Todas as pessoas precisam do feminismo

Texto de Camilla Machuy para as Blogueiras Feministas.

Está sendo muito compartilhado na internet um vídeo em que uma garota americana fala que não precisa do feminismo e explica suas razões. Ao ver, percebi que é um dos vídeos mais feministas que já assisti. Todos os dados apresentados sobre violência contra homens são resultados do machismo.

Ela pode não saber, mas entre as pautas do feminismo está o direito de os homens terem o mesmo tempo de licença paternidade que as mulheres e a desobrigação ao serviço militar masculino. Sobre guarda das crianças… Já ouviu falar sobre guarda compartilhada? É uma grande conquista para as pessoas frente casos de alienação parental. Já ouviu falar sobre o novembro azul? É uma grande campanha mundial de alerta a saúde masculina. Já frequentou algum site e leu lá vários casos de homens estuprados? O dilema deles também é grande quando passam por abuso. Por que? Porque ninguém dá atenção a eles. Porque a sociedade julga que eles não foram “homem o suficiente pra lutar por sua honra” e frequentemente são motivo de escárnio. Isso sem contar a quantidade de casos que jamais serão denunciados porque as vítimas masculinas não se permitem de forma alguma tocar no assunto. Isso é o quê? Machismo!

Marcha das Vadias. São Paulo, 2013. Foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil.
Marcha das Vadias. São Paulo, 2013. Foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Um caso clássico de opressão machista acontece quando você é obrigado a se calar perante uma situação de agressão, porque você não cumpriu o papel que a sociedade espera do seu gênero. Então, especialmente em casos de violência sexual, essa lógica cruel torna a vítima de abuso culpada pela agressão que sofreu. No caso em debate, essa lógica reza que a culpa é do homem agredido, porque ele tinha que “ser homem” e, obrigatoriamente, saber se defender, não ser um fraco. Além disso, na concepção machista, o homem é um ser que não pode demonstrar sofrimento, nem dor, sob pena de ser considerado fraco. O pior pesadelo de um homem: a fraqueza. Uma fraqueza inconsistente, implacável e, de maneira realista, inevitável. Porque todo ser humano em algum momento passará por alguma situação de vulnerabilidade e, o medo de demonstrar essa fraqueza mantém esses mesmos homens silenciados e paralisados, com receio de serem julgados.

O machismo oprime homens e mulheres, mas de forma diferentes. Mesmo assim, homens e mulheres são julgados e culpabilizados em situações de vulnerabilidade. O acolhimento a vítima é sempre relativizado. É por isso que o feminismo não é o contrário do machismo. O feminismo é um movimento social e político que propõe não desprezar a dor, especialmente das mulheres, mas também dos homens. O feminismo, por meio do desejo de criar uma sociedade mais igualitária, diz que os homens tem o mesmo direito de expressar suas dores e temores. Ninguém precisa estar enquadrado num comportamento X ou Y para serem respeitado como homem. Quer um exemplo? Não precisa dar cantada numa mulher na rua para afirmar sua masculinidade para os outros ou pra si. Você não precisa provar nada a ninguém!

Além disso, o feminismo serve para afirmar que não existe essa tal “responsabilidade de homem”, esse fardo pesado que muitos insistem em carregar sem motivo, porque assim foi incutido pela sociedade. Existem responsabilidades, sim, e elas podem ser carregadas por todos os gêneros, por todas as pessoas. A responsabilidade de tornar o mundo um lugar mais igualitário para qualquer gênero e/ou expressão de sexualidade é uma delas. O feminismo está aí para aliviar os ombros dos homens da pose ridícula que o machismo obriga todos eles a ter e, é claro, empoderar as mulheres.

Ainda sobre o vídeo, a garota levanta várias pautas feministas sem nem se dar conta. Temos muita desinformação sobre o feminismo por aí, por isso me parece haver tanta confusão sobre quais seus objetivos. E, vale lembrar, que ótimo que essa garota vive numa sociedade em que as mulheres podem expressar seus pensamentos livremente, podem postar um vídeo com um alcance global sem serem penalizadas por isso. Nem sempre foi assim, Miga! O feminismo é sobre igualdade de direitos e respeito. Se não fosse assim, não existiriam no mundo vários homens feministas. Obrigada pelo vídeo.

Autora

Camilla Machuy tem 28 anos e mora no Rio de Janeiro. É jornalista, faz mestrado e estuda as redes sociais. Um de seus piores pesadelos é ver que essa importante ferramenta está sendo usada para a disseminação do discurso de ódio. Por isso, faz o que pode para tornar o mundo um lugarzinho mais agradável e consciente. Esse texto foi originalmente publicado em seu perfil do Facebook em 27/10/2015.

