de Mulheres Negras que constroem cotidianamente a riqueza desse país, e, no entanto, somos a parcela mais pobre e discriminada da população brasileira, com acesso limitado à educação, à saúde, à moradia digna, ao saneamento básico, ao trabalho e renda decente, à segurança para nós e nossas famílias. Somos as que morrem em vida pelo genocídio engendrado contra nossos familiares.

[+] Marcha das Mulheres Negras Brasileiras – Blogueiras Negras

[+] Marcha das Mulheres Negras 2015

[+] Dilma abre conferência de igualdade racial com projeto de cotas para concursos públicos.

[+] Discurso da presidenta Dilma Rousseff foi um marco no reconhecimento do racismo no país.

[+] 3º Conapir debate ‘Democracia e Desenvolvimento sem racismo’.

Abertura da III CONAPIR - Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Foto de CONAPIR/Divulgação.
Abertura da III CONAPIR – Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Foto de CONAPIR/Divulgação.
  • TransEmpregos – Onde gente talentosa se encontra

Apesar dos dois cursos superiores e de uma pós-graduação, a analista de sistemas Daniela Andrade, de 30 anos, está desempregada. O designer de produtos Paulo Bevilacqua, de 27 anos, nunca conseguiu fazer um estágio na área. Já a advogada Márcia Rocha, de 47 anos, conseguiu seguir carreira como empresária do ramo imobiliário. Eles têm profissões distintas, mas uma característica em comum: todos são transgêneros.

Da discriminação profissional sofrida pelas duas paulistas e pelo designer mineiro, veio a iniciativa de criar um site com ofertas de emprego voltadas especialmente para pessoas trans. O mecanismo criado por eles é simples. Travestis, transexuais e crossdressers se cadastram no portal Transempregos           (www.transempregos.com.br) e passam a acompanhar as vagas de seu interesse, oferecidas especificamente por empresas comprometidas com a diversidade sexual. A iniciativa foi bem recebida e, em menos de um mês, dez empresas ofereceram empregos no site. Além disso, cerca de 160 pessoas se cadastraram, em busca de vagas.

[+] Há vagas para transexuais e travestis.

[+] O preconceito contra transexuais no mercado de trabalho.

[+] TransEmpregos – Facebook

  • Tatiana Lionço e Cristiano Lucas Ferreira contra as difamações de Bolsonaro

Escudado pela valorização da família tradicional, da moral e dos bons costumes, o deputado federal Jair Bolsonaro não se contenta somente com sua atuação na Câmara dos Deputados, lançando quase semanalmente pérolas em formato audiovisual em seu canal do YouTube. Isso, obviamente, acarretou novas dores de cabeça à vida do parlamentar. Durante a polêmica do assim chamado “kit-gay”, os professores Cristiano Lucas Ferreira e Tatiana Lionço, ambos militantes da Companhia Revolucionária Triângulo Rosa, foram alvos de uma campanha difamatória encabeçada por Bolsonaro, que editou vídeos em que os educadores participavam de congressos e seminários – basicamente destruindo o sentido original de suas falas e ações – e os colocou na internet. Posteriormente, os vídeos foram tirados do ar – segundo o deputado, pelo próprio Youtube –, mas outras pessoas, inclusive perfis fakes, continuam replicando-os rede mundial de computadores afora. Com apoio do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (SINPRO), os educadores entraram com uma representação judicial contra o político.

Para os dois professores, uma das maneiras de esclarecer a situação foi lançar o documentário “No Brasil de Cris e Tati – A Luta Pela Liberdade”, produzido pela OCUP (Organização de Comunicação Universitária Popular). Mas, obviamente, o alcance desse vídeo é muito pequeno se comparado ao dos vídeos postados pelo deputado. Cristiano e Tatiana sequer cogitam largar a militância ou se abster de suas opiniões políticas. O quê, para o deputado Bolsonaro, parece ser absurdo. “O que assistimos hoje são muitos professores que dedicam muito espaço de tempo buscando impor suas preferências políticas, homossexuais e outras em detrimento das matérias que deveriam ensinar a seus alunos”, declarou.

[+] É horrível ser difamado pelo Bolsonaro.

[+] OAB pedirá cassação de Feliciano e Bolsonaro.

