Da angústia de sair sozinha

Texto de Georgia Faust.

Eu sempre saí sozinha.

Não importa a hora. Sempre. Acho que é algum resultado de ter crescido numa vizinhança super tranquila, onde no verão a gente até dormia com a porta da sala aberta pra entrar um vento. Nunca tive MEDO de nada, nem do escuro, nem de barata, muito menos de andar sozinha por aí.

E como na adolescência vim morar na região central de Blumenau, também me acostumei a ir a todos os lugares a pé ou de ônibus, sempre foi rapidinho e sussi. Claro que as vezes alguém mexia comigo, na verdade a quantidade de “mexidas” era cada vez maior conforme a noite ia adentrando, mas nada que não fosse administrável. Coisas que a gente – leia-se mulheres – já se acostuma desde sempre né?

Mas me assustei com o quanto a situação mudou de poucos anos pra cá. Passei uns bons 4 anos sem sair a noite, ainda mais sozinha, e ainda mais a pé. Então não sabia de como as coisas pioraram, e como pioraram MUITO!

Há mais ou menos um ano atrás saí com uma amiga minha. Fomos comer sushi (daí o pai dela nos levou) e depois quisemos dar uma esticadinha. Fomos caminhando do sushi até um barzinho MPB, que estava vazio, então fomos do barzinho até a Cachaçaria porque me deu um desejo de tomar a batida de melão com champagne deles, humm.

Mas, sério, eu não sei o que aconteceu com os homens nesse tempo em que eu estive reclusa. Porque essa caminhada de no máximo 30 minutos às 22h (mais ou menos) beirou o insuportável. Sem brincadeira e sem exagero, não teve NENHUM carro que passou e não mexeu com a gente. E nenhum pedestre também. E eram “mexidas” de todos os tipos. De “inocentes” assovios até palavras mais grosseiras, do nível mais baixo imaginável.

E que sensação horrorosa hein? Essa de estar sendo constantemente violentada. E é um medo constante. Medo de mandar tomar no cu, porque nunca se sabe se o(s) cara(s) é ou não um maluco que pode se ofender e vir nos agredir… E não podendo mandar tomar no cu, medo até de dar uma risada, por medo que o cara entenda como uma abertura e venha nos abordar. E caminhamos, cabeça baixa, falando o mínimo possível, em passos apertados, presas na condição de sermos mulheres – e desacompanhadas.

Porque é assim né. Mulher desacompanhada é claro sinal de 100% à disposição dos caprichos masculinos. Só podemos nos sentir seguras (e ainda assim nem tanto) se acompanhadas de um homem. Se sozinhas, é medo constante. Mulher sozinha não pode estar sozinha por opção, por querer simplesmente tomar um drink de melão. Se está sozinha, está a mercê, é só vir e pegar a sua.

Lembrei desse episódio numa discussão que tivemos recentemente na nossa lista de discussão (quer nos acompanhar? entre aqui). Contei desse episódio e algumas meninas responderam que realmente, a coisa piorou de uns poucos anos para cá. E eu queria entender por quê.

E daí cheguei no blog da Lola (sempre a Lola né?) falando justamente sobre isso também. E como ela consegue expressar tão bem o que toda mulher pensa/sente sobre isso, resolvi colar as melhores partes do texto ‘De quem é o abuso de autoridade?’:

Esse terrorismo institucional que faz parte da criação de toda mulher, e que começa quando somos meninas de 8, 10 anos, pros homens é besteira. Eles também são educados, geralmente pelo pai, a dispararem grosserias a qualquer gatinha que passa. Faz parte da sua masculinidade. Opa, você achou exagerado eu chamar grosserias na rua de terrorismo? Então você só pode ser homem. Pergunte pra sua mãe, pra sua irmã, pra sua filha, que idade ela tinha quando ouviu a primeira cantada, e como se sentiu. Sei que a sociedade ou faz pouco caso desse nosso martírio do dia a dia, ou inventa que nós mulheres adoramos ouvir elogios como “Quero ser seu absorvente interno”, porque faz bem pra nossa autoestima.

O princípio da cantada na rua não é o elogio. Não é a proposta, o convite. Pelo contrário, é o insulto. É a dominação. É lembrar quem manda aqui. Só quem está numa posição de poder pode avaliar. Quem é subordinado é avaliado. […] Todos os homens se acham no sagrado direito de avaliar o corpo de uma mulher. Só porque ele é homem, ela é mulher, e uma sociedade patriarcal totalmente ultrapassada decidiu que ele pode.

