Mulheres com deficiência e a dupla vulnerabilidade

Trecho do artigo ‘Mulheres com deficiência e sua dupla vulnerabilidade: contribuições para a construção da integralidade em saúde’. De Stella Maris Nicolau; Lilia Blima Schraiber e José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres. Publicado na Revista Ciência e Saúde Coletiva em 2013, vol.18, n.3, pg.863-872.

Mulheres com deficiência estão presentes em todas as faixas etárias, etnias, raças, religiões, estratos econômicos e orientação sexual. Historicamente ficaram à margem do próprio movimento de mulheres e do movimento pelos direitos civis das pessoas com deficiência.

No Brasil, segundo dados do Censo de 2000, 14,5% da população brasileira referiu ser portadora de algum tipo de deficiência, sendo que 53,58% desta população é do sexo feminino. Entre as pessoas com mais de 60 anos, 49,64% declararam ter alguma deficiência, e entre crianças até quatro anos essa cifra é de 2,26%. Isto revela que o acúmulo dos anos de vida tem estreita relação com a aquisição de deficiências, e se for considerado que a esperança de vida para as mulheres é maior do que para os homens, mesmo sob iguais condições socioeconômicas, é possível afirmar que a questão da deficiência tende a ser uma relevante problemática de saúde coletiva e de saúde da mulher ao longo de seu ciclo de vida. Trata-se de um segmento da população que conta com ações inexpressivas voltadas para as suas necessidades nos serviços de atenção primária em saúde, que embora historicamente privilegiem a clientela feminina, pouco reconhecem os aspectos relativos aos direitos sexuais e reprodutivos e à dupla vulnerabilidade que as acometem por serem mulheres e portarem deficiências. Esta condição é corroborada na literatura internacional sob a perspectiva da desvantagem: as mulheres com deficiência apresentam duas desvantagens na vida social.

Trabalharemos essa dupla desvantagem pelo conceito de vulnerabilidade. Este permite abarcar diferentes dimensões da experiência vivida relativamente às necessidades de saúde e à atenção dos serviços. Essa dupla vulnerabilidade da mulher com deficiência será discutida com base na integralidade em saúde, já que este princípio levaria as práticas a oferecerem respostas mais abrangentes às necessidades de saúde, abordando-as de modo mais holístico, ao articular a dimensão curativa à prevenção e à promoção da saúde. A integralidade designa um conjunto de valores pelos quais o movimento social em saúde lutou e pretende lutar; uma imagem-objetivo das características desejáveis do Sistema Único de Saúde.

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Todas as pessoas precisam do feminismo

Texto de Camilla Machuy para as Blogueiras Feministas.

Está sendo muito compartilhado na internet um vídeo em que uma garota americana fala que não precisa do feminismo e explica suas razões. Ao ver, percebi que é um dos vídeos mais feministas que já assisti. Todos os dados apresentados sobre violência contra homens são resultados do machismo.

Ela pode não saber, mas entre as pautas do feminismo está o direito de os homens terem o mesmo tempo de licença paternidade que as mulheres e a desobrigação ao serviço militar masculino. Sobre guarda das crianças… Já ouviu falar sobre guarda compartilhada? É uma grande conquista para as pessoas frente casos de alienação parental. Já ouviu falar sobre o novembro azul? É uma grande campanha mundial de alerta a saúde masculina. Já frequentou algum site e leu lá vários casos de homens estuprados? O dilema deles também é grande quando passam por abuso. Por que? Porque ninguém dá atenção a eles. Porque a sociedade julga que eles não foram “homem o suficiente pra lutar por sua honra” e frequentemente são motivo de escárnio. Isso sem contar a quantidade de casos que jamais serão denunciados porque as vítimas masculinas não se permitem de forma alguma tocar no assunto. Isso é o quê? Machismo!

Marcha das Vadias. São Paulo, 2013. Foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil.
Marcha das Vadias. São Paulo, 2013. Foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Um caso clássico de opressão machista acontece quando você é obrigado a se calar perante uma situação de agressão, porque você não cumpriu o papel que a sociedade espera do seu gênero. Então, especialmente em casos de violência sexual, essa lógica cruel torna a vítima de abuso culpada pela agressão que sofreu. No caso em debate, essa lógica reza que a culpa é do homem agredido, porque ele tinha que “ser homem” e, obrigatoriamente, saber se defender, não ser um fraco. Além disso, na concepção machista, o homem é um ser que não pode demonstrar sofrimento, nem dor, sob pena de ser considerado fraco. O pior pesadelo de um homem: a fraqueza. Uma fraqueza inconsistente, implacável e, de maneira realista, inevitável. Porque todo ser humano em algum momento passará por alguma situação de vulnerabilidade e, o medo de demonstrar essa fraqueza mantém esses mesmos homens silenciados e paralisados, com receio de serem julgados.

O machismo oprime homens e mulheres, mas de forma diferentes. Mesmo assim, homens e mulheres são julgados e culpabilizados em situações de vulnerabilidade. O acolhimento a vítima é sempre relativizado. É por isso que o feminismo não é o contrário do machismo. O feminismo é um movimento social e político que propõe não desprezar a dor, especialmente das mulheres, mas também dos homens. O feminismo, por meio do desejo de criar uma sociedade mais igualitária, diz que os homens tem o mesmo direito de expressar suas dores e temores. Ninguém precisa estar enquadrado num comportamento X ou Y para serem respeitado como homem. Quer um exemplo? Não precisa dar cantada numa mulher na rua para afirmar sua masculinidade para os outros ou pra si. Você não precisa provar nada a ninguém!

Além disso, o feminismo serve para afirmar que não existe essa tal “responsabilidade de homem”, esse fardo pesado que muitos insistem em carregar sem motivo, porque assim foi incutido pela sociedade. Existem responsabilidades, sim, e elas podem ser carregadas por todos os gêneros, por todas as pessoas. A responsabilidade de tornar o mundo um lugar mais igualitário para qualquer gênero e/ou expressão de sexualidade é uma delas. O feminismo está aí para aliviar os ombros dos homens da pose ridícula que o machismo obriga todos eles a ter e, é claro, empoderar as mulheres.

Ainda sobre o vídeo, a garota levanta várias pautas feministas sem nem se dar conta. Temos muita desinformação sobre o feminismo por aí, por isso me parece haver tanta confusão sobre quais seus objetivos. E, vale lembrar, que ótimo que essa garota vive numa sociedade em que as mulheres podem expressar seus pensamentos livremente, podem postar um vídeo com um alcance global sem serem penalizadas por isso. Nem sempre foi assim, Miga! O feminismo é sobre igualdade de direitos e respeito. Se não fosse assim, não existiriam no mundo vários homens feministas. Obrigada pelo vídeo.

Autora

Camilla Machuy tem 28 anos e mora no Rio de Janeiro. É jornalista, faz mestrado e estuda as redes sociais. Um de seus piores pesadelos é ver que essa importante ferramenta está sendo usada para a disseminação do discurso de ódio. Por isso, faz o que pode para tornar o mundo um lugarzinho mais agradável e consciente. Esse texto foi originalmente publicado em seu perfil do Facebook em 27/10/2015.