Assédio, cultura do estupro e adolescentes feministas

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

Aviso: Há o relato de uma situação de abuso sexual vivida por mim quando criança.

Eu tinha 4, 5 anos e vestia o uniforme do jardim de infância: um vestido tipo o das personagens da Turma da Mônica só que em azul, com uma margarida e meu nome bordados. Ele já tinha uns 17, 18 anos. Morava perto da casa da minha avó, que na verdade era perto da casa dos meus pais também. Era meio que um parente, inclusive.

Estava justamente sentada na porta da casa da minha avó, que eu ficava lá a partir da hora do almoço, depois de chegar da escola, quando ele se aproximou. Na noite anterior, eu tinha ficado até tarde ajudando minha mãe a decorar latinhas de refrigerante que, forradas com papel camurça e decoradas com olhinhos e orelhas, viravam fofíssimos porta-lápis que ela daria a seus alunos do ensino inicial. Lembro-me da minha euforia em ajudá-la nisso. E de poder ficar acordada até depois das dez. E sei que, por causa disso, era outubro, na semana do dia das crianças.

Ele disse que minha mãe tinha pedido pra que eu o acompanhasse até minha casa pra pegar as latinhas, que ela não tinha levado. Achei estranho, porque tive a impressão de vê-la saindo com as latinhas numa sacola. Mas, achei que fazia sentido também. “Como ele poderia saber das latinhas?”, pensei. Acho que pensei. Enfim. Eu tinha 5 anos. Fui com ele. Chegamos lá e perguntei se ele tinha a chave. Ele respondeu que não. Demos a volta pelo corredor que levava ao quintal e tentamos abrir por lá. Tudo trancado. Foi aí que ele me mandou levantar o vestido. Recusei. Disso me lembro muito bem. Assim como consigo visualizar a cena, que em minha lembrança tem cor. Meu vestido azul, ele de calção amarelo, sem camiseta. O quintal marrom, de terra. A porta da cozinha cinza, descascada.

Mas, a partir desse momento, já não me lembro de mais nada. Sei, com certeza, que o estupro acabou não ocorrendo, mas não me lembro como saímos de lá. Sei também que contei a história à minha mãe naquele mesmo dia, porque imediatamente fomos as duas até a casa dele, no lusco-fusco do fim da tarde, quase noite. E é quando a memória volta. Porque me lembro claramente da minha mãe conversando com a mãe dele, nervosa, fazendo ameaças de chamar a polícia se ele se aproximasse de mim de novo. A mãe dele se comprometeu a falar com ele e ele mesmo não apareceu por perto.

Minha mãe me pediu pra não contar ao meu pai, porque temia muito sua reação. Na verdade, no fundo, acho que eu também. Talvez ele fizesse algo bem grave se ficasse sabendo. Uma vez, anos mais tarde (eu já com uns 11, 12), quando ele se deu conta que eu tinha sido abusada na rua sem que eu precisasse dizer nada, apenas pela expressão pálida do meu rosto ao entrar em casa, saiu como um doido atrás do cara, e eu sentindo um misto de medo e vontade de ele encontrar e socar o desgraçado!

A gente sente isso, né? Acho normal sentir. Dá vontade de socar, matar, querer que o abusador sofra algo parecido com a violência que perpetrou. Faz parte da catarses mental, creio. Mas, a gente também entende que nosso imperativo moral nos impede de nos transformar na pessoa violenta dessa sociedade violenta que tanto queremos desconstruir. E apoiamos responsabilizações legais e justas. E pedimos por educação, educação, educação. E acreditamos que a crítica precisa ser no macro, que o investimento precisa ser em mudar a estrutura.

A violência contra mulheres e a campanha #PrimeiroAssedio

Nos últimos dias, o assédio vivido pela menina de 12 anos participante do MasterChef Júnior me fez reviver essa e muitas outras histórias, pois foi um dos episódios mais nojentos que já vi acontecer na web. Mesmo não surpreendendo, porque, enfim, sofrer assédio desde novinha é um clichê na vida de muitas de nós, não fica menos aterrorizante. Especialmente porque sai das ruas, em geral restrito aos nossos ouvidos, e vai pras redes sociais, com toda sua amplitude e replicabilidade.

