O que aconteceu quando eu comecei uma sociedade feminista na escola

Texto traduzido por Karla Avanço.

Originalmente publicado com o título: What happened when I started a feminist society at school, no site Guardian.co.uk

Nós queríamos desafiar o comportamento machista – mas nós desencadeamos uma inundação de abuso por parte de nossos pares masculinos

Eu tenho 17 anos e eu sou uma feminista. Eu acredito na igualdade de gênero e não tenho nenhuma ilusão sobre o quão longe estamos de consegui-la. Identificar-me como uma feminista tornou-se particularmente importante para mim desde uma viagem de escola que eu fiz para Cambridge no ano passado.

Um grupo de homens em um carro começou a assobiar e gritar comentários sexuais para as minhas amigas e para mim. Perguntei aos homens se eles achavam que era apropriado abusar de um grupo de meninas de 17 anos de idade. A resposta foi furiosa. Os homens começaram a me xingar, me chamaram de puta e jogaram um copo de café em mim.

Para aqueles homens nós éramos apenas pernas, seios e rostos bonitos. Ao falar, quebrei sua fantasia, e eles responderam violentamente à minha voz.

Surpreendentemente, os meninos do meu grupo de colegas responderam exatamente da mesma maneira ao meu feminismo.

Depois de voltar dessa viagem de escola, comecei a perceber o quanto as meninas na minha escola sofriam por causa das pressões associadas ao nosso gênero. Muitas das meninas têm distúrbios alimentares, algumas já foram fortemente pressionadas por seus parceiros a realizarem atos sexuais, outras sofrem em relacionamentos emocionalmente abusivos em que são constantemente chamadas de inúteis.

Decidi criar uma sociedade feminista na minha escola, que foi previamente nomeada uma das “melhores escolas do país”, para tentar lidar com essas questões. No entanto, isso foi mais difícil do que eu imaginava uma vez que minha escola só para meninas estava hesitante em permitir a sociedade. Depois de um ano de luta, a sociedade feminista foi finalmente ratificada.

O que eu não tinha previsto na criação da sociedade feminista foi uma reação maciça dos meninos em meu círculo de pares mais amplo. Eles levaram a reação para o Twitter e iniciaram uma campanha de abuso contra mim. Fui chamada de “vagabunda feminista”, acusada de “alimentar [as meninas] com bobagem”, e em um comentário particularmente racista disseram “toda essa bobagem feminista não vai impedir tio Sanjit de casar você quando você sair da escola”.

Nossa sociedade feminista foi ridicularizada com réplicas como: “FemSoc, isso é de verdade? # DPMO “[don’t piss me off / não me irrite] e todas as tentativas que fizemos para iniciar um debate sério foram recebidas com respostas como “feminismo e estupro são ambos ridiculamente cansativos”.

Quando mais as meninas começavam a expressar suas opiniões sobre as questões de gênero, mais virulento o abuso dos meninos ficava. Um garoto declarou que “as vagabundas deveriam manter a sua vagabundagem para elas mesmas #VAGABUNDA” e outro presunçosamente brincou: “o feminismo não significa que eles não gostam do P, elas apenas não encontraram um para satisfazê-las ainda.” Qualquer tentativa que fizemos para nos posicionarmos uma pela outra foi agressivamente combatida com “entre na linha antes que eu ridicularize você também”, ou menosprezada com observações como “que bonitinho, elas ficaram ofendidas”.

Eu temo que muitos garotos da minha idade fundamentalmente não respeitem as mulheres. Eles querem a gente em volta para festas, brincadeiras e acima de tudo para sexo. Mas eles não pensam em nós como intelectualmente iguais, com destaque para acusações de sermos histéricas e supersensíveis quando tentamos discutir problemas sérios enfrentados pelas mulheres.

A situação culminou recentemente em uma intensificação quando nossa sociedade feminista decidiu participar de um projeto em âmbito nacional chamado Who Needs Feminism. Nós tiramos fotos de meninas segurando um quadro no qual elas completaram a frase “Eu preciso de feminismo porque …”, muitas vezes se aprofundando em experiências pessoais dolorosas para articular por que o feminismo era importante para elas.

