A mulher trans: gêneros e violências.

Como quem tem um corpo apenas pela ferida de o perder

(Mia Couto)

Conceituar a mulher é um processo violento. É um processo que limita a potencialidade de ser humano e, sobretudo, invisibiliza mulheres. A invisibilidade é um dos piores males que há. Porque invisibilizar é teimar que o que se vê não existe. Como uma mágica invertida. Em vez de fingir que a ilusão é real, finge que o real é que é ilusão. E o que é ilusão não tem direitos. O que não existe é pior do que o que está morto: o que existe nunca teve vida, nunca teve história, nunca teve voz.

Precisamos de mais histórias, de mais vidas, de menos violência.Para isso, falar sobre a violência contra as mulheres deve ser também falar também da violência contra as mulheres trans. Mulheres que se tornaram mulheres, como todas nós, em um processo ambivalente de mimetização e subversão. Ser mulher, como todas nós, inspirando-se em outras mulheres e, ao mesmo tempo, ser mulher, ao contrário das demais, mas também como elas, subvertendo o corpo, que impõe uma outra interpretaçãode seu sexo, que ninguém deveriafazer além delas mesmas, geralmente vinculando à genitália um gênero arbitrário.

Os dados são alarmantes. Este ano, um relatório parcial do Grupo Gay da Bahia divulgou o assassinato de 65 mulheres trans no Brasil  É necessário que esses crimes sejam computados e lembrados, também, como violência contra a mulher. Um crime de ódio contra o feminino. Contra o feminino representado, no caso das mulheres trans, ou contra o feminino representando o masculino, no caso dos homens trans. Contra tudo aquilo que ferir o heterossexismo vigente. Nele reside o ódio contra todas nós, contra o exercício da autonomia do ser humano. Nos lembram de que, a cada vez que tentarmos fugir do padrão tão esperado e tão inverossímil de nós mesmas, estaremos em perigo.

Em cada assassinato de uma mulher transexual reside o ódio pela humanidade inteira, em suas conformações múltiplas e plurais.

Os requintes decrueldade, no entanto, delineiam as especificidades da violência transfóbica: muitas vezes os corpos são mutilados e/ou queimados, porque não basta assassinar a mulher trans, busca-se também negar e apagar tudo o que a pessoa é, tudo o que ela representa. E se o Brasil vai mal, infelizmente não estamos sozinhos: na Nicarágua, quando estavam entediados, policiais obrigavam uma mulher trans ou outra, entre as dedicadas ao trabalho sexual, a ingerir veneno. Riam-se enquanto as viam convulsionar e morrer nas calçadas.

E é nas calçadas que começa também o fantástico documentário equatoriano “Patrulha Legal”, que mostra um projeto que acompanha as mulheres trans trabalhadoras sexuais pelas ruas de Quito, para que não sofram abusos de civis ou de policiais. Nele, são narradas algumas práticas outrora corriqueiras, como a de policiais atirarem as mulheres trans em uma lagoa, às três da manhã, com um frio absurdo, para se divertirem um pouco.

Uma sociedade vai mal quando o gênero escandaliza mais que a

Foto da exposição “Transexuales de Chile”

violência em suas calçadas. De fato, uma pesquisa do NUPSEX da UFRGS, coordenada por Ângelo Brandelli Costa, acaba de comprovar que o pior do preconceito, no Brasil, não se dá contra a orientação sexual, mas contra a expressão de gênero. Isto é, a performance, a expressão da identidade sexo-genérica de uma pessoa. Por isso, como as pessoas travestis e transexuais são vistas como tendo uma conduta mais desviante do padrão esperado da representação de gênero masculina-feminina, são eles/elas as vítimas mais frequentes do preconceito.

É preciso lembrar, portanto, em datas importantes como esta, que a luta por direitos das mulheres trans (e, claro, dos homens trans também) é indissociavelmente uma luta das mulheres. Das mulheres cis e das mulheres trans, das mulheres, da humanidade. Estamos todas juntas. Nesses tempos de transfobia, de homofobia, de heterossexismo, de cissexismo e o escambau, cabe rememorar o adágio feminista dos anos 70, à tona com toda a força: não seremos livres, de jeito nenhum, até que todas nós sejamos livres.

