Velhice, saúde e o cuidado em nossa sociedade

Texto de Luciana Nepomuceno.

Esses dias, vi uma imagem sendo compartilhada nas redes sociais e fiquei mastigando meu desassossego vários dias. A imagem é essa:

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Acho que é mais ou menos consenso no universo feminista e biscate – que são, a bem da verdade, minhas bolhas – que vivemos um monopadrão de beleza que é cruel, perverso, desconfortável e deve ser combatido aguerridamente. O que eu não sei se é consenso para todo mundo dessa bolha é a impressão que tenho de que esse padrão de beleza traz a reboque a noção de juventude e saúde como valores absolutos — muito menos questionada e raramente combatida — e que pra mim é tão inquietante quanto.

Comecemos pela imagem aí de cima. O que está implícito (rá, implícito) é a afirmação de que a juventude é divertida, corajosa, ativa, inovadora e a velhice é, necessariamente, o oposto disso. Esses valores (e outros, como beleza, disposição, criatividade) costumam estar relacionados discursivamente à etapa da vida e não à pessoa ou ao estilo de conduzir-se na vida.

Se você tem, sei lá, 72 anos e por acaso tem uma ideia criativa não é porque seu “espírito” é criativo, é porque você tem “espírito jovem”. Assim, cinde-se o sujeito do seu comportamento, rótulos são criados e legitimados, determina-se mais um marcador hierárquico e valorativo. Jovem is good, velho is bad. Beleza e velhice na mesma frase? Onde já se viu? Só se for com conjunções adversativas: ela é velha, mas é bonita. Ou um elogio com depreciações implícitas: ela é tão bonita/conservada/atraente nem parece que tem XX anos. Porque, quanto mais x nos anos, claro, menos possibilidade de parecer bela. E não é só na aparência física que se condena a aceitação da passagem do tempo (affe, cabelos brancos, rugas, manchas na pele, quem quer isso? euzinha), despreza-se aprendizados, experiência e toda uma gama de conhecimentos e comportamentos construídos, especialmente, ao longo tempo.

Já me perguntaram como uma biscate aceita a passagem do tempo, se eu não ficava meio desesperada de estar ficando velha e aí não ia ter mais sexo, né. Né não. A questão tinha tantos problemas que eu demorei a aceitar que ela foi feita de verdade. Primeirinho: no meu juízo eu não tenho que aceitar ou não a passagem do tempo. Ele passa. E eu cedo aprendi com a oração do AA que é preciso serenidade para lidar com as coisas que a gente não pode mudar. Depois, tive um plus e descobri que o tempo passar só me tem feito bem. Tenho mais folha corrida em relacionamentos, li mais coisa, vi mais filmes, fiz mais reflexões, vou me tornando mais complexamente apta a lidar com o tempo que tem passado. Depois: se eu não fico meio desesperada de não ter mais sexo. Porque, claro, pessoas velhas não sentem desejo, mas se for uma velha biscate pode ser que sinta e aí não vai fazer sexo nunca mais porque velhos não fazem sexo. #SQN.

Relacionar sexualidade estritamente à juventude é outra dessas crueldades discursivas da oposição juventude X velhice. Sexualidade – como, aliás, criatividade, disposição, afetividade, alegria, ânimo, coragem, audácia, etc – é um aspecto da nossa humanidade, aliás, a acreditarmos no velhinho barbudo, é uma das coisas que nos estrutura como gente.

A essa glamourização da juventude alia-se a mitificação da saúde como valor último e imperativo ético. “É saudável” é o new “é para o seu bem”. Não importa que a pessoa não goste, não queira, não obtenha prazer, é a “sua saúde que importa” afinal “seu corpo é um templo” (#doutrinaçãofeelings), mas sempre tem um blog gostoso de ler que escapa. Porque, claro, que coisa feia a pessoa não querer ser saudável, querer só fumar seu cigarrinho em paz. E aí a conjuração fatal: vai ficar “velho e doente”.

