O carnaval de Berlim: entre festa popular e culto ao exótico

Texto de Tai Linhares para as Blogueiras Feministas.

“Vamos lá, vamos fazer bonito. Estou orgulhosa de vocês!”, todos batem palmas após as palavras de motivação da coordenadora de um dos grupos que participa pela primeira vez do Carnaval das Culturas de Berlim. Mesmo sem nenhum apoio financeiro, a associação dedicada a falantes da língua portuguesa ensaia às pressas sua coreografia na Urbahnstraße, ponto de concentração para o desfile que percorreria 3,5 km naquele domingo de pentecostes. Junto à associação lusófona, caminhariam outros 61 grupos, dentre eles, 6 escolas de samba.

O carnaval berlinense teve início em 1996 sob a organização do Werkstatt der Kulturen e com grande adesão da comunidade brasileira. Reafirmando a tradição do samba e do candomblé, o evento foi uma resistência ao desencantamento das ruas do bairro de Kreuzberg. Rápido, o carnaval tomou corpo, transformando-se em festa de rua. Em 2015, o espetáculo foi assumido pela prefeitura de Berlim, depois de desentendimentos com a organização anterior, além de forte descontentamento de 13 grupos veteranos, que exigiam da prefeitura maior apoio financeiro e de infraestrutura.

Minha aventura no carnaval este ano seria única. A última vez que havia desfilado na minha vida foi aos 8 anos em uma parada escolar de 7 de setembro. Duas décadas depois, aqui estou eu em Berlim com uma cabeça gigante de papel machê, uma tradição transversal que une Olinda ao norte de Portugal. O nosso carro de som não tocava apenas Jota Quest, rolaram uns artistas da África lusófona e até mesmo de Portugal. Fiz questão de desfilar para alargar a minha percepção sobre a sucursal berlinense do maior espetáculo da terra. Minhas conclusões compartilho com vocês agora.

Carnaval das Culturas 2014. Berlim, Alemanha.  Foto de Rainer Jensen/dpa.
Carnaval das Culturas 2014. Berlim, Alemanha. Foto de Rainer Jensen/dpa.

Uma volta ao mundo sem sair do lugar

O Carnaval das Culturas é divulgado como a representação ótima da Berlim cosmopolita, símbolo de sua tolerância e paixão por tudo o que é diferente. A vocação “multiculti” da cidade é indubitável, mas vale questionar o porquê da ausência no desfile de representantes das culturas alemã, francesa, suéca e inglesa, por exemplo. Nenhuma moça sequer vestida em dirndl, vestido tradicional da Oktoberfest, nenhuma holandesa em trajes nacionais ou escocês em kilt tocando gaita de fole. O mais perto que chegamos da Europa nesse carnaval, foi através dos bonecos “cabeçudos” de Portugal. A massa do evento foi composta por expressões estereotipadas das culturas latinoamericanas, africanas e asiáticas. A própria presença de países como Tailândia, Coréia do Sul e China, exclui absolutamente a desculpa de que a tradição do carnaval na Europa não seria tão disseminada quanto no hesmisfério sul.

A cultura apta a participar deste carnaval é claramente a cultura exótica, em sua acepção antropológica, a “cultura do outro”. A ideia por trás do evento é tão sedimentada, que a ausência da cultura européia no desfile nem mesmo é questionada. O carnaval das culturas consagra uma tradição eurocêntrica que tem início com os relatos de viagem do século XV e desemboca na ciência iluminista, em que conhecer era o primeiro passo para conquistar. A expressão do colonialismo europeu sobrevive incólume até hoje, disfarçada sob o véu do multiculturalismo. Nesse carnaval, assim como nos “shows étnicos” do início do século XX, o público se acotovela na expectativa de observar o outro em seus trajes, cenários e trejeitos. Se é possível aprender algo sobre os hábitos estrangeiros, não se tem certeza, mas a experiência de certo garante fotos sem igual (basta procurar no instagram a hashtag #kdk, com cerca de 54.000 fotos).