Quando postamos essas fotos online ficamos sujeitas a uma enxurrada de comentários degradantes e explicitamente sexuais.

Nos disseram que nossas “vaginas militantes” eram “tão secas como o deserto do Saara”, as meninas que se queixavam de objetificação sexual em suas fotos receberam classificações até 10, detalhes das vidas sexuais de algumas das meninas foram publicadas ao lado de suas fotos e outras receberam mensagens ameaçadoras alertando-as de que as coisas logo “ficariam pessoais”.

Nós, um grupo de garotas de 16, 17 e 18 anos de idade, nos fizemos vulneráveis ​​ao falarmos sobre as nossas experiências de opressão sexual e de gênero só para provocar a ira do nosso grupo de pares masculinos. Em vez de a nossa escola tomar medidas contra tal comportamento intimidador, ela insistiu que removêssemos as imagens. Sem o apoio da nossa escola, as meninas que participaram da campanha foram isoladas, enfrentando uma grande quantidade de abuso verbal com o pleno conhecimento de que não haveria repercussões para os agressores.

Ato contra o Estatuto do Nascituro. Foto de Kely Kachimareck.
Ato contra o Estatuto do Nascituro. Foto de Kely Kachimareck.

 

Já faz mais de um século do nascimento do movimento sufragista e os garotos ainda não estão sendo criados para acreditar que as mulheres são suas iguais. Em vez disso, temos um novo campo de batalha se abrindo online onde os garotos podem nos atacar, humilhar, menosprezar e fazer tudo ao seu alcance para destruir a nossa confiança antes mesmo de sairmos do ensino médio.

É lamentável que uma instituição responsável pela preparação de mulheres jovens para a vida adulta tenha se oposto a nosso trabalho feminista. Eu sinto que a escola não está apoiando suas meninas em uma parte crucial da sua evolução para serem mulheres fortes, assertivas e confiantes. Se esse é o caso de uma escola só de meninas bem estabelecida, que esperança esta geração de mulheres têm em desafiar a misoginia que ainda permeia nossa sociedade?

Se você achava que a luta pela igualdade feminina havia acabado, eu sinto muito em dizer-lhe que uma nova rodada está apenas começando.

Altrincham Grammar fez o seguinte comentário sobre a sociedade feminista:

“Altrincham Grammar School for Girls apoiou Jinan na criação da sociedade, fornecendo assistência administrativa, orientação e sugerindo, de maneira proativa, oportunidades para ajudar as integrantes a explorarem essa questão pela qual elas são tão apaixonadas.

“Estamos comprometidos em proteger a segurança e bem estar das nossas alunas, o que se estende para a sua segurança online. Nós consideramos muito cuidadosamente quaisquer sociedades para as quais a escola dá o seu nome e apoio.”

“Como tal, vamos tomar medidas para recomendar às estudantes que removam palavras ou imagens que elas coloquem online, que possam comprometer a sua segurança ou a de outras alunas na escola.”

A realidade e o futuro do feminismo islâmico

Texto de Rachelle Fawcett. Tradução de Simone Andrea.

Originalmente publicado com o título: The reality and future of Islamic feminism, no site Aljazeera.

—–

No que consiste um feminismo islâmico e para onde vai?

Em alguns círculos muçulmanos, a palavra com “f” (feminismo) levanta tanto tensões quanto sobrancelhas, imediatamente evoca representações de mulheres dominadoras, raivosas e que odeiam a família. Mas, como outras imagens que acodem à mente com a menção de qualquer rótulo – inclusive a imagem da mulher oprimida que frequentemente se vislumbra quando alguém escuta a palavra “muçulmana” – essa reação visceral está baseada em estereótipos que podem ser verdadeiros num contexto social e histórico muito específico, mas não fazem sentido quando comparados com uma realidade mais ampla, portanto, não justifica a hostilidade que desencadeia. Enquanto a retórica popular islâmica gaba-se da libertação da mulher com o surgimento do Islã há mais de 1.400 anos atrás, a repetição contínua dessa história nada faz para aliviar o sofrimento das mulheres hoje, exceto voltando ao princípio, a partir do texto fundador do Islã, o Corão.

