Nem deficientes, nem doentes, corpos desejantes

Dia 21 de setembro é o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. A data foi oficializada em 2005, pela Lei 11.133 de 14 de julho de 2005Para marcar esse dia publicamos a tradução de um texto que propõe desconstruir o termo “deficiência” e discutir novas visões sobre os corpos humanos. A luta contra o capacitismo (termo utilizado para descrever a discriminação, opressão e abuso advindos da noção de que pessoas com deficiência são inferiores) também é uma luta que deve ser encampada pelo Feminismo. 

Segundo Fiona Kumari Campbell o capacitismo, está para o segmento da pessoa com deficiência o que o racismo significa para os afro-descedentes ou o machismo para as mulheres, pode ser associado com a produção de poder e se relaciona com a temática do corpo, por uma ideia padrão corporal perfeita. Referência: Entenda o que é capacitismo!

—–

Nem deficientes, nem doentes, corpos desejantes

Este sábado realiza-se em Madri a “Marcha pela Visibilidade das Pessoas com Diversidade Funcional”, que, pela primeira vez na Espanha, se coordena em conjunto com organizações de diversidade sexual. Testemunhos e razões de uma luta invisibilizada.

Texto de Ana Felker. Tradução de Patricia Guedes.

Publicado originalmente com o título: ‘Ni discapacitados ni enfermos, cuerpos deseantes’ no site Marcha – Una Mirada Popular de la Argentina y el mundo em 13/09/2009.

Cartaz da VII Marcha Pela Visibilidade das Pessoas com Diversidade Funcional em Madrid, Espanha.
Cartaz da VII Marcha Pela Visibilidade das Pessoas com Diversidade Funcional em Madri, Espanha.

Uma pessoa em cadeira de rodas com uma metralhadora em cada mão grita “Festa!”, enquanto um fisiculturista com peruca loira e sapatos de salto a empurra pela rua. Esta imagem ilustra o cartaz que convoca para a “Marcha pela Visibilidade das Pessoas com Diversidade Funcional”, que se realizará este sábado em Madri, organizada pelo Foro de Vida Independiente e Divertad (síntese entre dignidade e liberdade), composto por mais de 400 pessoas de 15 países.

É a primeira vez na Espanha que os ativistas a favor da diversidade funcional formam uma aliança com aqueles que defendem os direitos das comunidades lésbica, gay, travesti, transgênero, transexual, intersexual e queer. Antonio Centeno, ativista a favor dos direitos das pessoas com diversidade funcional, relata como se deu essa relação e e quais são as coincidências.

Centeno explica que rechaçam categorias depreciativas, como “deficiente” ou “inválido”, pois se referem ao que as pessoas não podem fazer, em vez do que podem. Por isso, propõem falar em “diversidade funcional”, para atacar a discriminação desde a linguagem. “Não é uma forma de ser politicamente correto, mas sim abertamente político”.

Antonio comenta que “entendemos que o corpo é um campo de batalha onde se intenciona delimitar o que é normal, desejável, saudável. Nos dizem para que servimos, do que somos capazes ou que sexo devemos fazer”. E acrescenta: “A nós só é permitido aspirar à sobrevivência, mas nunca uma cidadania plena. Por isso, pensamos que a maneira mais potente de conectar-se à vida é a sexualidade”.

A aproximação entre ambos os grupos se deu quando alguns membros do Foro de Vida Independiente conheceram o coletivo Post Op, em Barcelona. Este grupo se dedica à investigação de gênero e pós-pornografia, tanto na teoria quanto na prática. O pós-pornô é um tipo de pornografia que busca visibilizar outros corpos que não coincidem com o ideal de beleza ou de funcionalidade, assim como outras formas de prazer que não as da indústria pornográfica que, do seu ponto de vista, reproduz estereótipos de gênero.

“Queremos visibilizar os corpos não-funcionais como corpos desejantes e desejáveis”, diz Antonio. Assim, com interesses em comum, começaram a trabalhar no documentário “Yes, we fuck!”.

