Manifesto Transgênero

Amanhã, dia 29 de janeiro, é o Dia Nacional da Visibilidade Trans. A data tem o objetivo de ressaltar a importância da diversidade e respeito para o Movimento Trans, representado por travestis, transexuais, transgêneros e outros grupos que subvertem a heteronormatividade e o cissexismo das relações humanas. Durante essa semana publicaremos cinco textos sobre o assunto.  A hashtag que será usada nas redes sociais para divulgar textos e outras informações é: #VisibilidadeTrans.

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Manifesto Trangênero

Texto de Jaqueline Gomes de Jesus*.

“O natural é uma pose difícil de ser mantida”, Oscar Wilde.

Bandeira do Orgulho Transgênero.
Bandeira do Orgulho Transgênero.

A maioria sequer suspeita, mas vivemos hoje no Brasil um momento singular. Das margens da sociedade se subverte nossa história conservadora de controle sobre os corpos.

O “Sexo-Rei” sofre desgastes ante à emergência de cada vez mais pessoas que vivem gêneros independentemente de seus órgãos genitais: andróginos, crossdressers, transexuais, travestis, queer, drag queens e kings, todos que, em suas particularidades sociais e identitárias, caibam sob o guarda-chuva de identificações e práticas que chamo de “transgênero”, diferenciando-o de outro guarda-chuva, o “cisgênero”, no qual também há muita gente diferente entre si, mas que têm em comum a auto-identificação de seu gênero com o que lhes foi atribuído ao nascimento.

Arriscando-me a ser rotulada como ideóloga de um futuro trans (reduzindo aqui o termo “transgênero”) da cultura brasileira, antevejo que o processo de visibilização das pessoas trans irá se acelerar, desnaturalizando a crença falaciosa nos gêneros como categorias simples e imutáveis frente aos mecanismos históricos e culturais.

Entretanto, estamos na véspera dessas mudanças: a cidadania trans e a identidade de gênero da população transgênero são vilipendiadas pelo Estado, por instituições, grupos e pessoas. Formadores de opinião, em todos os meios de comunicação, preservam o juízo de que os gêneros e suas expressões são desígnios puramente biológicos, traduzidos em termos de cromossomos, pênis e vaginas. O direito a adequação de seus registros civis é impedido, na ausência de Leis que reconheçam as suas demandas ou mesmo na presença de operadores do Direito contrários à livre expressão de gênero. O seu direito a vida é ferido cotidianamente, no país em que mais se matam pessoas trans no mundo.

As divergências a esses discursos e práticas sociais, apresentados pelos movimentos feministas que criticam o essencialismo biológico e pelos movimentos de pessoas transexuais, especialmente, desestabilizam a segurança de alguns nos pressupostos sobre o que os fazem ser como são (homens ou mulheres) e o que isso significa.

São potencializados temores que, desde fins do século XIX, com o início do movimento feminista, estão no núcleo das inquietações contemporâneas: a possibilidade de haver libertação das amarras de gênero, o que fragiliza a estabilidade das identidades e a “naturalidade” corporal do ser mulher ou homem.

A revolução trazida pela população transgênero ainda está em curso, e afetará toda a sociedade. A festa de seu lançamento já foi marcada nas redes sociais da internet, e em breve se espalhará pelas ruas.

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*Jaqueline Gomes de Jesus é doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília – UnB e pesquisadora do Laboratório de Trabalho, Diversidade e Identidade – LTDI/UnB. Escreve no blog: Jaqueline J.

Glee: fórmula nova, velhos preconceitos.

Elenco da 4ª temporada de Glee. FOX/Divulgação.
Elenco da 4ª temporada de Glee. FOX/Divulgação.

**Este texto possui spoilers da quarta temporada de Glee, que ainda não foi lançada no Brasil.

Desde que estreou na TV norte-americana, em 2009, o seriado Glee tem sido elogiado e recebido diversos prêmios por seu caráter tolerante e de respeito às diferenças. A história, sobre um clube de coral recém-reativado no colégio William McKinley High School inovou ao relatar a passagem escolar sob o ponto de vista dos alunos “fracassados” e por isso conquistou o carinho de milhares de adolescentes e jovens adultos que de alguma forma também não se encaixam nesse padrão magro, branco e heterossexual de normalidade.