Mas o que é o “feminismo islâmico”, como se desenvolve e quais são os seus atores? Dra. Margot Badran, formada pelas universidades de al-Azhar e de Oxford, define o “feminismo islâmico” nestes termos:

… uma definição concisa do feminismo islâmico é colhida dos escritos e do trabalho de protagonistas muçulmanas por meio de discursos e práticas feministas, que extraem sua interpretação e missão do Corão, buscando direitos e justiça dentro do contexto de igualdade de gênero para mulheres e homens na totalidade de sua existência. O feminismo islâmico explica a ideia de igualdade de gênero como algo que faz parte da noção corânica de igualdade de todos os insan (seres humanos) e reclama a implementação da igualdade de gênero no Estado, nas instituições civis, no cotidiano. Ele rejeita a dicotomia público/privado (a propósito ausente na jurisprudência islâmica dos primórdios, ou fiqh) conceituando uma umma holística na qual os ideais do Corão operam em todos os espaços.

Esta é uma distinção importante. “Feminismo islâmico” não é simplesmente um feminismo nascido em culturas islâmicas, mas sim um que encaixa a teologia islâmica nos textos e nas tradições canônicas. Nitidamente, um feminismo “islâmico”, na sua essência, inspirado no conceito corânico de igualdade de todos os seres humanos e que insiste na aplicação de sua teologia na vida diária. Derivada dessa definição básica, encontramos uma pletora de diferentes interpretações, movimentos, projetos, personalidades, criando feminismos que têm diversos rostos. Frequentemente, questões femininas são trivializadas em usar ou não o véu, ou apertar as mãos de homens que não são da família, e, enquanto questões mais amplas, como violência doméstica, estão sendo vigorosamente debatidas, a questão central – o que a “igualdade” significa e como se expressa – prossegue largamente ignorada. Por exemplo, a violência doméstica é errada porque causa dor, sofrimento e é injusta, mas a crença central no direito do homem mandar na mulher nem sempre é parte dessa discussão.

Ensinando o que conta

Este ano, o tema da 3ª Conferencia Anual de Estudantes de Graduação em Estudos Islâmicos foi “Reconstituindo a Autoridade Feminina: a Participação da Mulher na Transmissão e na Produção do Conhecimento Islâmico”, foi nesse foro que o futuro do feminismo islâmico esteve bem representado.

Nenhum workshop foi desperdiçado em tecnicalismos sobre o véu ou em discussões desgastadas acerca de o Islã liberar as mulheres com a proibição de infanticídios de meninas ou o direito das mulheres à herança (que não foi totalmente obedecido nem no tempo de Maomé). Ao invés disso, os workshops e os estudantes que os apresentaram demonstraram a complexidade e a diveersidade dos movimentos de mulheres, novos e antigos, no mundo muçulmano. Em “O Milagre de Bibi Fatima: Consagração e Autoridade Feminina”, apresentado por Summar Shoaib, mulheres transmitiam histórias de Fatima, a filha do Profeta Maomé, aparecendo e ajudando outras mulheres com preces especiais. Em tais contextos, mulheres passam adiante o conhecimento religioso numa tradição matrilinear que funciona como um canal para o ativismo religioso. Contar histórias torna-se um meio de força que proporciona uma base e um apoio para as mulheres, através dos laços de parentesco forjados pelo ato de contar histórias além da tradição que são passadas adiante.