A violência não terá fim, até que tenha fim para todas.

Funk: Meninas que os meninos (não?!) gostam…

Texto de Cecília Oliveira.

Vadiagem. De acordo com o bom e velho Aurélio, eis seu conceito: “vida de vadio; malandragem. Contravenção penal que consiste em uma pessoa levar vida ociosa, sendo válida para o trabalho e não possuindo renda própria”. Há muito discutida, a ‘infração’ de levar uma vida ociosa foi ao longo dos anos reforçando seu recorte social de criminalização de classes e alguns movimentos culturais, que passaram a carregar uma alcunha criminosa. Foi assim com a capoeira – coisa de ardiloso vagabundo; com o samba – coisa de malandro preguiçoso; e agora a bola da vez é o funk – coisa de favelado traficante.

Para além do rótulo criminalizante da vadiagem, há de se levar em consideração o recorte de gênero. Homem vadio é aquele que não trabalha. Mulher vadia é puta (não no tangente a profissão, mas a promiscuidade). À época do ‘samba-crime’, mulheres não eram admitidas nas rodas, não podiam cantar, dançar ou participar da festa. “Não era coisa de moça direita”. Hoje, ser passista de escola de samba é profissão de muita ‘moça direita’. É uma arte que enche os olhos de todos, todo fevereiro/março. A mulher só serve pra ser “mãe de família” se for pudica, sem “pecados”, direita. Mas o que é ser uma moça (moça, nota-se, vinculado à virgindade) direita? Não importa se ela ganhou um premio Nobel ou descobriu a cura do câncer. Uma moça direita não pode falar de sexo. Isso é coisa de homem! Falar que gosta de sexo? Coisa de piranha!

É interessante ver que mais de um século se passou desde a criminalização da capoeira e o “endeusamento” da mulher, mas o preconceito vem passando de geração em geração, mudando apenas de objeto. Como pode tudo mudar e nada mudar ao mesmo tempo?

“Totoma! – Imagens do funk carioca”. Projeto e fotos de Daniela Corso.

A exemplo disso, no Funk, temos de um lado MC Catra, o macho alfa pegador de geral e do outro, as mulheres “pegadas”, as cachorras. Virando o disco temos Valeska Popozuda – que canta exatamente as mesmas músicas que Catra, mas que não é considerada a pegadora, é a vagabunda. Homens e mulheres podem desempenhar as mesmas funções, tomar as mesmas atitudes, optar pelas mesmas escolhas, cantar as mesmas músicas, mas lhes são reputados rótulos diferentes.

Poucos são os exemplos de mulheres que carregam o nome do Funk por onde vão, reconhecidas de igual pra igual, não depreciativo, como MC Marcelly, 19 anos, casada com um produtor musical que a dá suporte no mundo funk. Em sua música “Dona do Ouro”, a MC interpreta uma versão feminina do “Dono do Ouro”, de MC Smith.

COMPARAÇÃO EM BOX

Mc Marcelly

Nós tem um montão de novinho
E de todos nós pega uma prata
Nós da a buceta no bagulho
E se der a piroca pra outra nós capa

MC Smith

Nós tem um montão de novinha
Pra todas nós perde uma prata
Nós da condição no bagulho
Se der a buceta pra outro nós mata

Então, o que muda de fato? Qual a diferença entre Smith e Marcelly? Os olhos de quem vê e os ouvidos de quem escuta. São eles que têm o poder de ver “diferença” no intérprete de uma mesma música. “Diferença”, entre aspas mesmo.

Funk: cultura e identidade

O sexo, assim como qualquer necessidade física ou afetiva, deveria ser natural, como almoçar, como abraçar, como conversar, tendo valor igual tanto para o homem quanto pra mulher.

A nominação das coisas é singular, as interpretações é que são variáveis, de acordo com o receptor da mensagem. “Por essa forma inteiramente singular de nominação que é o nome próprio, institui-se urna identidade social constante e durável, que garante a identidade do indivíduo biológico em todos os campos possíveis ande ele intervém como agente, isto é, em todas as suas histórias de vida possíveis” (Bourdieu).

