Sobre mães e filhas

Por Rita Alencar para as Blogueiras Feministas.

Alerta: relato que aborda abuso infantil.

Foi lá na infância. Região sombria do passado da gente… Pelo menos pra mim, vem em flashes, pedaços de uma história que não me contaram , eu vi!

A vida vai correndo pro desconhecido e o passado vai ficando nos becos escuros da alma, só de tocaia! Grutas que guardam nossos “mal-feitos” como dizia sábia Vó. Foi lá, na infância da minha vida que precisei voltar.

Foi nas férias de julho, fomos todos para a casa de praia dos tios, num litoral nordestino que meus olhos nunca tinham visto. Um sol imenso me recebeu e eu sorri pra ele! Fiquei em estado de graça! Primos e primas e cachorros e tanta gente diferente… uma brisa de felicidade e alegria nos contagiava a todos. A euforia do sorteio de quem iria dormir “onde”! Fui sorteada pra dormir na sala num grande colchão que cabia fácil, 4 crianças. A mesinha de centro foi parar na cozinha, o sofá virou cama de 2 onde cada um tinha por regra da casa só deitar de pés devidamente lavados. E era tudo uma grande aventura!

Até aqui é bom lembrar… daqui pra frente eu vou me esforçando, me embrenhando por uma mata fechada e densa que é o trauma, o que resta de uma má lembrança. Ainda hoje sinto um calafrio e culpa por ter consentido aquele abuso!

Afinal, eu era uma criança de 7 anos, como poderia imaginar que existia uma coisa horrível chamada abuso infantil? Não, não se falava nisso, era tabu.

Naquela noite, jantamos todos na cozinha, na maior algazarra do mundo! Estávamos exaustos e a Vó já foi preparando as nossas camas improvisadas.

Como já disse, fui pra cama grande da sala, bem no canto direito do colchão. Eu só lembro de acordar com uma mão quente mas delicada me alisando as pernas! Quis gritar mas ele fez shiiii… Tive medo, muito medo, pensava em gritar, o grito não saia, pensei sair correndo, as pernas estavam duras e nas mãos dele. Eu estava de bruços como de habito e aquelas mãos percorreram cada parte do meu corpo, como uma massagem… Fui tomada por um torpor que pode ter sido um desmaio, eu não sei… Só sei que quando consegui me mexer eu vi sua sombra sumindo no corredor. Não gritei, não fiz escândalo, chorei quieta e dormi de cansaço!

Na manhã seguinte acordei depois de todos da cama, lembrei de tudo, fui correndo procurar minha mãe! Fomos para o banheiro, eu disse:

– Mãe eu quero ir embora!!! Por favor, vamos voltar eu não gostei daqui….

Minha mãe me olhou bem fundo nos olhos e disse:

– Fala minha filha, o quê você viu à noite?

Com certeza, ela imaginou que com uma casa cheia de tios e tias, alguém poderia esquecer de fechar a porta e as crianças aproveitavam mesmo pra olhar tudo! Pobre mamãe… quando falei pra ela tudo que me aconteceu, achei que ela me defenderia, falaria com meu pai, com o delegado sei lá…. mas tudo que ela conseguiu dizer foi:

– Nunca mais fale isso ouviu?! Muito menos para o seu pai, quer que ele ou o tio Inácio infartem ?

– Não mãe!… mas e eu?

Os olhos dela eram de dor e resignação. Assim era e sempre foi.

O pavor da minha mãe ao ter que lidar com essa situação me assustou. Ela tremia e pedia para eu nunca mais falar sobre o ocorrido. Não duvidou de mim, mas não tomou as “minhas dores”…

Nunca soube quem foi… As vezes ainda penso nisso, mas já não me incomoda tanto. Fico pensando mesmo é como minha mãe deve ter sofrido pela sua impotência diante do fato. Sinto a dor que ela sentiu… mas quem teve que lidar com esse trauma fui eu!

