A realidade e o futuro do feminismo islâmico

Texto de Rachelle Fawcett. Tradução de Simone Andrea.

Originalmente publicado com o título: The reality and future of Islamic feminism, no site Aljazeera.

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No que consiste um feminismo islâmico e para onde vai?

Em alguns círculos muçulmanos, a palavra com “f” (feminismo) levanta tanto tensões quanto sobrancelhas, imediatamente evoca representações de mulheres dominadoras, raivosas e que odeiam a família. Mas, como outras imagens que acodem à mente com a menção de qualquer rótulo – inclusive a imagem da mulher oprimida que frequentemente se vislumbra quando alguém escuta a palavra “muçulmana” – essa reação visceral está baseada em estereótipos que podem ser verdadeiros num contexto social e histórico muito específico, mas não fazem sentido quando comparados com uma realidade mais ampla, portanto, não justifica a hostilidade que desencadeia. Enquanto a retórica popular islâmica gaba-se da libertação da mulher com o surgimento do Islã há mais de 1.400 anos atrás, a repetição contínua dessa história nada faz para aliviar o sofrimento das mulheres hoje, exceto voltando ao princípio, a partir do texto fundador do Islã, o Corão.

Mas o que é o “feminismo islâmico”, como se desenvolve e quais são os seus atores? Dra. Margot Badran, formada pelas universidades de al-Azhar e de Oxford, define o “feminismo islâmico” nestes termos:

… uma definição concisa do feminismo islâmico é colhida dos escritos e do trabalho de protagonistas muçulmanas por meio de discursos e práticas feministas, que extraem sua interpretação e missão do Corão, buscando direitos e justiça dentro do contexto de igualdade de gênero para mulheres e homens na totalidade de sua existência. O feminismo islâmico explica a ideia de igualdade de gênero como algo que faz parte da noção corânica de igualdade de todos os insan (seres humanos) e reclama a implementação da igualdade de gênero no Estado, nas instituições civis, no cotidiano. Ele rejeita a dicotomia público/privado (a propósito ausente na jurisprudência islâmica dos primórdios, ou fiqh) conceituando uma umma holística na qual os ideais do Corão operam em todos os espaços.

Esta é uma distinção importante. “Feminismo islâmico” não é simplesmente um feminismo nascido em culturas islâmicas, mas sim um que encaixa a teologia islâmica nos textos e nas tradições canônicas. Nitidamente, um feminismo “islâmico”, na sua essência, inspirado no conceito corânico de igualdade de todos os seres humanos e que insiste na aplicação de sua teologia na vida diária. Derivada dessa definição básica, encontramos uma pletora de diferentes interpretações, movimentos, projetos, personalidades, criando feminismos que têm diversos rostos. Frequentemente, questões femininas são trivializadas em usar ou não o véu, ou apertar as mãos de homens que não são da família, e, enquanto questões mais amplas, como violência doméstica, estão sendo vigorosamente debatidas, a questão central – o que a “igualdade” significa e como se expressa – prossegue largamente ignorada. Por exemplo, a violência doméstica é errada porque causa dor, sofrimento e é injusta, mas a crença central no direito do homem mandar na mulher nem sempre é parte dessa discussão.

Ensinando o que conta

Este ano, o tema da 3ª Conferencia Anual de Estudantes de Graduação em Estudos Islâmicos foi “Reconstituindo a Autoridade Feminina: a Participação da Mulher na Transmissão e na Produção do Conhecimento Islâmico”, foi nesse foro que o futuro do feminismo islâmico esteve bem representado.

Nenhum workshop foi desperdiçado em tecnicalismos sobre o véu ou em discussões desgastadas acerca de o Islã liberar as mulheres com a proibição de infanticídios de meninas ou o direito das mulheres à herança (que não foi totalmente obedecido nem no tempo de Maomé). Ao invés disso, os workshops e os estudantes que os apresentaram demonstraram a complexidade e a diveersidade dos movimentos de mulheres, novos e antigos, no mundo muçulmano. Em “O Milagre de Bibi Fatima: Consagração e Autoridade Feminina”, apresentado por Summar Shoaib, mulheres transmitiam histórias de Fatima, a filha do Profeta Maomé, aparecendo e ajudando outras mulheres com preces especiais. Em tais contextos, mulheres passam adiante o conhecimento religioso numa tradição matrilinear que funciona como um canal para o ativismo religioso. Contar histórias torna-se um meio de força que proporciona uma base e um apoio para as mulheres, através dos laços de parentesco forjados pelo ato de contar histórias além da tradição que são passadas adiante.