Um intervalo para dizer que me incomoda um tanto essa coisa de moralizar os vícios alheios: cigarro, álcool, maconha, o que for. Acho que depois que a gente começa a querer controlar e julgar o que o outro faz com seu corpo fica difícil estabelecer limite até onde nossa injunção coletiva pode ir.

Voltando ao: “vai ficar velho e doente”. Foi quando eu ouvi essa frase que eu encasquetei de vez: o que é que tem? Qual o problema de ser frágil, vulnerável, precisar das outras pessoas? Mas, Luciana, ele vai ser um peso. Alguém vai ter que cuidar dele. E daí? Vivemos em relação. As relações humanas são complexas e, justamente por isso, transformadoras e enriquecedoras. Cuidar é uma possibilidade. De construção, de responsabilidade, de troca, de aprendizagem, de fruição de afeto. Vulnerabilidade e dependência não são ruins em si mesmos. Tornam-se (tornaram-se) nesse nosso contexto capitalista onde somos avaliadas pelo nosso grau de adequação ao modelo produtivo (no lugar que nos é pré-destinado, off course).

Não vivemos o cuidado, hoje, como uma troca. Vive-se como um fardo “naturalmente” a ser carregado por uma mulher. E ao mesmo tempo em que se demanda que sejam cuidadoras, esse cuidado é invisibilizado. Às mulheres é ensinado cuidar, é demandado cuidar, é cobrado cuidar. Lembro sempre do filme mexicano “Como Água Para Chocolate” e como essa imposição do cuidado como um peso acaba por afastar as pessoas, minar afetos, impossibilitar a construção de formas inclusivas de relacionamento e socialização do cuidado.

A primeira vez que vi o filme só consegui antipatizar com a mãe que impunha tal carga à filha e lhe tolhia a felicidade. Só na segunda vez é que pensei que o serviço que era imposto à Tita não era uma invenção doida da mãe dela, era um lugar socialmente legitimado. E pensei no quão assustador pode ser para uma mulher, ensinada e cobrada toda sua vida a respeito do cuidado, não ter certeza de que alguém fará por ela. Os homens não costumam se preocupar com isso, não porque os homens são naturalmente descolados e não porque os homens são uns porcos egoístas preguiçosos, mas porque enquanto as mulheres são culturalmente forjadas no cuidado eles são sistematicamente acostumados a serem cuidados.

Essa nossa sociedade é escrota demais (perdoem o meu francês) com isso e a gente vai aprendendo a não deixar ninguém entrar, a não revelar os desconfortos, os medos, as falhas. Vai aprendendo que tem que ser sempre linda, jovem e saudável ou ninguém vai nos amar, trepar com a gente, nos oferecer emprego ou mesmo ter acesso a um mínimo de vida social. O tempo vai passando e enquanto você puder fingir que não, faça-o. Depois tem que ser uma velhinha dura na queda, de alma jovem, que mora sozinha, não precisa de ninguém, saudável e que um dia, de preferência, não morre, desaparece.

Homenagem as mulheres de nossas vidas

Texto de Danielle Cony.

Nesse ano novo eu gostaria de refletir sobre renovação. Vou um pouco além do papo comercial-futurístico-premunitório-charlatão-religioso de fim-de-ano. Quero falar sobre renovação mesmo. Renovação da vida. E não há renovação sem morte.

Passei o natal com meus pais. Em minha despedida, minha avó se despediu de mim como se fosse a última vez em que eu a veria. E talvez ela de fato esteja certa. Ela anda muito fraca e já sofreu dois derrames. O que mais me deixou pensativa foi a sapiência de seu ato. Seria eu tão lúcida ao encarar o fim de minha própria vida de forma tão sensata?