[+] Bolsonaro edita fala de psicóloga como se ela defendesse pedofilia.

[+] Mães criam movimento contra homofobia.

  • Quantidade de mulheres nas prisões brasileiras aumentou 240%

Na última década, a taxa de crescimento de mulheres encarceradas no país explodiu, chegando a 240%, de 2002 a 2012, o dobro do aumento da presença dos homens no mesmo período, de 124% (veja quadro). Duas em cada cinco presas foram condenadas por tráfico de drogas, repetindo um roteiro traçado por Paloma, que inclui a vivência no mundo paralelo da rua. A maioria tem de 20 a 35 anos, escolaridade precária e média de dois filhos menores de 18 anos.

Resultado ou não da política atual, nunca foi tão elevada a proporção de presos no Brasil, que hoje já se aproxima da terceira colocação no ranking mundial, perdendo para os Estados Unidos, Rússia e China. São 287 encarcerados para cada 100 mil habitantes. No ritmo atual, logo o país tomará o título do Chile de primeiro lugar na América Latina. Além das taxas escandalosas, o carimbo da prisão brasileira atinge a parcela mais vulnerável da população: analfabetos ou semialfabetizados, negros e com baixa qualificação profissional.

[+] Mulheres na prisão: destino traçado entre as grades da prisão.

[+] Gabriela Leite é homenageada na mesa que revelou dados de pesquisas sobre HIV em gays e presidiárias.

Substantivos femininos: mulher e cidade

Texto de Carolina Freitas.

Tereza: Nome (Im)Próprio

Tereza. Pai negro, mãe índia. 49 anos. Maranhense. Desempregada, atualmente faz bicos, vende Suflair no centro da cidade ou faz faxina. Tem mês que não dá pra tirar nem 500 contos. Três filhos, mas só mora com a pequena. A miudinha é muito doente, o quartinho é pequeno demais. Os outros filhos mais velhos o juiz mandou tirar pra morar num abrigo. Não sabe até quando vai morar debaixo de um teto porque o moço do cortiço já mandou despejar, a sentença do juiz tá pra sair. A menina dela não pode ficar na rua, ela precisa pensar onde é que vai ficar aquele corpinho magrelo, selado por uns olhinhos tristes – provavelmente longe da mãe de novo.

Se fosse uma história só e não várias, seria bom.

Se fosse só história, seria melhor ainda.

Mas é a realidade dura de milhares de mulheres em São Paulo.

Milhões nesse Brasil.

São histórias mais materiais que o concreto, tapete da infinidade de contradições de São Paulo.

E porque pensar nas mulheres, e não na classe toda de miseráveis, contingenciados num exército de reserva, destino duro reservado pelo capital? Que bendita razão pode nos levar a crer que existe uma especificidade fundamental de gênero na questão da moradia nos grandes centros urbanos?

Aqui serão trazidos à tona alguns dos elementos centrais da análise feminista sobre a moradia e sobre a cidade capitalista de modo mais geral, de modo que se perceba que as Terezas não o são por mera coincidência, mas são vidas materiais produzidas a todo tempo, de modo sistêmico, nas grandes cidades.

Foto de Lais Castro no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Lais Castro no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Substantivos femininos: mulher e cidade

A cidade moderna não é uma conformação da organização na sociedade humana apenas. É um produto histórico de certo desenvolvimento econômico que compreende uma multiplicidade de fatores; a cidade é espaço e tempo, produção e reprodução. A cidade é a compreensão espacial da divisão de classes.

A reflexão sobre o desenvolvimento urbano é essencial para o entrelaçamento de uma série de contradições sociais, que ocorrem materialmente nos espaços urbanos. Muitas das transformações vividas no último período do capitalismo são centrais para qualificar essa discussão, como a globalização mundial e os novos processos produtivos, capazes de criar uma classe de milhões de subempregados, e mais outros tantos situados numa zona profunda de miserabilidade e falta de oportunidades, as “massas sobrantes”.