Virei fetiche

Generalizações à parte, quem já viveu na Europa não me deixa mentir: os europeus, ao menos os das grandes cidades, têm uma fascinação enorme por tudo o que é exótico. No pacote da tropicalidade estão inclusos terapias orientais, yoga, permanente afro e, é claro, o samba! No caso da Alemanha, esse fascínio é complementado pela baixa autoestima da geração do pós-guerra que, definitivamente, não se identifica com as tradições de seu país. O fantasma do nazismo torna toda forma de demonstração pública de orgulho da pátria ambígua, lógica que apenas é revertida em tempos de Copa do Mundo. Com esse histórico, não é de se surpreender a quantidade de alemães nas escolas de samba do Carnaval das Culturas. O imaginário do Brasil por aqui é o de povo amistoso, sensual e alto-astral. Com essa reputação, até eu gostaria de ser brasileira (mas, espera aí…).

Como brasileira, espera-se que você saiba dançar samba, como brasileiro, que seja artilheiro até no totó. Se for negro, a ginga e o batuque já vêm geneticamente programados. Já a mulher negra precisa se habituar com as cantadas dos bêbados (boa parte dos alemães são incapazes de demonstrar interesse por alguém sem antes ter bebido uma cervejinha) e com homens e mulheres brancos metendo a mão, mesmerizados, no seu cabelo crespo. Isso serve para alertar que tanto a violência da extrema direita, quanto o fascínio pelas maneiras pitorescas do bom selvagem, são duas faces de uma mesma moeda, embora o europeu médio não veja nenhuma maldade em sua atitude.

Vou citar um exemplo apenas para ilustrar a que ponto esse pensamento irrefletido pode chegar. Assim que cheguei na Alemanha, conheci uma jovem mulher camaronesa que começou a namorar um senhor alemão completamente fascinado pela África. Como refugiada, seu desejo era ter com ele um filho, para que sua situação na Alemanha fosse legalizada. Segundo ela, o homem era ninfomaníaco e, embora morasse sozinho, não permitia que ela dormisse em sua casa. Após um ano de um relacionamento doentio, ela conseguiu engravidar. O pai decorou o quarto, ao seu próprio gosto, com paisagens de savana, colcha de oncinha e elefantes de pelúcia.

O sol dos trópicos nasce para todos

Prevenindo mal entendidos, estou longe da ideia de que toda forma de interesse pela cultura do outro é racista. Acredito sim que uma relação de respeito entre as culturas pode ser constituída. Todos os que procuram se aproximar de forma autoreflexiva da realidade do outro, entendendo os limites da sua própria cultura e buscando o que as outras culturas podem lhe oferecer de novo, estão integrados em uma forma de experiência bastante distante daquela preconizada pelo carnaval das culturas. Como em toda boa caipirinha, o segredo aqui é a proporção.

Do ponto de vista imigrante, no qual me incluo, penso que não é por estar em um país “estrangeiro” que precisemos nos apegar a estereótipos nacionais. É bastante comum que a distância romantize as lembranças, tornando o maior crítico do Brasil no Brasil, consultor de brazilidade na Europa. Sejamos sensatos e deixemos o samba a quem é de samba. Existe uma demanda no exterior pela tropicalidade, cabe a nós mostrar que somos muito mais do que isso: diferentes origens sociais, gostos, sotaques, identidades de gênero e orientações políticas. No Brasil há favelado metaleiro, índio cineasta e mulher que sustenta a família sem precisar de homem. Enquanto nos contentarmos em abastecer a demanda por simplismos, nosso protagonismo estará limitado a um lugar de destaque no carro alegórico.

Autora

Tai Linhares é jornalista e mestre em comunicação formada pela UFRJ. Repórter multimídia, soma experiência em rádio, impresso, fotografia e cinema. É diretora do documentário “Tear”, que conta a história de trabalhadores da Baixada Fluminense perseguidos durante a ditadura militar. Atualmente estuda cinema documentário em Berlim, cidade na qual vive há dois anos.

Acolher ou não a miséria do mundo? A resposta de uma africana.

Transcrição e tradução da fala de Fatou Diome, escritora senegalesa, no programa francês “Ce soir (ou jamais!)” em 24/04/2015, num debate sobre imigração e racismo em que a pergunta a ser respondida era: Acolher ou não a miséria do mundo? Transcrição e tradução de Liliane Gusmão para as Blogueiras Feministas.

