Se ninguém precisa ser trans então quer dizer que todos nós devemos ser cisgêneros?

Texto de Bia Pagliarini.

Eu já escrevi bastante sobre isso, mas eu fico injuriada com certas noções sobre as identidades trans. Uma delas é acerca da história das pessoas dizerem, a partir de um certo tom de “crítica aos estereótipos de gênero”, que ninguém “precisa” ser trans “por gostar de x coisa”, sendo x algo relacionado a um outro gênero em relação ao designado ao nascer de alguém.

O que fica implícito nessa suposta crítica é de que as pessoas trans só seriam trans porque estariam seguindo uma noção binária e estereotipada acerca das coisas que gostam de fazer, de forma com que elas estariam se iludindo a serem trans a partir de uma internalização de normas de gênero.

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A gênese da transfobia

Texto de Bia Pagliarini.

Quando dizem por aí que opressão “não se escolhe” no intuito de desconsiderar a legitimidade das identidades trans, desconfie – afinal, pessoas trans também não escolhem sofrer transfobia! Vou explicar o porquê: tudo tem a ver com duas concepções distintas da gênese da transfobia. Uma concepção individualista/liberal e outra materialista/estrutural desta gênese. O mais irônico de toda essa “polêmica” é que justamente uma concepção individualista/liberal acerca da transfobia se reivindica enquanto materialista/estrutural e até mesmo em nome de um “feminismo radical”. Vou explicar o porquê de todo esse imbróglio.

Vemos sistematicamente a tentativa de pessoas em nome de um feminismo trans-excludente de denunciar que o reconhecimento de mulheres trans enquanto mulheres seria algo “perigoso” e “mentiroso” para o feminismo. O argumento dessas pessoas que se reivindicam “feministas radicais” seria de que, como a identidade de mulheres trans se dá enquanto uma “escolha individual”, a transição como ponto de origem de toda a transfobia, a transfobia não poderia se configurar enquanto uma opressão. Ou seja: esta perspectiva, que supostamente se intitula enquanto materialista, toma como ponto de partida a categoria de indivíduo para a compreensão da gênese da transfobia, já que toda forma de violência contra este grupo de pessoas estaria vinculada a este momento fundante da transição de gênero de indivíduos.

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O B, o T e outras letrinhas no mundo nefasto da LGBTfobia

Texto de Bárbara Araújo para as Blogueiras Feministas.

Da sigla LGBT, o B e o T têm algumas coisas em comum. Uma delas é a capa de invisibilidade. O T tem sido sistematicamente abandonado pela letrinha dominante no movimento e pela sociedade como um todo. O desconhecimento e a falta de compreensão social em relação a esse grupo resulta na intolerância, no desprezo e na violência intensa: pessoas transgêneras são proporcionalmente as mais expostas a violência física e assassinatos dentre os grupos representados na sigla.

O B vive essa invisibilidade de outra forma. É simplesmente como se não existisse. Uma pessoa trans pode ser identificada visualmente algumas vezes. Uma pessoa bissexual, não. Não existe nada no jeito, na cara de uma pessoa que a identifique para a sociedade como bissexual. Nem mesmo quando a pessoa se assume verbalmente como bissexual a sociedade a identifica como bissexual. Renato Russo disse naquela música: “eu gosto de meninos e meninas”. Mas a sociedade continuou classificando-o como gay.

Imagem da página Bissexuais Existem no Facebook.
Imagem da página Bissexuais Existem no Facebook.

