Por que Zezé é cabeluda?

Texto de Ju Guadagnucci.

Levanto os braços no metrô e percebo que os olhares se voltam para mim. “Coisa mais estranha mulher com pelo de homem!”, é o que meu avô costuma me dizer e parece ser o que estes olhares parecem me dizer também. Na rua, eu escuto as pessoas comentando “você viu a axila da aquela menina que coisa mais nojenta?!”.

Julia Guadagnucci com um bambolê na praia. Foto de Mateus Lima.
Julia Guadagnucci com um bambolê na praia. Foto de Mateus Lima.

Eu ignoro essas tentativas de me colocarem “no meu devido lugar de mulher” e deixo meus pelos. Porque meus pelos não são somente cabelos que crescem nas minhas axilas, na minha buceta, na minha cabeça e nas minhas pernas. Eles são a manifestação física da minha militância feminista anti-capitalista que busca que nós, mulheres, tenhamos liberdade de escolha sobre nossos corpos e não sejamos obrigadas a seguir a “ditadura da beleza”.

Essa atitude “estranha” de não me ferir, arrancando meus pelos, e não me importar com eles é incômoda para grande parte da sociedade que tenta tirar de nós a autonomia sobre nossos corpos e nos induz a sucumbir ao patriarcado. Ele, por sua vez, insiste em nos ditar regras que sustentam sua gigantesca indústria da beleza e assim nos tornamos o combustível da economia do opressor, beneficiando e mantendo o controle da sociedade nas mãos dozomi (homem cis, branco, hétero, burguês, sem deficiências).

Pois bem, é através do meu corpo que eu nego sustentar essa indústria, nego ser uma uma “moeda” desse sistema que nos escraviza através de suas capas de revistas e comercias de TV e que, cada vez mais, nos pressiona a alcançar o “belo” inatingível. Nego um padrão de beleza que prejudica a todas as mulheres.

Esse padrão não só dita nossa aparência, mas molda nosso comportamento, nos inferioriza, nos machuca, nos traz milhares de complexos psicológicos e nos coloca como competidoras umas das outras, como se tivéssemos que disputar um príncipe encantado: é esse padrão que eu nego!

Apesar de sermos forçadas a querer esse ideal de beleza que nos é imposto, nossas tentativas de alcançá-lo serão sempre fracassadas, pois, tristemente, o que o patriarcado deseja são bibelôs. Nossa sociedade machista quer bonecas infláveis que não cheiram, não têm pelos, não possuem direitos, desejos e que não gozam. Querem mulheres passivas, castas e domesticadas.

Mas nós não somos bonecas! Temos corpos que são de diferentes formas. A maioria das mulheres tem celulite, tem pelos em todas as partes do corpo, produzem corrimentos diariamente e sangram todo mês. Todas temos espinhas, poros, odores, dobras, desejos e tantos outros “defeitos”.

Portanto, nosso empoderamento é necessário! Quando estamos empoderadas, nos aceitamos melhor, nos tornamos mais donas de nós mesmas e encorajamos outras mulheres a buscarem suas liberdades e quebrar os ditames do patriarcado. E com meu corpo, meu instrumento de política, tento mostrar um pouco da liberdade que tenho conquistado. Minhas axilas peludas são um grito ao meu e ao seu poder de escolha. Empoderemo-nos!

Autora

Ju Guadagnucci é feminista, bissexual e peluda. Autora do blog Cabeleira da Zezé.