Outros corpos

De acordo com a filósofa e ativista queer Beatriz Preciado, foi em meados do século XIX que se criaram as noções modernas de “deficiência” e “incapacidade física e psíquica”, entendidas como patologias ou enfermidades. Do seu ponto de vista, não é por acaso que estas categorias tenham surgido em plena revolução industrial, pois foram identificados como anormais os corpos que não se adaptaram a esse sistema de produção.

Preciado explica que a estatística aplicada à gestão da saúde, nos últimos anos, criou a diferenciação entre os corpos “normais” e os “anormais”. Segundo suas investigações, foi assim também que foram patologizados os homossexuais. “Ao serem considerados doentes – explica – se lhes negava não apenas uma representação política, como também o acesso ao poder. Depois, no século XX, os movimentos pelos direitos dos homossexuais lutavam pela despatologização do corpo”.

Da mesma forma, membros da diversidade funcional buscam agora que seus corpos não sejam vistos como doentes, mas sim como capazes de decidir sobre a própria vida, se forem criadas as condições necessárias. Entre alguns ativistas e pesquisadores que estão trabalhando neste sentido encontram-se:

  • Sunaura Taylor, artista que expõe em importantes galerias dos Estados Unidos, professora da Universidade de Berkeley, na Califórnia, e ativista pela diversidade funcional. Ela argumenta que não são as pessoas que são deficientes e sim as condições sociais que os inabilitam. Ou seja, a falta de condições no entorno para sua independência. Sunara tem artrogripose, uma síndrome congênita que a obriga a usar cadeira de rodas, entre outras dificuldades motoras.
  • Amanda Baggs demonstrou que também podemos falar de uma diversidade cognitiva a partir do ativismo autista. Em 2007, aos 26 anos, publicou o vídeo “In my language” como uma declaração sobre as capacidades e os direitos das pessoas com autismo. Mediante um sintetizador de voz e um teclado, pode fazer uma tradução de sua forma de comunicar-se com o mundo. “Esta é uma declaração sobre o valor da existência de diferentes tipos de pensamento ou interação em um mundo onde se você não usa a linguagem considerada normal, você não é considerada uma pessoa com direitos”, argumenta Baggs no vídeo.
  • Antonio Centeno aos 13 anos sofreu um acidente que o despertou para essas reinvindicações. Em 2006, junto com outros membros do Foro de Vida Independiente, se manifestou contra a Lei de Promoção da Autonomia Pessoal e Atenção à Dependência, liderada pelo então presidente espanhol José Luis Rodriguez Zapatero. Para ele, a lei usa uma linguagem discriminatória e não garante as condições econômicas ou sociais para que as pessoas com diversidade funcional possam desenvolver uma vida autônoma.

Além desta inconformidade, a marcha deste sábado exige o cumprimento da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas que, na Espanha, entrou em vigor em maio de 2008.

Trata-se de combater uma discriminação estrutural que se expressa em “entornos urbanos e transportes não acessíveis, escolas sem a formação nem os meios para dar o melhor à criança, independente de como ela seja, falta de apoio para a autonomia pessoal que acaba enclausurando aqueles com necessidades especiais na casa da mãe ou em uma residência”, explica Antônio.

Há uma falsa ideia sobre a dependência corresponder a apenas um grupo: “Nem você, nem eu, nem ninguém é autônomo”. Qualquer um está propenso a necessitar de assistência em virtude de doença, acidente ou da própria velhice.

Pela sétima vez, ele sairá em manifestação pelos direitos da diversidade funcional. Pela primeira vez, com o apoio de lésbicas, homossexuais, transgêneros, transexuais e intersexuais pelo reconhecimento desses outros corpos que não estão dispostos a limitar-se à sobrevivência.

Identidade horizontal versus identidade vertical e como o amor nos modifica e nos torna mais ainda nós mesmos

Texto de Maria Popova. Tradução de Deh Capella.