Quando uma pessoa diz que é bissexual, a sociedade lhe responde que ela está confusa. Mesmo o mais progressista dos grupos, mesmo muitos dos militantes pró-LGBT têm grande dificuldade de aceitar – de enxergar – a bissexualidade. Ou você é hétero ou é gay ou é lésbica. Se a sua vida inteira você é uma mulher que se relacionou com homens e passa a se relacionar com uma mulher, entende-se que você “virou lésbica”. Se você é um homem e a vida inteira se interessou por mulheres, mas percebe que sente desejo por um homem, você certamente “virou viado”. Não é costumeiro considerar que você pode não ter “virado” nada, mas que seja bi. Essa possibilidade é simplesmente invisível. No cotidiano, na mídia, dentro da nossa cabecinha. Quantas pessoas bissexuais você conhece? Quantos personagens de filmes e séries são bi? Quantas vezes a bissexualidade é abordada na mídia?

Isso porque, além de heteronormativa, na nossa sociedade a monossexualidade também é compulsória. Ou seja: só pode gostar de um gênero. Ser bissexual é gostar de mais de um gênero. E isso não pode. Aliás, isso não existe. A proposta de que se pode gostar de vários gêneros – não só dois, mas vários – deixa nossa mentalidade binarista perdidinha.

Recentemente, me reuni com uma amiga que é professora de sociologia para organizarmos nossa fala num debate que ocorreu na escola em que trabalhamos sobre a cultura do estupro. Ela me disse que pensava em falar sobre a importância de nomear as coisas: identificar uma situação de assédio ou abuso sexual e nomeá-la devidamente, não ficar em dúvida ou incerto. Identificar e nomear as coisas é poderoso.

Também recentemente, a escola em que trabalhamos esteve na mídia mais uma vez. Dessa vez, estudantes e professoras/es foram ao programa Encontro com Fátima Bernardes para falar (muito rapidinho, infelizmente) sobre a garantia do uso do nome social por estudantes transgeneres. A fala do Rai, pessoa querida e brilhante com quem tenho o prazer de conviver desde que comecei a trabalhar nessa escola, me fez pensar muito. Ele disse que você nunca imagina que você é trans porque você nunca ouviu falar disso na sua vida. Isso ficou ressoando na minha cabeça e me levou a pensar que é justamente isso que o B e o T têm em comum na sigla, como disse na historinha que abriu esse texto.

Eu nunca tinha imaginado que eu era bissexual durante toda a minha adolescência… porque nunca tinha ouvido falar disso. Não conhecia ninguém que fosse, na escola ninguém falava nisso, minha família nunca mencionou isso; enfim, ninguém nunca tinha me dito que isso era uma possibilidade.

Há pessoas que acham que falar de gênero e sexualidade na escola vai fazer as crianças “virarem” gays ou bi ou trans. Mas pelo contrário. Falar de gênero e sexualidade na escola é apresentar as possibilidades de ser, é mostrar um caminho pra quem sabe que é diferente, pra quem se sente diferente, mas não sabe porquê, não conhece sua própria identidade. E isso traz muito, muito sofrimento. Enquanto entender, conhecer e saber nomear é poderoso, empoderador, é um alívio.

Minha vida teria sido outra se minha escola tivesse discutido sexualidade. Hoje sou professora nessa mesma escola e vejo esse debate acontecendo, como resultado da luta de estudantes e professoras/es. Isso precisa acontecer em todo espaço educativo. Projetos de lei como os da Escola sem Partido e aqueles que denunciam uma “ideologia de gênero” são ameaças graves àqueles grupos que já se encontram minoritários em termos de direitos no espaço escolar e na sociedade como um todo. A educação para a diversidade é urgente num contexto onde um assassinato em massa por homofobia tem sido tratado como um caso de “terrorismo islâmico”. A capa de invisibilidade que cobre a transgeneridade e a bissexualidade é a mesma que cobre a própria homofobia e o sexismo em um caso como o massacre de Orlando.

É por isso que precisamos, urgentemente, falar sobre gênero. Precisamos urgentemente afirmar nossa identidade LGBT. Afirmar nossa existência frente à capa de invisibilidade fornecida pela bifobia e pela transfobia. Para nós existir, sobreviver já são formas de resistência. Nos posicionar publicamente sobre quem somos é um ato de coragem.