Sua boa dose de humor, performances musicais que surgem do nada e as atitudes questionáveis dos personagens principais evitam que Glee caia no clichê maniqueísta de coitadinhos injustiçados. É muito comum se pegar odiando a estrela do grupo, que lamenta não ter muitos amigos, mas passaria por cima da própria mãe para conseguir um solo, e ao mesmo tempo simpatizar com a bully que se esconde por trás de uma máscara de agressividade para não ter que lidar com os sentimentos não correspondidos pela melhor amiga.

No entanto, está cada vez mais difícil acreditar que o autor Ryan Murphy e sua trupe têm um real interesse em sensibilizar o telespectador sobre as consequências do bullying e mais óbvio ainda que ele apenas explora as demandas de minorias oprimidas para atrair audiência. Ao longo desses três anos Glee tem se mostrado um show de horrores racista, machista, homofóbico, transfóbico e ofensivo a portadores de necessidades especiais, muitas vezes na forma de “piadas” inconsequentes apenas para quem não está na outra ponta da “brincadeira”.

Alguns problemas encontrados na série:

Tokenismo

Tokenismo é quando você inclui falsamente uma minoria historicamente discriminada para ser usada como troféu de que você é tolerante e sem preconceitos. Exemplo: quando um filme apresenta um único ator negro entre dezenas de atores brancos ou quando uma empresa contrata uma funcionária para trabalhar em um ambiente totalmente masculino.

Glee tem um dos elencos mais diversos da televisão norte-americana, com personagens brancos, negros, latinos, asiáticos, gordos, judeus, católicos, homossexuais, cadeirantes, portadores de síndrome de Down e, mais recentemente, transexuais. Ainda assim as principais histórias, aquelas que mereceram continuidade (já que a série parece sofrer também de TDAH) são as que envolvem personagens brancos, heterossexuais e magros.

Na segunda e terceira temporadas dois casais homossexuais ganharam evidência, mas o primeiro (Kurt e Blaine) é formado por garotos brancos e o segundo (Santana e Brittany) por uma latina e uma branca. Todos eles são lindos, mas cada casal só apareceu se beijando em duas cenas, sendo que no caso das lésbicas, apesar delas namorarem desde o início da terceira temporada e de sabermos que elas ficam desde a primeira, o beijo só aconteceu no episódio 13 da terceira temporada.

As demais minorias, se receberam algum destaque, este não passou de um ou dois episódios que depois foram varridos para debaixo do tapete. Rachel, baixinha, “cheinha” lá no início da série e “nariguda” não é o exemplo de beleza hollywoodiana que se espera de uma protagonista, mas ainda assim é heterossexual, branca e está longe de ser considerada feia.

Lesbofobia

Setores conservadores sempre criticaram Glee por ser imoral e promover uma suposta “agenda gay” e mesmo alguns fãs reclamam constantemente que o programa é “gay demais”. Enquanto tais comentários dizem mais sobre quem os vocaliza, não é segredo que a série é famosa e celebrada por relatar os desafios de ser um jovem homossexual como mais do que um simples pano de fundo.

Quando o ex-bully David Karofsky tentou suicídio, após os alunos de sua nova escola descobriram que ele era gay e lotarem seu Facebook de comentários raivosos, todos se sentiram abalados, acreditando que poderiam ter feito mais pelo garoto e que deveriam ter percebido nas suas atitudes um pedido de ajuda. Então, por que quando o menino de ouro Finn Hudson passou um episódio inteiro importunando a Santana para que ela saísse do armário, depois de ter revelado que ela era lésbica em um corredor cheio de gente, todos agiram como se não fosse nada demais, apenas uma prova do grande amigo que ele é?

I Kissed a Girl foi um dos episódios mais ofensivos que Glee já produziu. Quem é Finn Hudson, um homem hetero e popular, para dizer que a Santana tem que sair do armário? Se ele queria apoiá-la, porque não dar um abraço, dizer que estará ao lado dela e, principalmente, pedir desculpas? E onde estava a Brittany, a namorada da Santana, nesse tempo todo? Se Heather Morris teve duas falas foi muito. E como um episódio chamado “Eu beijei uma garota” não tem, sei lá, duas garotas se beijando?