Percebi com essa ação que minha perspectiva de futuro e ano novo é muito diferente de minha avó. Ela sempre foi uma guerreira. Como toda mulher que luta, não frustrou o seu sexo. Encontrou o amor de sua vida aos 29 anos de idade. Casou-se com ele mesmo tendo apenas 19 anos. Um adolescente! Imagino o preconceito que ela não enfrentou! Uma mulher que nasceu em 1918. Se hoje uma mulher enfrenta problemas por se relacionar com um homem mais novo, imagine no início do século xx. Então, minha avó sustentou sua convicção, mesmo contra a família e ficou com meu avô. E dessa relação nasceram três filhos.

Minha avó nasceu em uma família rica que vivera sua fortuna no ciclo da borracha em Manaus. Meu avô era um dos funcionários de meu bisavô. Após o casamento, meu avô esteve relacionado a um acidente com fatalidade a outros funcionários de meu bisavô. Envergonhado (e não sei até que ponto foi uma fuga por medo de processo legal) ele fugiu para o Rio de Janeiro. Veio para cá basicamente com a roupa do corpo.

Minha avó veio para a cidade tentar recuperar seu amor e marido. Não conseguiu convencê-lo a voltar. Decidida resolveu construir sua vida com muita precariedade no Rio de Janeiro. Abandonou a riqueza e os privilégios que sua família fornecia e seguiu destinada a permanecer ao lado de seu marido. Pediu que sua mãe enviasse (até então) suas duas filhas para o Rio de Janeiro.

Foi então que ela seguiu firme e forte com sua função familiar de cuidar de duas filhas, trabalhar silenciosamente todos os dias com uma rotina de acordar as 4h da manhã para fazer a marmita de meu avô, um operário de chão de fábrica que sobrevivia com um salário mínimo.

É óbvio que não foi somente a pobreza. Obviamente, seu marido é também a pessoa mais machista que conheci e convivi. Ela também suportou bebedeiras, traições, abusos psicológicos e mais o que você puder imaginar.

O mais interessante de sua história de vida é a força dessa mulher. Aos 92 anos tem um olhar sorridente e parece sempre saudosa por sua experiência de vida. Sua história. Hoje, porém, vejo que as coisas mudaram um pouco. Quem cuida dela é meu avô. Os dez anos de idade que um dia foi um problema recriminatório, hoje está a seu favor. Meu avô cuida da casa, da comida e de minha avó. E isso o fez refletir sobre sua vida e sua história também. Hoje ele tem uma verdadeira devoção por essa mulher. E acho que nunca é tarde para aprender, não?

Um brinde então a renovação da vida. Um brinde a todas as mulheres que silenciosamente são responsáveis pela vida e por sua continuidade. Um brinde as mulheres guerreiras que mesmo com os cenários mais injustos seguem como formigas na determinação de seus objetivos.

Um brinde ao Ano Novo e a Renovação.

Duas coisas que detesto e uma que necessito

Texto de Luciana Nepomuceno.

A Thayz (do incrível e reflexivo Menina de Sardas) publicou aqui um post intitulado A Ditadura Silenciosa. Ela trata de um tema que me é caro: padrões externos para meu corpo, minha vida, meus critérios, minha alegria. Em dia de muito pensar, até já escrevi um tantinho sobre isso.

São essas idéias que retornam pra serem partilhadas aqui. É que tem duas coisas que detesto. Muito. Muito mesmo. Tanto. Ai, ai ai. Pois é. Duas coisas: quando alguém diz que estou acima do meu peso e quando alguém me diz que pareço ser mais nova, ter menos idade do que realmente tenho.

Se alguém diz algo assim: “ah, mas eu pensei que você tinha X anos” (que é qualquer idade menos do que meus 35), como se fosse um elogio… Não quero, não gosto e acho um desrespeito. Como assim? Ser mais nova é melhor? Em quê? Por quê? Porque se diz isso como se fosse um elogio? Poxa, foram bons anos, todos os 35 (ou pelo menos os que lembro, que tem uma época aí de fraldas e sono e leite e cocô a toda hora que sei não…).

