Dou para quem quiser, mas não para qualquer um

Texto de Bia Cardoso.

Na adolescência começa a pressão para transar. Ser virgem ainda é moeda de troca em nossa sociedade. Seja para mostrar-se uma pessoa pura e superior que se guarda para o casamento, seja para mostrar-se alguém super moderno e descolado, que não é mais “virjão”.

O momento de iniciar a vida sexual deveria ser uma escolha íntima e pessoal de cada indivíduo. Até porque, sexo não é só penetração entre um pênis e uma vagina. Há milhares de possibilidades em todas as formas de relacionamentos. Mas, ao invés de estimular essas descobertas, ainda martelamos na cabeça dos jovens conceitos limitadores do que é sexo e eles consomem grandes cargas de pornografia pasteurizada.

Em nossa sociedade patriarcal, geralmente, os homens iniciam a vida sexual mais cedo que as mulheres. E, é muito comum rolar uma pressão dos garotos para que a namoradinha aceite logo transar com ele, mesmo que não esteja muito segura. Sexo envolve sensações de muito prazer. Beijar na boca, dar um amasso, são ações que deixam nossos corpos muito ligados. Porém, nem todo mundo se sente seguro para ir além disso num primeiro momento e isso deve ser respeitado. Mais que isso, precisamos sempre incentivar a autoestima das jovens para que saibam dizer ‘não’ e enxergarem isso como um direito ao seu corpo e a sua autonomia.

Foi isso que lembrei quando li o email que I. A. de 16 anos enviou para o endereço de contato das Blogueiras Feministas:

Tivemos um trabalho sobre relacionamentos. Como tinha acabado de terminar um relacionamento, resolvi escrever para desabafar. Eu e meu namorado ficamos quase um ano juntos. Tá, sei… não é grande coisa, mas para garotas da minha idade é. Claro que com o machismo de cada dia, se você não transar com ele na primeira semana é tachada de “infantil” e, e se você transar é ‘vadia”. O que me indigna é que quando terminei a redação tive que ler para a turma toda. E claro, toda turma tem aqueles idiotas de plantão que vivem falando e rindo dos outros e não cuidam de si mesmos.

Comecei a ler e fiquei nervosa, não pelo fato da leitura, mas sim pelo fato de eu ser feminista e de meu namorado me odiar por isso (isso mesmo, ele terminou comigo porque sou feminista e não transei com ele). Me senti muito deprimida com isso, algumas semanas depois pensei bem e óbvio que a culpa não é minha, mas meus colegas falaram que é porque sou estranha, ou simplesmente pelo fato que eu ainda não cresci. Agora, porque não quero transar sou infantil e imatura. O corpo é meu e a indignação também. O que gostaria de passar para as garotas com isso é que não interessa o quanto vocês amem seus namorados ou ficantes, apenas respeitem a si próprias, não é porque eles estão afim que vocês também estão.

Foto de Kamakshi Sachidanandam no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Kamakshi Sachidanandam no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Sabemos que essa pressão para transar não é moleza. Envolve muitos sentimentos, mas é muito ruim quando as pessoas fazem chantagem em cima do que sentimos ou de nossas escolhas. A autoestima ajuda a nos enxergar como sujeitos, detentores de direitos, especialmente o de dizer ‘não’. É importante ensinar o que é consentimento as pessoas. Consentir é permitir que outra pessoa lhe toque, por exemplo. As mulheres sofrem muito com esse mito popular de que “um não, quer dizer sim”. Isso é reproduzido até em comerciais na televisão. Não, quer dizer: não. E ponto. Sem consentimento, não há respeito.

Portanto, vamos desejar que as pessoas sejam respeitadas em suas escolhas, especialmente os jovens. A ideia da frase “dou para quem eu quiser, mas não para qualquer um” é justamente para desejar que o sexo seja uma escolha consciente e libertária. Ser virgem ou não deveria ser irrelevante socialmente, porque o que importa é o prazer e o respeito numa relação. Façam sexo livremente, previnam-se de doenças sexualmente transmissíveis e de uma gravidez indesejada, não julguem as outras pessoas pela quantidade de sexo que fazem, seja baixa ou alta, e sejam plenos em suas experiências. Esse é meu desejo.

Eu não devia precisar de uma desculpa para ser virgem

Texto de Shae Collins. Tradução de Bia Cardoso. Publicado originalmente com o título: ‘I shouldn’t need an excuse to be a virgin‘ no site Xojane.com em 10/03/2014.

Feministas têm trabalhado incansavelmente para incentivar jovens mulheres a abraçarem sua sexualidade, 22 anos parece um pouco fim de jogo. Meus poucos amigos virgens e eu somos vistos como os esquisitos.