Originalmente publicado com o título: Horizontal vs. Vertical Identity and How Love Both Changes Us and Makes Us More Ourselves, no site Brainpickings.org

O texto abaixo não representa, necessariamente, a opinião global do grupo FemMaterna ou das Blogueiras Feministas. Conceitos e ideias expressos são de responsabilidade da autora original do texto e do autor por ela citado. O ponto-chave, que nos interessa particularmente, é a discussão da identidade da criança e de sua relação com pais/cuidadores.

—–

Identidade horizontal vs. identidade vertical e como o amor nos modifica e nos torna mais ainda nós mesmos.

Texto de Maria Popova.

Não aceito modelos de amor subtrativos, apenas os aditivos.

Dizem que “quem somos e quem nos tornamos depende, em parte, de quem amamos”. Mas o oposto também é verdade – desabrochamos como somos sob a quentura reconfortante do amor que nos rodeia.

far-from-the-tree-cover-223x339 (1)Essa bonita osmose é exatamente o que Andrew Solomon explora em Far from the tree: parents, children and the search for identity – uma fascinante e profundamente tocante reflexão sobre nossas definições de família, nossas diferentes atitudes em relação à parentagem, os desafiadores ideais de maternidade e paternidade e, talvez a respeito de tudo isso, como a liberdade de identidade nos une em nossas diferenças.

“Psicologicamente nada influi mais sobre o ambiente e especialmente sobre as crianças”, o lendário psicanalista Carl Jung afirmou, “que as vidas não-vividas dos pais”. E, de fato, a propensão para projeção dos pais que querem ver em seus filhos versões melhores ou incompletas de si próprios, de acordo com Solomon, é um subproduto perigoso de nossos genes:

Nas fantasias subconscientes que fazem a concepção parecer tão encantadora, em geral somos nós mesmos que queremos ver viver para sempre, e não alguém com personalidade própria. Tendo vislumbrado a continuidade de nossos genes egoístas, muitos de nós estamos despreparados para crianças que apresentam demandas que nos são estranhas. A parentalidade nos catapulta abruptamente em uma relação permanente com um estranho, e quanto mais alienígena ele é, maior o sopro de negatividade. Nós dependemos da garantia, vislumbrada nas nossas crianças, de que não vamos morrer. Crianças cuja qualidade definidora aniquila essa fantasia de imortalidade são um insulto particular; temos que amá-las pelo que são, e não pelo nosso melhor que há nelas, e isso é algo difícil de fazer. Amar nossas crianças é um exercício para a imaginação… [Mas] nossas crianças não são nós mesmos: elas levam adiante genes e tratos recessivos e são sujeitas desde sempre aos estímulos do ambiente que estão além de nosso controle. E ainda assim somos nossas crianças; a realidade de ser pai/mãe nunca deixa aqueles que desafiaram a metamorfose.

Solomon continua, diferenciando identidade vertical, ou diretamente herdada, e horizontal, ou independentemente divergente:

Em função da transmissão de identidade de uma geração para a seguinte, a maior parte das crianças compartilha ao menos alguns traços com seus pais. Essas são as identidades verticais. Atributos e valores são passados de pais para filhos ao longo de gerações não só por meio de cadeias de DNA, mas também por normas culturais compartilhadas. Etnicidade, por exemplo, é uma identidade vertical. Crianças negras em geral são nascidas de pais negros, o dado genético da pigmentação da pele é transmitido ao longo de gerações com uma autoimagem de pessoa negra, mesmo que essa autoimagem seja sujeita a fluxos geracionais. A linguagem é em geral vertical, já que a maior parte das pessoas que fala grego cria suas crianças para falá-lo também, mesmo com outra inflexão ou falando outra língua ao mesmo tempo. Religião é moderadamente vertical: pais católicos tendem a criar filhos católicos, mesmo que as crianças possam se tornar não-religiosas ou se converter a outra religião. Nacionalidade é vertical, exceto para imigrantes. Cabelos loiros e miopia são em geral transmitidos de pai para filho, mas na maior parte dos casos não formam uma base significativa para identidade – os cabelos loiros porque são bastante insignificantes, e miopia porque pode ser corrigida.

