Criaminas – uma agência de publicidade virtual feita por mulheres

Esses dias, a Brenda Band nos mandou um email apresentando a Criaminas. Cansadas das mesmas propagandas de televisão, rádio, internet e revistas, um grupo de alunas da Faculdade de Comunicação Social (FAMECOS) da PUC-RS resolveu que estava na hora de mudar. Unindo conhecimentos e vivências, criaram algo para que a luta feminista não fique apenas na utopia.

A Criaminas surgiu dentro do ambiente acadêmico de publicidade com mulheres que querem ver a representação real delas mesmas em campanhas e anúncios. Por isso, fizemos uma pequena entrevista para saber mais sobre o projeto:

1. Como vocês se conheceram e se aproximaram? E já conheciam o feminismo antes da faculdade?

Nos conhecemos na FAMECOS. Quando eu sugeri criarmos uma agência de empoderamento feminino logo fizemos um grupo no whatsapp, e sinceramente, a maioria das meninas que ali estavam mal se conheciam. Alguns rostos eu nunca tinha visto, até porque, a maioria das meninas que hoje formam o Criaminas são do primeiro semestre. O engajamento e a vontade de criar pensando no feminismo veio muito forte da parte delas. Temos, claro, meninas de outros semestres, mas fiquei muito orgulhosa com esse talante delas de participarem imediatamente de um núcleo como a Criaminas.

O feminismo de cada uma de nós nasceu de vivências. Na faculdade pouco é trazido à tona. Quando assistimos a campanhas de carros, pouco enxergamos da projeção da mulher nesse tipo de vídeo publicitário e aí por diante.

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Estupro não tem classe social nem é problema de falta de educação

Texto de Mayra Cotta para as Blogueiras Feministas.

Estupros acontecem todos os dias, em todo os países e em todas as classes sociais. São cometidos por homens com os mais diversos níveis de educação e renda, contra mulheres das mais distintas afiliações política e religiosa. Não tem cor, nem etnia.

Mas como o nosso sistema punitivo, a nossa mídia e a nossa indignação são profundamente seletivos – tanto em relação a quem queremos punir quanto em relação por quais vítimas iremos nos sensibilizar – o estupro torna-se visível apenas depois que é filtrado pelo racismo e preconceito de classe que estruturam nossas relações e instituições. E, ainda assim, aparece como um fenômeno pontual, individualizado e patologizado – apenas um monstro ou um louco psicopata faria isso com uma mulher, dizem.

O estupro, contudo, é uma violência tão comum e generalizada que, quando as feministas de segunda geração, nos anos 60, começaram a politizar o privado compartilhando umas com as outras suas experiências individuais, perceberam que quase todas tinham ao menos uma experiência de violência sexual para compartilhar. Além do convívio diário com o assédio nas ruas, nos meios de transporte e nas salas de aula, as mulheres também tinham em comum o fato de já terem sido vítimas de violência sexual, em episódios que comumente envolviam conhecidos ou parentes.

Foi nos Estados Unidos de então que o termo “cultura do estupro” surgiu para denunciar esse contrato social machista que aceita, incentiva e esconde o estupro, por meio de práticas diárias de objetificação do corpo feminino e de construção da masculinidade tanto mais valorizada quanto mais viril é.

Meio século depois, a denúncia da cultura do estupro permanece firme  e, infelizmente, necessária. Em 2014, chegou ao ponto de ser reconhecida pela Casa Branca como uma questão social gravíssima a ser combatida. Na época, uma série de acusações de estupro começaram a ser feitas por e contra estudantes de prestigiadas universidades no país. A impressionante quantidade de casos desestabilizou os hipócritas – ou os tão privilegiados que conseguiam mesmo acreditar nisso – que estabeleciam relações de causalidade entre violência sexual e pobreza ou falta de educação.

Manifestação nos Estados Unidos contra a cultura do estupro. Imagem: Mayra Cotta.
Manifestação nos Estados Unidos contra a cultura do estupro. Imagem: Mayra Cotta.

Poucas foram as mulheres, contudo, que se surpreenderam. Afinal, a cultura do estupro nas universidades estadunidenses apenas reproduz as práticas comumente toleradas e frequentemente incentivadas socialmente, seja na rua ou em casa, no bar ou no trabalho.

A diferença é que jovens universitárias da Ivy League fazem parte de uma elite econômica e intelectual que mais facilmente consegue vocalizar suas lutas por conta da posição de privilégio que ocupam. Ou seja, é mais difícil abafar uma denúncia de estupro de uma estudante de Harvard do que de uma moradora da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A luta contra a violência sexual, portanto, precisa ser tão sistêmica quanto o é a cultura do estupro. Isso significa uma resistência diária a todas as piadas, brincadeiras, propagandas de cerveja e de margarina, fiu-fius, apalpadas e tantas outras práticas tão repugnantes quanto socialmente aceitas.