Fatou Diome, respondeu a questões levantadas pelo escritor holandês Thierry Baudet, que como os outros convidados, manteve-se bastante impressionado com essa intervenção. Ela é a autora do romance “O Ventre do Atlântico”, que possui inspiração autobiográfica e fala sobre as esperanças, desafios e riscos da imigração.

O programa completo com a participação de Fatou Diome pode ser visto em francês no canal do youtube do programa “Ce soir (ou jamais!).

Neste momento, estamos numa situação. Isso que você diz reforça o extremismo, quando você diz que a imigração causa um problema. Também temos que ver as vantagens da imigração, porque quando eu trabalho na França, eu pago meus impostos aqui. Então, dos estrangeiros que estão aqui, pode haver uma parte que pode trabalhar e enviar ajuda a seus países de origem. Mas, a maioria paga seus impostos aqui. Os imigrantes se instalam no seu país, enriquecem o seu país, são cidadãos produtivos.

Depois é preciso ver que tem uma minoria, há mortos, sem dúvida. Mas eu queria sublinhar uma coisa, o seu discurso só é legítimo por causa do silêncio da África. E eu gostaria de expressar minha indignação frente ao silêncio da União Africana. As pessoas que morrem nas praias — e aqui eu meço minhas palavras: Se fossem brancos? A terra inteira estaria tremendo. Mas são negros e árabes que morrem, e eles valem menos.

Eu vim aqui em 2008, e disse que a União Européia com sua frota de guerra, com sua economia, se houvesse uma ameaça desses países teria como se defender. Então, se houvesse vontade de salvar as pessoas que morrem nas travessias do Atlântico e do Mediterrâneo isso já teria sido feito. Porque da mesma maneira que investimos na Frontex (1) poderíamos utilizar esses recursos para salvar as pessoas. Mas, espera-se que as pessoas morram primeiro, é preciso fazer com que saibam que vão deixá-los morrer, porque é uma maneira de tentar dissuadí-los. Mas, eu vou lhes dizer que isso não demove ninguém.

Uma pessoa que parte numa viagem e percebe que essa viagem lhe oferece um risco ou perda, essa pessoa pode achar o perigo absurdo e assim tentar evitá-lo. Mas quem parte pela sua própria sobrevivência, que considera que a vida que tem a perder não vale nada, essa pessoa tem uma força extraordinária, pois ela não teme a morte. E é exatamente por isso que devemos fechar completamente as fronteiras, exatamente por isso que seu discurso reproduz a ideia de que… é preciso salvar a África e a Europa.

Senhores, vocês não vão ficar isolados como peixinhos dourados na fortaleza européia. A crise atual nos mostrou isso. Nos dias de hoje a Europa não será mais poupada, enquanto existir conflitos em outras partes do mundo. A Europa não será opulenta, enquanto existir miséria em outras partes do mundo. Vivemos numa sociedade globalizada em que indianos ganham sua vida em Dakar, enquanto uma pessoa de Dakar ganha sua vida em Nova York e um gabonense ganha sua vida em Paris, quer o senhor goste ou não, é irreversível. Então, ou encontramos uma solução coletiva ou as pessoas terão que se mudar da Europa, pois eu tenho a intenção de ficar.

Quando alguém parte da África essa pessoa é escolhida, eleita para partir talvez por ser a mais desenrolada. Existe um clã ou uma família que deposita nela toda sua esperança. Eu vejo o senhor bem vestido e bem alimentado. Talvez, se o senhor estivesse passando fome com toda sua família, lhe imaginassem como o eleito para ser enviado para ganhar a vida e ajudar sua família a se manter. Então, é também um ato de solidariedade que está por trás quando deixamos alguém partir.

Schengen (2) me permite vir dar palestras em seu país, pois quando percebem que meu cérebro lhes convêm, vocês o utilizam. Mas, por outro lado, lhes incomoda a ideia de deixar esse meu irmão, menos escolarizado que eu, imigrar para trabalhar na construção. Então, seu país fica esquizofrênico, tentando separar os bons estrangeiros dos maus estrangeiros. Agora nós vemos os africanos que vem. Esses movimentos populacionais nós vemos. Mas nós não vemos o movimento contrário, o movimento dos europeus em direção aos outros países. Esse movimento é dos fortes, esses que têm dinheiro, esses que têm o passaporte bom.