Aliás, isso acabou estimulando uma campanha criada pela Think Olga com a hashtag #PrimeiroAssedio, gerando mais de 80 mil tweets, com relatos muito tristes e dolorosos. Tenho várias lembranças que me desconcertam até hoje. Uma vez, dois caras ficaram andando sempre alguns passos atrás de mim tecendo comentários sobre o quanto eu era “selada”. Ou seja, que o formato de minha bunda permitiria que eles me colocassem numa sela, me pusessem de quatro e me montassem enquanto metiam. Como uma mula. O racismo disso só entendo hoje. Mas, a desumanização, esta eu senti desde o primeiro segundo.

Eu tinha 11 anos.

Junta isso com a aprovação pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados do PL 5069/2013, de autoria de Eduardo Cunha, que dificulta que mulheres vítimas de abuso sexual e estupro acessem o atendimento emergencial do SUS, já que para isso será necessário um exame no IML, a gente fica assim, se sentindo um lixo mesmo, dentro dessa estrutura que estimula e justifica violência sexual e que culpabiliza mulheres vítimas dessa violência.

Palestra sobre machismo e racismo em escola do ensino médio. Foto de Cobogó - Curadoria de Inteligência Criativa.
Palestra sobre machismo e racismo em escola do ensino médio. Foto de Cobogó – Curadoria de Inteligência Criativa no Facebook.

Pela Casa de Lua, ONG que dirijo, tenho andado em escolas de ensinos fundamental e médio, tanto públicas quanto particulares, participando de conversas e debates sobre gênero, principalmente depois que o tema foi banido do Plano Municipal de Educação da cidade de São Paulo.

Inclusive, nos locais que fui, sempre foram as alunas que nos convidaram e organizaram o evento. Aliás, nessas escolas e algumas outras que tomei conhecimento, vi ou soube de estudantes muito jovens se organizando em coletivos feministas ou na perspectiva do feminismo. Os temas do assédio e cultura do estupro são os mais urgentes. Dizem respeito à vida cotidiana, que elas percebem desde cedo, e têm relação direta com o direito de ir e vir, com a liberdade, com vivências e experiências de desejo e sexualidade que se confundem nesse emaranhado perverso que coloca sexo, tesão, descobertas e violência sexual num mesmo balaio.

Na escola municipal onde meu filho caçula estuda, as meninas se organizaram e convocaram colegas, professores e gestores pruma assembleia no pátio. Uma de suas principais demandas é o direito de usar a roupa que quiserem sem o risco de assédio. Vários depoimentos surgiram, inclusive de meninas muito jovens, ao redor dos 9 anos, que disseram no microfone que não querem mais ser “xingadas” de gostosas, o que me parece reiterar uma possível mudança de narrativa muito expressiva.

O que isso terá de impacto ainda não sei. Acredito que ainda não seja possível mensurar as implicações nos formatos de novos agrupamentos de mulheres, principalmente dessa faixa etária, ou nos relacionamentos e nas maneiras de lidar com o próprio corpo e com o outro. Ou nos jeitos de reagir ao machismo e mesmo na semântica e nos novos significados e juízos de valor que algumas palavras vão recebendo e de seus contextos.

Pode até ser que se acirre a misandria. Inclusive porque quanto menos passivas elas são, mais defensivos e agressivos eles podem ficar. E nesse bem bolado, muita ferocidade pode rolar. Ao mesmo tempo, vi meninas dizendo que sem os colegas homens o caminho fica muito mais complicado e que elas querem que eles se envolvam nas conversas sobre gênero. Uma delas me disse que falar de gênero é falar de redução da maioridade penal, porque impacta expressivamente a vida dos meninos! O caso é que tudo isso me parece novo, enorme, instigante e quero muito mais estar junto e perto delas do que apenas criticando possíveis radicalismos. Talvez, sejam inevitáveis em alguma medida e podem ser modulados e problematizados com o tempo.