“Totoma! – Imagens do funk carioca”. Projeto e Fotos de Daniela Corso.

Da proibição ao mercado lucrativo, para homens e mulheres

Em setembro último a Lei do Funk, que confere ao gênero musical o status de movimento cultural e musical de caráter popular completou dois anos.  No mesmo dia, a Alerj revogou uma lei, criada pelo ex-deputado estadual Álvaro Lins em 2007, que restringia a realização de bailes funk e raves do estado.  A lei do ex-chefe da Polícia Civil (preso em maio de 2008, após acusações de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, entre outras) enrijeceu outra, de oito anos antes, proposta pelo então deputado Sérgio Cabral Filho (atual governador do estado). A votação foi considerada simbólica, uma vez que os deputados já haviam acordado em derrubar as fronteiras legais contra bailes funk, com objetivo de diminuir a discriminação contra o ritmo.

De acordo com pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, ano base 2008, o mercado do Funk movimenta mensalmente no estado do Rio de Janeiro, só de salários pagos, R$ R$1 bilhão e meio, entre MCs, Camelôs, DJs e equipes de som. Um MC pode ganhar, por mês, R$5.863,68. Se os shows forem em outros estados, o faturamento ultrapassa os R$17 mil. Só os MCs movimentam mais de R$ 5 milhões e meio por mês na economia fluminense.

Além de crime, coisa de vagabunda? Todos podem cantar “Ai se eu te pego. Delícia, assim você me mata!”, mas a letra não é sobre sexo, não é verdade?

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Imagens: “Totoma! – Imagens do funk carioca”. Projeto e fotos de Daniela Corso.

Marilia Coutinho, corpo e alma

Um corte na jugular separa as duas vidas de Marilia Coutinho: a angústia e a sensação de fragmentação de um lado e, de outro, a luta pela integração entre mente e corpo, através do esporte. A tentativa de suicídio, em 2005, é o epicentro de um processo de transformação que a colocou num lugar de destaque no levantamento de peso. Ao mesmo tempo, ia colocando suas reflexões em um blog. “Eu comecei a escrever no ano que eu escapei de morrer”, lembra Marília.

Marilia Coutinho, durante a entrevista para as blogueiras. Foto: Verônica Mambrini

O livro Estética e Saúde, lançado este ano, reúne esses textos. Esse foi o pretexto da entrevista coletiva que nós fizemos com a Marilia Coutinho – participamos eu, Jeanne CallegariVerônica MambriniMaia CatDaniela Valverde (de Brasília, via Skype) e Patrícia Guedes (também de Brasília, por email). A conversa, de mais de três horas, foi bem além disso. Foi aprendizado e troca de experiências, como Marília conta em post em seu blog.

O ponto central foi a desigualdade nas relações de gênero.

Eu sinto necessidade que exista mais discussão sobre as relações de gênero. Não acho que elas estejam abertas hoje. Pelo contrário, acho que estão sufocadas pela falsa noção de que foram superadas. Nada foi superado, mas a desigualdade foi substituída por uma forma diferente, tornando mais necessária ainda a nossa organização e apoio recíproco, porque são novas questões. Questões que se transmutam requerem mais esforço ainda. As questões não foram superadas e adquiriram uma forma nova, é como um vírus de ficção científica.

Mas para chegar lá, Marília contou sua trajetória. Ela nasceu em uma família da “elite simbólica”. Aos 14 anos, era a grande promessa da esgrima e se preparava para os jogos olímpicos que viriam três anos depois. Mas foi arrancada desse mundo e levada para o Partido Comunista, onde, entre diversas violências, foi estuprada. Ela revelou isso em uma entrevista para a revista Trip em fevereiro e, desde então, recebeu diversos ataques.