Os principais palestrantes: Amina Wadud, Khaled Abou el Fadl, Kathleen Moore e Asma Sayeed falaram sobre a inclusão como direito e necessidade para a autoridade moral da pessoa e a história das mulheres nas tradições jurídicas islâmicas. O Islã “puro e simples” no qual as questões femininas são amenizadas com desculpas ou simplificadas como terciárias ou subalternas não foi encontrado em lugar algum. Pelo contrário, estudantes e professores recordaram a história que sempre se menciona somente de passagem, ou através de poucas figuras históricas chaves, retórica clichê e argumentos simplistas, não-históricos. Atendo-se aos padrões acadêmicos, este grupo diversificado de estudantes, através de sua busca intelectual do passado e do discurso voltado ao futuro, foi uma parte pequena, mas importante, da linhagem contínua da sabedoria feminina no Islã.

Eles eram exemplos do conjunto misto de “feminismos islâmicos” no Mundo islâmico. Mulheres em todos estes contextos estão encontrando as tradições baseadas em suas respectivas culturas, necessidades, prioridades e recursos, criando um retrato bem acabado do movimento global no qual as mulheres criam seu próprio caminho para o conhecimento e avançam com ele. Em alguns contextos, isto significa discutir direitos fundamentais como libertação da violência, enquanto em outros as mulheres conquistam e encontram seu próprio espaço para desafiar os dogmas tradicionais, redescobrindo a história feminina do Islã e o lugar para o discurso futuro, também em outros contextos, pela criação de um espaço inclusivo para rezar, adorar e estar com Deus. Um exemplo é o de Ani Zonneneveld, musicista e co-fundadora do “Muçulmanos por Valores Progressistas”, que promove paz e justiça social, através da criação de mesquitas inclusivas e da expressão de ideais igualitários através da música islâmica como meio de adoração.

Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas, a questão central do que significa “igualdade” e como se expressa continuam largamente ignoradas. Foto de Mohamed Omar/EPA.
Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas, a questão central
do que significa “igualdade” e como se expressa continuam largamente ignoradas. Foto de Mohamed Omar/EPA.

Impactando não apenas mulheres, mas a sociedade em larga escala

Um feminismo islâmico é, presumidamente, um feminismo intrinsecamente dotado de competência (trans)cultural, uma vez que o Islã, em geral, é uma tradição profundamente diversificada e permite flexibilidade, dependendo do contexto, desde que o núcleo essencial da ética islâmica não seja violada. Como o cerne dessa ética se define pode variar de acordo com o contexto, mas as tentativas de definição irão ajudar a espalhar uma discussão mais ampla, que possa eliminar as desculpas e discutir as causas fundamentais. É em tais debates que as feministas islâmicas, mais do que acreditar na tradição ou num feminismo proliferado – como especificamente o feminismo ocidental – insistem num retorno ao Corão e no emprego de princípios de análise contextual e racional, que questionem crenças tradicionalmente aceitas acerca das mulheres, através da retórica pela qual elas se formarão.

Pode ser dito que a maior tarefa do feminismo islâmico é separar cultura de religião. Esta é, talvez, a razão principal da hostilidade e raiva com que esse movimento se depara. Em alguns contextos muçulmanos, desafios às crenças tradicionalmente baseadas na autoridade não encontram um diálogo inteligente e bem informado, que esteja aberto à busca contínua da verdade e justiça, mas sim com a suspeita e hostilidade daqueles que procuram declarar um Islã único e “verdadeiro”, dependente da estrutura social apoiada na hierarquia de gênero. É sociologia elementar entender que as mulheres são frequentemente as fundações da cultura, porque elas são as primeiras professoras e mantêm laços estreitos com a próxima geração. Daí, a “estabilidade” da sociedade é frequentemente associada com a permanência das mulheres em seus lugares “próprios e naturais”.