Uma vez eu li que “I Kissed a Girl” não é uma música sobre uma lésbica descobrindo a própria sexualidade, mas sobre uma mulher heterossexual que decide beijar outra garota para que o namorado possa se masturbar imaginando a cena. E é difícil não acreditar que foi exatamente disso que se tratou o episódio, principalmente se repararmos na expressão dos garotos enquanto as meninas cantavam:

Finn durante a performance de I Kissed a Girl. FOX/Divulgação.

Transfobia

Desde a primeira temporada personagens que não se encaixam nos papéis tradicionais de gênero são insultados e ridicularizados. Vemos isso com Shannon Beiste (cujo sobrenome tem a mesma pronúncia de beast, monstro), a técnica do time de futebol americano que é gorda, grande e “masculina” e até mesmo com Sue, que não corresponde ao estereótipo de mulher delicada e cheirosinha.

Enquanto alguns podem dizer que as dúvidas a respeito da sexualidade de Shannon são algo claramente ofensivo e não defendido pela série, os comentários sobre Sue aparecem geralmente na forma de piadas. Em Bad Reputation, na primeira temporada, um vídeo da treinadora dançando a música Physical, da Olivia Newton John, recebeu um comentário afirmando que “O homem nesse vídeo parece a campeã das Cheerios Sue Sylvester”, seguida de um close na expressão risonha do professor inclusivo Will Schuester. Na terceira temporada, quando Sue informa a decisão de engravidar, duas pessoas perguntam “com a vagina de quem?”.

No episódio The Rocky Horror Glee Show, em homenagem à comédia musical Rocky Horror, algumas músicas tiveram seu conteúdo adaptado, já que a peça dos anos 70 é considerada muito sexualizada. A letra de Sweet Transvestite foi censurada de “I’m just a sweet transvestite, from Transsexual, Transylvania” para “I’m Just a sweet transvestite, from Sensational, Transylvania”. No entanto, neste mesmo episódio, o personagem Mike Chang, que iria interpretar o Dr. Frank-N-Furter, avisa que os pais o proibiram de participar da peça porque não acharam legal ele se vestir como uma tranny, termo altamente pejorativo.

Mais tarde, no final da terceira temporada, somos apresentados a um novo personagem. Wade Adams é seu nome de batismo, mas desde o início ela conta que sua verdadeira identidade é feminina. “Desde pequena eu brincava de ser outra pessoa, a pessoa que eu sonhava ser, quem eu sou de verdade. Eu até tinha um nome diferente: Unique”.

Unique procura Kurt e Mercedes para pedir um conselho. Ela quer se apresentar na competição de corais usando vestido e salto, mas não sabe se deve. Kurt e Mercedes afirmam que não é uma boa ideia, já que Ohio é um estado muito conservador, e vão até a competição garantir que Unique – Wade, como eles insistem em chamá-la, não faça isso. Quando Kurt tenta dissuadi-la, dizendo que sim, ele já havia se vestido com muitas roupas ousadas, mas nunca como mulher, Unique é rápida em responder “É porque você se identifica como homem”.

Mesmo assim, todos continuam a tratar Unique apenas como uma personagem, o alter ego de Wade Adams, chegando ao cúmulo de, no episódio Props, duas vezes se referirem a ela pela forma desumanizadora he/she. Ninguém questiona, ninguém diz que é ofensivo, não há um esforço da série em informar que Unique é uma mulher transexual, e que este não é um palavrão a ser evitado para não ferir os ouvidos sensíveis de jovens adolescentes.

Machismo e Misoginia

Assim como vários outros produtos da indústria cultural, Glee está recheado de falas e atitudes sexistas que nem sequer merecem ser transformados em piada, pois são frutos de um machismo estrutural, disfarçados sob o discurso do “é assim que as coisas são” ou do “você está vendo pelo em ovo”.

São pequenos detalhes que isolados talvez não incomodassem tanto, mas que soam um tanto contraditórios em um programa que se vende como progressista. Como exemplo há o fato de que, ao contrário da Santana, ninguém tenha dito para o Puck que ele só conseguirá um emprego como pole dancer ou que, diferente da Brittany, todos tenham se mobilizado quando descobriram que o mesmo Puck estava prestes a reprovar de ano.