Entretanto, frequentemente há alguma característica nata ou adquirida que é estranha aos pais e deve  ter sido trazida por outros pares. Isso é uma identidade horizontal. Essas identidades horizontais podem refletir genes recessivos, mutações aleatórias, influências pré-natais ou valores e preferências que a criança não compartilha com seus pais. Homossexualidade é uma identidade horizontal; a maior parte das crianças gays é nascida de pais heterossexuais, e uma vez que sua sexualidade não é determinada por seus pares, elas apreendem a identidade gay observando e participando de uma subcultura externa à família. A deficiência física tende a ser horizontal, assim como o gênio. A psicopatia é também horizontal; muitos criminosos não são criados por bandidos e se iniciam no crime. Assim também ocorre com condições como o autismo e a incapacidade intelectual.

Solomon não passou a considerar essas intrincadas questões até que tivesse contato com sua própria identidade horizontal. Em 1993 ele foi designado para escrever sobre a cultura dos surdos para o jornal The New York Times e fez uma imersão no mundo dos surdos – em que a maior parte das crianças é filha de pais que ouvem, que em geral gostariam que seus filhos escutassem e tivessem vidas “normais”. E ele se viu em contato com a vibrante riqueza da identidade dos surdos quando presenciou performances teatrais, conheceu clubes de leitura e concursos de beleza.

Pouco tempo depois, a filha de um amigo de Solomon foi diagnosticada com nanismo e o pai “se questionou se devia fazer com que a filha se considerasse igual a todos os outros, apenas menor, ou se devia se assegurar de que a filha tivesse seus próprios modelos anões”. De repente um padrão se revelou – a tendência para uma cultura de “normalidade”, incluindo os pais das crianças com identidades horizontais diferentes, que tenta subverter ou mesmo “curar” essas identidades – e isso foi dolorosamente familiar a Solomon, que é gay. Ele escreve:

Eu havia me assustado ao perceber uma base em comum com os surdos, e agora eu me identificava com uma anã; eu me perguntava quem mais estaria esperando para se juntar à nossa alegre multidão. Eu pensava que o “ser gay”, uma identidade, poderia crescer a partir da homossexualidade, a doença, e a Surdez, uma identidade, poderia crescer a partir da surdez, uma doença, e se o nanismo como identidade poderia emergir de uma aparente deficiência, então deve haver muitas outras categorias nesse estranho território intersticial. Foi um insight radicalizador. Tendo sempre me imaginado como parte de uma pequena minoria, eu de repente vi que estava em vasta companhia. A diferença nos une. Enquanto cada uma dessas experiências pode isolar quem é afetado por elas, juntos elas compõem um grupo de milhões cujos esforços os conectam profundamente. O excepcional é ubíquo, ser inteiramente típico é o estado raro e solitário.

Mas nas famílias, Solomon argumenta, muitos pais tendem a perceber a identidade horizontal de sua criança não só um problema a ser resolvido, mas como uma falha pessoal ou mesmo uma afronta. Ele observa:

Poderíamos argumentar que negros enfrentam muitas desvantagens nos EUA hoje em dia, mas há pouca pesquisa sobre como a expressão genética pode ser alterada para fazer com que crianças filhas de pais negros nasçam como cabelos lisos e finos e tez clara. Na América moderna às vezes é difícil ser asiático, judeu ou mulher, e ainda assim não se sugere que asiáticos, judeus ou mulheres seriam tolos se não se tornassem homens brancos e cristãos se pudessem. Muitas identidades verticais deixam as pessoas incomodadas, e ainda assim tentamos não homogeneizá-las. As desvantagens de ser gay não são maiores do que aquelas advindas de identidades verticais, mas muitos parentes vêm há tanto tempo tentando transformar seus filhos gays em crianças não-gays…. Rotular a mente de uma criança como doentia – seja com autismo, com inabilidades intelectuais ou transgeneridade – pode refletir mais o desconforto que a ideia causa aos pais do que o desconforto que causa à criança.