Não medir, nem mendigar liberdade

Texto de Priscilla Duarte.

O texto se baseia no trabalho da artista Panmela Castro após a abertura da exposição Eva, na galeria Scenaruim, onde ela realizou uma performance. A reflexão recupera as razões que levaram à criação desta exposição. A “criação” de nós mesmas nos leva a discutir os processos retrógrados que ainda sustentam a lógica da nossa sociedade radicalmente patriarcal, o conceito de ser mulher e como esta deve existir, se portar, se mostrar a sociedade, se vestir e por aí vai. A sociedade se organiza com base na lógica da machocracia, o homem detém, ou quer deter, o poder tanto no poder público quanto no mando do espaço doméstico. O interesse é, por meio da reflexão engendrada, buscar elucidar de forma mais ampla e aprofundada possível, as condições desfavoráveis impostas às mulheres, por conta da hegemonia masculina desde a suposta criação do mundo com Adão e Eva.

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=39QXDgmHe1g]

Vídeo – Ruptura por Panmela Castro

Não pretendo e nem quero aqui interpretar a ação da artista neste dia, o que compartilharei aqui é o meu sentimento, que foi de um desejo de mudança, de transformação e crescimento. Só o tempo que virá vai nos dizer que transformação será essa. Mas a metamorfose representada na performance da artista me passou este sentimento de mudança e transformação. A lógica da mulher mutante que se metamorfoseia pra não se deixar enquadrar.

No Japão, raspar o cabelo representa autopunição. Em algumas favelas do Rio já houve punições assim, traficantes raspavam cabeça de meninas, mas não só, estas também apanhavam, e muito. No candomblé raspar a cabeça faz parte de um ritual de iniciação, um renascimento. Panmela rompe com a aparência da menina princesa, da boa moça pra casar e filhinha exemplar para se transformar numa outra imagem que já não podemos definir tanto, mas que interpreto como Renascimento. Depois de se olhar no espelho (da moldura vermelha com espelho escrito, Eva), ser tatuada, ter o cabelo cortado pelo público, cabeça raspada por mim, tirou maquiagens e brincos, tirou o vestido e colocou uma calça e blusa pretos e tênis preto, ali mesmo, estavam tudo dentro de uma mochilinha de maloqueira grafiteira maravilha mutante, calmamente acende um cigarro (que estava o tempo todo entre seus seios quando ainda usava o longo vestido rosa shock) sob flashes, aplausos, choros, risos, e gritos de “Anarkia” (o simbolo do “A” de anarquia é usado pela artista como uma de suas assinaturas/Tag que utilizada quando boladona) finaliza seu ato. O ato+corpo, neste contexto, a meu ver, não é apenas acessório, é instrumento de ação e proposta de intervenção. Os gestos desdobram para a discussão das circunstancias históricas ao questionamento das verdades hegemônicas, bem como a interpretação e questionamento das aparências, efetivadas inclusive por meio das artes visuais, mas principalmente da publicidade que cisma empurrar para a gente modelos padronizados e classificadamente sexistas.

Voltar o olhar para a história, revelando o contexto em que cada imagem ou discurso foi produzido e assim desnaturalizar e desaprender determinados valores meio à prática e o exercício do diálogo sobre representações visuais, corpos, vivências e afins. Por meio destas imagens de questionamento na obra de Panmela, podemos destacar como as ações machistas são disseminadas e naturalizadas ao longo de nossas existências.

O familiar, ou seja, o ‘lugar da mulher’ e os valores religiosos, no caso, e também o mito do pecado de Eva, origem das justificativas de violência contra nós, torna-se pertubador, pois fica visível o sistema de valores que nos aprisiona e o que/quem o sustenta e o reproduz.

As questões de gênero e sexualidade, as raciais e de classe são partes indispensáveis do cruzamento e intersecção com o feminismo. Desvelar a dinâmica estrutural de poder existente na sociedade que segrega e privilegia uns em detrimento de outros, é entender que a luta é de todas nós. O que nós, feministas, temos a ver com o genocídio de jovens negros? O que nós, feministas, temos a ver com a perseguição à comunidade gay? Compreender as razões que levam a sociedade a ser palco de reprodução destes valores morais e ainda privilegiar valores conservadores e discriminatórios, exige refletir vários aspectos dos atores destas histórias, dos seus valores morais, principalmente os valores burgueses cristão, branco, escravocrata, ou seja, patriarcais.