Mas isso também significa que só daremos passos definitivos quando nossa capacidade de nos solidarizarmos com as vítimas e de nos revoltarmos contra os estupradores não dependa nem dos padrões de comportamento impostos desde cedo às mulheres, nem da seletividade do nosso ímpeto punitivo racista e preconceituoso de classe social. Organizemos nossa indignação coletiva por todas as vítimas – e contra todos os estupradores.

Autora

Advogada feminista, entusiasta da Política e resistentemente otimista quanto à possibilidade de um mundo melhor. Formada em Direito pela Universidade de Brasília, mestre em Direito Criminal pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e doutoranda em Política pela New School for Social Research, em Nova York.

Seria o machismo o patrimônio da Universidade Federal do Paraná?

Texto de Mariana Bonadio para as Blogueiras Feministas.

A Universidade Federal do Paraná, neste maio de 2015, evidencia-­se como mais uma instituição universitária em que ainda predomina a violência de gênero contra a mulher e onde o machismo se apresenta de forma institucionalizada.

Demonstrações de tal ordem vem se estendendo desde o ano passado em diversas instituições universitárias: ofensas transfóbicas nos banheiros da UNICAMP; professor de Direito da PUCRS — que em meio a uma série de comentários misóginos tornados comuns em sala de aula — discursa que “as leis são como as mulheres, foram feitas para serem violadas”; a omissão da USP para coibir os abusos em trotes e festas universitárias do curso de medicina e sua participação no silenciamento das estudantes vítimas de estupro que denunciaram seus agressores; entre outros tantos casos denunciados.

Em realidade, evidências do machismo presente na UFPR não são novidade. Por exemplo, em 2012, o centro acadêmico do curso de Direito (na época comandado pelo Partido Democrático Universitário) distribuiu um manual de sobrevivência aos calouros ensinando como se dar bem na vida sexual utilizando artigos da legislação brasileira. Um manual de apologia ao estupro sem grande reação por parte da universidade em resposta, mesmo após manifestação de repúdio promovido pelo Grupo de Gênero de Direito. Isso, sem consideramos o cotidiano misógino e LGBTfóbico que predomina no ambiente acadêmico. Mas, a mais recente violência estampada revela a perversa associação do sexismo à lesbofobia, e uma das faces cruéis da violência de gênero: a ameaça de estupro as mulheres lésbicas em um cartaz encontrado no espaço do curso de Arquitetura e Urbanismo em que se lê: “suas sapatas filhas da puta vou estourar suas bucetas e encher seus cus de porra”. Assim como a adição de escritos pejorativos à sexualidade das estudantes em cartazes expostos neste espaço, que eram resultados de uma intervenção feminista realizada no campus Centro Politécnico.

Marcha das Vadias de Curitiba/PR em 2014. Foto de Foto: Giselle Durigan/Arquivo pessoal.
Marcha das Vadias de Curitiba/PR em 2014. Foto de Foto: Giselle Durigan/Arquivo pessoal.

Esse discurso de ódio é a exteriorização da cultura do estupro usada como arma para silenciar mulheres em processo de luta por representatividade dentro da universidade, alimentada pela omissão (pelo menos até o momento) da própria instituição. Para além da banalização do estupro, essa violência é dupla. À frase perturbadora do cartaz, soma­-se à explícita apologia a agressão sexual e física, o ódio latente ao “atrevimento” das mulheres, aos olhos dos agressores, em negar o valor superior da masculinidade na sociedade. Um ódio movido pelo senso distorcido de inferioridade e subjugação do feminino e de uma relação de controle e dominação da sexualidade das mulheres, típica da cultura patriarcal. Demonstra que vivemos em uma cultura pouco tolerante às expressões de gênero e às diversidades sexuais. Mais, que as intolerâncias quanto a luta feminista adquirem perversidade agravada contra lésbicas e bissexuais, cujas vivências e violências são ainda mais invisibilizadas.

O ato ocorrido na UFPR é sintomático da ordem simbólica das feminilidades e masculinidades construídas socialmente em uma matriz binária, heteronormativa, sexista e cisgênera. A partir das construções de diferenciação de gênero em domínios de desigual valoração — (re)produzidas nas instituições, na cultura e na linguagem, nos meios de comunicação, etc. — ­percebemos a subjugação do feminino pelo masculino como traço constitutivo da organização social no Brasil, e da marginalização das pessoas que não se adequam a essa binaridade e cis/heteronormatividade das (re)produções de gênero. Essa dominância institucionalizada viabiliza as tentativas de regulação e limitação da conduta das mulheres ­ tentativas em formas de ameaça de domesticá-­las e controlá­las, como vemos neste ato. Se essas tentativas são silenciadas, como aparentemente tem ocorrido na instituição em pauta, legitima­-se a exclusão simbólica e social das mulheres e de grupos minoritários enquanto sujeitos políticos.