Sou de uma geração educada a se calar numa situação de assédio ou abuso. Ou a enxergar como elogio. Sublimei por anos a história das latinhas e mesmo com minha mãe só voltamos a tocar no assunto há pouco tempo. Quando meu colégio fez uma reunião com as meninas da minha sala e nos responsabilizou pelo comportamento abusivo dos meninos, nós nos calamos e aquiescemos. Não soubemos responder e dizer que a culpa não era nossa. Não tínhamos repertório ou empoderamento pra isso. Assim como, com 16 anos, eu não teria coragem de subir no palco do pátio da escola e na frente de quase 200 colegas gritar que Top 10 Vadias é absurdo, que quem faz isso não tem respeito, e que é uma enorme violência que uma menina sofre na escola. Vi acontecer na minha frente, numa escola pública em Parelheiros, no extremo sul da Grande São Paulo, não tem nem 5 dias.

Mais tarde, vi essa mesma adolescente respondendo pruma colega que disse que “as meninas precisam se dar ao respeito” que seu corpo não é mercadoria pra alguém dizer quanto que vale ou não. “Se eu me esfrego com um monte de menino no muro da escola, isso não é da conta de ninguém e não diz que eu valho menos do que qualquer outra pessoa!”. Nesta escola, a organização se deu pelo grêmio, que só se consolidou mesmo quando elas assumiram. E por ser tocado por alunas, o olhar feminista já está no DNA. Algumas delas, inclusive, vêm com um ativismo interseccional empírico, porque já participam de outros movimentos sociais já existentes na região, como coletivos negros formado por mulheres. Na escola, se agruparam com colegas brancas e não-brancas, tentando construir juntas um jeito próprio de atuação.

E não vi, até agora, um discurso vitimista. Vi foi valentia.

Sinto que elas estão ávidas e urgentes por mudanças e muito mais informadas do que muitas de nós na mesma idade. E esta percepção não é só minha. Gente que trabalha com adolescentes também está vendo isso acontecer. E elas não querem mais ficar caladas enquanto são encoxadas no transporte público ou são “xingadas” de gostosa por desconhecidos na rua ou quando são obrigadas pela própria coordenação da escola a morrer de calor porque somente os meninos podem usar shorts no verão. E tampouco querem ser coibidas de expressar e vivenciar sua sexualidade — quando elas quiserem e não quando alguém decide sexualizá-las — porque isso pode representar convite pra estupro.

Aliás, o assunto é tão urgente que — a despeito de gênero, racismo e orientação sexual terem sido retirados dos Planos de Educação — no ENEM 2015, 7 milhões de estudantes tiveram que pensar sobre feminismo e violência contra a mulher. A prova contou com uma questão sobre a filósofa feminista Simone de Beauvoir e o tema da redação sobre violência contra mulher, com jovens usando suas próprias vivências como base para o texto.

Elas estão reagindo, com as ferramentas que dispõem. E com a mesma disposição, em alguns momentos bem belicosa, que muitas vezes o mundo age com elas também. E me interessa bastante acompanhar esse movimento e o processo. Junto com elas, se elas me quiserem por perto.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista e co-fundadora da Casa de Lua. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

É possível fazer denúncia e política sem cair na misoginia

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

Esses dias saíram na mídia diversas denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro contra o presidente da Câmara Federal, o deputado Eduardo Cunha. Enquanto o caso ganhava repercussão, o nome de sua esposa, a ex-jornalista da Globo Claudia Cruz, passou a ganhar destaque nas manchetes. Com isso, o machismo e a misoginia começaram a aparecer em piadas e textos, especialmente de militantes da esquerda. Porque, como sabemos, não há nada mais parecido com o machismo da direita do que o machismo da esquerda, daqueles que dizem defender as minorias.