O Estado conforma-se e converge com essa nova ordem econômica, visto que demonstra raro afinco a questões sociais e demandas reais de políticas públicas, notabilizando-se sempre pela elaboração conciliatória entre essas questões que afligem as camadas pobres de eleitores e os interesses de empresas privadas, essenciais à sua sustentação. O desemprego, a saúde, a educação, o lazer, a cultura, a alimentação, dentre tantas outras necessidades do povo na cidade, se tornam problemas cíclicos, interdependentes e, muitas vezes, meros focos de metabolização da lucratividade do empresariado.

Há uma estimativa bastante circulada de que 82% das brasileiras e dos brasileiros vivam em grandes cidades. Nesta seara de exclusão social sistemática, de acirramento generalizado, a cidade se torna o palco de grande parte das contradições históricas no país, mas agora conta também com a assimilação de todos esses novos processos em curso.

Mesmo dotada da característica proeminente do espaço público, dos interesses, atividades e fluxos compartilhados, a cidade é o cenário moderno da inacessibilidade a garantias básicas de sobrevivência humana de um contingente massivo de pessoas. Muito embora o espaço urbano seja constituído por uma multiplicidade quase infinita de elementos, o seu contraste se localiza justamente no fato de que, a depender da condição de classe, essa multiplicidade pode ser usufruída ou não.

Contudo, condição de classe, mesmo que latente em todo o fluxo existente na cidade, não é o único recorte imprescindível para essa análise.

Ainda no interior das vivências urbanas da classe trabalhadora, a experiência da mulher trabalhadora não é a mesma que a dos homens trabalhadores. Não por um preciosismo analítico, mas por uma questão estrutural, profundamente engendrada nas relações sociais humanas, cuja detecção se dá objetivamente pela diferença do trabalho desempenhado pelos dois sexos.

Inicialmente, considera-se que a diferença na percepção do homem e da mulher não se resume ao cenário da cidade, mas remete-se a lugares diferenciados no mundo – marcado pela dominação e hegemonia da posição masculina no âmbito total da vida social.

As mulheres, historicamente relegadas ao trabalho doméstico e à manutenção da família monogâmica nuclear, constituem a vivência do espaço privado. As tarefas de reprodução naturalizadamente imputadas ao sexo feminino são fatos determinantes para a formação de certo modelo de realidade urbana.

A vivência das mulheres é remetida à dominância do ambiente de reprodução familiar. O cuidado com os filhos e com os idosos, o preparo da alimentação, a limpeza e a garantia da higiene para precaver doenças, a manutenção da estrutura física, são apenas alguns exemplos dessa experiência cotidiana e predominante no lugar privado. Mesmo quando a mulher se transfere ao espaço público urbano, é possível notar que esse movimento muitas vezes se resume a uma espécie de expansão do espaço privado, como quando há frequência em mercados, farmácias, escolas, postos de saúde. Nesse sentido, os espaços públicos são ressignificados como espaços de adequação à manutenção do lar.

Ocorre que o novo mundo do trabalho colocado no contexto do desenvolvimento do capitalismo pós-industrial faz avolumar o contingente de mulheres que saem ao espaço público para trabalhar, no sentido produtivo do mercado de trabalho. Duplicam a jornada de trabalho e enfrentam os mais agudos desafios da vida urbana.

As mulheres trabalhadoras e, marcadamente, as mulheres negras habitantes de regiões periféricas, enfrentam a imposição de um tempo social impossível. A maneira como a cidade é conformada nos parâmetros da exclusão territorial e a duplicação generalizada das jornadas de trabalho feminino impõem os trajetos cotidianos das mulheres como verdadeiras lutas contra o tempo diário, tendo em vista as longas distâncias de onde residem e aonde se localizam os equipamentos públicos, como as escolas em que estudam seus filhos, além de terem ainda que conformar essa distância com o percurso até seus ambientes de trabalho.

Sob esse aspecto, pode-se afirmar que as mulheres trabalhadoras não vivem propriamente o espaço público, mas o atravessam para garantir a manutenção familiar. Essas travessias, embora sejam instrumentais para a sedimentação do espaço privado, carregam grandes significados em si; os espaços públicos que atravessam normalmente são aqueles em que mais se confirma a exclusão sexista. Frequentemente, praças ou bares são locais hostis à presença feminina, e suscitam o risco da violência física e sexual. Subjetivamente, essa exclusão alimenta o medo da rua, a apreensão do espaço público, sentido por muitas mulheres.

