Chamada Blogagem Coletiva: Dia da Visibilidade Trans

Dia 29 de janeiro é Dia da Visibilidade Trans.

Em 29 de janeiro de 2004, ativistas transexuais participaram, no Congresso Nacional, do lançamento da primeira campanha contra a transfobia no país. A campanha “Travesti e Respeito” do Departamento DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, foi a primeira campanha nacional idealizada e pensada por ativistas transexuais para promoção do respeito e da cidadania. O Dia da Visibilidade Trans tem o objetivo de ressaltar a importância da diversidade e respeito para o Movimento Trans, representado por travestis, transexuais e transgêneros.

As conquistas são lentas. Em dezembro de 2011, a portaria n° 2.836 do Ministério da Saúde instituiu no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (Política Nacional de Saúde Integral LGBT). A maioria das pessoas transexuais ainda está lutando por algo básico: respeito! Pelo direito de andar livremente pelas ruas sem ser incomodada, apontado, discriminada e humilhado.

O tema da transexualidade passa longe da imensa maioria dos blogs. Sabemos que é um tema com o qual as pessoas tem pouca ou nenhuma proximidade. Por isso, convocamos uma Blogagem Coletiva no Dia da Visibilidade Trans. Dia 29 de janeiro publique um post sobre o tema em seu blog e nos envie o link. Publicaremos uma lista com todos os posts participantes na tarde do dia 30 de janeiro. A hashtag que será usada nas redes sociais é: #VisibilidadeTrans

Confira as ações que vão rolar em várias cidades do Brasil. Se você souber de alguma que não está listada, por favor avise nos comentários.

Bahia, Vitória da ConquistaDia de visibilidade de travesti e transexuais

Data/hora: Dia 05/02/2012 – às 16 horas

Local: Centro de Convivência do Idoso

Programação: Coquetel da visibilidade

Realização: Assessoria técnica de politicas para diversidade sexual

Minas Gerais, Belo Horizonte – Dia de visibilidade de travestis e transexuais

Data/hora: 30/01/2012 – 18 horas

Local: Centro cultural da (UFMG)

Programação: Mesa de Abertura, Mesa de Debate, Coffe Break, Atividade Cultural

Realização: NUH e CELLOS

Minas Gerais, Betim – Almoço da DiverCidade para Tod@s

Data/hora: 29/01/2012 – 12h

Local: Bar da Marly (rua Tapajós, nº 220 – bairro Brasiléia, próx. da TV Betim)

Programação: Almoço será servido gratuitamente pelo Movimento Gay de Betim (MGB)

Realização: Movimento Gay de Betim (MGB)

Paraná, Curitiba – Dia de visibilidade de travesti e transexuais

Data/hora: 27/01/2012 – 10h às 17h

Local: Praça Rui Barbosa (centro)

Programação: Exposição fotográfica, atos performáticos, distribuição de material

Realização: Transgrupo Marcela Prado

Pernambuco, Recife – 3 atividades

Dia de visibilidade de travesti e transexuais

Data/hora: 20/01/2012 – 8h da manha

Local: Praça da Independência (pracinha do Diário)

Programação: música, panfletagem, oração pelas Travestis e Transexuais mortas

Realização: AMOTRANS-PE

Visibilidade a transexuais travestis e transgêneros

Data/hora: 26/01/2012 – 18 às 21h

Local: MIX PUB (rua do Sossego, nº11, Boa Vista)

Programação: Exibição dos curtas “Amanda e Monique”, “Retratos”, “O Voo da Fênix”; Show de travestis; show de Andreia Luiza e banda.

Realização: Grupo de Homens Trans de Recife

Visibilidade a transexuais travestis e transgêneros

Data/hora: 27/01/2012 das 18 às 21h

Local: MIX PUB (rua do Sossego, nº11, Boa Vista)

Programação: Exibição dos curtas “Entre Lugares”, “Eu Sou homem”, “O Corpo Conforme”; show de Drag King e Drag Queen; show de Fabíola Alves e banda.

Realização: Grupo de Homens Trans de Recife

Rio de Janeiro, São Pedro da AldeiaDia de visibilidade de travesti e transexuais

Data/hora: 27/01/2012 – as 19h30

Local: Casa da Cultura, Joaquim G dos santos

Programação: Debate com a delegada PC, Dr. Márcia e transexual Juliana Rosa.