De Eva a Maria da Penha

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

E Marias e Geyses e Elizas e todas as outras no meio. Umas com as outras caminhamos e aqui nesse espaço a voz tem múltiplos tons, mas é única: é a voz do FEMINISMO. O tom que será dado nas linhas a seguir será simples: a proteção da mulher pelo Estado e pelo Direito é, ainda, uma criança. Impossível negar o avanço da proteção concedida pela Lei Maria da Penha, mas fato é que muito ainda há que se fazer. E muito se percorreu até aqui.

Quem não conhece, por exemplo, a famosa divisão do Direito Penal entre Evas e Marias? Ora sim, se esse não era o nome, assim mesmo parecia ser a maneira com que tratávamos da sexualidade feminina.

Nos séculos XIX e XX os crimes sexuais eram uma preocupação brasileira. E nesse momento destaca-se a figura de Francisco José Viveiros de Castro. O Código Penal de 1890 trouxe um Capítulo referente à “Violência Carnal”, em seu “Título Oitavo”, “Dos Crimes Contra a Segurança da Honra e da Honestidade das Famílias e do Ultraje Público ao Pudor”. Aqui então eram tratados os crimes de defloramento, estupro, rapto, adultério, lenocínio, atentados ao pudor e ultrajes públicos ao pudor.

Ora, naqueles tempos – como muitos acreditam que agora ainda deveria ser, não é, Bolsonaro? – a lei deveria servir como um fator de civilização para conter os impulsos da carne, garantindo os instintos básicos de reprodução e o respeito à honra da mulher. A pergunta mais importante, contudo é, que mulher?

O próprio Viveiros de Castro dizia que, em se tratando de crimes contra a mulher dois tipos de mulheres podiam se apresentar à Justiça: “Umas são em verdade dignas da proteção da lei e da severidade inflexível do juiz. Tímidas, ingênuas, incautas, foram vítimas da força brutal do estuprador ou dos artifícios fraudulentos do sedutor. Mas há outras corrompidas e ambiciosas que procuram a lei para fazer chantagem, especular com a fortuna ou com a posição social do homem, atribuindo-lhe a responsabilidade de uma sedução que não existiu, porque elas propositalmente a provocaram, ou uma violência imaginária, fictícia”.(CASTRO, 1932, pp. XIX – XX) Já pode chorar? Calma, ainda estamos no começo do século. Passado.

Não se esqueça que a diferença não estava apenas na “qualidade sexual” da mulher, mas também em sua classe social…, mas deixarei esse assunto para blogueiras mais qualificadas que eu… quem se habilita?

Quero ser breve… mas não posso deixar de dizer que o tal Viveiros era “discípulo” de Lombroso. Lombroso foi, no Direito Penal, o responsável pela definição do criminoso nato, inclinado para o crime desde o nascimento. É, isso mesmo. Imagine o estrago associado a nós, femmes. Disse, então o Viveiros: “A mulher sendo moça, oferece-se ao primeiro que lhe sorri e tem, assim, por uma operação rápida e agradável, dinheiro pronto e muitas vezes bem remunerador” (CASTRO, 1894, p. 202) E com essa e tantas outras, garantia a hierarquia entre homens e mulheres, o comportamento casto feminino e a contenção das mulheres “modernas”.

Veio o Código de 1940… e como somos modernos! Nele, ainda, Eva e Maria. Essa última “criminalmente” (desculpem o trocadilho infame, foi inevitável) denominada “mulher honesta” – a virgem, pura, inocente, tímida, ou a casada, merecedora de respeito, intocável. De outro lado, Eva. Pecadora, corrompida, e “dada” (desculpem mais um trocadilho infame) a uma vida sexual liberal. Não bastasse isso, havia ainda a interpretação de grandes juristas de que o estupro, dentro da relação conjugal, não seria crime. Era mero exercício regular de um direito! Ai meus sais!

Não pensem que 1940 está lá tão longe. Apenas em 2005, retiramos a famigerada mulher honesta de nossas vidas. Apenas ano passado, retiramos o aumento de pena em crime praticado contra mulher virgem. E apenas em 2006, editamos a Lei Maria da Penha. Parece que, para o Direito Penal, só agora podemos clamar a propriedade de nossos próprios corpos. E todos os direitos correlatos.

Entre Eva e Maria da Penha, o caminho de tijolos dourados é longo demais. E agora tudo parece tão doce com a 11340/06, não é mesmo? Temos até juiz que vem fazer-lhe elogios públicos e carinhosos… Afinal, o mundo é masculino.

Falei demais, eu sei. São muitas Evas e Marias… Na verdade, era só para dizer: esse espaço é fundamental. Percorremos todo esse caminho, mas cada passo parece abrir mais chão.