Espaço público e consumo

O espaço público, como lugar eminente de produção de riquezas, atrai contraditoriamente as mulheres. Ao passo que lhes é hostil, funciona para atraí-las enquanto principais agentes de consumo das cidades.

Esse movimento guarda uma profunda contradição: a atração das mulheres ao espaço do consumo é necessária à medida que são a classe de pessoas que mais compram (especialmente em razão da manutenção do lar e da família), ao mesmo tempo em que também é necessário o afastamento de qualquer sentimento de apropriação do espaço público pela mulher, visto que, para a organização capitalista do trabalho, é imprescindível a desconsideração do trabalho doméstico feminino como valor-trabalho ou como produção social.

Ademais, ao mesmo tempo em que é interessante como consumidora, a mulher não pode ditar como lidar com seu próprio corpo no espaço público, não dita seu tempo de vida e de trabalho. A mulher é permitida como objeto de manipulação econômica, mas não como sujeito político.

A acumulação capitalista se utilizará não apenas da desconsideração do trabalho doméstico como dotado de valor, tornando-o responsabilidade naturalizadamente feminina, mas também desvalorizará o trabalho produtivo nos termos mercantis da mulher em relação ao trabalho masculino, fato expresso pela amplamente conhecida diferença salarial entre os sexos.

As ocupações de mulheres em postos de trabalho sofrem também da transferência de suas características socialmente imputáveis (organização, manutenção, cuidados). Atualmente, o serviço doméstico, a montagem de peças minuciosas em linhas de produção industrial, bem como o atendimento em telemarketing, são exemplos de setores econômicos hegemonicamente efetivados pelo trabalho feminino.

Não apenas ganham menos em termos salariais que os homens, mas também são as mulheres que preenchem os piores índices de desemprego e também do trabalho informal, no qual sofrem com a falta de oportunidade de promoção e, principalmente, de garantias previdenciárias e trabalhistas.

Ainda, são as mulheres os indivíduos mais discriminados para ocuparem postos de trabalho em razão da limitação de idade e de condição materna. A existência de filhos impõe uma dedicação de grande dificuldade à mulher, que está suscetível à ausência de equipamentos públicos, como creches e escolas e, por esse motivo, adequa-se de modo mais precarizado e oscilante no mercado de trabalho.

Foto de Bruno Buccalon no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Bruno Buccalon no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Feminização da chefia das famílias e da pobreza

Neste momento, cabe uma reflexão sobre uma tendência recente no Brasil: a feminização das chefias de família e a paralela feminização da pobreza. A vida urbana se modifica com a entrada das mulheres no mundo produtivo. Não apenas a vida urbana, mas a vida familiar principalmente. Segundo pesquisas, vem caindo por terra o modelo de família conjugal tradicional para dar lugar a outras organizações familiares, com destaque, as famílias chefiadas por mulheres.

Estima-se que 30% dos lares latinoamericanos sejam chefiados pelas mulheres – número esse que cresce se dimensionado apenas nos grandes espaços urbanos do continente. Evidentemente esse fenômeno não pode ser considerado inovador e recente, visto que muitas mulheres trabalhadoras já sustentavam seus filhos e lares sem auxílio de uma figura masculina desde o final do século XIX, processo colado ao desenvolvimento urbano no Brasil. Acontece que o período que se inicia principalmente em 1970, de uma entrada irrefreável de mulheres no mercado de trabalho, vem desconstruindo com mais profundidade esse modelo tradicional de família.

Aumenta nos últimos anos o número de mulheres pobres nas cidades do Brasil e esta tendência tem a ver com o mencionado ingresso informal e precarizado das mulheres no mercado. Para além dessa condição, a imposição da maternidade social é outro elemento central para compreender a experiência feminina na cidade. O imperativo da maternidade produz a consciência de que mulheres devem dedicar prioritariamente suas vidas aos cuidados com os filhos – o que significa dizer que não podem omitir qualquer esforço na criação da sua prole.

Essa obrigação de reprodução familiar, rasgada às últimas consequências, torna a chefia dos lares uma necessidade das mulheres pelo fato fundamental de serem socialmente mulheres. Essa exclusividade do papel de coordenação do agrupamento doméstico faz a mulher assumir qualquer sacrifício ou adversidade para cumprir a sua imposição.