Claudia Cruz virou meme porque aparece com os olhos arregalados em várias fotos. Dificilmente veremos Eduardo Cunha sendo questionado sobre as roupas que comprou com dinheiro desviado ou sobre suas expressões faciais em fotos. Mesmo tendo comentários capacitistas que focam no fato de ser estrábico, dificilmente sua aparência será colocada como uma questão principal na crítica.

É proibido criticar Claudia Cruz? Claro que não. Porém, essa crítica precisa ter foco no caso de corrupção e lavagem de dinheiro, não na vida pessoal do casal. Se uma mulher casa por interesse ou não, isso é problema dela. A vida sexual de uma mulher também é problema dela. Porém, o que vemos mais uma vez é o machismo escancarado de grande parte da esquerda que afirma estar apenas “fazendo denúncias” ou agindo em “legítima defesa”, seja lá o que isso significa.

Foto: postagem de Cláudia Cruz em seu perfil pessoal no Instagram.
Foto: postagem de Cláudia Cruz em seu perfil pessoal no Instagram.

Publiquei e vi circulando nas redes sociais críticas fortes e contundentes por parte de companheiras feministas. Especialmente a dois textos escritos por homens em grandes portais de esquerda, cujos títulos são: ‘A figura realmente fascinante do casal Cunha é Claudia’ e ‘Quando uma mulher é cúmplice num processo de corrupção, é machismo denunciá-la?’. O personagem “fascinante” é a mulher dele e não quem comete o crime? Usar o machismo para criticar uma mulher significa denunciá-la por corrupção?

Os textos e comentários sugerem que Claudia Cruz é alpinista social e associam essa sugestão às razões pelas quais ela teria se casado com Eduardo Cunha – supostamente tão desprovido de atrativos que pudessem lhe garantir um relacionamento com uma mulher como ela, bonita e famosa, que somente o dinheiro amealhado de forma desonesta poderia explicar essa união. Precisamos “denunciar” e fazer hipóteses sobre a vida privada dos corruptos e suas famílias para provar que eles não têm ética? Que cometem crimes? Precisamos colocar nosso moralismo a favor do machismo para tornar o caso pior do que já é?

Obviamente, tecer críticas à parceria e cumplicidade da jornalista às falcatruas do marido, cada vez mais evidentes, é até obrigação de quem milita nas redes sociais. Ninguém tem que ser condescendente com criminoso e/ou seu cúmplice em esquemas de corrupção, seja de qual gênero for. No entanto, usar argumentos machistas e moralistas para atacar a jornalista, fazer menção a sua aparência física, usar sua imagem para sugerir consumo de drogas ou publicar ilações sobre sua vida sexual — colocando tudo isso inclusive como motivação para os roubos do marido — não dá! Isso não pode! Porque não se trata disso.

Trata-se, repito, de uma mulher que pode ser cúmplice do marido em práticas de corrupção. O assunto é este. E o foco deve estar nele, que foi eleito e é representante da população na Câmara Federal. Não podemos perder de vista que o agente dessa corrupção é ele, Eduardo Cunha. É ele quem teve cargos públicos e hoje tem imunidade parlamentar. Em que momento isso deixou de ser sobre Cunha e passou a ser sobre Claudia Cruz?

É esse ponto que as mulheres, entre elas muitas feministas, têm criticado. Francamente, não vi nenhuma feminista pedindo leniência com Claudia Cruz por ela ser mulher. Não vi nenhuma feminista dizendo que é machista apontar a corrupção que ela teria perpetrado. É desonesto quem sugere que nossa crítica foi de silenciamento e vitimização de Claudia Cruz. O que vi, sim, foram ataques pessoais a ela e insinuações pingando misoginia que, tenho certeza, não seriam feitas se ela fosse homem. Isso entendi muito bem.

Todas as vezes que machistas, sejam eles de esquerda ou de direita, se valerem de argumentos sexistas e misóginos para sustentar suas argumentações, nós vamos criticar. Estaremos atentas. E vamos falar. Seremos chatas. E esta crítica irá para qualquer um que se valha desse tipo de colocação, seja para atacar a presidenta Dilma Rousseff, a jornalista Claudia Cruz ou qualquer outra mulher.