Mas, esta “estabilidade” não é a estabilidade da sociedade, mas sim, da hierarquia e, portanto, da autoridade. O feminismo islâmico, como discutido antes, não está em busca da hierarquia com as mulheres no seu topo, ao contrário, está em busca de uma estrutura social igualitária em que caráter, bom trabalho e piedade – não gênero – sejam os fatores decisivos da autoridade social. Ademais, como Khaled Abou el Fadi argumentou em sua exposição na conferncia de Santa Barbara, cada ser humano tem direito a uma autoridade moral que não pode ser realizada se é proibido de ter uma vida plena. O argumento hierárquico é que as mulheres teriam uma “vida plena” somente se aceitassem seu “lugar natural”, mas esse argumento omite a definição, e portanto as necessidades, o talento e as aspirações (que tanto podem ser tornar-se uma astronauta ou uma mãe de 10 crianças) das próprias mulheres. Uma “vida plena” não pode ser definida para elas.

Numa certa época da História islâmica não foi incomum ver mulheres muçulmanas instruídas ou devotadas, e a presença dessas mulheres não significava, necessariamente, que elas concordassem com os papeis das mulheres, assim como não concordamos hoje, mas sua existência criou uma teologia mais equilibrada e acessível, com elevado grau de credibilidade. Através da recuperação dessa história, as mulheres encontram sua base e suporte num discurso feminino islâmico.

Ademais, as lutas com foco nas mulheres não impactam somente nelas, mas na sociedade como um todo, e esta é a arena na qual os maiores abusos da teologia islâmica são mais evidentes. O autoritarismo do Islã puritano, que fez surgirem movimentos como o Talibã, definiu como sua missão especial controlar totalmente as mulheres, como vimos (acontecer) com Malala Yousafzai, que foi baleada por promover a educação de todas as crianças, especialmente meninas. As mesmas estruturas e princípios nucleares utilizados para oprimir as mulheres, são utilizados para promover o terrorismo e o ódio em nome do Islã. Dessa forma, o bem que advém de combater e desafiar esses estruturas vai muito além das mulheres.

O impulso para o igualitarismo inclusivo

Algumas pessoas, como a organizadora da Conferência da Universidade da Califórnia, Samaneh Oladi, intuem que o ressurgimento das mulheres nos campos da história e da teologia islâmica acontece naturalmente, como um movimento de bases, no qual as próprias mulheres são os agentes da mudança.

Nesses movimentos de base, veem-se mulheres trabalhando nas comunidades e em contextos institucionais e sociais que utilizam a religião, mais do que uma compreensão secular de direitos humanos, como sua diretiva pela mudança. Aos poucos, isto vai mudando social e demograficamente, e cria o que é, na essência, a escada para um envolvimento teológico maior. Mas esta mudança também está acontecendo na política, como Margot Badran me explicou, uma vez que os Estados podem desempenhar um papel na articulação da transmissão, pelas mulheres, da sabedoria islâmica.

Para usar o exemplo dela, no inicio dos anos 60, quando o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser forçou al-Azhar, a primeira universidade islâmica, a aceitar mulheres, foi um esforço para “dispersar” a instituição (torna-la mais secular, juntamente com outros esforços no mesmo sentido) e “abrir um racha” pela aceitação de mulheres, mas, ao revés, criou uma oportunidade para que mulheres tivessem acesso a formas tradicionais de instrução islâmica que acabaram por levar as mulheres estudantes à universidade. Da mesma forma, com a queda gradual dos regimes autoritários em alguns países de maioria muçulmana, as mulheres estão voltando para a escola e desafiando o discurso que as oprimia. Isto faz surgirem organizações, legislação e esforços internacionais para libertar as mulheres da opressão através da educação, dos serviços de saúde e de ajuda econômica. No Ocidente, em Estados que não podem calar a autoridade religiosa feminina, mulheres envolvidas em vários esforços – desde a criação de abrigos para muçulmanas, como Muslimat al-Nisa em Nova Iorque, até o apoio a imans femininos – encontram oposição social e institucional, mas prosseguem no mesmo padrão de empregar os textos e a tradição teológica islâmica para rebater argumentos baseados na religião de que as mulheres devam ser, em qualquer via possível, subordinadas aos homens.