Os principais palestrantes: Amina Wadud, Khaled Abou el Fadl, Kathleen Moore e Asma Sayeed falaram sobre a inclusão como direito e necessidade para a autoridade moral da pessoa e a história das mulheres nas tradições jurídicas islâmicas. O Islã “puro e simples” no qual as questões femininas são amenizadas com desculpas ou simplificadas como terciárias ou subalternas não foi encontrado em lugar algum. Pelo contrário, estudantes e professores recordaram a história que sempre se menciona somente de passagem, ou através de poucas figuras históricas chaves, retórica clichê e argumentos simplistas, não-históricos. Atendo-se aos padrões acadêmicos, este grupo diversificado de estudantes, através de sua busca intelectual do passado e do discurso voltado ao futuro, foi uma parte pequena, mas importante, da linhagem contínua da sabedoria feminina no Islã.

Eles eram exemplos do conjunto misto de “feminismos islâmicos” no Mundo islâmico. Mulheres em todos estes contextos estão encontrando as tradições baseadas em suas respectivas culturas, necessidades, prioridades e recursos, criando um retrato bem acabado do movimento global no qual as mulheres criam seu próprio caminho para o conhecimento e avançam com ele. Em alguns contextos, isto significa discutir direitos fundamentais como libertação da violência, enquanto em outros as mulheres conquistam e encontram seu próprio espaço para desafiar os dogmas tradicionais, redescobrindo a história feminina do Islã e o lugar para o discurso futuro, também em outros contextos, pela criação de um espaço inclusivo para rezar, adorar e estar com Deus. Um exemplo é o de Ani Zonneneveld, musicista e co-fundadora do “Muçulmanos por Valores Progressistas”, que promove paz e justiça social, através da criação de mesquitas inclusivas e da expressão de ideais igualitários através da música islâmica como meio de adoração.

Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas, a questão central do que significa “igualdade” e como se expressa continuam largamente ignoradas. Foto de Mohamed Omar/EPA.
Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas, a questão central
do que significa “igualdade” e como se expressa continuam largamente ignoradas. Foto de Mohamed Omar/EPA.

Impactando não apenas mulheres, mas a sociedade em larga escala

Um feminismo islâmico é, presumidamente, um feminismo intrinsecamente dotado de competência (trans)cultural, uma vez que o Islã, em geral, é uma tradição profundamente diversificada e permite flexibilidade, dependendo do contexto, desde que o núcleo essencial da ética islâmica não seja violada. Como o cerne dessa ética se define pode variar de acordo com o contexto, mas as tentativas de definição irão ajudar a espalhar uma discussão mais ampla, que possa eliminar as desculpas e discutir as causas fundamentais. É em tais debates que as feministas islâmicas, mais do que acreditar na tradição ou num feminismo proliferado – como especificamente o feminismo ocidental – insistem num retorno ao Corão e no emprego de princípios de análise contextual e racional, que questionem crenças tradicionalmente aceitas acerca das mulheres, através da retórica pela qual elas se formarão.

Pode ser dito que a maior tarefa do feminismo islâmico é separar cultura de religião. Esta é, talvez, a razão principal da hostilidade e raiva com que esse movimento se depara. Em alguns contextos muçulmanos, desafios às crenças tradicionalmente baseadas na autoridade não encontram um diálogo inteligente e bem informado, que esteja aberto à busca contínua da verdade e justiça, mas sim com a suspeita e hostilidade daqueles que procuram declarar um Islã único e “verdadeiro”, dependente da estrutura social apoiada na hierarquia de gênero. É sociologia elementar entender que as mulheres são frequentemente as fundações da cultura, porque elas são as primeiras professoras e mantêm laços estreitos com a próxima geração. Daí, a “estabilidade” da sociedade é frequentemente associada com a permanência das mulheres em seus lugares “próprios e naturais”.

Mas, esta “estabilidade” não é a estabilidade da sociedade, mas sim, da hierarquia e, portanto, da autoridade. O feminismo islâmico, como discutido antes, não está em busca da hierarquia com as mulheres no seu topo, ao contrário, está em busca de uma estrutura social igualitária em que caráter, bom trabalho e piedade – não gênero – sejam os fatores decisivos da autoridade social. Ademais, como Khaled Abou el Fadi argumentou em sua exposição na conferncia de Santa Barbara, cada ser humano tem direito a uma autoridade moral que não pode ser realizada se é proibido de ter uma vida plena. O argumento hierárquico é que as mulheres teriam uma “vida plena” somente se aceitassem seu “lugar natural”, mas esse argumento omite a definição, e portanto as necessidades, o talento e as aspirações (que tanto podem ser tornar-se uma astronauta ou uma mãe de 10 crianças) das próprias mulheres. Uma “vida plena” não pode ser definida para elas.