Em Yes/no Sue sugere que Emma peça Will em casamento, mas ao comentar isso com o namorado, este dá uma risada como se a ideia fosse absurda. Em Nationals, após um ano de relacionamento, o casal finalmente tem sua primeira vez, que Emma resume com um “eu só achei que o meu homem é um vencedor e merece ser tratado como tal”, reduzindo a virgindade de uma mulher misofóbica e que sofre de transtorno obsessivo compulsivo a um mero troféu.

Já em Dance With Somebody, Joe Hart tem uma ereção ao ajudar a colega cadeirante Quinn Fabray na fisioterapia. Confuso e em conflito com a moral cristã que recebeu em casa, onde era muito mais fácil resistir à tentação (mas nem um pouco envergonhado de objetificar Quinn) Joe se aconselha com Sam Evans, que, com um discurso bem próximo ao de estupradores, justifica que na época em que a Bíblia foi escrita tudo era mais fácil. “Não existia internet e as garotas não usavam minissaia. Eu sou um bom cristão, mas não tem como um cara resistir”.

No episódio Props, Tina se cansa de ficar dançando ao fundo enquanto todos os solos são entregues a Rachel e decide não participar das Nacionais. A estrela, então, corre atrás dela e começa a discorrer sobre como é exaustivo ser a Rachel, listando uma série de atividades que precisa realizar todos os dias. Lá, entre ter memorizadas as músicas de artistas como Sondheim, Elton John e Katy Perry e ser a capitã de 16 clubes da escola, ela inclui o dever de manter o namorado interessado e fisicamente satisfeito.

Finn pede para Rachel abandonar o sonho de uma vida para que ele possa limpar piscinas, argumentando que mesmo que ela não consiga um emprego, ele poderá sustentá-la. Dois episódios antes, eles haviam discutido porque Finn se ofendeu quando Rachel deu a entender que ele não teria um trabalho quando se mudassem para Nova York. Rachel acaba aceitando esperar até que o namorado decida o que quer da vida, mas ao invés de fazer um mínimo de esforço, ele joga os panfletos das universidades no lixo antes mesmo de ler, embora continue reclamando que não tem planos para depois da graduação. O episódio termina com a Rachel dizendo que Finn é um herói.

Finalmente, quando Sue informa que decidiu engravidar, a técnica do nado sincronizado, Roz Washington, encontra a oportunidade de despejar uma série de comentários misóginos sobre a sua idade, apresentados como algo cômico e até mesmo merecido. “O que você precisa fazer é acordar e cheirar a sua menopausa. Você está ultrapassada como treinadora e todos esses hormônios tailandeses não mudam o fato de que você está ultrapassada como mulher. Você precisa começar a rezar porque você irá dar a luz uma criança que gosta de comer areia, porque isso é tudo que vai sair desses seios velhos e enrugados”.

Há vários outros problemas na série, mas este texto já está ficando grande. Depois de passar duas temporadas praticamente calados, os personagens asiáticos (que além de serem namorados, têm o mesmo sobrenome – embora uma seja coreana e o outro chinês) finalmente ganharam um destaque todo trabalhado no estereótipo, com direito ao pai exigindo que o filho fizesse exames anti-drogas diários porque tirou um A- (ou zero asiático) na prova de química. E não precisa nem mencionar a única personagem negra. Mercedes às vezes reclama quando os solos são dados para a Rachel, mas fora um relacionamento muito mal desenvolvido com Sam Evans, não sabemos mais nada sobre sua vida.

“Você deve estar se perguntando por que a minha voz se parece com a da rainha da Inglaterra”. FOX/ Divulgação

Também foi com um misto de ultraje e vergonha alheia que eu assisti a atriz Hellen Mirren narrando a voz interior de Becky Jackson, uma aluna com síndrome de Down, interpretada por Lauren Potter. Ou que Sue, ao criticar a prova de álgebra da Brittany, tenha usado a nota da Becky como parâmetro, como se ela devesse sentir vergonha por tirar uma nota mais baixa do que alguém com Down. Aliás, apesar de ser a grande bully da escola, Sue consegue sair ilesa da maioria de suas ofensas porque todos “sabem” que no fundo ela é uma boa pessoa, e porque aparentemente nós devemos achar suas falas engraçadas, tanto que Jane Lynch recebeu diversos prêmios como melhor atriz de comédia.