Como temos observado no caso do poderoso papel da linguagem em outras mudanças culturais e nos movimentos pela justiça social, a forma como falamos desses assuntos não só reflete mas molda a forma como pensamos sobre eles. Solomon ressalta a necessária mudança de vocabulário usando uma analogia:

Frequentemente usamos o termo “doença” para rebaixar uma forma de ser, e “identidade” para validar essa mesma forma de ser. Essa é uma falsa dicotomia. Em Física, a interpretação de Copenhagen define energia/matéria como algo que se comporta às vezes como onda e às vezes como partícula, o que sugere que é ambas as coisas, e fica posto que é limitação nossa a incapacidade de enxergar ambas ao mesmo tempo. O físico Paul Dirac, vencedor do Prêmio Nobel, identificou como a luz parece ser uma partícula se a questionamos como tal, e uma onda se colocarmos uma questão pertinente a uma onda. Uma dualidade parecida existe em relação ao ser. Muitas condições são ao mesmo tempo doença e identidade, mas como podemos ver apenas uma quando a outra é obscurecida. A política de identidade refuta a ideia de doença, enquanto a Medicina deixa de lado a identidade. Ambas são diminuídas por sua estreiteza.

Físicos têm alguns insights compreendendo energia como onda, e outros compreendendo-a como partícula, e se valem da mecânica quântica para reconciliar a informação que reuniram. Da mesma forma precisamos examinar “doença” e “identidade”, compreender que a observação vai ocorrer normalmente em um domínio ou outro, e utilizar uma mecânica sincrética. Precisamos de um vocabulário em que ambos os conceitos não sejam opostos, mas aspectos compatíveis de uma condição. O problema é mudar a forma como entendemos o valor de indivíduos e vidas, para chegar a uma abordagem ecumênica do que é “saudável”.

Solomon afirma que ter um filho com identidade horizontal muito diferente daquela do pai ou mãe é como ter uma lente de aumento sobre o caráter dos pais e sobre sua capacidade como ser humano.

Ter um filho excepcional exacerba as tendências pa(ma)ternas, quem tende a ser um pai ruim se torna péssimo, mas aqueles que seriam bons se tornam extraordinários.

Mas a dinâmica ocorre das duas formas:

As reações dos pais e a interação com um filho determinam como aquela criança vai se enxergar. Esses pais são também profundamente tocados por suas experiências.

“O amor pode mudar uma pessoa”, Lemony Snicket escreveu em Horseradish: bitter truths you can’t avoid, “como um pai/mãe pode mudar um bebê – de forma estranha e em geral com grande confusão”. Mas Solomon pensa precisamente no inverso – que uma criança pode mudar um pai/mãe, estranha e confusamente, com o poder do amor:

Autoaceitação é parte do ideal, mas sem aceitação familiar e social ela não pode melhorar as implacáveis injustiças às quais muitos grupos de identidade horizontal estão sujeitos e ela não trará as mudanças adequadas. …Olhar profundamente nos olhos de seu filho e ver nele ao mesmo tempo você mesmo e algo completamente estranho e então desenvolver uma ligação zelosa com cada aspecto dela, é alcançar o abandono auto-referente da pa(ma)ternidade, porém de forma altruísta,. É impressionante quão frequentemente essa mutualidade tem sido compreendida – quão usualmente pais que imaginaram que não poderiam cuidar de uma criança excepcional descobrem que podem fazê-lo. A predisposição parental para o amor prevalece nas mais dolorosas circunstâncias. Há mais imaginação no mundo do que se poderia pensar.

O que o ponto-chave de Solomon mostra é mais uma das mais notáveis definições de amor da História. Em suas páginas finais ele escreve:

Algumas pessoas estão presas à crença de que o amor vem em quantidades finitas, e que nosso tipo de amor esgota a fonte de onde ele vem. Eu não aceito modelos de amor competitivos, apenas os aditivos. Minha jornada pela família e esse livro me ensinaram que o amor é um fenômeno amplificador – que todo amor a mais reforça todo amor que existe no mundo.