Acredito que esse episódio só reitera a urgência de se incluir gênero e raça no ativismo político-partidário. Caso contrário, não vamos sair da fala estereotipada, machista (e racista) para “fortalecer” argumentos. Fora ataques pessoais! Fora misoginia! Não é assim que se faz denúncia. Não é assim que se faz política.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

Moralismo, racismo e misoginia na novela Verdades Secretas

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

A novela Verdades Secretas terminou semana passada e poderia ficar conhecida como a “novela da família brasileira” segundo o recém aprovado Estatuto da Família. Na trama central, que envolve pessoas ricas e uma agência de modelos, Angel (Camila Queiroz) era uma jovem de 16 anos que ao entrar para a carreira acaba no ramo da prostituição, conhecida como “book rosa”. Além disso, envolve-se com Alex (Rodrigo Lombardi), um homem bem mais velho e rico. Em determinado momento da trama, Alex se casa com Carolina (Drica Moraes), mãe de Angel, para continuar seu caso com a garota.

Ao contrário da comoção negativa com os beijos lésbicos de Babilônia, não houve nenhum repúdio ou movimento conservador contra Verdades Secretas. Pelo sucesso que fez, dá vontade de decupar cada cena, mas os textos dos críticos já apontam o quanto essa foi uma novela com embalagem moderna, mas extremamente moralista. Portanto, vou comentar especificamente sobre dois episódios que aconteceram na última semana, envolvendo personagens secundárias, mas que mostram muito da misoginia presente durante toda novela. Atenção, esse texto contem spoilers!

A direita, Larissa (Grazi Massafera). A esquerda, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.
A esquerda, Larissa (Grazi Massafera). A direita, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.

Larissa: a puta que encontra Deus.

Larissa (Grazi Massafera), modelo que começou a perder trabalhos e tornou-se usuária de crack, teve seu ponto de virada ao sofrer um estupro coletivo na Cracolândia. Desesperada, conta o fato ao namorado, Roy (Flávio Tolezani) que, entorpecido, praticamente não esboça reação. Larissa toma consciência de seu desamparo e decide se juntar ao grupo religioso que oferece comida e pregação no local.

Assustada e impressionada com a atuação de Grazi, comecei a me perguntar: qual o sentido daquilo pra narrativa? Por que Larissa precisava ser estuprada várias vezes numa mesma sequência? Pra querer sair da Cracolândia? Ela já não teria motivos suficientes? Se não, vejamos. Algumas cenas antes, a moça tinha recusado e respondido com deboche ao oferecimento de ajuda do personagem Emanoel (Álamo Facó), missionário que a acode depois do estupro. Quando ele lhe oferece a possibilidade de sair de lá, ela ainda o provoca, dizendo que faz coisas que ele nem imagina, como transar com homens para conseguir mais pedra. A puta “agredindo” o homem de Deus.

Não queria entrar no mérito de que essa “cura” vem pela religião, mas não sei se consigo, porque parece que tudo se mistura. Obviamente, onde o Estado não entra, outra instituição ocupa o espaço. E a religião tem desempenhado o seu papel na atenção e acolhimento a usuários de drogas, mesmo com os problemas da terceirização da saúde. Sei também que, embora a novela se passe em São Paulo, onde a Prefeitura tem realizado um trabalho com resultados positivos no controle de danos e recuperação de usuários, seria mesmo bem difícil que isso fosse sequer mencionado.

Mas, tampouco consigo sublimar a cena de Larissa implorando por “salvação”, ajoelhada com os braços estendidos com uma luz por trás, como uma Madalena arrependida pronta pra receber Jesus. O estupro de Larissa foi sua chegada ao fundo do poço, segundo o próprio autor, o que parece sugerir que ela provocou a violência. Afinal, ela “procurou” por aquilo ao usar drogas, viver naquele lugar e conviver com aquelas pessoas, né? Ela “procurou” por aquilo ao concordar em ir a um lugar ermo com um desconhecido atrás da droga. A culpa pelo estupro teria sido dela, portanto. Ela foi em direção ao fundo do poço. Mas, epa! Não deveriam ser os homens que a estupraram quem teriam chegado ao fundo do poço ao cometer uma violência dessas?

