Alexandra Kolontai: amor e revolução

Texto de Tica Moreno.

A primeira mulher a ser ministra de Estado, no mundo, foi responsável pela legalização do aborto, por tornar o divórcio fácil e acessível a todas as mulheres, por iniciar políticas de socialização do trabalho doméstico (como creches). Ela foi, ao lado de milhões de homens e mulheres, responsável pela revolução russa. Essas foram algumas das medidas que ela implementou no primeiro governo soviético, em 1917.

Alexandra Kolontai. Fonte: Wikimedia Commons.

O nome de Alexandra Kolontai circulou na nossa lista há umas semanas. E fiquei a fim de reler “A Nova Mulher e a Moral Sexual“, um livro dela que para mim, foi daqueles que você não termina de ler sendo a mesma pessoa.

Ela foi uma socialista que queria mudar o mundo e mudar a vida das mulheres em um só movimento. Nesse livro, ela discute o amor e o sexo a partir do marxismo e do feminismo. Portanto, ela trata o amor como uma construção social, e fala sobre alguma formas que este tomou ao longo da história. E ela não reduz o amor àquela forma em que necessariamente as relações sexuais estão envolvidas. Fala de amor-amizade, amor-romântico, etc.

Questiona o amor baseado na propriedade (quando um vira o dono do outro, sabe?), do mesmo jeito que questiona a propriedade privada no capitalismo. Identifica a falta de autonomia econômica das mulheres como um fator que leva a maioria a ficar em relações que não tem nada a ver com o amor.

Sem usar a palavra machismo, porque acho que esse conceito ainda nem existia como hoje, ela vai mostrando como o amor numa sociedade burguesa é parte da ideologia que sustenta e defende os interesses da classe dominante; que não está só no plano das idéias mas que serve materialmente para a manutenção do sistema, através do que é o modelo de família (em que geralmente cabe às mulheres uma enorme quantidade de trabalho gratuito para a reprodução da vida que diminui os custos de sobrevivencia dos trabalhadores).

Ela também mostra como que essa ideologia do amor burguês se organiza em uma sociedade em que existe desigualdade entre homens e mulheres, que aparece também nas relações em forma de dominação e submissão. Fala que a educação não ajuda que as mulheres sejam livres nas suas relações. Fala um monte de coisa que as feministas ainda falam hoje em dia, ainda que tenham havido algumas mudanças nesses 90 anos…

Mas tem uma característica que é difícil a gente ver hoje, de um jeito organizado, em opiniões e debates feministas ou de esquerda sobre o amor: pensar o amor como elemento de uma mudança estrutural da sociedade.

Na segunda parte do livro ela fala sobre o amor e o sexo na sociedade comunista. Daí ela mostra uma visão ampliada do amor, não só baseada em relações sexuais, nem na monogamia mas, baseada na solidariedade, camaradagem, igualdade e liberdade. Não tava tudo pronto naquela época e o curso da história mostrou as contradições e limites do socialismo real. Mas o que ela escreveu faz sentido até hoje e ajuda a gente a pensar na necessidade de se falar sobre o amor, de uma perspectiva política e verdadeiramente emancipatória. Sem contar a ousadia de escrever sobre este assunto, de uma perspectiva crítica à opressão das mulheres, bem no momento em que estavam sendo construídas as condições materiais para a tal mudança do mundo que a gente ainda luta por.

Quem tá lendo esse post pode nem ser de esquerda, mas pensa só como seria um mundo sem dominação, nem desigualdade economica, nem machismo, nem homofobia. Como seria o amor??

Autor: Tica Moreno

Militante, feminista, curiosa e um pouco confusa. gosto de chocolate e de cerveja. eu uso software livre, e você?

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