Segredos entre mães e filhas, laços de dor e superação que nos unem a todas. Nunca voltamos ao assunto, ao invés disso, ela preferiu fazer da sua vida um exemplo de mulher feminista, e até bem à frente pra sua época. Trabalhava, sustentava a casa de igual pra igual com meu pai, enfim, me mostrou na prática o devemos fazer pra nos posicionarmos contra a falsa moral machista dos nossos tristes trópicos. E eu tive orgulho dela. E eu tenho muito orgulho de mim, da mulher que eu me construí.

Autora

Rita Alencar é poeta, escritora, contista sazonal e muito interessada na temática dolorosa que é o abuso infantil. Acadêmica da Academia de Letras do Brasil/AM. Pós-Graduada em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo pela PUC-Rio. Tem 2 livros publicados.

Imagem: Zero Hora/Stock Photos.

Como se prevenir de um estupro? A vulnerabilidade e as estatísticas que preferimos não encarar

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Quando se fala em estupro, a primeira imagem que vem a nossa mente é de um homem estranho abordando uma mulher adulta numa rua escura.

Mas as estatísticas mostram um cenário bem diferente. Além de dados que indicam que a maior parte desses casos de violência (70%) ocorre com pessoas próximas, como familiares ou companheiros, outro dado importante diz respeito a faixa etária: a grande maioria ocorre entre a infância e adolescência (70%). Dados detalhados a respeito desse tipo de violência podem ser encontrados nesse link: Estupro no Brasil, uma radiografia segundo dados da Saúde.

Os registros do Sinan demonstram que 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. “As consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos”, aponta a pesquisa.

Em metade das ocorrências envolvendo menores, há um histórico de estupros anteriores. Para o diretor do Ipea, “o estudo reflete uma ideologia patriarcal e machista que coloca a mulher como objeto de desejo e propriedade”. Ainda de acordo com a Nota Técnica, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, este responde por 60,5% dos casos. Em geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares. 

Algumas questões que surgem e que precisamos abordar quando falamos dessas estatísticas:

– Se depois de certa idade essa violência diminui porque carregamos ainda o mesmo medo?

– Se as violências acontecem em casa, por que não se fala em “prevenção” dentro dos relacionamentos entre conhecidos?

– E a pergunta mais dolorida: como proteger as crianças e adolescentes?

A proposta desse texto é refletir sobre a última questão.

Primeiro, acho importante refletir sobre a natureza desses abusos. É bom pontuar que ainda que meninas sejam percentualmente mais vulneráveis existe também uma porcentagem significativa de meninos que sofrem abusos. Outro ponto delicado é que uma parte expressiva desses abusos são cometidos por outras crianças e adolescentes mais velhos.

E qual seria a solução? Privar as crianças e adolescentes de contato com outras pessoas? Manter uma vigília eterna?

Além de inviáveis, essas soluções são obviamente prejudiciais à convivência e ao desenvolvimento delas. O que precisamos fazer urgentemente é começar a encarar essa realidade e a desconstruir a cultura do estupro desde a infância. Mas como tratar de um assunto tão delicado com elas? Um caminho viável é começar a trabalhar com a ideia de consentimento desde cedo. Já se fala por exemplo da necessidade de parar de forçar crianças a receberem beijos e abraços de pessoas conhecidas. Crianças precisam aprender a respeitar seus próprios limites e a identificar e denunciar intimidade forçada.

Outro ponto importante é ensiná-las a não fazer o mesmo com as outras. Se a outra criança não quiser brincar/abraçar/beijar ou ainda fazer /receber cócegas então sua vontade deve ser respeitada. Pode parecer bobo, mas quantas vezes já não presenciamos a cena de uma criança puxando a outra para um beijo e abraço e achamos bonitinho? Mais uma vez, não estou defendendo que interações e carinhos devam ser proibidos, mas que desde de criança se ensine a respeitar o espaço pessoal, as vontades próprias e os limites dos outros.