Não surpreendentemente, o posicionamento da reitoria da UFPR foi o de afirmar­-se contrária a toda forma de intolerância e agressividade e, de forma neutra, que “após apuração do caso, todas as medidas cabíveis em coerência a esta posição serão adotadas”. Basta dizer que essa resposta não emitia nenhuma referência explícita ao conteúdo do ocorrido, mas se ateve em assegurar a posição de respeito da instituição à diversidade. Quase como se escrita pela mesma pessoa, assim também posicionaram-­se USP, UNICAMP e outras tantas quanto às suas situações particulares. O que essas instituições parecem ignorar é que apresentarem­-se desfavoravelmente a ações de apologia à crimes e discriminações diversas, sem envidar esforços de superação à cultura sexista e misógina que predomina em seus corredores, é apenas uma forma de eximirem-­se de suas responsabilidades e recusarem­-se a assumir sua conivência.

Porém, neste caso concreto, talvez surpreendentemente, o posicionamento oficial do departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Setor de Tecnologia­ e a reação de professores e de outros centros acadêmicos do referido setor­ foi o caminho inverso: o de reprimir a manifestação contrária ao cartaz misógino, lesbofóbico e de apologia ao estupro. Uma oficina de estêncil foi promovida e o dizer: “Machistas não passarão”, pintado em algumas paredes do campus. A acusação ao grupo que realizou a intervenção foi de “vandalismo” e de depredação do patrimônio, numa tentativa de deslegitimar a manifestação.

Infelizmente, essa reação também é sintomática do machismo institucionalizado na UFPR, ao dar maior peso de repúdio à ação feminista do que ao cartaz machista, sob a ameaça de efetuar um processo administrativo contra as alunas e alunos que participaram da ação. O que aparentemente os representantes do departamento e do setor desatendem é que o estêncil não é apenas uma pichação, mas uma ação política que busca garantir dentro do espaço da universidade o exercício de direitos plenos e iguais a todos os seus usuários e forçar um questionamento e mudança na cultura institucional, ­o que deveria ser responsabilidade da própria instituição. A menor delas: oferecer segurança e integridade às mulheres e grupos minoritários no uso de seu espaço.

Como ato político, a “pichação” reivindica lugares de fala e de representatividade que são limitados para as mulheres e grupos minoritários dentro da universidade. Desta forma, se mostra fundamental como fortalecimento de sujeitos políticos com poder de ação para a transformação das realidades de exclusão e dominação que vivenciam, possibilitando o rompimento com o essencialismo implícito na subordinação da mulher e na marginalização do ‘outro’.  É uma forma de resistência em contraposição aos ideais conservadores e machistas que se apresentam no cotidiano acadêmico.

Se estratégica fosse, a UFPR aproveitaria a oportunidade para utilizar ambos os episódios de forma propositiva e pedagógica, para estimular o debate quanto aos marcadores sociais que produzem diferenças e desigualdades no interior da academia. Deveria problematizar a questão da violência de gênero para, enfim, enfrentá-la. O silenciamento quanto ao machismo sistêmico da instituição e a insistência na repressão do posicionamento de luta por um local de fala legítimo constituem uma resistência injustificada em um contexto de construção de discursos para o desmonte de relações desiguais.

Ao menos a direção do Setor de Ciências Jurídicas e o Laboratório de Investigação em Corpo, Gênero e Subjetividade na Educação se propuseram a organizar uma mesa redonda (a ser realizada no dia 16/06/2015) para debater o enfrentamento da violência de gênero na universidade. Aparentemente sem grandes diálogos entre os setores envolvidos no ocorrido, e não sendo uma resposta oficial da reitoria, mas ainda assim um passo mais que necessário para abrir o debate na UFPR.

A pergunta que a Universidade Federal do Paraná deverá ainda responder é: qual o “patrimônio” que deseja preservar? Alguns pares de paredes pintadas ou o machismo? A resposta contra o machismo institucionalizado irá definir se esta pretende servir como ferramenta legitimadora das opressões de gênero ou como espaço para a transformação social. Irá determinar se é um “ambiente pluralista, onde o debate público é instrumento da convivência democrática”, e se sua missão é efetivamente “contribuir para a formação do cidadão e o desenvolvimento humano sustentável”. Ou não.

Aguardamos. Mas enquanto aguardamos, Machistas não passarão!

Autora

Mariana Bonadio é feminista, mestre em desenvolvimento territorial sustentável, com uma atuação orientada pelo campo feminista interseccional.

+ Sobre o assunto: Nota de solidariedade às mulheres da UFPR do Coletivo Quebrando Muros.