Evidente que as realidades do que é o “feminismo islâmico” e como ele é vivido são muito complexas, e é como devem ser. A realidade do feminismo islâmico como um movimento global, no qual as mulheres voltam-se ao Corão e as tradições proféticas para defender que as mulheres são seres humanos por inteiro e iguais aos seus parceiros masculinos. Como elas se expressam e até onde isso as levará dependerá das mulheres em seus contextos específicos.

Assim como se dá com as teorias feministas seculares, o que funciona para as muçulmanas do Sul da Califórnia, pode não funcionar no Afeganistão rural, e nem este, nem aquele há de ditar “feminismo” ao outro. O feminismo islâmico é um processo em desenvolvimento, no qual partimos do direito à vida e à autoridade moral e pessoal para irmos além. Podem haver algumas que se auto-intitulam “feministas islâmicas” e insistem na restruturação da hierarquia com as mulheres – em vez de com os homens – no topo, mas estas são minoria. Aliás, a hierarquia é intrinsecamente injusta e reestrutura-se melhor num igualitarismo inclusivo, que inclua não só as mulheres, mas todos os seres humanos invisíveis ou deixados de fora dos lugares islâmicos tradicionais.

Não precisamos de uma nova palavra para substituir “feminismo”, a fim de evitar a dificuldade automática que advém de estereótipos populares, do mesmo modo que seria igualmente incorreto buscar uma nova palavra para “muçulmano”; de preferência, permitamos-nos alcançar uma compreensão mais aberta e ampla do que é o feminismo islâmico, quem o constrói e o estrutura, e dos caminhos diversos e complexos percorridos, não apenas em benefício das próprias mulheres, mas de toda a humanidade.

Seja de forma orgânica ou política, ou por quaisquer outros meios, as mulheres estão reclamando seus espaços no discurso islâmico e mudando sua realidade, talvez através de uma tradição de contar histórias há muito estabelecida, ou mesmo criando mesquitas inclusivas, e algumas pelo retorno ao começo, o próprio Corão. No futuro, talvez o feminismo islâmico se depare com instituições sociais mais fortalecidas, além de recursos que apoiem as mulheres e o fim de desculpas esfarrapadas, mas, sobretudo, talvez vejamos o renascimento da sabedoria acadêmica feminina (que nunca foi totalmente destruída) no Islã, que una o texto à tradição, para continuamente buscar a justiça ao lado, e não acima, de nossos companheiros homens. Se este é o rumo para o qual estamos indo, então o futuro é claro também.

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Rachelle Fawcett está completando seu Mestrado* em Estudos Islâmicos no Seminário Hartford, viveu no Iêmen e no Egito, e escreve, fala e faz apresentações sobre o feminismo islâmico, competência (trans)cultural, pluralismo e teologia crítica.

* No texto original, MA, sigla que significa, literalmente, “Mestre em Artes”. A expressão nada tem a ver com “artes” em sentido estrito. No sistema educacional anglo-americano, um diploma em “artes” significa que o aluno está focado numa ampla area de aprendizado e discussão, ao passo que um diploma em “ciência” implica numa compreensão profunda e técnica da matéria estudada.

Simone Andrea é autora de “Direitos da Filha e Direitos Fundamentais da Mulher” (Ed. Juruá) e escreve no blog Simone Andrea.

Feministas pró-vida não existem

Texto de Tracie Egan Morrissey. Tradução de Deh Capella, com colaboração de Lê Howes.

Originalmente publicado com o título: There Is No Such Thing as a ‘Pro-Life Feminist’, no site americano Jezebel.com

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Tradução livres: Mantenha o aborto seguro e legal. Foto de Peace Chicken no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Tradução livres: Mantenha o aborto seguro e legal. Foto de Peace Chicken no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Apesar das declarações dos grupos políticos conservadores pró-vida como o Feminists for Life e o Susan B. Anthony List e do uso repetido da palavra começada com “F” por Sarah Palin, não existe na verdade esse negócio de “feminista pró-vida”. Claro, você pode ser feminista e tomar a decisão pessoal de jamais abortar. Mas quem raios é você para trabalhar ativamente pela exclusão do direito das outras mulheres de escolherem o que fazer com seus próprios úteros?