Outro ponto delicado é sobre aprender a ouvir as crianças. Muitos relatos sobre violência são desacreditados, relativizados ou até ignorados nessa fase. Isso traz um impacto avassalador no desenvolvimento delas. Muitas vezes é preciso bastante tempo para elaborar a situação, em alguns casos são necessários anos para isso. Mas algumas crianças apresentam mudanças de comportamento e tentam denunciar de alguma forma e, é a forma com que esses sinais são ou não acolhidos que podem contribuir para aumentar um sentimento de vergonha e culpa, ou até desencadear alguns transtornos psicológicos e físicos. Saiba mais sobre como identificar esses sinais no link: Como identificar sinais de abuso sexual em crianças e adolescentes.

Importante ressaltar que abusos nessa fase não necessariamente vão deixar marcas, e podem muitas vezes não se tratar de um caso isolado. Por isso a observação é importante.

Entre pré-adolescentes e adolescentes outros fatores ainda devem ser observados. É nessa fase que muitas pessoas começam a explorar a própria sexualidade e como buscar intimidade. Nesse momento não apenas a família, como amigos, religião e toda cultura pop vão influenciar as decisões e a forma de encarar essa fase.

É o momento de buscar um debate mais aberto e profundo sobre sexualidade e relacionamentos. Reforçar a importância de reconhecer e respeitar limites, que existem muito mais formas (geralmente mais saudáveis) de se relacionar do que mostram filmes, novelas ou a pornografia. E buscar desconstruir mitos, por exemplo, os relacionados a “natureza masculina” de que eles não conseguem se controlar, que a vontade dos meninos tem que prevalecer ou que só eles gostam de verdade de sexo. Também importante desconstruir a ideia de que são as mulheres que “pedem” ou que a primeira vez necessariamente vai doer.

Claro que existem diversos tabus relacionados à sexualidade, mas enquanto não defendermos e buscarmos formas mais saudáveis de relacionamentos vamos continuar indiretamente contribuindo para que essas violências aconteçam.

Resumindo: se informem, conversem, ouçam, observem as crianças e adolescentes. Mesmo que não se possa evitar que determinadas violências ocorram ainda é possível diminuir o impacto em suas vidas.

[+] O que é estupro? E por que os homens se sentem a vontade para realizá-lo?

[+] Hoje eu quero voltar sozinha: a necessidade de desconstruir mitos sobre a violência contra as mulheres.

Imagem: Museu da Educação e do Brinquedo. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Kesha tem muito mais a nos dizer que “tik tok on the clock”

Texto de Marcela Tosi para as Blogueiras Feministas. 

Uma cantora, seu produtor, uma grande gravadora e a Justiça dos EUA. Personagens de uma história que, graças a outras três: a grande mídia, fãs da cantora e feministas, foi parar nos trending topics do Twitter, em publicações que se multiplicam nas redes sociais e em algumas reportagens nas seções de Entretenimento. Uma mulher, seu abusador e a Justiça. Personagens de uma história cotidiana que passa despercebida, que se repete incansavelmente e não ganha as manchetes nem da seção Policial. Retratos, visíveis ou não, de uma sociedade em que o humano importa menos que as indústrias e em que certas pessoas valem mais que outras a depender de seu gênero, sua classe, sua cor.

Qual é o valor de uma mulher? Qual é o valor de seu corpo, sua segurança, sua carreira? E uma vez que você o determina, como ele sustenta o valor de um homem, de um negócio, de um conglomerado, de uma sociedade? Ou será que não o sustenta de maneira alguma?

Em outubro de 2014, Kesha, que conseguiu sucesso e ganhou disco de platina através do hit Tik Tok de seu álbum de estréia em 2010, denunciou seu produtor, Lukasz Gottwald (Dr. Luke), por assédio e abusos físicos e psicológicos. Hoje, a cantora está impedida de continuar trabalhando. Em 19 de fevereiro, a Suprema Corte de Nova York determinou que ela deve permanecer contratualmente vinculada a Sony e a Kemosabe, a gravadora criada e dirigida por Dr. Luke.