Numa certa época da História islâmica não foi incomum ver mulheres muçulmanas instruídas ou devotadas, e a presença dessas mulheres não significava, necessariamente, que elas concordassem com os papeis das mulheres, assim como não concordamos hoje, mas sua existência criou uma teologia mais equilibrada e acessível, com elevado grau de credibilidade. Através da recuperação dessa história, as mulheres encontram sua base e suporte num discurso feminino islâmico.

Ademais, as lutas com foco nas mulheres não impactam somente nelas, mas na sociedade como um todo, e esta é a arena na qual os maiores abusos da teologia islâmica são mais evidentes. O autoritarismo do Islã puritano, que fez surgirem movimentos como o Talibã, definiu como sua missão especial controlar totalmente as mulheres, como vimos (acontecer) com Malala Yousafzai, que foi baleada por promover a educação de todas as crianças, especialmente meninas. As mesmas estruturas e princípios nucleares utilizados para oprimir as mulheres, são utilizados para promover o terrorismo e o ódio em nome do Islã. Dessa forma, o bem que advém de combater e desafiar esses estruturas vai muito além das mulheres.

O impulso para o igualitarismo inclusivo

Algumas pessoas, como a organizadora da Conferência da Universidade da Califórnia, Samaneh Oladi, intuem que o ressurgimento das mulheres nos campos da história e da teologia islâmica acontece naturalmente, como um movimento de bases, no qual as próprias mulheres são os agentes da mudança.

Nesses movimentos de base, veem-se mulheres trabalhando nas comunidades e em contextos institucionais e sociais que utilizam a religião, mais do que uma compreensão secular de direitos humanos, como sua diretiva pela mudança. Aos poucos, isto vai mudando social e demograficamente, e cria o que é, na essência, a escada para um envolvimento teológico maior. Mas esta mudança também está acontecendo na política, como Margot Badran me explicou, uma vez que os Estados podem desempenhar um papel na articulação da transmissão, pelas mulheres, da sabedoria islâmica.

Para usar o exemplo dela, no inicio dos anos 60, quando o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser forçou al-Azhar, a primeira universidade islâmica, a aceitar mulheres, foi um esforço para “dispersar” a instituição (torna-la mais secular, juntamente com outros esforços no mesmo sentido) e “abrir um racha” pela aceitação de mulheres, mas, ao revés, criou uma oportunidade para que mulheres tivessem acesso a formas tradicionais de instrução islâmica que acabaram por levar as mulheres estudantes à universidade. Da mesma forma, com a queda gradual dos regimes autoritários em alguns países de maioria muçulmana, as mulheres estão voltando para a escola e desafiando o discurso que as oprimia. Isto faz surgirem organizações, legislação e esforços internacionais para libertar as mulheres da opressão através da educação, dos serviços de saúde e de ajuda econômica. No Ocidente, em Estados que não podem calar a autoridade religiosa feminina, mulheres envolvidas em vários esforços – desde a criação de abrigos para muçulmanas, como Muslimat al-Nisa em Nova Iorque, até o apoio a imans femininos – encontram oposição social e institucional, mas prosseguem no mesmo padrão de empregar os textos e a tradição teológica islâmica para rebater argumentos baseados na religião de que as mulheres devam ser, em qualquer via possível, subordinadas aos homens.

Evidente que as realidades do que é o “feminismo islâmico” e como ele é vivido são muito complexas, e é como devem ser. A realidade do feminismo islâmico como um movimento global, no qual as mulheres voltam-se ao Corão e as tradições proféticas para defender que as mulheres são seres humanos por inteiro e iguais aos seus parceiros masculinos. Como elas se expressam e até onde isso as levará dependerá das mulheres em seus contextos específicos.

