Sobre “destransição”, arrependimento e cisgeneridade

Texto de Beatriz Pagliarini Bagagli.

Discutir “destransição” sem se atentar para a discussão simultânea sobre a cisgeneridade compulsória e transfobia é leviano. Sim, tô falando sobre a matéria que saiu no Globo: Conheça a história de homens e mulheres que mudaram de gênero e, depois, voltaram atrás.

Centrar a problemática sobre as incertezas e as possibilidades de arrependimento que envolvem a transição sem antes assinalar as violências que envolvem a própria naturalização da cisgeneridade como a expectativa neutra sobre a vida das pessoas pode fazer funcionar relações de poder bastante perversas sobre pessoas trans. Isso porque é simplesmente um passo para adotar uma perspectiva que aloca a suposta origem dos sofrimentos psíquicos na identidade trans em si (o fato de alguém ter transicionado) e não nas estruturas de exclusão e estigma social que recaem sobre pessoas trans.

Exigir uma suposta “certeza” para que pessoas trans possam ter autonomia sobre seus corpos faz parte do mesmo circuito de poder que relega a certos corpos e expressões o posto de abjeção. Criar sistemas de veridição sobre a pretensa transexualidade “verdadeira” com base no argumento das “pessoas arrependidas” faz parte do mesmo sistema de poder que gera sofrimento para pessoas que se arrependem, para pessoas que vivenciam fluidez de gênero, que habitam a indeterminação em relação às suas identidades de gênero.

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Manifesto por um movimento lésbico feminista e anticapitalista e, por isso, transinclusivo, não bifóbico e não genitalizante

Reproduzimos em apoio o manifesto abaixo porque acreditamos que o feminismo significa a inclusão de TODAS as mulheres. A publicação original foi feita no Facebook.

Manifesto por um movimento lésbico feminista e anticapitalista e, por isso, transinclusivo, não bifóbico e não genitalizante

O movimento lésbico tem sido dominado por ideias que nos parecem nocivas para a nossa luta e para outras pessoas. Colocamos no texto abaixo alguns contrapontos que acreditamos que podem nos auxiliar em nossa organização.

Somos lésbicas

Somos mulheres que se relacionam com mulheres. Para trás de nós, há muita luta para podermos dizer isso publicamente, para podermos beijar nossas companheiras na rua, para podermos nos casar, adotar, estar inclusas em planos de saúde familiares, termos direito a ser acompanhantes familiares das nossas companheiras hospitalizadas etc. Reconhecemos e honramos nossa história e temos consciência de que temos ainda muitas batalhas pela frente para conquistar todos os direitos que merecemos e nos livrar das opressões que sofremos.

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Quais são as experiências de mulheres trans quando estamos falando de “socialização”?

Texto de Beatriz Pagliarini Bagagli.

(Algumas) feministas parecem questionar a noção de que se nasce mulher até quando se lembram da existência de mulheres trans. Quando cai a ficha sobre a nossa existência, ou quando são lembradas da nossa existência numa chamada de atenção qualquer, surgem espontaneamente as noções “nascidas mulheres” ou “socializadas como mulheres” — noções essas que eram rejeitadas até então como provenientes de um discurso essencialista.

Usam tais expressões para se diferenciarem das mulheres trans, como se fosse de suma importância se distanciar das experiências e vivências de mulheres trans. É como se fosse até mesmo preciso usar mão de noções até então tidas como inadequadas para marcar uma diferença que se julga intransponível. Como se fosse extremamente importante evidenciar uma suposta diferença intransponível e essencial entre mulheres trans e mulheres (cis) — e veja bem, algumas dessas feministas se incomodam com a designação cis, justamente porque elas rejeitam qualquer qualificação que faça remeter a uma relação com a nossa existência trans. Como se fosse uma ofensa às mulheres cisgêneras serem definidas a partir de uma relação com a alteridade que a transgeneridade impõe. É como se fosse preciso rejeitar qualquer aproximação com mulheres trans, e a rejeição do termo cis fosse um exemplo disto.

Mas que tipo de diferença é essa que estão querendo apontar e construir? Dizer que a socialização feminina seria exclusiva à vivência cisgênera é também invisibilizar que a socialização de gênero não se dissocia de uma socialização de gênero em que a vivência das pessoas trans se encontra como abjeta. Não existe “socialização feminina” sem os limites do gênero inteligível, sem portanto, a diferença tida como radicalmente Outra da transgeneridade — posta sob o lugar da loucura, abjeção, falsidade. Não existe “socialização feminina” que esteja apartada de uma sociedade também transfóbica. As normas de gênero e sexualidade necessariamente implicam a cisgeneridade como compulsória para funcionarem socialmente.

É preciso falar sobre como pessoas trans nascem e são socializadas desde pequenas numa sociedade transfóbica — pra usar esse jargão de “nascer” e “socializar” e “desde pequenas”. Como se apenas mulheres cis nascessem; como se apenas mulheres cis um dia fossem crianças oprimidas; como se apenas mulheres cis fossem “desde sempre” alguma coisa inteligível. Como se mulheres trans também não enfrentassem um mundo transfóbico desde pequenas. Pessoas trans também nascem nas sociedades e “desde sempre” precisam lidar com o imaginário hegemônico que invalida nossas vidas e marginaliza nossas possibilidades de se colocar no mundo. Não existe “socialização” sem sociedade, e em nossa sociedade, transfobia funciona de forma estrutural e estruturante.

Não são apenas mulheres cis que “desde sempre” precisam lidar com opressões estruturais de gênero. Mulheres e pessoas trans também “desde sempre” tem que lidar com transfobia, porque a transfobia não se origina no fato de fulana ou beltrana transicionarem; transfobia existe previamente a qualquer tomada de consciência individual de que as pessoas trans não sejam cis; transfobia existe previamente ao fato de pessoas trans transicionarem. A transição não é o que torna concreta a opressão transfóbica; o que torna concreta a opressão transfóbica é a exclusão e legitimação e justificação discursiva da exclusão de pessoas trans da sociedade.

Sobre o assunto, leia também:

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[+] Afinando A Noção De “Socialização” E Refutando Algumas Distorções.

[+] Afinal, mulheres trans tiveram uma socialização masculina? Por Maria Clara Araújo dos Passos.

Notas

Texto publicado originalmente no seu perfil do Facebook em 13/03/2017.

Crédito da imagem: Campanha do Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC para o Dia da Visibilidade Trans.