Shae Collins. Foto: Xojane.com
Shae Collins. Foto: Xojane.com

Há alguns meses atrás, minhas amigas estavam ao redor de uma mesa falando sobre os lugares mais bizarros em que já fizeram sexo. Quando chegou na minha vez, seus queixos caíram com minha resposta. Então, alguém soltou um suave “Awww”, — do tipo que você faz para um bebê, logo depois que ele solta um arroto. Foi a primeira vez que eu admiti para um grupo de feministas que eu era virgem — algo do qual eu tive vergonha por um tempo.

Eu não sou religiosa, não tenho medo de sexo e tenho um namorado incrível há 2 anos, que estaria na minha porta em segundos com uma caixa de preservativos se eu fizesse aquela ligação convocando-o. Além de tudo isso, de vez em quando escrevo para um site sobre sexo chamado ‘Slutist’. Mas, apesar de todos esses fatores, eu sou uma virgem de 22 anos.

Eu sei que 22 anos não significa ser muito velha. Porém, em um país em que a média de idade da perda da virgindade é aos 17 anos, onde adolescentes estão fazendo sexo em programas populares da TV (eu tenho certeza que daqui a alguns anos, até mesmo personagens do canal Disney Channel estarão fazendo sexo), e as feministas têm trabalhado incansavelmente para incentivar jovens mulheres a abraçarem sua sexualidade, 22 anos parece um pouco fim de jogo. Meus poucos amigos virgens e eu somos vistos como os esquisitos.

A maioria das pessoas não entende isso — nem mesmo minha própria mãe, que está começando a se perguntar se algo está psicologicamente errado comigo.

O que minha mãe e meus amigos não sabem é que, assim como eles, eu também não entendo porque não estou fazendo sexo.

“Sim, eu me sinto fisicamente atraída por ele”, expliquei a um dos meus melhores amigos no telefone quando precisei de algum conselho sobre o assunto. “Sim, nós damos amassos — mas não muito mais que isso. Sim, eu tenho certeza que ele é o cara com quem quero estar. Sim, um dia eu vou fazer sexo com ele, mas eu só não sei quando”.

Minha condição de feminista aumenta minha vergonha de ser virgem. No reino feminista a virgindade é freqüentemente associada com “o patriarcado”. É uma das metades do binarismo sexista que envergonha as mulheres. Virgens não ganham muito amor ou atenção em círculos feministas, onde tantas mulheres lutaram pelo direito de serem descaradamente sexuais. Feministas têm sites dedicados a preferências e fantasias sexuais, defendemos que tudo se resume ao direito da mulher de ter controle sobre seu corpo e algumas de nós tem orgulho em se denominar putas ou vadias.

Entre minhas colegas e amigas feministas sexo parece ser a norma. E, já que eu não estou fazendo, comecei a me perguntar o que diabos havia de errado comigo. Por que não sou sexualmente liberal como todo mundo? Eu tinha vergonha por ainda não ter abraçado a minha sexualidade. Então, eu tentei me apressar para estar pronta para o sexo.

Eu olhei para o meu passado para explicar a minha condição de virgem, questionando se as muito frequentes conversas sexuais com minha mãe estavam ou não na raiz do problema. Minha mãe seguiu uma linha ‘tradicional” em seu estilo de criação e usou uma tática de 2 passos ao falar sobre sexo: assuste e repita. Ela, constantemente, me questionava se eu estava fazendo sexo ou não e sempre me lembrava das consequências.

“É melhor não trazer bebês para casa”, dizia minha mãe, de uma maneira em parte jocosa, mas obviamente séria. As conversas tornaram-se mais frequentes depois que fui pega beijando um menino na 8ª série. Minha mãe ficou, evidentemente, chocada. Minha reputação de boa moça foi contaminada e eu não conseguia olhar nos olhos de minha mãe. Ela me colocou de castigo por 3 meses, mas eu carreguei a humilhação por bem mais tempo.

Então, eu, assim como muitas meninas com educações rígidas, cresci associando sexo com vergonha, gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis.

Porém, me prender ao meu “problema da virgindade” na minha infância não respondeu minhas perguntas, nem me fez querer sair e ter relações sexuais. Então, comecei a procurar maneiras de me “libertar sexualmente”. Escrevi artigos para jornais com títulos como “Onde está a minha agência sexual?” e “Meu monólogo pessoal da vagina”.

Eu considerava a assexualidade como uma possibilidade, porque eu raramente tenho o desejo físico de fazer sexo, mas não tinha certeza. Pesquisar sobre o tema gerou novos temores e perguntas: sou assexuada? Como eu poderia saber se sou assexuada sendo que nunca tentei ter relações sexuais? Se eu sou, meu namorado ou quaisquer futuros parceiros aceitariam isso?

O absurdo girou na minha cabeça e consumiu meus pensamentos durante meses, até que um dia me deu um estalo. Minha voz interior falou para mim como se eu fosse uma criança estúpida: “Shae, mande tudo pro inferno! Se você não está pronta, então você não está pronta. Por que a pressa?”. (Minha voz interior tem um jeito bem agressivo).