E, mais, sendo essa violência o catalizador para que ela procurasse ajuda, o que podemos presumir? Que o estupro foi necessário para que ela se tornasse consciente de sua situação e, portanto, teve impacto positivo em sua vida? Seria exagero ou uma incorreção fazer uma analogia com o “estupro corretivo”, já que essa violência a teria estimulado a buscar “o lado bom da força” e uma vida dentro da norma, com Cristo, sem drogas e, possivelmente, sem prostituição? Lembrando que ela já se prostituía antes, pela agência de modelos onde trabalhava.

Larrisa sempre foi Madalena. A metáfora da violência sexual como possibilidade de remissão de pecados para uma mulher que cobrava por sexo me parece bem explícita. Assim que concorda em acompanhar o missionário, Larissa é levada direto ao culto para fazer sua conversão. Ela tinha acabado de ser estuprada, estava ferida, suja e ensanguentada, e não foi sequer fazer um exame médico e tomar um banho! Não antes do culto. E, depois, essa parte fundamental de atendimento a uma mulher violentada não apareceu. Porque não importava para narrativa. “Limpar sua alma” era a prioridade.

Lyris: a negra punida com a morte pelo book rosa.

Não satisfeito, nesse mesmo capitulo, o autor ainda nos “brindou” com mais uma cena de violência brutal contra outra personagem feminina. Depois de  participar de um grande desfile, a modelo Lyris (Jessica Cores), única personagem negra da novela, foi assassinada a facadas pelo ex-noivo, Edgard (Pedro Gabriel Tonini). na porta do local do evento, o Museu Afro Brasil — numa “coincidência” cruel e cínica que só me dei conta quando comecei a escrever esse texto.

Lá pelo meio da novela, para esconder do noivo que tinha feito book rosa com Alex, Lyris inventou que ele a teria estuprado. Edgard tenta matar Alex mas é espancado pelos seguranças do empresário. No hospital, Lyris desmente o estupro e confessa que tinha se prostituído. O noivo termina o relacionamento. Esse fato acabou servindo para precipitar uma série de acontecimentos importantes para o andamento da novela. Porém, para o autor, parece que Lyris ainda não tinha sido condenada o suficiente. Depois de tê-la “perdoado”, Edgard esperava por Lyris na porta do Museu e ao vê-la sendo abordada por um desconhecido, supôs que ela continuava se prostituindo e se aproximou com uma faca, atingindo-a várias vezes no abdômen. Horas depois, Lyris não resiste aos ferimentos e morre no hospital.

Lyris acaba sendo mais uma personagem feminina num enredo de novela que morre por razões fúteis. Que ela seja a única personagem negra, acrescenta racismo ao caldo da misoginia. O autor poderia ter usado sua morte para denunciar e derrubar o esquema de prostituição na trama, mas nada disso foi feito, a alegacão final foi que o noivo era violento e ciumento, sendo que não havia nem contexto de relação abusiva. A função narrativa dessa morte foi apenas para lembrar as mulheres que uma de nós sempre pagará pelos “erros” das outras e na, maioria das vezes, será a mulher mais oprimida socialmente. Por que Lyris teve que morrer daquela maneira se, ao contrário do esperado, seu assassinato não foi nem usado para desmascarar Fanny (Marieta Severo)? Para mostrar o que pode acontecer com mulheres comprometidas que se deitam com outros homens, especialmente por dinheiro? Para ser mais um caso de “crime passional”?