Em sua vívida fala no TED, Solomon parafraseia esse sentimento agudo de forma ainda mais bela:

Eu não aceito modelos subtrativos de amor, apenas os aditivos.

Far from the tree chega uma década após o indispensável The Noonday Demon: an atlas of depression.

“Love, no matter what” – Andrew Solomon

—–

Imagem destacada: Judeus etíopes resgatados pela Associação Americana de Judeus Etíopes, 1983. Fonte: American Jewish Historical Society, EUA.

Deh Capella é bibliotecária, mãe, feminista, leitora, musical, curiosa. Escreve no blog Por trás da tela…

O FemMaterna é um grupo de discussão sobre maternidade com uma proposta feminista. Se quiser participar, basta pedir solicitação na página do grupo. Participe também no facebook.

O que aconteceu quando eu comecei uma sociedade feminista na escola

Texto traduzido por Karla Avanço.

Originalmente publicado com o título: What happened when I started a feminist society at school, no site Guardian.co.uk

Nós queríamos desafiar o comportamento machista – mas nós desencadeamos uma inundação de abuso por parte de nossos pares masculinos

Eu tenho 17 anos e eu sou uma feminista. Eu acredito na igualdade de gênero e não tenho nenhuma ilusão sobre o quão longe estamos de consegui-la. Identificar-me como uma feminista tornou-se particularmente importante para mim desde uma viagem de escola que eu fiz para Cambridge no ano passado.

Um grupo de homens em um carro começou a assobiar e gritar comentários sexuais para as minhas amigas e para mim. Perguntei aos homens se eles achavam que era apropriado abusar de um grupo de meninas de 17 anos de idade. A resposta foi furiosa. Os homens começaram a me xingar, me chamaram de puta e jogaram um copo de café em mim.

Para aqueles homens nós éramos apenas pernas, seios e rostos bonitos. Ao falar, quebrei sua fantasia, e eles responderam violentamente à minha voz.

Surpreendentemente, os meninos do meu grupo de colegas responderam exatamente da mesma maneira ao meu feminismo.

Depois de voltar dessa viagem de escola, comecei a perceber o quanto as meninas na minha escola sofriam por causa das pressões associadas ao nosso gênero. Muitas das meninas têm distúrbios alimentares, algumas já foram fortemente pressionadas por seus parceiros a realizarem atos sexuais, outras sofrem em relacionamentos emocionalmente abusivos em que são constantemente chamadas de inúteis.

Decidi criar uma sociedade feminista na minha escola, que foi previamente nomeada uma das “melhores escolas do país”, para tentar lidar com essas questões. No entanto, isso foi mais difícil do que eu imaginava uma vez que minha escola só para meninas estava hesitante em permitir a sociedade. Depois de um ano de luta, a sociedade feminista foi finalmente ratificada.

O que eu não tinha previsto na criação da sociedade feminista foi uma reação maciça dos meninos em meu círculo de pares mais amplo. Eles levaram a reação para o Twitter e iniciaram uma campanha de abuso contra mim. Fui chamada de “vagabunda feminista”, acusada de “alimentar [as meninas] com bobagem”, e em um comentário particularmente racista disseram “toda essa bobagem feminista não vai impedir tio Sanjit de casar você quando você sair da escola”.

Nossa sociedade feminista foi ridicularizada com réplicas como: “FemSoc, isso é de verdade? # DPMO “[don’t piss me off / não me irrite] e todas as tentativas que fizemos para iniciar um debate sério foram recebidas com respostas como “feminismo e estupro são ambos ridiculamente cansativos”.

Quando mais as meninas começavam a expressar suas opiniões sobre as questões de gênero, mais virulento o abuso dos meninos ficava. Um garoto declarou que “as vagabundas deveriam manter a sua vagabundagem para elas mesmas #VAGABUNDA” e outro presunçosamente brincou: “o feminismo não significa que eles não gostam do P, elas apenas não encontraram um para satisfazê-las ainda.” Qualquer tentativa que fizemos para nos posicionarmos uma pela outra foi agressivamente combatida com “entre na linha antes que eu ridicularize você também”, ou menosprezada com observações como “que bonitinho, elas ficaram ofendidas”.