O que é sexo consensual? O que é realmente consensual? Sexo consentido, é consentido por quê? Eu classifico de estupro qualquer forma de sexo que não tenha sido simetricamente desejado pelas duas partes. Teve um ato especificamente, que eu inclusive denunciei internamente, em que eu tentei escapar, mas tinha sido drogada. Me deram diazepan com álcool. Mas várias outras relações que eu tive não ficaram longe disso. Porque era obrigatório, não tinha prazer nenhum.

Depois disso, ela seguiu para a vida acadêmica. Estudou biologia, transitou entre diversas áreas e se doutorou em Sociologia da Ciência.

Até 2004 eu fiquei na carreira acadêmica, em que eu ficava perseguindo grandes paixões, grandes problemas pra resolver. Mas sempre dilacerada por angustia, pela sensação de estar incompleta. A sensação de estar ok, de ser eu, feliz, satisfeita só existiu em dois momentos na minha vida. Lá atrás, quando eu era atleta de esgrima, ou agora. Eu vi que não dava, que o trajeto de mais e mais psicotrópicos pra resolver mais e mais angústia tinha chegado no ponto que não estava valendo a pena. Eu resolvi parar de tomar remédio e voltar a treinar. Me matriculei numa academia tradicional. E aí eu descobri o treinamento de força. Acabaram os meus sintomas.

Eu não acredito em normalidade. Eu tenho essa condição, que me permitiu estar em equilíbrio dinâmico – e o principal marcador pra isso é “eu estava feliz” – estava feliz enquanto eu era uma atleta de alto rendimento de esgrima, enquanto eu estava em movimento. Eu era uma só. Eu fui uma criança infeliz, fui uma adolescente infeliz. Quando eu saí da minha condição de atleta, eu não sabia mais quem eu era. Essa é uma dica importante, saber se você esta com ou sem o seu corpo. Você começa a abusar o seu corpo, a maltratar seu corpo. Porque seu corpo é seu, está em terceira pessoa. Você tem uma existência qualquer, essencial, separada dele. Isso se inaugurou quando me tiraram da identidade de atleta.

Marilia Coutinho
VIII Encontro Internacional de Esportes e Educação Física - Instituto Phorte - 31 de julho de 2011 / Acervo pessoal

Marília saiu da vida acadêmica e entrou para a academia de ginástica. Porém até descobrir exatamente o que estava procurando, o processo de tatear no escuro foi complicado. E a maneira como a atividade física é oferecida nas redes de academia normalmente também tem aspectos de alienação corporal, de obsessão com padrões estéticos.

O ambiente das academias tradicionais é tóxico, a futilidade da formulatria é tóxico. E é também negação do corpo. O corpo, se fosse cultuado, seria lindo, seria o culto à vida. Mas o que existe é o culto à morte, o culto à forma. A Real Doll é um brinquedo erótico, uma mulher de silicone, que custa 14 mil euros. Ela tem temperatura, viscosidade, fica molhada. Me deu um arrepio quando vi aquilo. Porque eram cadáveres perfeitos. Foi quando me deu esse clique: formulatria é muito parecido com necrofilia. Eles nos querem mortas. Isso é o que os ambientes de treinamento tradicionais fazem.

Ela fala com paixão dos esportes de força. Tanta paixão que mesmo uma completa leiga (como eu) consegue enxergar a poesia na concentração necessária para levantar a carga – em como levantar peso pode ser uma forma de se sentir mais leve. Porém há resistência a uma mulher, sozinha, que se torna não apenas atleta de destaque mas também intelectual no assunto – Marília escreveu De Volta ao Básico, falando sobre técnica, fisiologia e história no powerlifting.

Mulheres atletas de força são rapidamente submetidas. Em geral são bem tratadas se são mulheres de alguém. São submissas, mais caladas. Os esportes de força são simbolicamente associados ao masculino. Se eu tivesse ido para a esgrima, eu não enfrentaria a mesma oposição.

Não existe nenhum segmento, nenhum setor da vida social que seja imune ao machismo. Todos são. Dentro da USP tem violência sexista, mas é diferente da que eu enfrento no dia-a-dia da política esportiva. O grande desafio é identificar as peculiaridades da expressão da violência sexista em cada segmento.