Assim como se dá com as teorias feministas seculares, o que funciona para as muçulmanas do Sul da Califórnia, pode não funcionar no Afeganistão rural, e nem este, nem aquele há de ditar “feminismo” ao outro. O feminismo islâmico é um processo em desenvolvimento, no qual partimos do direito à vida e à autoridade moral e pessoal para irmos além. Podem haver algumas que se auto-intitulam “feministas islâmicas” e insistem na restruturação da hierarquia com as mulheres – em vez de com os homens – no topo, mas estas são minoria. Aliás, a hierarquia é intrinsecamente injusta e reestrutura-se melhor num igualitarismo inclusivo, que inclua não só as mulheres, mas todos os seres humanos invisíveis ou deixados de fora dos lugares islâmicos tradicionais.

Não precisamos de uma nova palavra para substituir “feminismo”, a fim de evitar a dificuldade automática que advém de estereótipos populares, do mesmo modo que seria igualmente incorreto buscar uma nova palavra para “muçulmano”; de preferência, permitamos-nos alcançar uma compreensão mais aberta e ampla do que é o feminismo islâmico, quem o constrói e o estrutura, e dos caminhos diversos e complexos percorridos, não apenas em benefício das próprias mulheres, mas de toda a humanidade.

Seja de forma orgânica ou política, ou por quaisquer outros meios, as mulheres estão reclamando seus espaços no discurso islâmico e mudando sua realidade, talvez através de uma tradição de contar histórias há muito estabelecida, ou mesmo criando mesquitas inclusivas, e algumas pelo retorno ao começo, o próprio Corão. No futuro, talvez o feminismo islâmico se depare com instituições sociais mais fortalecidas, além de recursos que apoiem as mulheres e o fim de desculpas esfarrapadas, mas, sobretudo, talvez vejamos o renascimento da sabedoria acadêmica feminina (que nunca foi totalmente destruída) no Islã, que una o texto à tradição, para continuamente buscar a justiça ao lado, e não acima, de nossos companheiros homens. Se este é o rumo para o qual estamos indo, então o futuro é claro também.

—–

Rachelle Fawcett está completando seu Mestrado* em Estudos Islâmicos no Seminário Hartford, viveu no Iêmen e no Egito, e escreve, fala e faz apresentações sobre o feminismo islâmico, competência (trans)cultural, pluralismo e teologia crítica.

* No texto original, MA, sigla que significa, literalmente, “Mestre em Artes”. A expressão nada tem a ver com “artes” em sentido estrito. No sistema educacional anglo-americano, um diploma em “artes” significa que o aluno está focado numa ampla area de aprendizado e discussão, ao passo que um diploma em “ciência” implica numa compreensão profunda e técnica da matéria estudada.

Simone Andrea é autora de “Direitos da Filha e Direitos Fundamentais da Mulher” (Ed. Juruá) e escreve no blog Simone Andrea.

Feministas pró-vida não existem

Texto de Tracie Egan Morrissey. Tradução de Deh Capella, com colaboração de Lê Howes.

Originalmente publicado com o título: There Is No Such Thing as a ‘Pro-Life Feminist’, no site americano Jezebel.com

—–

Tradução livres: Mantenha o aborto seguro e legal. Foto de Peace Chicken no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Tradução livres: Mantenha o aborto seguro e legal. Foto de Peace Chicken no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Apesar das declarações dos grupos políticos conservadores pró-vida como o Feminists for Life e o Susan B. Anthony List e do uso repetido da palavra começada com “F” por Sarah Palin, não existe na verdade esse negócio de “feminista pró-vida”. Claro, você pode ser feminista e tomar a decisão pessoal de jamais abortar. Mas quem raios é você para trabalhar ativamente pela exclusão do direito das outras mulheres de escolherem o que fazer com seus próprios úteros?

Você certamente não é feminista.