Vocês vão para o Senegal, vocês vão para o Mali, vocês vão a qualquer lugar do mundo, ao Canadá, aos Estados Unidos. Por onde eu viajo, e eu viajo muito, eu cruzo com franceses, alemães, holandeses. Eu os encontro por toda parte desse planeta, porque vocês tem o passaporte bom. Então, é assim com o exotismo, a Europa arrogou-se do principio único e unilateral do exotismo. Os outros são exóticos, mesmo que na minha cidade natal não exista nada mais exótico que um holandês. Então, atualmente com as viagens modernas e a globalização, quando as populações pobres vem em direção à Europa: “Cuidado, existe o movimento de uma multidão! Temos que impedí-los”. Enquanto vocês, com seus passaportes e toda pretensão que isso lhes garante, desembarcam nos países do terceiro mundo, e ai vocês estão em uma terra a ser conquistada.

Então, nós só vemos os pobres que imigram, mas não vemos os ricos que vem investir nos nossos países. A África se desenvolve a taxas de 5% a 10%, não é mais uma progressão, é um superaquecimento econômico. Só que quando um país do terceiro mundo se desenvolve e não tem meios de gerenciar toda essa riqueza, é preciso uma engenharia, é preciso uma formação. É preciso uma população para instalar uma democracia para gerenciar esse superaquecimento. Vocês necessitam que nós continuemos dominados para dar vazão a indústria européia. Agora é preciso acabar com a hipocrisia. Nós seremos ricos juntos ou nos afogaremos todos juntos.

Eu acho que a África e a Europa estão como crianças se vendo num espelho deformado. Acho que já é hora da Europa começar a nos respeitar e parar de nos enviar o seu lixo industrial e que construa conosco verdadeiras indústrias, que a Europa participe desse desenvolvimento. E que a África depois de 60 anos da independencia pare de dizer que a culpa é dos outros. No fim, independência é responsabilidade. Se somos realmente independentes na África temos de nos responsabilizar por nossos destinos e isso não se fará sem os europeus, a Europa não existe sem a África. Os dois são ligados e o destino de um atravessa o do outro. Então, eu acho que deveria haver um acordo, eu sonho com um acordo de fraternidade. Sim, eu sei que isso é uma utopia, mas eu preciso continuar acreditando nessa utopia para ter coragem de continuar escrevendo todas as noites.

Porque escrevi “O Ventre do Atlântico” há quase doze anos atrás e quando eu falava de dezenas de mortos no Atlântico me disseram que eu exagerava. Agora se contam aos milhares e eu fico profundamente entristecida que enquanto autora eu respondo às pessoas usando as palavras de Schiller: “A dignidade do homem está em vossas mãos: zelem por ela!” .

Notas da Tradução

(1) Frontex: A Frontex, oficialmente Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas dos Estados-Membros da União Europeia, é um organismo da União Europeia que visa prestar assistência aos países da UE na correta aplicação das normas comunitárias de controles nas fronteiras externas e de reenvio de imigrantes ilegais para os seus países de origem.

(2) Schengen: O Acordo de Schengen é uma convenção entre países europeus sobre uma política de abertura das fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países signatários. Um total de 30 países, incluindo todos os integrantes da União Europeia (exceto Irlanda e Reino Unido) e três países que não são membros da UE (Islândia, Noruega e Suíça), assinaram o acordo de Schengen. Liechenstein, Bulgária, Roménia e Chipre estão em fase implementação do acordo.

Domésticas das Filipinas: o Brasil que perpetua a senzala.

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas. 

“A língua é o de menos: passaram mais de dez babás por aqui e nenhuma dava certo, porque ficavam de má vontade”, conta Kely. “A Liza está sempre bem humorada e eu preciso até pedir para ela parar de trabalhar; o povo filipino gosta de servir”. 

“[Ela] Era incrível, fazia compras, limpava, cozinhava e dirigia. Ela até lavava o carro!”, conta. “No Brasil, babá é só babá, cozinheira só cozinha e empregada só limpa”.

Esses são dois parágrafos da matéria: Empresa ‘importa’ babás e domésticas das Filipinas para o Brasil (.pdf), publicada na Folha de São Paulo em 10/05/2015. Segundo a reportagem, com dificuldade para encontrar empregadas que aceitem dormir no serviço, famílias de classe média alta estão trazendo domésticas das Filipinas.