Você certamente não é feminista.

Nesta semana (edição de 14 de janeiro) a reportagem de capa da revista Time resume todas as pequenas batalhas perdidas pelos ativistas a favor do direito ao aborto desde sua vitória no caso Roe versus Wade, 40 anos atrás. As 92 disposições regulando o aborto – um recorde – foram aprovadas em 24 Estados depois que os Republicanos obtiveram a maioria no Legislativo norte-americano, em 2010 – o que não nos surpreende, já que regularmente lidamos com essas notícias deprimentes. Mas o que talvez seja mais intrigante – para feministas habituadas à luta interminável pelos direitos reprodutivos – na reportagem da Time seja a publicação de um texto intitulado “Pró-vida e feminismo não são mutuamente excludentes”, escrito por Emily Buchanan, a diretora-executiva do Susan B. Anthony List, “uma organização que trabalha para eleger candidatos pró-vida”. Porque apesar de pessoas como Buchanan insistirem na existência de um “feminismo pró-vida”, a lógica por trás disso é, na melhor das hipóteses, tortuosa.

Essa foi, então, a tentativa de Buchanan, com sua ideia principal, de explicar na “mídia baixa” (“lamestream media”) como legislar sobre o sistema reprodutor feminino, anulando a autonomia corporal das mulheres e restringindo seu acesso à contracepção de baixo custo e ao tratamento ginecológico, poderia ser considerado pró-mulher. E ela não conseguiu fazê-lo de forma convincente.

O maior argumento de grupos como o Susan B. Anthony List é o uso de nomes e de citações de sufragistas dos séculos XIX e XX para respaldar seu ponto de vista. Buchanan escreve:

Desde o início, o feminismo foi um movimento de mulheres jovens. Susan B. Anthony, Elizabeth Cady Stanton, Alice Paul, Charlotte Lozier e muitas outras começaram seu trabalho como sufragistas na casa dos 20 anos de idade. Essas mulheres – as feministas originais – entendiam que os direitos das mulheres não poderiam ser construídos às custas de crianças não nascidas. Anthony chamou o aborto de ‘assassinato de crianças’. Paul, autora da Emenda da Igualdade de Direitos escrita originalmente em 1923, disse que ‘o aborto é a exploração definitiva da mulher’.

Enquanto as “feministas originais” foram certamente mulheres corajosas e admiráveis, é absolutamente estúpido considerar sua visão sobre o aborto como um aspecto essencial do feminismo. Já imaginou se simplesmente adotássemos cegamente todas as crenças e ações dos grandes pensadores que viveram nos anos 1800? Thomas Jefferson – o homem que literalmente definiu o conceito de liberdade dos norte-americanos e que declarou que “todos os homens nascem iguais” – não só era proprietário de muitos escravos e compactuava com seu comércio, mas também escravizou seus próprios filhos, nascidos da escrava que foi sua amante e que era meio-irmã de sua esposa. Isso é doentio e nunca deveria ser alardeado como exemplo de igualdade.

Ainda, o raciocínio por trás do “feminismo pró-vida” é de que “vale a pena repetir a História”. Não é por isso mesmo que se estuda História, para “não se repetirem os erros do passado”?

Além disso, todo seu esforço em se autodefinirem como “feministas pró-vida” não parece estar focado na luta feminista como um todo, em questões como a diferença de salários ou as diferenças de padrões de comportamento. Em vez disso, essas pessoas destinam sua energia para conseguir a eleição de políticos pró-vida e mascaram suas tentativas de tirar o direito de escolha das mulheres com bobagens distorcidas (mulheres deveriam “se recusar a escolher” entre “ter um futuro e ter um filho”) que elas chamam de feminismo.

Vejam, mulheres têm discutido sobre o significado do feminismo desde seu início. Temos ideias diferentes sobre o que funciona e não, e sobre o que é importante e o que não é, e o movimento certamente não é monolítico, homogêneo. Mas o feminismo é um movimento. E a natureza de um movimento progressivo é seguir adiante, evoluir. Não dá para fazer isso retrocedendo, involuindo, prendendo-se ao passado.