Ke$ha deixa a Suprema Corte do Estado de Nova York. Fonte: Raymond Hall/Getty Images
Ke$ha deixa a Suprema Corte do Estado de Nova York. Fonte: Raymond Hall/Getty Imag

A juíza Shirley Kornreich ouviu o pedido de Kesha para uma liminar que lhe permitisse gravar fora do alcance do produtor não como um pedido para sua segurança física, psicológica, sexual e econômica, mas um pedido para “dizimar um contrato que foi fortemente negociado e comum para a indústria”, como Kornreich colocou. Legalmente, aos olhos morais do tribunal, é o contrato que vem em primeiro lugar. A Sony investiu US$ 60 milhões na carreira da cantora, os advogados da gravadora lembraram a juíza – o que é uma violação física e emocional em relação a isso?

O dinheiro fala mais alto do que você ou eu jamais poderíamos em um tribunal, mesmo se fôssemos estrelas pop cujos fãs esperam lá fora por horas para nos apoiar. Interesses corporativos são mais altos do que a ética e empatia, mais altos do que a autonomia ou direitos básicos à segurança. Quando uma violação contratual e uma violação humana são colocadas frente a frente no tribunal, idealistas poderiam pensar que a segurança de um ser humano tem precedência. Entretanto, a indústria da música, como muitas indústrias, está predisposta a favorecer apenas sua própria segurança.

Trata-se de mais que uma estrela pop lutando por sua liberdade ou um investimento de US$ 60 milhões em uma carreira comercial brilhante. É muito mais do que se ela pode vestir em seus collants, se encher de glitter e fazer outro álbum, livre de um homem que ela diz que a aterroriza. É ainda mais do que a misoginia sistêmica da indústria do entretenimento ou a maneira que as mulheres na música e cinema têm sido controladas e coagidas.

A Justiça não falhou apenas com a cantora, ela falha diariamente com todas as mulheres. Falha com a mulher que tem suas denúncias de violência doméstica desconsideradas, amenizando a história como uma simples briga de casal – e em briga de marido e mulher, não se mete a colher, diz o ditado popular. Falha com a mulher que vai fazer uma denúncia de estupro e a perguntam que roupa ela estava usando. Falha ao prender a mulher que aborta. Falha ao deixar a autonomia feminina na mão do Estado. A Justiça falha porque é o reflexo de uma sociedade que odeia as mulheres. A Justiça falha no que deveria ser segundo sua concepção filosófica pura, mas para seu papel socialmente construído ela serve bem, muito bem, obrigada.

Kesha é mais uma das mulheres que segue a torturante caminhada posta pela Justiça a qualquer uma que denuncie abusos sofridos: julgamentos que se estendem indefinidamente, humilhações e ataques contra a legitimidade do seu testemunho e da experiência vivida, uma vida restrita em sua autonomia. E, olhem, é a uma mulher branca, cisgênero, rica e famosa e, portanto, com privilégios. Ainda assim, sofreu e não foi amparada pelo Estado e pelas instituições sociais. Pensem no que acontece com mulheres negras das periferias do mundo e ninguém sabe ou se importa.

Há aqui ainda algo talvez muito maior que a realidade de violência que conhecemos tão bem: a força das mulheres. O clamor público sobre o caso tem sido verdadeiramente importante. Há não muito tempo, as mulheres aos olhos do público não tinham coragem para apoiar uma a outra. Defender outras mulheres e causas feministas é hoje pauta que não pode ser ignorada (não só política, mas mercadologicamente, precisamos dizer), mas é também luta que se faz cada vez maior. E, assim, enquanto Kesha é indefinidamente silenciada, sua voz nunca foi tão alta. A voz das mulheres se faz ouvir e, juntas e atentas às nossas particularidades, faremos ainda mais.

Autora

Marcela Tosi é mulher, feminista, lésbica, formada em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), transformada pelo feminismo.