Engraçado mesmo é que na nova temporada, quando os membros do coral fazem piadas maldosas sobre o tamanho da nova funcionária da cantina, isso é visto como um sinal de que a popularidade talvez esteja sendo uma má influência; mas quando Shannon, depois de ter sofrido violência doméstica, diz que não vai se mudar para a casa de Sue, esta responde que arruinou uma barraca fazendo um buraco para o pescoço da “amiga” e que não sabe o que vai fazer com os nove frangos inteiros guardados em sua geladeira. E nós devemos acreditar que é só a Sue sendo ela mesma.

Aliás, embora meu feminismo tenha gostado de vê-los falando sobre violência doméstica, a forma como abordaram o tema foi, na minha opinião, totalmente equivocada. Sue e Roz se unem para desenvolver um exercício com quatro alunas que riram do olho roxo de Shannon. A lição? Cantar músicas empoderadoras, que deixem claro que, se bater uma vez, não vai haver uma segunda. Aparentemente, daria muito trabalho propor uma campanha ensinando os homens a não baterem.

Enfim, pode não parecer, mas eu (ainda) gosto muito de Glee. Baixo os episódios e as músicas, leio fanfictions, acompanho as páginas do Tumblr, e talvez por isso mesmo seus erros me incomodem tanto. Glee não é como Two and a Half Man ou Two Broke Girls, ou mesmo Zorra Total, para ficar em um exemplo brasileiro. Essas séries nunca tiveram o menor compromisso com a diversidade e não estão nem aí se tem alguém sendo humilhado. Mas outro dia estava passando Glee, o filme na TV e nele vários jovens davam depoimentos sobre como a série os ajudou a encarar momentos difíceis e a superar seus problemas de autoestima, como eles aprenderam que não há nada de errado em ser gay, ou nerd, ou mesmo em ter TOC. E me preocupa que as pessoas possam fechar os olhos para esses preconceitos porque, afinal de contas, “É Glee! Veja o tanto de coisas boas que eles promoveram!”.

Mulheres invisíveis

Texto de Leda Ferreira*.

Ela andava pela rua junto com algumas amigas, quando de repente começam a ouvir vozes, proferindo ofensas raciais e sexuais. Era um grupo de homens e mulheres brancos, héteros e cissexuais, um dos quais é defensor da supremacia branca, a ponto de portar em seu corpo uma tatuagem da suástica nazista.

Palavras de baixo calão. Ouvir xingamentos é algo dolorido, e ela passava por aquilo todos os dias. Não suportou ouvir tantos despautérios. Tinha que reagir. Confrontou o grupo que agredia verbalmente ela e suas amigas, dizendo que não toleraria preconceito. A agressão verbal se tornou agressão física, e uma das mulheres a agrediu com um copo de vidro, ferindo-a no rosto. A vítima tentou escapar, e já havia chegado à esquina quando um dos agressores – Dean Schmitz, o nazista, que já tinha histórico criminal de violência – tentou impedi-la de escapar puxando-a pelo braço na direção dele. Ao fazer isso, a tesoura que a vítima trazia para se defender – a realidade da sua vida a motivou a tomar precauções para se proteger – entrou em seu peito, e ele morreu. Quando a polícia apareceu, a vítima, que estava num ato de legítima defesa, virou a ré, e acabou sendo a única pessoa presa. Foi processada e sua liberdade lhe foi tirada.

Apesar das evidências de autodefesa que foram levantadas, e de que as agressões verbais e físicas partiram do grupo de Schmitz, a corte se recusou a levá-las em consideração. A voz da vítima foi abafada. Foi enviada para uma prisão masculina, e até os remédios receitados para um tratamento de saúde lhe foram retirados. Seus direitos foram totalmente pisoteados.