Realização: Grupo Aldeia Parque, Rede LGBT do Interior fluminense

Rio de Janeiro, Cabo FrioDia de visibilidade de travesti e transexuais

Data/hora: 29/01/2012

Local: Gayosque Bambú, praia do Forte

Programação: Concurso Rainha do carnaval LGBT da Região dos lagos, show com Eddylene Agua Suja e Gabrielly Rodin, DJ Hillary Kovack.

Realização: Grupo Cabo Free, Rede LGBT do Interior fluminense.

Rio de Janeiro, Copacabana –  Dia de visibilidade de travesti e transexuais

Data/hora: 29/01/2012 – 16h

Realização: Rede Trans Grupo pela vida, Grupo Transrevolução, Sindicato das Profissionais do Sexo.

Rio Grande do Sul, Porto Alegre

Visibilidade de travesti e transexuais no Fórum Social Mundial

Data: 24/01/2012

Movimento LGBT na Marcha de Abertura do Fórum Social Temático

Concentração a partir das 15h, no Largo Glênio Peres

Data: 26/01/2012

Mesa de Diálogos – Dia da Visibilidade das Travestis: Saúde, Educação e Segurança Pública

Convidados: Maria do Rosário (SEDH), Fabiano Pereira (SJCDH), Alexandre Padilha (MS), Keila Simpson (ABGLT), Fernanda Benvenutty (ANTRA), Ivarlete Guimarães de França (SUSEPE/RS), Vereador Carlos Comassetto (Comissão de DH da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, Mário de Azambuja (SMDHSU/POA) e Marcelly Malta (Igualdade/RS – Conselho Municipal de Direitos Humanos).

Das 13h às 16h – Tenda Saúde e Cultura Frida Kahlo – Acampamento da Juventude – Parque da Harmonia

São Paulo, Piracicaba – Primeiro Encontro Regional de Travestis e Transexuais

Data/hora: 28/01/2012

Local: Espaço Anfiteatro da Biblioteca Municipal (rua Saldanha, nº 333 – Centro)

Programação: Presença de lideranças nacionais entre elas Jovanna Baby

Realização: Grupo Glitter, Grupo Jovem Piracicaba e Programa Municipal de DST/AIDS.

São Paulo, São Paulo – 3 atividades

Dia de Visibilidade Trans

Data/hora: 23/01/2012 – 19h às 21h

Local: Rua Promotor Gabriel Netuzzi Perez, nº 159

Programação: apresentação de vídeos.

Realização: Cidadania Trans, CADS, GATTA, ELES, Iprex

Dia de Visibilidade Trans

Data/hora: 28/01/2012 – 14h

Local: Praça Floriano Peixoto, nº 131 – Casa Amarela

Realização: Cidadania Trans, CADS, GATTA, ELES, Iprex

Dia de Visibilidade no Metrô

Data/hora: 30/01/2012 – 17h

Local: estação de metro da Sé

Realização: Coordenadoria de Diversidade e Fórum Paulista de TT

Sergipe, Aracaju – Dia de visibilidade de travesti e transexuais

Data/hora: 27/01/2012

Local: Museu do Palácio Olimpio Campos

Programação: Lançamento de livro, Visibilidade de Trans Unidas

Realização: ADHONS

Campanha: Sou travesti. Tenho direito de ser quem eu sou, do Ministério da Saúde

Do manicômio à UnB

Essa é minha primeira vez, estou debutando neste blog. Toda estreia é um momento de tensão. Mas eu tinha essa história e gostaria muito de compartilhá-la. A história de como um homem surge. Em um mundo tão machista como o nosso,  fugir da heteronormatividade é sempre um transtorno e, ainda por cima, também desviar daquele conceito padrão de ‘normalidade’… só potencializa os conflitos. Não tenho a intenção de contar um drama ou relatar uma história triste e sim, mostrar como a opressão se dá das mais diferentes formas, nos mais diferentes contextos. Esse sou eu, da forma mais exposta que já estive. Prazer!

Jack Nicholson em 'Um estranho no ninho' - Divulgação

 Eu sabia. Eu sempre soube. Só não sabia que tinha nome e, muito menos, que tinha jeito. Mas eu sempre soube que era um homem, só não tinha muita certeza sobre como me tornar um. Não que eu não gostasse de brincar de boneca, até porque, não é isso que define um homem. Porém, aquela sensação de que algo estava errado sempre permaneceu comigo.