Então, sim, “feminismo pró-vida” não engana ninguém – particularmente as feministas.

Uma mensagem às meninas sobre homens religiosos que temem vocês

Tradução do texto “A Message to Girls About Religious Men Who Fear You” de Soraya Chemaly. Publicado no site Huffington Post em 21 de maio de 2012.

Soraya Chemaly - @schemaly

Queridas meninas,

Vocês são poderosas além das palavras, porque vocês ameaçam revelar o controle de homens corruptos que fazem abuso da autoridade.

Nos Estados Unidos, na semana passada, algumas pessoas não deixaram os meninos jogarem a final do campeonato de baseball, porque uma menina estava na equipe adversária. Ela já havia ficado de fora de dois jogos por causa das exigências dessas pessoas. Por quê? Será que ela, uma atleta de competição e um membro de sua equipe, escolheu isso? Ela estava sendo boa e respeitosa quando aceitou as exigências? Por que não pediram para essas pessoas abrirem mão de seus jogos? Quais mensagens foram enviadas para ela e para os/as colegas de equipe? Isso não é complicado. Isso enviou as mensagens erradas. Mensagens confusas. Mensagens incoerentes. Você precisa saber que ela deveria ter sido autorizada a jogar e não ter de ficar de fora de dois jogos. Essas pessoas, e outras como elas, em todo o mundo, lideradas exclusivamente por homens religiosos, têm medo de você e não vão deixar você em paz. Você as preocupa constantemente.

Se você não fosse poderosa, elas não levariam você tão a sério e elas levam você muito, muito a sério. Você deveria também. Você pode deixar o mundo em chamas.

Não parece ser assim, eu sei. Se isso fosse verdade, você pensa, eu não teria que ficar no banco nos jogos de beisebol em respeito a crenças religiosas que exigem a minha subserviência e a chamam de presente. Eu não seria dispensada de servir a Deus com meus irmãos. Eu não seria ensinada que eu sou uma mulher sedutora diabólica ou a guardiã da virtude dos meninos. Eu não teria a virgindade empunhada como uma arma contra mim e meu valor determinado por meu ventre. Eu não seria cuspida e chamada de prostituta por homens quando eu tenho oito anos porque meus braços não estavam cobertos. Eu não seria envenenada por ir à escola. Eu não seria forçada, com a idade de 9 anos, a carregar gêmeos frutos de tortura infantil. Eu não teria de me matar para evitar me casar com o meu estuprador. Se isso fosse verdade, essas pessoas iriam perseguir os meus estupradores em vez de apedrejar-me por seus crimes. Eu, e outras milhares, não seríamos mortas pela “honra”.

Meninas, essas coisas acontecem porque há homens com poder que temem você e querem controlá-las. Eu sei que equiparei jogos de beisebol relativamente inofensivos com crimes de honra mortais, mas, enquanto um é um tipo de micro-agressão diária, aparentemente inofensiva e a outra é uma macro-agressão letal, elas compartilham as mesmas raízes. A base de ambas, e das ações crescentes no meio, é a mesma: ensinar a você, e a todas as meninas sujeitas a esses homens e à sua autoridade, uma lição: “Conheça o seu lugar.” Eu também sei que há lugares onde as meninas são marginalizadas e agredidas que não são religiosos. Mas por todo o mundo esses hipócritas, homens piedosos, em sua injustiça vergonhosamente óbvia, representam a ponta afiada de um iceberg, a superfície visível de um mal profundo e vasto. Eles empregam uma gama completa de sua influência terrena e divina para ter certeza, o mais cedo possível, que você e os meninos em torno de você entendem o que eles querem que seus relativos papéis sejam. Onde há religiões patriarcais, as meninas, em graus dramaticamente variados e extremos, sofrem de forma desproporcional. Compreenda esses homens por aquilo que são: intimidadores. Não internalize o que eles querem fazer você acreditar.

