Sobre “destransição”, arrependimento e cisgeneridade

Texto de Beatriz Pagliarini Bagagli.

Discutir “destransição” sem se atentar para a discussão simultânea sobre a cisgeneridade compulsória e transfobia é leviano. Sim, tô falando sobre a matéria que saiu no Globo: Conheça a história de homens e mulheres que mudaram de gênero e, depois, voltaram atrás.

Centrar a problemática sobre as incertezas e as possibilidades de arrependimento que envolvem a transição sem antes assinalar as violências que envolvem a própria naturalização da cisgeneridade como a expectativa neutra sobre a vida das pessoas pode fazer funcionar relações de poder bastante perversas sobre pessoas trans. Isso porque é simplesmente um passo para adotar uma perspectiva que aloca a suposta origem dos sofrimentos psíquicos na identidade trans em si (o fato de alguém ter transicionado) e não nas estruturas de exclusão e estigma social que recaem sobre pessoas trans.

Exigir uma suposta “certeza” para que pessoas trans possam ter autonomia sobre seus corpos faz parte do mesmo circuito de poder que relega a certos corpos e expressões o posto de abjeção. Criar sistemas de veridição sobre a pretensa transexualidade “verdadeira” com base no argumento das “pessoas arrependidas” faz parte do mesmo sistema de poder que gera sofrimento para pessoas que se arrependem, para pessoas que vivenciam fluidez de gênero, que habitam a indeterminação em relação às suas identidades de gênero.

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O conceito de cisgenaridade e o transfeminismo

Texto de Raissa Éris Grimm.

O conceito de cisgeneridade foi criado pelo ativismo trans
como uma forma de devolver o olhar e entender de outra forma
a posição social e política de pessoas “não-trans”, que até então eram simplesmente definidas como “bio mulheres”, “bio homens”, ou como “mulheres de verdade”, “homens de verdade”, “naturalmente mulheres”, “naturalmente homens”.

Essa definição dava a entender que pessoas cisgêneras seriam naturalmente e espontaneamente seu próprio gênero — nascides já como são — enquanto nós, pessoas trans, seríamos o efeito de uma artificialidade, de uma negação da nossa “verdadeira natureza”.

Diante desse discurso, caberia simplesmente as pessoas trans fazerem o melhor possível — a nível de comportamento, intervenções hormonais, cosméticas e cirúrgicas — para se tornarem “o mais parecido possível” com as ditas “verdadeiras mulheres” ou “verdadeiros homens”. Fomos investidas pela biomedicina para construir um culto ao seu poder de transformar o corpo num material plástico e 100% transmutável — ao sabor dos mágicos dedos dos hipercirurgiões, nossos “salvadores”
(*risos*).

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Se ninguém precisa ser trans então quer dizer que todos nós devemos ser cisgêneros?

Texto de Bia Pagliarini.

Eu já escrevi bastante sobre isso, mas eu fico injuriada com certas noções sobre as identidades trans. Uma delas é acerca da história das pessoas dizerem, a partir de um certo tom de “crítica aos estereótipos de gênero”, que ninguém “precisa” ser trans “por gostar de x coisa”, sendo x algo relacionado a um outro gênero em relação ao designado ao nascer de alguém.

O que fica implícito nessa suposta crítica é de que as pessoas trans só seriam trans porque estariam seguindo uma noção binária e estereotipada acerca das coisas que gostam de fazer, de forma com que elas estariam se iludindo a serem trans a partir de uma internalização de normas de gênero.

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