Não me parece um detalhe banal que a modelo “punida” com a morte por causa do book rosa tenha sido justamente a única personagem negra da história — outros atores negros aparecem apenas como figurantes nas cenas da Cracolândia. E nem que tenha sido ela a escolhida para concretizar um dos folclores mais usados quando se quer desqualificar uma acusação de violência sexual: ela realmente inventou um estupro numa transa consentida. Em outra novela do autor, Amor à Vida (2013), Inaiá (Raquel Vilar) vivia uma enfermeira apresentada como promíscua que descobriu ter o vírus HIV. A personagem era a única negra que aparecia desde o começo da trama. O autor a “puniu” por sua diversidade de parceiros. O que me faz pensar o quão as histórias de Walcyr Carrasco são misóginas e racistas.

Em apenas um capítulo, tivemos duas personagens femininas “punidas” de forma bárbara por suas transgressões, com atos que caracterizam muito a violência contra as mulheres: violência sexual e violência doméstica. E, com as quais costumamos ser bastante culpabilizadas: estupro (ela provocou) e assassinato (ela mereceu). Porém, também tivemos violências mais leves, embora simbolicamente agressivas.

Mulheres presas a estereótipos machistas, racistas e moralistas

Houve o episódio do aborto de Pia (Guilhermina Guinle), com muita culpa, julgamento moral e a prisão do médico que tinha feito o procedimento. Pra completar, a personagem foi apontada por todos como o símbolo da mãe relapsa, que não percebeu que o filho estava se drogando. Ela mesma assume esse papel, culminando com um discurso “a la madre Teresa” no final. E o “personal”, que desde o começo pretendia engravidá-la pra dar o golpe do baú, posando de bom moço.

Fanny foi dopada pelo amante para perder seu grande momento de conquista na carreira, o desfile final. Ao ser abandonada por Anthony (Reinaldo Gianechinni) se ajoelha e implora para ele ficar. Depois, precisa de outro boy pra levantar a autoestima. Nesse momento, vira para o telespectador e diz: – Serve. Uma cena que foi celebrada nas redes sociais, mas que é frustrante quando pensamos em sua altivez. Sua agência atingiu o topo entre as concorrentes depois do desfile, mas realização mesmo só com um homem do lado.

Finalmente, olhemos para os finais das duas mulheres principais da novela: Carolina e Angel. Ao descobrir o caso da filha com o marido, Carolina se mata, pagando com a vida a pena pela própria ingenuidade. Aliás, sua morte foi também a punição de Angel, já que depositou sobre a moça a culpa por tudo o que tinha acontecido. Além disso, Angel precisou perder a mãe de maneira tão trágica para enxergar o ciclo de abuso que vivia e se libertar de Alex, matando-o. Para coroar, ela se casa com Guilherme (Gabriel Leone) no final, pois sua busca por felicidade precisa começar com um marido, mesmo que ela tenha apenas 17 anos de idade.

E, aí, me pergunto: de que adianta a estética moderna, se o antigo continua no enredo? Aliás, é mesmo tão inovadora assim uma novela pretensamente criativa na linguagem, mas que mantém a mesma lógica machista, racista e moralista das tramas mais tradicionais?

Eu, noveleira que sou, gosto de boas tramas, boa técnica, bom elenco. Posso lidar com lugares-comuns, desde que inseridos num enredo interessante, e consigo entender as limitações de certas obras. Mas, me sinto bastante desapontada quando vejo uma trama que se pretende mais contemporânea repetir os mesmo clichês, ainda que numa roupagem bonita e bem cortada de grife. Mais uma vez, o que vimos foi muito proselitismo. Em grande medida e, principalmente em seu final, Verdades Secretas parece ter sido um grande panfleto conservador, com discurso anti-drogas, anti-prostituicao e anti-aborto baseados no senso comum, religioso, com aspectos racista, machista e moralista. Um panfleto com nudes, é verdade. Mas, um panfleto, no final das contas.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

+ Sobre o assunto:

[+] Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira. Por Iara Avila no Biscate Social Club.

[+] A verdade secreta é que a família brasileira não liga para abuso. Por Stephanie Ribeiro na Imprensa Feminista.