No Brasil, a empresa Home Staff oferece o serviço da agência Global Talent, que já trouxe 70 trabalhadoras domésticas filipinas para o Brasil. As filipinas entram no Brasil com visto de trabalho válido por dois anos, renováveis por mais dois, e ganham de R$ 1.800 a R$ 2.000 por mês. O contratante paga R$ 6.000 para a agência e a passagem da empregada. Jarid Arraes já havia publicado no fim de abril o texto: Home Staff anuncia empregadas Filipinas e causa indignação; em que fala sobre os anúncios de mulheres filipinas da empresa Home Staff e questionou: o que será que há de tão diferente nas mulheres filipinas?

De acordo com quem as oferece: “As babás filipinas são tipo os médicos cubanos, mas sem pagar pedágio para o Fidel”. A matéria também afirma que o país tem tradição de exportação de mão de obra para trabalhos domésticos. Como se a exploração de trabalhadores de países periféricos pelo mundo não fosse um dos principais problemas mundiais. Relatório de 2014 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que o trabalho forçado gera lucros anuais de US$ 150 bilhões, sendo que as mulheres são as principais vítimas, exploradas sexualmente e no trabalho doméstico. Somente na Ásia, 12 milhões de pessoas são forçadas ao trabalho forçado.

Relações profissionais escravagistas

Essa reportagem da Folha de São Paulo faz duas coisas principais:

Primeiro, mostra que a perpetuação da senzala, em que é preciso haver uma pessoa disponível 24 horas por dias para servir a família branca e rica, encontra na importação de imigrantes as soluções para os recentes avanços na legislação trabalhista brasileira das trabalhadoras domésticas. Em 2011, já surgiam notícias de famílias paulistanas contratando babás paraguaias.

Podemos até acreditar que a maior parte dessas mulheres não será submetida a condições degradantes. Porém, é absurdo que a elite brasileira ainda não tenha aceitado que uma empregada doméstica tenha vida própria e precise levar o filho no médico, ou que queira sair durante a semana para se divertir. É conivente encontrar essas mulheres desesperadas, que trabalhando nos bairros ricos brasileiros ganham mais que em Cingapura e, olha só, o patrão deixa comer bem e folgar. Não há uma defesa sobre remuneração por horas extras, não é mesmo?

Segundo, a matéria tem um caráter quase de propaganda social, porque reforça a ideia de que essas mulheres estão tendo uma vida muito melhor aqui no Brasil, já que ganham mais e podem enviar dinheiro para suas famílias. Amy Villariez, filipina, conta que com o salário no Brasil sustenta a filha de nove anos e a mãe na terra natal. Para no fim, a patroa Thalita Assis dizer: “É uma vantagem minhas filhas crescerem falando inglês e acho que estou ajudando a Amy a melhorar a vida dela também”.

Assim como em tantas relações trabalhistas que envolvem o serviço doméstico no Brasil, vemos se repetir o discurso de que “as pessoas estão ajudando”, quando na verdade deveriam ter responsabilidade social pelos trabalhadores.

A classe média brasileira insiste em manter uma relação não profissional com pessoas que fazem serviços de babá, cozinheira e trabalhadoras domésticas. Podemos perceber, na frase em que diz que no Brasil “babá é só babá” uma diminuição do trabalho, como se ser babá, trabalhadora doméstica ou cozinheira fosse uma tarefa simples e fácil, que qualquer um pudesse fazer, ou ainda que não fosse digna de direitos trabalhistas e uma remuneração adequada. Pode-se perceber no texto que muitas das mulheres que contratam esse serviço esperam quase um sentimento de gratidão das mulheres que fazem esse serviço, talvez por acharem que seja uma profissão “menor” e que deveriam agradecer por estarem sendo pagas.

Qual a necessidade de uma família brasileira rica ter uma empregada doméstica que durma no emprego e faça todo o serviço da casa? Apenas perpetuar os privilégios existentes desde o início do Brasil colônia. Ao dizer que as empregadas domésticas brasileiras “ficavam de má vontade”, a patroa entrevistada elogia automaticamente a domesticidade da empregada filipina.