Nesse sentido, é comum que nos piores postos de trabalho no contexto urbano verifique-se a presença de mulheres negras, jovens, com filhos pequenos. Terezas. É interessante observar também que, quando esse perfil de mulher precisa sair ao espaço público para trabalhar, delega à filha mulher a substituição do seu papel. Há, sob esse aspecto, milhares de adolescentes do sexo feminino que enfrentam um amadurecimento extremamente precoce em razão da lógica de perpetuação dos papéis de gênero.

Diante desse cenário, é evidente o nível mais avançado de sofrimento das mulheres com a conformação dos centros urbanos. A falta de transporte público qualitativo, que responda à demanda gigantesca de São Paulo, por exemplo, acarreta a dificuldade maior da mulher nessa travessia obrigatória para cumprir sua ponte entre o espaço público e o espaço privado. Outros serviços públicos como a saúde e a educação, além de infraestrutura básica como água, esgoto, coleta de lixo e iluminação, são reforços que desoneram em certa medida o trabalho cotidiano não valorizado das mulheres.

Outro aspecto que se observa é que quando o Estado promove políticas públicas efetivamente voltadas para a questão de gênero acaba reforçando ainda mais a condição socialmente esperada das mulheres. Políticas de assistência social, por exemplo, como capacitação de mão de obra em trabalhos manuais, educação em saúde, dentre outras, apenas acomodam a situação da mulher mãe e trabalhadora, mas não são capazes de significar a mulher como sujeito político, como agente de transformação na realidade urbana e na democratização das cidades.

Notas

Esse texto faz parte de um ensaio, entitulado “Terezas – as sobrevivências duras do concreto” (.pdf)

Leia também a segunda parte: Substantivos femininos: mulher, moradia e luta.

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Carolina Freitas é advogada popular, feminista e acredita que as contradições da cidade capitalista precisam ser rompidas a partir de um outro projeto de sociedade humana.

O trabalho de homem, o trabalho de mulher e a construção do trabalho compartilhado

Texto de Katianny Estival.

“Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria que o mundo masculino tudo me daria do que eu quisesse ter…” Super Homem – A Canção – Gilberto Gil

 

Nesse texto, a intenção é repensar o valor do trabalho não contabilizado da mulher, discutir a “falsa” neutralidade nas relações de gênero e como podemos aprender com o trabalho feminino.

Reflita comigo:

1. Uma mulher, mãe, que queira cursar uma faculdade, sem acesso às creches, teria condições iguais a um homem para acesso à educação e a inserção competitiva no mercado de trabalho?

2. Por que de acordo com a pesquisa da OIT (2012) contabilizando o número de horas trabalhadas dentro e fora de casa as mulheres trabalham em média 20 horas mensais a mais que os homens? (Perspectiva de horas a mais trabalhadas reducionista em minha opinião…se considerarmos as diferenças regionais, sociais e de renda acredito que as horas a mais trabalhadas são superiores a 20 horas mensais…)

O relatório da OIT analisou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta que 90,7% das mulheres que estão no mercado de trabalho também realizam atividades domésticas – percentual que cai para 49,7% entre os homens.

No trabalho, elas gastam, em média, 36 horas por semana; eles, 43,4 horas. Em casa, por outro lado, elas gastam 22 horas semanais. Os homens, 9,5 horas (OIT, 2012).

O relatório da OIT (2012) conclui que:

“…A massiva incorporação das mulheres ao mercado de trabalho não vem sendo acompanhada de um satisfatório processo de redefinição das relações de gênero com relação à divisão sexual do trabalho, tanto no âmbito da vida privada, quanto no processo de formulação de políticas públicas (…). A incorporação das mulheres ao mercado de trabalho vem ocorrendo de forma expressiva sem que tenha ocorrido uma nova pactuação em relação à responsabilidade pelo trabalho de reprodução social, que continua sendo assumida, exclusiva ou principalmente, pelas mulheres”.

Soldadoras, mecânicas e pilotas da Supervia, empresa que administra trens no Rio de Janeiro. Foto de Guilherme Brito/G1.
Soldadoras, mecânicas e pilotas da Supervia, empresa que administra trens no Rio de Janeiro. Foto de Guilherme Brito/G1.