Eu gosto de cada idade que tive e tenho a impressão que gosto mais a cada ano. Viver é uma delícia, porque ter as recordações e marcas disso também não pode ser? Tenho o corpo da vida que levo. Tenho o rosto da vida que levo. E tudo isso é bom e não preciso me sentir mais nova pra me sentir bem. E o que é parecer ter 25 ou 35 ou 45 ou sei lá quantos anos? Qual é o padrão de comparação? É a atriz da Globo de 25 anos, malhada e produzida? É a sertaneja de 25 anos de face curtida do sol? É a sofrida presidiária de 25 anos, pele macilenta e olhos tristes? É a minha vizinha, 25 anos de boa saúde, bem alimentada, pele amorenada e olhos sorridentes cheios de ruguinhas ao redor? Quem parece ter 25 anos pra eu me parecer com ela? Fico doidinha com isso. Não é pessoal, ok, amigas? Só fico ouriçada com o assunto. É tipo uma bandeira.

Outra coisa: eu estou acima do meu peso. Como assim? Eu nunca entendi a lógica dessa frase. Como eu posso ter um peso acima do que ele é de verdade? Meu peso é esse (não escrevo porque não sei, faz anos que não me peso, mas é mais de 60, folgado – e eu tenho enormes 1,60m). Meu peso não pode ser acima do que ele é. Entende o problema? Meu peso pode estar acima de um peso suposto ideal para alguém com algumas características minhas. Mas não pode, na realidade, estar acima dele mesmo.

É uma questão de lógica. Ele é o que é o que é o que é. E, de novo, entram em cena os padrões definidos longe e fora de mim. Como assim meu peso ideal? Ideal pra quem? Alguém perguntou minha opinião? Ideal pra eu não morrer de alguma doença supostamente ligada à minha forma? (Quero dizer que não me pesei, mas faz seis meses que fiz váaarios exames e o meu colesterol, por exemplo, está em um nível ótimo).

Então o peso é ideal para alguém parecido comigo mas que não sou eu. Alguém que não curte comer panelada de manhã no mercado, que não fica horas vendo o mar e tomando cerveja, alguém que não paga um mico por um prato de torresmo, uma pessoa que não sou eu. Outra. Meu peso pode estar acima do peso dela, desta pessoa aí que não quero ser, porque fora uma teimosia e outra, um dengo e outro, um esturro e outro, até que gosto bem muito de ser eu. Assim, desse jeitinho cheio de dentes que sou.

Mas pra cortar os resmungos, uma coisa que adoro. Gentileza. Poxa, gente, tem coisa mais linda que delicadeza, finesse, bom gosto, gentileza? Não sei se me faço clara, óbvia e evidente como queria. Quando digo gentileza digo aquele gesto de extrema consideração, aquela palavra corretamente colocada, aquela ação cortês. Acho que é isso: cortesia. Sim, um tantinho formal, mas não é isso, é ser espontaneamente polido, fino, meigo. Ai, quanto mais esclareço mais confuso fica. Eu não sei dizer como é. Só sei sentir.

Principalmente sentir falta disso, na época de esbarrões sem o pedido de desculpas, de furar filas, de estacionar em fila dupla, de juntar feminismo e nazismo sem reflexão, de de de. Eu sempre digo que a vida me trata muito bem. Mas isso não é a verdade exata. As pessoas é que me tratam muito bem. Menos as que não tratam, mas porque vou pensar nisso? Gosto de lembrar os pequenos sorrisos, os obrigadas, os pois não, os por favor.

Gostava (como diz um amigo português perfeitamente gentil e cortês que usa o pretérito imperfeito onde eu usaria o futuro de pretérito), gostava de viver num mundo de pequenas gentilezas. Faço o que posso (e as que posso) pra isso. Acho bom fazer o que quero ver. Quantas pessoas podem dizer o mesmo de seus sonhos de mundo melhor?