Eu temo que muitos garotos da minha idade fundamentalmente não respeitem as mulheres. Eles querem a gente em volta para festas, brincadeiras e acima de tudo para sexo. Mas eles não pensam em nós como intelectualmente iguais, com destaque para acusações de sermos histéricas e supersensíveis quando tentamos discutir problemas sérios enfrentados pelas mulheres.

A situação culminou recentemente em uma intensificação quando nossa sociedade feminista decidiu participar de um projeto em âmbito nacional chamado Who Needs Feminism. Nós tiramos fotos de meninas segurando um quadro no qual elas completaram a frase “Eu preciso de feminismo porque …”, muitas vezes se aprofundando em experiências pessoais dolorosas para articular por que o feminismo era importante para elas.

Quando postamos essas fotos online ficamos sujeitas a uma enxurrada de comentários degradantes e explicitamente sexuais.

Nos disseram que nossas “vaginas militantes” eram “tão secas como o deserto do Saara”, as meninas que se queixavam de objetificação sexual em suas fotos receberam classificações até 10, detalhes das vidas sexuais de algumas das meninas foram publicadas ao lado de suas fotos e outras receberam mensagens ameaçadoras alertando-as de que as coisas logo “ficariam pessoais”.

Nós, um grupo de garotas de 16, 17 e 18 anos de idade, nos fizemos vulneráveis ​​ao falarmos sobre as nossas experiências de opressão sexual e de gênero só para provocar a ira do nosso grupo de pares masculinos. Em vez de a nossa escola tomar medidas contra tal comportamento intimidador, ela insistiu que removêssemos as imagens. Sem o apoio da nossa escola, as meninas que participaram da campanha foram isoladas, enfrentando uma grande quantidade de abuso verbal com o pleno conhecimento de que não haveria repercussões para os agressores.

Ato contra o Estatuto do Nascituro. Foto de Kely Kachimareck.
Ato contra o Estatuto do Nascituro. Foto de Kely Kachimareck.

 

Já faz mais de um século do nascimento do movimento sufragista e os garotos ainda não estão sendo criados para acreditar que as mulheres são suas iguais. Em vez disso, temos um novo campo de batalha se abrindo online onde os garotos podem nos atacar, humilhar, menosprezar e fazer tudo ao seu alcance para destruir a nossa confiança antes mesmo de sairmos do ensino médio.

É lamentável que uma instituição responsável pela preparação de mulheres jovens para a vida adulta tenha se oposto a nosso trabalho feminista. Eu sinto que a escola não está apoiando suas meninas em uma parte crucial da sua evolução para serem mulheres fortes, assertivas e confiantes. Se esse é o caso de uma escola só de meninas bem estabelecida, que esperança esta geração de mulheres têm em desafiar a misoginia que ainda permeia nossa sociedade?

Se você achava que a luta pela igualdade feminina havia acabado, eu sinto muito em dizer-lhe que uma nova rodada está apenas começando.

Altrincham Grammar fez o seguinte comentário sobre a sociedade feminista:

“Altrincham Grammar School for Girls apoiou Jinan na criação da sociedade, fornecendo assistência administrativa, orientação e sugerindo, de maneira proativa, oportunidades para ajudar as integrantes a explorarem essa questão pela qual elas são tão apaixonadas.

“Estamos comprometidos em proteger a segurança e bem estar das nossas alunas, o que se estende para a sua segurança online. Nós consideramos muito cuidadosamente quaisquer sociedades para as quais a escola dá o seu nome e apoio.”

“Como tal, vamos tomar medidas para recomendar às estudantes que removam palavras ou imagens que elas coloquem online, que possam comprometer a sua segurança ou a de outras alunas na escola.”