Sua existência os deixa ansiosos. E a ansiedade deles é particularmente alta, porque você tem algo que nenhuma geração de meninas teve antes – comunidades globalmente conectadas de homens e mulheres que apoiam a sua igualdade e liberdade. Como em Armas, Germes e Aço (tradução para o português) essa tecnologia transformadora, que me permite escrever para você aqui, altera a geografia, muda a sociedades e desmantela os sistemas de controle — faz do mundo um lugar menor e cria, mesmo que lentamente em alguns lugares, mudanças positivas para meninas como você. Veja, até agora, esses homens poderiam contar, na verdade eles poderiam assegurar, que você e as mulheres ao seu redor estavam presas a casa e isoladas. Muitas de vocês ainda estão. Mas agora há milhões e milhões e milhões de pessoas que estão pensando em você e desafiando esses homens a cada dia. Você tem a velocidade da luz ao seu lado e, a menos que alguém apague as luzes permanentemente, esses dias acabaram. Então, embora você possa sentir que está sozinha, você não está.

Foto de David Alan Harvey/Magnum Photos

Como você os ameaça? Uma menina sozinha? Sendo capaz, forte, confiante e, sim, sem vergonha. Você não pode “naturalmente” estar interessada em domesticidade, piedade, pureza e submissão, e eles confiam no seu compromisso com essas coisas para organizar o mundo deles. As ações deles, de um extremo do espectro ao outro, são projetadas para encher você de dúvidas sobre si mesma e, em última análise, de medo — seja físico ou espiritual — porque senão você, e os meninos ao seu redor, serão plenamente conscientes de sua força e potencial.

Por causa disso, eles focam a atenção única e exclusivamente em você, seu corpo, suas roupas, seu cabelo, suas habilidades, sua liberdade física. Quando os “modos” e a “moral” deles não são universalmente aplicáveis, mas diferentes para meninos e meninas, você pode ter certeza que é por isso. Eles procuram ensinar a você, sutilmente, através de pequenos deslizes e expectativas generificadas, que você é “diferente”, fraca, indigna, incapaz. O triste é que, na percepção deles, se você é nenhuma dessas coisas, então eles não são fortes, dignos e capazes. Isso não é uma desculpa, mas uma explicação. É por isso que eles encontram infinitas e “benevolentes” maneiras de prejudicar e depreciar você, tudo em nome da “palavra de Deus”. Quando isso falha, eles recorrem à violência. Em todo o mundo, a ansiedade se manifesta em um espectro de ações que vão desde o paternalismo leve, respeitosas dos “limites adequados”, a mortais aplicações de suas regras.

Medo é o motivo pelo qual esses homens investigam “oficialmente” escoteiras enquanto escondem estupradores de crianças. É por isso que eles são obcecados com a sua “pureza”. É por isso que eles te segregam em espaços públicos e privados. É o motivo para que eles ensinem a meninas e meninos que o corpo das meninas é sujo e vergonhoso ou sagrado e pertencente aos homens. O medo os motiva a ensinar que você contamina os outros pela sua própria natureza. Isso os faz querer assegurar que você ficará em casa e não se relacionará com o mundo. Isso os leva a aceitar casamentos de meninas de 8 anos de idade com homens velhos. Isso os convence de que estupro e suas consequências são um “presente de Deus”. É por isso que eles incentivam pessoas a te apedrejarem até a morte e te desfigurarem com ácido.

Mesmo “extirpar o gay” das crianças, especialmente meninos que são “mais parecidos” com você, acontece pelo mesmo motivo. Porque se meninos são “mais parecidos com meninas”, o que esses homens consideram inferior, então você pode ser “mais parecida com meninos”. Isso causa ambiguidade e destroi a hierarquia que eles definiram cuidadosamente, e isso para eles é intolerável.