Nesta semana (edição de 14 de janeiro) a reportagem de capa da revista Time resume todas as pequenas batalhas perdidas pelos ativistas a favor do direito ao aborto desde sua vitória no caso Roe versus Wade, 40 anos atrás. As 92 disposições regulando o aborto – um recorde – foram aprovadas em 24 Estados depois que os Republicanos obtiveram a maioria no Legislativo norte-americano, em 2010 – o que não nos surpreende, já que regularmente lidamos com essas notícias deprimentes. Mas o que talvez seja mais intrigante – para feministas habituadas à luta interminável pelos direitos reprodutivos – na reportagem da Time seja a publicação de um texto intitulado “Pró-vida e feminismo não são mutuamente excludentes”, escrito por Emily Buchanan, a diretora-executiva do Susan B. Anthony List, “uma organização que trabalha para eleger candidatos pró-vida”. Porque apesar de pessoas como Buchanan insistirem na existência de um “feminismo pró-vida”, a lógica por trás disso é, na melhor das hipóteses, tortuosa.

Essa foi, então, a tentativa de Buchanan, com sua ideia principal, de explicar na “mídia baixa” (“lamestream media”) como legislar sobre o sistema reprodutor feminino, anulando a autonomia corporal das mulheres e restringindo seu acesso à contracepção de baixo custo e ao tratamento ginecológico, poderia ser considerado pró-mulher. E ela não conseguiu fazê-lo de forma convincente.

O maior argumento de grupos como o Susan B. Anthony List é o uso de nomes e de citações de sufragistas dos séculos XIX e XX para respaldar seu ponto de vista. Buchanan escreve:

Desde o início, o feminismo foi um movimento de mulheres jovens. Susan B. Anthony, Elizabeth Cady Stanton, Alice Paul, Charlotte Lozier e muitas outras começaram seu trabalho como sufragistas na casa dos 20 anos de idade. Essas mulheres – as feministas originais – entendiam que os direitos das mulheres não poderiam ser construídos às custas de crianças não nascidas. Anthony chamou o aborto de ‘assassinato de crianças’. Paul, autora da Emenda da Igualdade de Direitos escrita originalmente em 1923, disse que ‘o aborto é a exploração definitiva da mulher’.

Enquanto as “feministas originais” foram certamente mulheres corajosas e admiráveis, é absolutamente estúpido considerar sua visão sobre o aborto como um aspecto essencial do feminismo. Já imaginou se simplesmente adotássemos cegamente todas as crenças e ações dos grandes pensadores que viveram nos anos 1800? Thomas Jefferson – o homem que literalmente definiu o conceito de liberdade dos norte-americanos e que declarou que “todos os homens nascem iguais” – não só era proprietário de muitos escravos e compactuava com seu comércio, mas também escravizou seus próprios filhos, nascidos da escrava que foi sua amante e que era meio-irmã de sua esposa. Isso é doentio e nunca deveria ser alardeado como exemplo de igualdade.

Ainda, o raciocínio por trás do “feminismo pró-vida” é de que “vale a pena repetir a História”. Não é por isso mesmo que se estuda História, para “não se repetirem os erros do passado”?

Além disso, todo seu esforço em se autodefinirem como “feministas pró-vida” não parece estar focado na luta feminista como um todo, em questões como a diferença de salários ou as diferenças de padrões de comportamento. Em vez disso, essas pessoas destinam sua energia para conseguir a eleição de políticos pró-vida e mascaram suas tentativas de tirar o direito de escolha das mulheres com bobagens distorcidas (mulheres deveriam “se recusar a escolher” entre “ter um futuro e ter um filho”) que elas chamam de feminismo.

Vejam, mulheres têm discutido sobre o significado do feminismo desde seu início. Temos ideias diferentes sobre o que funciona e não, e sobre o que é importante e o que não é, e o movimento certamente não é monolítico, homogêneo. Mas o feminismo é um movimento. E a natureza de um movimento progressivo é seguir adiante, evoluir. Não dá para fazer isso retrocedendo, involuindo, prendendo-se ao passado.

Então, sim, “feminismo pró-vida” não engana ninguém – particularmente as feministas.