Por todas as horas em que eu tinha gasto escrevendo, pesquisando, lendo e pensando sobre a minha sexualidade, eu não estava disposta a aceitar uma explicação tão simples. Mas, eu finalmente percebi que estava jogando o jogo de outra pessoa. Assim como minha mãe, professores e mentores me ensinaram a não permitir que os meninos me pressionassem a fazer sexo quando eu estava na escola, eu tinha que me ensinar novamente a não permitir que as idéias de outras pessoas sobre sexualidade ditassem minha vida sexual.

Eu tenho que constantemente me lembrar que não há nada de errado comigo ou com qualquer outra pessoa que não está fazendo sexo, seja por razões espirituais, histórias traumáticas ou falta de interesse. Eu tinha que perceber que o que é sexualmente “apropriado” ou normal para uma pessoa não significa necessariamente que funciona para todas.

Resumindo: eu não estou pronta. Não há necessidade de vir com alguma desculpa esfarrapada sobre minha infância quando as pessoas perguntam por que eu ainda sou virgem. Não há necessidade de tentar me forçar a fazer algo que eu não quero. E não há necessidade de tentar ser normal.

Sou uma virgem de 22 anos de idade e eu estou bem com isso.

Autora

Shae Collins mora em Los Angeles. É escritora freelancer e ama toda a incerteza dessa vida. É criadora do blog A Womyn’s Worth, onde escreve sobre raça, gênero e cultura pop com foco nas mulheres negras. Quando não está lendo seus sites favoritos ou observado seus amigos em busca de conteúdo para seu blog, ela está ocupada aprendendo novas línguas.

Eu escolhi não julgar

Texto de Luciana Nepomuceno.

O jogador David Luiz escolheu esperar. Foi só a notícia ser publicada para pessoas diversas começarem a zombaria. Momentos como esse sempre me lembram da necessidade de separar a crítica estrutural do julgamento individual. Quando lutamos contra um padrão de beleza que incita à magreza, não devemos, no caminho, zombar ou condenar as mulheres magras, não é? Então.

Penso eu que nossa crítica e nosso olhar não deve se voltar pra quem está fazendo sexo ou não, pra quem escolheu esperar ou o contrário. Meu corpo, minhas regras serve pra todo mundo, não?

Jogador David Luiz. Foto: CEDOC/RAC - Planeta Esporte.
Jogador David Luiz. Foto: CEDOC/RAC – Planeta Esporte.

Então, eu penso cá com meus botões que a sexualidade alheia não me interessa. Não devia nos interessar quem tá fazendo sexo ou não. Quem escolheu esperar, quem escolheu trepar, quem escolheu não escolher e deixar a vida levar, vida leva eu. Não me interessa se o David Luiz tá fazendo sexo, tá se preservando, ainda é virgem, etc.

Isso não equivale a ignorar que o pensamento religioso tende a afastar o sexo do cotidiano da vida seja pela sacralização, seja pela condenação. Geralmente por ambas, já que se retroalimentam. E que isso é opressor, especialmente para as mulheres, que são educadas a verem seu corpo como fonte de pecado e tentação, que são desestimuladas a conhecerem seus corpos, que são incentivadas a se culparem e a culparem as demais mulheres no que tange ao uso prazeroso do corpo.

Isso não equivale a esquecer de que uma das formas de submeter mulheres é via controle da sua sexualidade e que estamos imersas em uma sociedade onde uma mulher fazer sexo fora de determinados preceitos (monogamicamente em um casamento hetero e sem gostar muito, hein) é motivo de retaliação social que vai de denominações consideradas ofensivas: puta, vadia, biscate até justificativa pra violência: “ele bateu porque te pegou com outro?” “Se é puta não pode escolher homem”, “magina, estupro, ela dá pra todo mundo, aposto que estava gostando”.

Isso não equivale a não discutir a perseguição das organizações religiosas aos direitos das mulheres e das demais minorias. Não equivale a não entender a pressão sobre o poder público no que se refere a pautas que nos são caras como, por exemplo, aborto.

Mas, Luciana, o pessoal não é político? É sim, na medida em que nossas escolhas não são abstratas, desligadas do mundo e construídas no vácuo, mas moldadas a partir de reflexões, vivências e contextos. Ou, como disse a Camilla de Magalhães: “Sim, o pessoal é político. Mas isso não quer dizer que devemos transformar experiências pessoais em pautas políticas sem antes pensá-las para além da realidade de quem as vive”.

Então, euzinha, gosto de sexo. Faço sexo. Falo de sexo. Vou continuar por aqui, falando, fazendo, gostando. E lutando pra que quem quiser fazer, falar, gostar, esteja livre para. E quem não, também. Sem dedos apontados. Sem julgamentos. Menos fiscais da trepada alheia, mais parceiros pra trepada minha.