Para onde o machismo vai nos levar?

Texto de Barbara Manoela.

Simone de Beuvoir já dizia que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. E durante muitos e muitos anos, a mulher vem lutando por seu lugar na nossa sociedade.

Essa luta vem de muito tempo: no período Mesolítico, o homem conseguiu dar grandes passos rumo ao desenvolvimento e à sobrevivência de forma mais segura. O domínio do fogo foi o maior exemplo disto. Com o fogo, o ser humano pôde espantar os animais, cozinhar a carne e outros alimentos, iluminar sua habitação além de conseguir calor nos momentos de frio intenso. Outros dois grandes avanços foram o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais. Cultivando a terra e criando animais, o homem conseguiu diminuir sua dependência com relação a natureza. Com esses avanços, foi possível a sedentarização, pois a habitação fixa tornou-se uma necessidade.

Neste período ocorreu também a divisão do trabalho por sexo dentro das comunidades. Enquanto o homem ficou responsável pela proteção e sustento das famílias, a mulher ficou encarregada de criar os filhos e cuidar da habitação.Não havia submissão, mas sim ajuda mútua entre os sexos e, em decorrência disso, as bases para o surgimento das primeiras grandes civilizações se estabeleceram.

Os anos se passaram e muitas coisas mudaram. Mulheres foram queimadas vivas na Idade Média, acusadas de bruxaria. No século XVI, negros começaram a ser trazidos para o Brasil, como escravos, e mulheres negras eram estupradas pelos seus “donos”.

Estamos em pleno século XXI. Revolução tecnológica, internet, as pessoas se conectam de todas as maneiras possíveis e compartilham conhecimento e experiências. E o que mudou no mundo? Pouca coisa. Posso estar sendo pessimista, até. Mas a violência continua matando mulheres em todo o mundo.

Houve um tempo em que homens e mulheres se respeitavam e se ajudavam, e assim, civilizações surgiram, descobertas aconteceram e dessa forma, conseguimos chegar até aqui.

E agora? Qual o caminho para conseguirmos ser respeitadas por nossas próprias escolhas, nossa TPM, nossa sexualidade, nossa capacidade de realização? Desejo, sinceramente, que o machismo nos leve a uma mudança de valores e ao rompimento de paradigmas, e que possamos construir um mundo mais justo e igualitário, para todos e todas.

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Barbara Manoela não traz a pessoa amada, mas sabe aonde a dela está.

A alma do negócio

Texto de Barbara Lopes.

“Somos capazes de ser tão inteligentes ou estúpidos quanto o mundo quiser que realmente sejamos”.

A frase está no romance Pastelão, do Kurt Vonnegut, numa carta que o narrador e sua irmã, ainda crianças, mandam a seus pais. Crianças são assim: têm uma sensibilidade e uma percepção enormes para descobrir o que o mundo espera delas e se esforçam para se adaptar e se transformar exatamente nisso.

Uma das maneiras como o mundo diz às crianças o que quer que elas sejam é através da publicidade. Tem um vídeo muito bacana mostrando como são diferentes as propagandas de brinquedo para meninas e meninos. Para meninas, são valorizados cuidados domésticos, beleza e popularidade. Para meninos, competição, poder e criatividade. (O vídeo está em inglês, mas aqui tem a tradução do Google pra transcrição; meio tosca, mas dá pro gasto). A conclusão do vídeo, com qual eu concordo, é que a publicidade para crianças deve ser proibida ou, pelo menos, altamente regulada.

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A maneira como esses estereótipos de gênero limitam as possibilidades das crianças fica clara no vídeo. Mas eu fiquei pensando em outro aspecto. Nós vivemos uma matança de meninos. Um estudo da UNICEF, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Observatório de Favelas e Laboratório de Análise da Violência mostra que o índice de adolescentes assassinados é altíssimo e que a maior parte das mortes é por arma de fogo. Meninos tem risco 12 vezes maior que meninas e negros 2,6 mais que brancos.

Não dá pra simplificar o problema, que inclui uma série de outras questões – racismo, acesso fácil a armas, violência policial são algumas. Não é uma relação direta, de acreditar que uma imagem, sozinha, é culpada por toda a violência. Mas propagandas e preconceitos não são inocentes nessa história, são o mundo dizendo que quer que meninas sejam bonitas e meninos lutem. Quando isso se junta com outras condições, o resultado é explosivo.

A gente pode querer bem melhor.