No sistema de mercado da arte, por exemplo, desde a década de 70 vem sendo denunciada a ausência de mulheres artistas tanto história quanto no mercado de artes. O que demonstra que os cânones da arte são tão conservadores e coloniais quanto a igreja. Daí entra a importância das teorias e práticas queer no debate feminista: perceber expressões não ocidentais na tentativa de descolonização das imagens, dos corpos e das vivências. O termo “queer” veio a ser incorporado muito recentemente na década de 90, na necessidade de fugir das varias categorias de classificação convencionais que se esforçavam e se esforçam, ainda, em normatizar, estabilizar, estatizar, padronizar, uniformizar, dicotomizar e institucionalizar os corpos e suas existências expressivas. Então, fugir de Uma Única história (“O perigo da historia única”, Chimamanda), que, por se querer “única”, sempre será opressiva, para movermos olhares às visualidades e produções do cotidiano e da diversidade, não fazendo distinção entre macho e fêmea, isso ou aquilo, a vida é muito mais que binarismos, podemos conceber a igualdade no entendimento da diversidade cultural e, através de lugares e não-lugares de produção e circulação de sentidos, deslocar epistemologicamente o desenvolvimento da lógica patriarcal para um universo infinito de possibilidades.

A lógica patriarcal é, inclusive, heteronormativa e isso pode, talvez, responder a pergunta sobre o que nós, feministas, temos a ver com isso (?).  A lógica patriarcal é escravocrata, colonial, e isso talvez nos responda sobre o que temos a ver com o genocídio de povos negros. A lógica patriarcal, inclusive, é cristã, e isso talvez nos responda por que nós, mulheres, somos estupradas, violadas, mortas, espancadas, tolhidas, etc. Oprimidas de tudo, ou quase tudo, pois para nós, mulheres, sobraram os lugares do interior da casa, atrás do esposo, a grande mulher que muito exaltada quando muito bem enquadrada nesse padrão de vida criado somente para ela, esse lugar sagrado da família tradicional cristã. Nosso corpo celebrado apenas quando disposto a servir a ele. O homem macho recorre à violência sempre que necessitar para manter e reafirmar sua autoridade, assim é a machocracia que vai sendo reproduzida ao longo da vida, inclusive por nós mulheres, também acusadas de machistas, reproduzimos os próprios valores que nos oprimem, por que assim nos ensinaram. Temos que desaprender muitas coisas. Não medir, nem mendigar liberdade.

Passando a maquina em sua cabeça, Panmela, me senti rasgando véus, implodindo templos; firmando um compromisso existencial que não sucumbe ao vazio das origens do celeiro. Da descolonização do (in)consciente ao abismo de significados.

Autora

Priscilla Duarte é Feminista, Diretora Consultora da Rede Nami. Mestre em Arte, Cognição e Cultura Contemporânea pelo PPGArtes/Uerj; Historiadora da Arte; Educadora; Pesquisadora; Cineclubista. Alguém que vive em trânsito e nas variações dos ritmos da vida.

Feminismo interseccional explicado por meio de pizzas

Texto de Suzana Bobadilla e Akilah Hughes. Publicado originalmente com o título: Intersectional feminism, brought to you by pizza no site Feministing em 13/04/2015. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

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A escritora e comediante Akilah Hughes criou uma brilhante explicação do que é interseccionalidade usando pizzas como metáfora. Isso mesmo! Pizza!

Usando uma criativa relação entre hambúrgueres, pizzas e pizzas de queijo, Akilah desmembra a teoria de Kimberlé Crenshaw em um simples e digestivo vídeo (esse trocadilho foi totalmente intencional).

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=FgK3NFvGp58]

Vídeo – On Intersectionality in Feminism and Pizza.

Embora, obviamente, todas nós gostaríamos de viver em um mundo onde pudéssemos falar sobre interseccionalidade sem ter que recorrer a metáforas alimentares, o trabalho de Akilah nos oferece a chance de rir, relaxar e acreditar que talvez na próxima vez em que o feminismo tornar-se assunto nacional, a inclusividade não seja uma reflexão para se fazer depois.

Então, hoje, quando você ler sobre a candidatura de Hillary Clinton a presidência para 2016 e sobre seu feminismo, pergunte-se: será que podemos ter mais que queijo, por favor?

Transcrição do vídeo:

“Akilah Hughes: Olá Youtube, aqui é @AkilahObviously! Hoje quero falar sobre um assunto que tem sido negligenciado no Youtube e na cultura pop, especificamente quando falamos sobre o discurso de Patricia Arquette no Oscar ou sobre os textos de Nellie Andreeva no Deadline, que pensa que a diversidade está ultrapassando os limites em Hollywood e que não existem mais personagens para pessoas brancas.

Hoje vamos falar sobre interseccionalidade e feminismo. Não há melhor maneira de falar sobre este grande assunto do que falar sobre pizza! É um pouco gorduroso.