Medo é o motivo pelo qual eles insistem que há algo fundamentalmente errado com você. Não acredite neles. Medo é o motivo pelo qual querem que você cubra seu corpo. Não há qualquer coisa errada com seu corpo, e ele não deve ser culpado. Mesmo se você escolher expor seu corpo ou cobri-lo considere como a escolha é definida pela sua desqualificação moral com o fim de tolher sua sexualidade por uma cultura que se recusa a responsabilizar homens por suas ações e exige, radicalmente, que você esteja disponível para o prazer dos homens ou se retire do mundo e se mantenha reclusa. De qualquer forma, questione quem define seu valor e com que critérios. Por causa do medo eles te dizem que você é tão diferente dos garotos. Você e os garotos que você conhece entendem que seus corpos são diferentes, mas você é mais parecida do que diferente. Ao contrário, os homens adultos te dizem que você está ameaçada, não está segura. Não desista. Mesmo que você esteja em silêncio. As diferenças que essas autoridades religiosas evidenciam com exagero são simplesmente pilares de opressão usados para ensinar garotos e garotas que a submissão feminina é “natural” e “divina”. Rejeite-os, assim como suas ideias.

Isso é difícil de fazer. Isso exige que você seja corajosa, forte, determinada, perseverante e confiante. Isso demanda que você exija que os adultos com quem convive prestem atenção e mudem seu comportamento. Isso é mais difícil ainda.

Primeiro, e talvez o mais difícil de compreender para uma garota, é que as mulheres que amam você e cuidam de você muitas vezes autorizam esses homens. É o que as pessoas dizem, “Não são SÓ os homens!”. Essas pessoas estão certas, mulheres os apoiam, individualmente ou dentro de grupos, e de maneiras que provocam consequências privadas, públicas, políticas e sociais. Mas, não se engane — apesar de mulheres reforçarem as regras, elas não têm qualquer autoridade real e sistêmica na hierarquia religiosa conservadora, e elas sabem disso. Sim, sem o apoio delas os homens não poderiam continuar, mas até que elas sejam realmente livres — física, econômica e politicamente — e sua salvação prática e espiritual não seja mais mediada por esses mesmos homens, elas vão continuar a apoiá-los. Reforçar as regras é uma escolha racional que permite que elas sobrevivam em contextos injustos. Você as assusta também, porque você questiona sua cumplicidade e causa conflitos.

Segundo, é confuso que esses homens digam que fazem isso para seu próprio bem. Eles falam sobre te respeitar e respeitar sua dignidade. Você quer acreditar neles; eles têm poder e autoridade sobre você, seus pais, sua comunidade e seu acesso a Deus. Eles são muitas vezes bondosos e benevolentes e te amam. Então devem estar certos. Mas não estão. Eles demonstram a própria hipocrisia várias e várias e várias vezes. Eles dizem que sabem o que é melhor. Eles não sabem. Você sabe. Não acredite neles quando querem te ensinar, de várias formas, com textos sagrados, palavras cuidadosas, tradições preciosas, ameaças veladas e exemplos assustadores, que você é naturalmente mais pecadora, inferior, mais corrupta, menos digna e necessita de orientação masculina constante. Rejeite tudo isso.

As pessoas adultas em volta de você podem não te apoiar quando você questiona sua humanidade com base em conclusões religiosas lógicas. Não deixe para lá. Não deixe que usem a “tradição” como desculpa ou digam que “isso não importa”. Não permita que eles te peçam para “ficar fora de jogos”, “ser uma boa menina”, “não fazer escândalo”, “se cobrir”. Essas são micro-agressões que resultam em macro-agressões. Adultos muitas vezes não pensam nisso. Às vezes é assustador para eles também.

Você pode dizer: “Não há nada de errado comigo. Há algo errado com você e com seu mundo”.

Senão, quando você crescer, esses mesmos homens, os mesmos que te temem e te odeiam, vão continuar a te enfraquecer. Vão tentar controlar seu corpo, te afastar da vida pública, te subjugar em nome de uma “família” estritamente definida, criarão impedimentos para sua igualdade, vão te constranger sempre que possível e vão justificar a opressão de formas que desafiam a razão e a moralidade. Eles vão te questionar por ser forte, vão te violar, te apedrejar até a morte, te acusar de bruxaria, punirão você de todas as formas concebíveis para que você sirva de exemplo para… suas crianças.

Saiba, então, que você é forte e poderosa. Use a razão, confie em seus instintos. Procure aqueles que te apoiarão e sim, saiba seu lugar: no campo, nas ruas, no ônibus (na frente!), na escola, no trabalho, nos escritórios.

Você não está só e você é mais brilhante que o Sol.

A tradução deste post contou com a ajuda providencial de Karla Avanço.