Por algum tempo, eu não sabia como agir. Havia milhares de regras a seguir e muitos comportamentos eram esperados de mim. Expectativas sempre foram um problema. Porém, um dia resolvi assumir e começar a longa caminhada que vai me transformar, não somente no homem, mas, sim, na pessoa que quero ser. Não é fácil nem rápido mas, ainda que muito doloroso, parece ser melhor do que viver aprisionado em uma vida que não é sua, repetindo padrões só para agradar os outros e encaixar-se numa suposta normalidade.

E quando falo de normalidade, surge toda uma nova gama de problemas. Fui diagnosticado com uma doença psiquiátrica aos 18 anos, mas agora que a conheço, sou capaz de reconhecer sintomas que me acompanham desde muito novo. Como se a caixinha de transexual não fosse suficiente para me condenar à marginalidade, há ainda a de maluco.

Passei por graves crises: depressão, mania, surtos psicóticos. Já achei que podia voar, já passei dias na cama sem levantar nem para ir ao banheiro, já dormi na rua por me julgar perseguido. E não, não quero fazer um drama com toda essa situação, apenas mostro a realidade. E eu sabia que aquela hora ia chegar, sabia que aquela espiral de loucura ainda ia me levar ao inferno. E o inferno tinha nome: manicômio!

Fiquei internado lá, por um tempo que minha memória não consegue me revelar. Após 3 tentativas de suicídio, uma depressão me derrubava e julgaram que aquele seria o melhor lugar pra mim. Mas ali não é o melhor lugar para ninguém! Não fui submetido a torturas cruéis nem a tratamento de choque, mas não consigo enxergar muito bem a terapêutica de se estar isolado em uma ‘caixa’ de concreto, longe da vida, em um lugar onde só se respira ‘loucura’. Pra piorar, se é que pode ser piorado, fui mandado para a ala feminina.

Embora julgue que tenha sido até mais seguro (não sei o que homens confinados e fora da realidade fariam quando soubessem que havia ao seu lado uma genitália feminina), sentia-me muito mais deprimido por essa razão. Eu não era homem o suficiente. Nem na hora de ir para o manicômio eu era homem!

Só que tudo isso eu descontava no meu corpo. Essa insatisfação com quem eu sou (ou era) virava sangue. Essa tal de auto-mutilação está presente na minha vida desde que tenho 13 anos e controlá-la parece impossível. O quadro só piora: torna-se um hábito, ou melhor, um vício. Sem motivo aparente eu me cortava, só porque tinha que fazê-lo. Porque era minha rotina, porque meu dia não estava completo sem aquilo. E se sentindo no corpo errado, a situação tende a ficar mais complicada. Sangrei da sola do pé ao céu da boca, incluindo mutilação genital. Eu olhava pro espelho e não me via, era só uma mulher, mas que não era eu. Creio que essa seja a pior experiência: não reconhecer-se na própria imagem.

Mas eu sobrevivi. Ainda tenho pesadelos constantes com os gritos que podiam ser ouvidos durante toda a noite; era preciso dormir de tênis e agarrado a seus pertences para não tê-los furtados. Sonho, de maneira muito realística, com as pessoas comendo suas próprias fezes, como muitas vezes vi acontecer. Só que eu saí de lá e, de alguma forma, soube sair do buraco.

Nada garante que eu não volte para ele, mas cá estou eu: com 21 anos, vivo, na faculdade. Sim, menos de 01 ano depois, consegui passar no vestibular. Não me considero melhor do que ninguém, obviamente, mas fico feliz de ver que atravessei o abismo e não saí com mais do que alguns cortes e arranhões.

A pressão para ser ‘perfeito’ e me encaixar naquilo que uma mulher deve ser continua a existir. Mas não há nada que eu possa fazer se não sou uma. Eu digo a todos que gostaria de ser homem, mas o que eu queria mesmo era ser mulher, pois já estou no corpo de uma; seria muito mais fácil. Infelizmente, ou não, quase nada é fácil. E eu continuo nesse esforço insano para alcançar a incrível sensação de pertencer e, um dia, quem sabe, a sensação de ser, assim, inteiro, por completo.