Também é interessante notar como essas relações trabalhistas domésticas ainda se dão somente entre mulheres, entre patroas e empregadas, os homens, que também são patrões, nem tem seus nomes citados. Você imagina o CEO da Shell chegando para um de seus executivos brasileiros e dizendo: “não deu certo com o cara que estava nesse posto anteriormente porque ele tinha má vontade”?

A empregada doméstica filipina Amy Villariez, 33 anos, com a patroa Thalita Assis, advogada, 35 anos. Foto de Adriano Vizoni/Folhapress.
A empregada doméstica filipina Amy Villariez, 33 anos, com a patroa Thalita Assis, advogada, 35 anos, que vive com o marido, executivo da Shell, as filhas gêmeas de um ano e Amy na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. Foto de Adriano Vizoni/Folhapress.

A mídia insipiente

O texto ignora os problemas globais da exploração de trabalhadores e também o contexto social do trabalho doméstico no Brasil, que por ter a escravidão de negras e indígenas como base sempre negou direitos amplos a essa categoria.

As mulheres filipinas tem sido vítimas de exploração de mão-de-obra pelo mundo. As Filipinas, um país de quase 100 milhões de habitantes, tem um quarto da força de trabalho atuando no exterior, prática incentivada pelo governo local. Isso representa um fator importante para a economia do país, pois assim como no Brasil, o emprego doméstico não pode simplesmente ser proibido, já que muitas mulheres dependem dele. Porém, é desonesto pintar um retrato em que uma mulher é obrigada a se afastar de sua família para trabalhar em um país distante, como se isso fosse uma grande dádiva. O emprego em condições precárias não pode ser corroborado como a grande chance de uma pessoa.

Em matéria de 2010, o jornal The New York Times denunciou que centenas de mulheres asiáticas, empregadas domésticas imigrantes, fugiram de abusos e estavam vivendo em abrigos improvisados em embaixadas. Na Embaixada das Filipinas, mais de 200 mulheres estavam abrigadas em um quarto sufocante, onde dormiam sobre sua bagagem.

Na mesma data, a Folha de São Paulo também publicou a matéria: Filipinas são o maior país exportador de mão de obra no mundo (.pdf): “As Filipinas são o maior exportador de mão de obra do mundo. Na maioria, trabalham como babás, empregadas, enfermeiras e garçons. Em 2012, uma doméstica filipina na Jordânia pulou do terceiro andar para escapar de seu empregador, que batia nela com arame farpado e não lhe dava folgas. Mas o país não pode abrir mão dessa exportação de mão de obra, uma vez que as remessas dos emigrantes chegaram a US$ 21 bilhões em 2012 (quase 10% do PIB do país)”.

Dormir e morar no local de trabalho não pode ser vendido como um super benefício para a trabalhadora imigrante, isso representa perda de autonomia, liberdade, privacidade, entre outras questões que violam direitos humanos.

Nos últimos anos, o Brasil tornou-se destino de imigrantes haitianos, latinoamericanos e agora asiáticos. As denuncias de trabalho escravo, que já não eram poucas nas áreas rurais brasileiras, apontam crescimento na industria têxtil e de serviços. No fim, a reportagem ainda afirma que a Global Talent pretende importar trabalhadores filipinos com foco nos serviços hoteleiros das Olimpíadas do Rio de Janeiro, como se essa fosse uma grande oportunidade para todos ganharmos.

Como disse a jornalista Maíra Kubik: “classe social, etnia e gênero atuam imbricados para manter as hierarquias, mas ao invés de um jornalismo crítico que pense sobre isso, temos que aguentar as aspas da nossa elite escravagista”.

+Sobre o assunto:

[+] Senado aprova regulamentação da PEC das Domésticas que mais privilegia patrões. Por Najla Passos na Carta Maior.

[+] As novas cores da escravidão. Por Mariana Assis nas Blogueiras Negras.

[+] Precisa-se de meninas para trabalho infantil e escravo. Por Negro Belchior na Carta Capital.

[+] O Brasil vai desistir de combater o trabalho escravo? Por Leonardo Sakamoto no Repórter Brasil.

[+] Da responsabilidade moral à responsabilização jurídica? As condições de escravidão moderna na cadeia global de suprimentos da indústria do vestuário e a necessidade de fortalecer os marcos regulatórios: o caso da Inditex-Zara no Brasil (.pdf).