Os estupros são coletivos, mas a sociedade não se sente responsável

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Esse mês este blog fez 6 anos. Fui olhar rapidamente os textos que publicamos esse ano. Publicamos muito sobre violência contra a mulher, e desde 2012, temos publicado vários textos sobre estupros coletivos. Uma realidade que sabíamos existir, mas que parece ter sido descoberta recentemente pela mídia devido a quantidade de casos que foram noticiados nos últimos tempos no Brasil e no mundo.

Para a maioria das mulheres não é fácil ler, nem mesmo pensar sobre casos de estupro. Muitas vezes nos perguntamos porque nem mesmo amigas feministas estão divulgando o “caso de estupro coletivo do mês”. E a resposta é que muitas não tem mais estômago para ir além das manchetes. E, nesse momento, falo de mulheres que nunca foram estupradas. Não me atrevo a tentar imaginar como se sentem as muitas mulheres que viveram — ou que ainda vivem — essa realidade violenta e brutal.

Se falamos tanto sobre estupros, por que essa ainda é uma violência tão próxima de tantas mulheres? Por que a violência sexual ainda é minimizada? Por que as pessoas ainda culpabilizam a vítima? Podemos resumir tudo em machismo, mas sabemos que não é só isso. Também nos perguntamos, desde o ano passado, o que leva milhares às ruas na Argentina e em outros países da América Latina? O que falta para que as pessoas no Brasil se indignem da mesma forma?

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Mulheres belas e fortes se foram… a marcha!

Texto de Florencia Maffeo. Publicado originalmente com o título: “Mujeres bellas y fuertes se han ido… ¡a la marcha!”, no site Marcha em 19/10/2016. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Argentina, 2016. Foto de Tadeo Bourbon/Site Marcha.
Argentina, 2016. Foto de Tadeo Bourbon/Site Marcha.

“Gritos por toda noite, o vizinho e um corpo. Na estrada de terra se vai. Mulheres bonitas e fortes se foram, meu amigo, e não voltarão”. Hoje #NósParamos e nos mobilizamos. Reflexões urgentes para um dia que será história.

“Você tem raiva por ter nascido mulher?”, me perguntou minha psicóloga, em meio a uma difícil sessão, fazendo referência a forma como o mundo tem me enxergado há 29 anos. Eu não entendi a pergunta, então, em seguida questionou: “Vamos ver, me fale sobre a história das mulheres de sua família, de suas avós. Como você as descreveria? Fortes? Sofredoras?”. Comecei a pensar. Se há algo que se destaca nas mulheres de minha família é o fato de serem trabalhadoras. Duas avós que trabalharam (uma delas ainda trabalha) desde jovens. Minhas bisavós também não ficam atrás, e a reconstrução dessa árvore genealógica me leva até uma tataravó anarquista. Mulheres que trabalham no campo, empregadas domésticas, operárias em fábricas têxteis e de tabaco, cozinheiras que mantinham butecos onde comiam operários de fábricas de tijolos, professoras e babás. Mulheres que também eram chefes de família, algumas sustentaram suas famílias sozinhas. O trabalho doméstico não era algo que pudessem evitar fazer. Cuidar das crianças após um dia de trabalho, organizar a casa, limpar, passar, cozinhar, costurar e fazer as roupas — que o salário não conseguiu comprar — para vestir filhas, filhos, netas e netos. Cozinhar para toda família, pôr a mesa e lavar os pratos enquanto os homens seguiam conversando sobre futebol e política.

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As musas que foram estupradas e os debates que nunca acontecem

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Minha intenção nesse texto é falar sobre traumas, mas também sobre relações saudáveis. E, sobre as responsabilidades de todos envolvidos para que isso ocorra. Não é um puxão de orelha nos homens, nem um abraço apertado nas mulheres, é um convite para reflexão. Violência é um assunto dolorido e incômodo, mas precisamos encará-la se temos a intenção de realmente aprender algo com as experiências, sejam nossas ou de outras pessoas.

Ontem, o texto “Como foi transar com uma vítima de estupro” viralizou. Vi vários compartilhamentos. De início, li errado o título e entendi “Como é” em vez de “Como foi” e fiquei preocupada se estava rolando algum texto com uma receitinha de bolo que ensinasse a lidar com vítimas de violência. Ainda bem. Afinal, não existe receita certa para lidar com estupro, até porque não existe uma forma só de estupro, assim como não existe uma forma só de trauma ou de como lidar com ele.

Terminei de ler o texto com algum incômodo, e não fiquei surpresa ao ver textos pipocando com críticas a essa viralização. Muito se falou sobre a romantização do relato, sobre a possibilidade da moça (musa inspiradora do texto em questão) não ter consentido a divulgação da sua história, sobre como a viralização desse tipo de texto em detrimento ao de tantos outros que falam da cultura de estupro seria um desserviço à causa feminista.

Porém, acho que precisamos encarar outro ponto: se várias mulheres compartilharam é porque, em algum momento, elas se identificaram com o texto ou no mínimo acharam importante visibilizá-lo. E, ainda que possamos questionar a romantização da narrativa, este pode ter sido um recurso importante ao tratar de um tema delicado como esse. Vamos combinar que presumir que a protagonista da história não gostou ou se sentiu desconfortável com o relato faz tanto sentido quanto presumir qualquer outra coisa sobre ela. E, ainda que alguém muito próximo dos dois possa sacar de quem se trata a pessoa, houve um esforço no texto de não deixar sua identidade evidente.

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