Lendo esta história logo imaginamos um roteiro de um filme de suspense, ou até mesmo um drama ocorrido no século 19. Não, essa história não é ficcional, nem muito menos aconteceu num país que não respeita a liberdade dos seus cidadãos. Isso aconteceu nos Estados Unidos da América. Quando? Não, não foi no século 19, foi este ano, em pleno século 21. Achou absurdo? Acha que as autoridades americanas enlouqueceram? Como uma mulher pode ser vítima de agressões verbais racistas e sexistas, seguidas de agressão física, e ser considerada culpada por matar em auto defesa? E que idéia é essa de enviar uma mulher para uma prisão masculina? Será que não passou pela cabeça das autoridades que ela corre risco de vida em uma prisão masculina?

Toda essa história ocorreu com uma mulher chamada CeCe McDonald. CeCe, na nossa sociedade, não é vista como uma mulher. E porque não é vista? Simples: CeCe nasceu com um pênis, e na nossa sociedade pessoas que nascem com pênis são automaticamente classificadas como homens. Os genitais são considerados determinantes do gênero da pessoa. Ou seja, CeCe é uma mulher transexual. Isso por si só já bastaria para expô-la a todo tipo de preconceito de gênero, e transfobia. Não apenas isso, CeCe é uma mulher transexual e negra, o que também a expõe a racismo.

Será que CeCe, por ter nascido com um pênis, não pode ser uma mulher? Quem dita as regras? Quem disse que pessoas com vaginas são mulheres e pessoas com pênis são homens? Por que são outras pessoas que escolhem por nós a que gênero pertencemos, e não nós mesmos?

CeCe MacDonald. Clique na imagem para ler uma entrevista em inglês do site Pretty Queer com CeCe.

Ainda: mulheres com pênis não podem ter sua pauta de obtenção de diretos incluídos na luta feminista? Quem define isto?

Mulheres com pênis na nossa sociedade são tratadas como doentes mentais. Doentes porque ao nascer não aceitaram o rótulo de gênero que lhes foi imposto. Quem determina que pessoas que não se identificaram com o rótulo de gênero que receberam ao nascer são doentes mentais? As pessoas que aceitaram o rótulo de gênero que receberam no nascimento? Por que essas pessoas deveriam ter o poder de fazer essa definição, e de interferir na vida das pessoas transexuais desta forma? Porque essas pessoas têm o poder de classificar mulheres com pênis como pessoas anormais, e de negar a elas o reconhecimento de sua identidade de gênero?

E você, que é feminista? Acha que estas mulheres são anormais? Acha que estas mulheres devem ter os mesmos direitos que você tem? Acha que você, uma mulher que nasceu com vagina, é mais mulher que uma mulher com pênis? Acha que mulheres com pênis que sofrem injustiças devem ter apoio de ativistas que lutem por seus direitos? Se sim, o que você está fazendo?

CeCe McDonald é uma mulher, negra, e transexual, que desde sempre tem sofrido preconceitos raciais, como tantas outras pessoas negras, e desde sempre tem sofrido preconceitos de gênero, como tantas outras pessoas transexuais. Ao sofrer agressões verbais e físicas e reagir em auto defesa, viu o Estado, que deveria estar a favor dela enquanto cidadã, corroborar os preconceitos sociais, raciais e sexuais ao condená-la – por ter sobrevivido – a quatro anos de assédio sexual numa prisão masculina, não só por parte de presidiários, como também de funcionários, pois um Estado que pune uma vítima para inocentar o homem branco, hétero e cissexual de seu racismo e preconceito, certamente vai fechar os olhos para abusos cometidos pelos funcionários dos presídios.

Você, mulher feminista, que nasceu com uma vagina, acha que essa história não tem nada a ver com você? Que as demandas das mulheres transexuais não podem fazer parte das pautas do seu feminismo? Que as mulheres transexuais não merecem que você lute por elas? Até quando vai fechar os olhos para as mulheres cujo corpo não é o mesmo que o seu?

Nota: No site http://supportcece.wordpress.com, é possível acompanhar notícias sobre CeCe e o blog pessoal dela, e também obter informações sobre como ajudar financeiramente, enviar cartas, mensagens de apoio, livros e revistas para ela.  Leia também o post sobre o  caso de CeCe no site http://transfeminismo.com/, que possui  mais referências em idioma estrangeiro sobre o tema.

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*Leda Ferreira é Desenvolvedora web. Feminista e mulher transexual, em início de transição e se redescobrindo mais a cada dia.