Digamos que você nasceu como uma Pizza de Queijo, mas o mundo é feito para Hambúrgueres. Você pode ir a qualquer lugar e conseguir um hambúrguer, são o principal item de fast food em praticamente qualquer lugar do mundo. Então, você está tentando dizer: “Ei! Pizzas são tão boas como Hambúrgueres. Pizzas causam a mesma satisfação que Hambúrgueres. Pizzas merecem os mesmos direitos que os Hambúrgueres”. E isso é muito bom e correto.

Porém, depois há pizzas como eu, Pizzas Especiais, que possuem coberturas e características diferentes das Pizzas de Queijo e que têm seus próprios problemas para enfrentar, porque elas são pizzas e ainda têm diferentes coberturas. Perguntamos: “e quanto a nós?”.

Pizzas de queijo são, de longe, as pizzas favoritas da sociedade. Se você for a qualquer lugar haverá uma Pizza de Queijo. Em qualquer representação da sociedade, seja na arte, mídia, educação, finanças, história, as Pizzas de Queijo são as únicas Pizzas mencionadas. Você sabe, Pizzas de Queijo são tão famosas que há lanches que celebram esse sabor como Cheetos, Pringles e até mesmo bolachas salgadas! Pizzas de Queijo sempre tem grande visibilidade.

Entretanto, este não é o caso das Pizzas Especiais, entende? Nossas características são muitas vezes vistas pelo olho destreinado como um peso extra ou parte de um problema maior, e assim somos deixadas de lado, esmigalhadas, porque a crosta não nos dá suporte. É muito mais difícil ser uma Pizza Especial num mundo de Hambúrgueres.

Então, quando as Pizzas Especiais descobriram que as Pizzas de Queijo queriam unir forças e lutar pelos direitos de todas as Pizzas, elas foram empolgadas! Até que elas descobriram que todas as discussões sobre as Pizzas seriam exclusivamente sobre as Pizzas de Queijo. Na verdade, as Pizzas de Queijo diziam: “Nós lutaremos para conseguir seus direitos, mas apenas depois de atingirmos os nossos”. E agora há toneladas de vídeos e artigos que falam sobre como as Pizza de Queijo estão cansadas de ouvirem os Hambúrgueres dizerem que elas deveriam raspar sua crosta, e como as Pizzas de Queijo estão sendo insultadas pelos ingredientes que escolheram colocar em sua massa. Pizzas especiais adorariam ter o privilégio de se preocupar com coisas tão servis.

Historicamente, quando Pizzas Especiais sobem na hierarquia da cultura pop e usam essa plataforma para promover os direitos das Pizzas, as Pizzas de Queijo irão deslegitimá-las para logo em seguida, virar e dizer: “Olhe para esta Pizza de Queijo, ela tem a idéia certa”, [foto de Emma Watson fazendo seu discurso na ONU], mesmo quando ela diz exatamente a mesma coisa que a Pizza Especial estava dizendo o tempo todo [imagem da apresentação feminista de Beyoncé no MTV Music Awards].

As características únicas das Pizzas Especiais geralmente são celebradas quando ocorrem artificialmente em Pizzas de Queijo. Na verdade, quando essas características ocorrem naturalmente nas Pizzas de Queijo, elas tendem a se sentir envergonhadas. “Olhe como suas linguiças são grandes, por que sua pimenta é tão encaracolada?” [imagem de uma Pizza de Queijo com linguiça chamada de Kendall Jenner].

E as Pizzas Especiais estão, infelizmente, um pouco desanimadas. Elas ficam expostas em temperatura ambiente esperando por nós para lutar pelos seus direitos, enquanto elas vêm lutando pelos direitos das Pizzas de Queijo de forma enérgica por muito tempo. Então, como vamos resolver este problema? Você sabe, eu acho que chamamos isso de Intersecionalidade!

Quando falamos de direitos das Pizzas, precisamos falar de todas as Pizzas, não apenas das Pizzas de Queijo que são consideradas socialmente aceitáveis, dignas de confiança e merecedoras de terem um lugar na cultura popular. Precisamos falar de Pizzas que são sexualmente atraídas por outras Pizzas, Pizzas que não são sexualmente atraídas por nada, Pizzas que se identificam como Hambúrgueres e Pizzas que têm diferentes coberturas. Porque tão bom quanto elevar as Pizzas de Queijo socialmente, é um mundo que poderia ter muito mais sabor.

Obrigada por assistir e eu espero voltar em breve com outro vídeo.”

Autoras

Suzanna Bobadilla é escritora, ativista e estrategista digital. Twitter: @suzbobadilla.

Akilah Hughes é escritora e comediante. Site: It’s Akilah Obviously! Youtube: Smoothiefreak. Twitter: @AkilahObviously.