A divisão sexual do trabalho não tem efeito somente no emprego e na participação diferenciada de homens e mulheres no mercado, mas também afetam a forma como essas relações se difundem na sociedade. A responsabilização da afetividade e do trabalho não remunerado para as mulheres se traduz na perpetuação das desigualdades de tratamento entre os gêneros (HIRATA, 2001)¹.

Apesar dos dados empíricos e científicos confirmarem a sobrecarga da jornada dupla de trabalho, a responsabilização da afetividade e do trabalho não remunerado para as mulheres, observo também que nós muitas vezes não estamos dispostas a compartilhar a vivência das atividades maternas e domésticas com os homens. Acredito na existência de uma “reserva de mercado” ao espaço das coisas de MULHER.

Vejo às vezes um “protecionismo feminino” à preservação das atividades classificadas como tipicamente femininas: educação dos filhos, organização da casa, cozinhar, entre outras. Do lado masculino às vezes a aceitação do protecionismo é por comodismo, machismo e falta de interesse mesmo, mas às vezes os homens não tem oportunidade para dividirem realmente as tarefas diárias no trabalho da casa, cuidados com os filhos, entre outras. Ou pior, tentam ajudar e a mulher vai atrás corrigindo ou desconfiando de que o homem seja capaz de cumprir com a mesma excelência as atividades que as mulheres executam. Ou pior ainda…quando um homem se mete a cozinhar, ser carinhoso, ativo na educação e nos cuidados com a casa é subvalorizado ou motivo de brincadeiras de mau gosto. NÓS MULHERES FOMOS E SOMOS CAPAZES DE MUDAR E DEVEMOS INCENTIVÁ-LOS PARA QUE TAMBÉM SEJAM!

Nós não somos e nunca seremos super mulheres. Particularmente não acredito em supermulheres, super-homens, mulheres ou homens alfa. O que vejo são pessoas estressadas, principalmente mulheres, sobrecarregadas com as tarefas da casa, as cobranças profissionais, pessoais e que além de tudo são pressionadas para seguirem padrões inatingíveis de consumo e beleza… Somos humanos e sempre precisaremos de outras pessoas para compartilhar as nossas vidas pessoais e profissionais.

Temos muito a conquistar desde o avanço dos direitos humanos básicos como a não violência, acesso à saúde, educação e a inserção nos mercados, mas precisamos aprender e ensinar as gerações futuras que, assim como aprendemos e hoje já ensinamos as ações boas e produtivas — que no passado eram classificadas como tipicamente masculinas — devemos proporcionar a vivência, abrir o espaço, dar oportunidades e incentivar os homens a curtir, desenvolver e ensinar outros homens as ações boas e produtivas que eram classificadas como tipicamente femininas.

Afetividade + trabalho não remunerado + trabalho remunerado e produtivo, combinados esses fatores — mal ou bem atribuídos ao feminino e masculino — agregarão a formação de novos valores que poderão ser compartilhados na troca de experiências e funções entre pessoas.

Portanto, meu amigo/minha amiga, da próxima vez que você avistar aquele homem alto e forte carregando aquela bolsa enorme de bebê num braço e uma criancinha no outro não fique com pena dele ou lance um olhar de estranheza. Ele também tem o direito de ocupar e conquistar novos espaços nas relações entre os homens e as mulheres. E, garanto que assim ele terá oportunidades de novos aprendizados na vida e proporcionará novas vivências para as mulheres também, COM MENOS CULPA, POR FAVOR!

Dedico este texto ao meu pai que nunca teve vergonha de exercer seu lado mãe e ao meu filho, aos meus amigos e aos homens que assim como as mulheres, não tem medo ou vergonha de buscarem a ocupação de novos espaços na sociedade e nas relações com mais amor e participação.

Referências

Katianny Estival.
Katianny Estival.

¹ HIRATA, Helena. Globalização e divisão sexual do trabalho (.pdf). Cadernos Pagu, v. 17, n. 2, p. 139-156, 2001.

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Katianny Estival é mãe, feminista, professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus – Bahia – Brasil.