Ninguém assovia para a mulher na cadeira de rodas

Texto de Kayla Whaley. Publicado originalmente com o título: “Nobody Catcalls The Woman In The Wheelchair“, no site The Establishment em 26/01/2016. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Dentro dos espaços feministas, é assumido que #TodasAsMulheres experimentam assédio em locais públicos. As maneiras pelas quais esse assédio se manifesta — a idade em que começa, sua intensidade ou forma, as conseqüências de denunciar — podem variar dependendo das diferentes características da pessoa. Mas todas as mulheres, segundo nos dizem, conhecem o medo, a vergonha e/ou a raiva que vem junto com a atenção sexual indesejada.

É compreensível a existência dessa presunção. Quando trabalhamos a partir de um fato da realidade sendo uma verdade coletiva é mais fácil discutir as nuances, as diferenças e as complexidades envolvidas nesse miolo. É mais fácil construir discussões dinâmicas internas a partir da sólida base de uma experiência em comum.

Esta é uma suposição útil — mas também é prejudicial.

Eu sou uma mulher de 26 anos de idade que nunca foi assediada na rua. Eu nunca recebi assovios em meu caminho para a escola, ninguém buzinou para mim num estacionamento, ninguém me olhou de forma maliciosa num trem, não me apalparam na fila da Starbucks, ou qualquer outro tipo de assédio sexual que ocorrem em locais públicos. Eu não tenho medo de sair de casa porque terei que evitar homens agressivos ou insistentes. Eu não preciso mapear mentalmente várias rotas para casa, procurando locais onde eu possa ser menos abordada.

Eu não sei o que são o medo, a vergonha e/ou a raiva que vêm junto com a atenção sexual não desejada. Entretanto, uma parte de mim, que não é insignificante, deseja sentir isso.

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Ocultando os efeitos colaterais dos contraceptivos hormonais: uma história racista e sexista

Texto de Bethy Squires. Publicado originalmente com o título: The Racist and Sexist History of Keeping Birth Control Side Effects Secret, no site Broadly em 17/10/2016. Tradução de Ana Cristina para as Blogueiras Feministas.

Um estudo recentemente publicado traz à tona a alarmante relação entre anticoncepcionais hormonais e a depressão. Mas os resultados encontrados são apenas os mais recentes de uma longa sucessão de batalhas, travadas por mulheres com seus médicos, por informações precisas sobre métodos contraceptivos.

Em setembro, a JAMA Psychiatry publicou um estudo dinamarquês que encontrou correlação entre o uso de anticoncepcionais hormonais e o diagnóstico da depressão clínica. O estudo monitorou o uso de contraceptivos hormonais e a prescrição de antidepressivos por mais de seis anos, e para mais de um milhão de mulheres. Eles descobriram que mulheres que faziam uso de contraceptivos hormonais – fosse a pílula, dispositivo intrauterino (SIU) ou o anel vaginal – tinham chances significativamente maiores de precisar da prescrição de antidepressivos.

Desde que a notícia do estudo surgiu, muitas mulheres relataram se sentirem justiçadas, uma vez que a ciência está finalmente reconhecendo suas experiências de vida. “Eu tomei a pílula por dez anos”, conta Holly Grigg-Spall, autora do Sweetening the Pill (“Adoçando a pílula”). “Uma em particular, a Yasmin, provocou efeitos colaterais gigantes – efeitos psicológicos: depressão, ansiedade, ataques de pânico. Por dois anos eu não liguei os pontos entre o que estava acontecendo comigo e a pílula”.

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De novo? Privilégio de orgasmo, sexo casual e prazer feminino

Texto de Lauren Ingram. Publicado originalmente com o título: “Come Again? Orgasm privilege, casual sex, and female pleasure”, no site Medium em 11/10/2016. Tradução de Iara Paiva para as Blogueiras Feministas.

Nota da autora: Este artigo trata quase exclusivamente da vivência de mulheres cis, heterossexuais e suas experiências com orgasmos. Ainda que discuta vaginas, em nenhuma circunstância genitais determinam o sexo.

Nota da tradutora: o texto original apresenta, desde o título, diversos trocadilhos com a palavra “come” em inglês, que pode ser traduzida como “vir” e “gozar”.


Quando dizemos as palavras “orgasmo” e “privilégio” na mesma frase, o que vem na mente da maioria das pessoas é o privilégio que homens têm durante as relações sexuais: a capacidade de “espalhar sua semente” a maior parte das vezes, e o foco que nossa cultura dá ao prazer masculino sobre o prazer feminino.

Mas olhem só: eu tenho privilégio de gozar.

(Hashtag Ostentação).

Em um mundo onde muitas mulheres acham que orgasmos são uma ilusão, eles são uma ocorrência comum para mim, sozinha ou acompanhada, mesmo que meu parceiro na cama não se esforce muito. Posso contar nos dedos quantas vezes uma relação sexual na minha vida adulta não resultou em orgasmo, a maioria delas porque eu estava muito bêbada na ocasião. As relações sexuais consensuais e os orgasmos decorrentes delas sempre foram experiências extremamente prazerosas pelas quais eu já ansiava e apreciava de várias maneiras desde que era adolescente.

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